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Homenagem ao mestre dos filmes de terror: Mojica, o Zé do Caixão!
Texto: Alexandre Agabiti Fernandez
Mojica posa diante da Torre Eiffel, por acasião de sua visita a Paris, circa 1990.

 

Vi o Mojica pela primeira vez muito provavelmente em 1971. Era uma ensolarada manhã de sábado e eu estava no Dodge Dart do meu tio Eraldo com meu primo Luiz Carlos. O tio estacionou em uma rua do Brás e disse que iria entregar algo na oficina de um amigo, coisa de 5 minutos. Ficamos os dois no carro. Eu tinha uns 7 ou 8 anos; meu primo, 8 ou 9.

Não demorou muito aparece andando na calçada uma figura estranha, usando roupas pretas. O Luiz arregalou os olhos e berrou: “É o Zé do Caixão!!” Não sabia de quem se tratava. O esquisitão parou bem ao lado do carro e tocou a campainha de uma casa. Tinha unhas enormes e notei que apertou o botão com extremo cuidado para não machucar as garras… O tio Eraldo voltou, contamos tudo e ele nos disse que o Zé do Caixão fazia filmes de terror e tinha (ou tivera) um programa na TV. Ao ouvir a expressão “filmes de terror” fiquei ainda mais apavorado. Eu era retraído, tinha medo de escuro…

Inventou truques que já existiam, mas ele não sabia…

Anos depois, quando estava na faculdade, finalmente pude assistir a alguns filmes dele. Fiquei fascinado com a inventividade, com a liberdade de tom, com a mistura de referências, com a coragem. Atrevido como um franco-atirador. O único cineasta brasileiro autóctone, como alguém disse. Fazia cinema com uma brutal sinceridade. Nunca vi tanta espontaneidade. Inventou truques que já existiam, mas ele não sabia. Inventou um personagem carismático e fascinante, que dialoga com a cultura popular, com personagens seminais do gênero, com a chamada alta cultura. Tudo sem a menor cerimônia ou hierarquia. Coisa para poucos.

Muitos anos mais tarde, no começo da década de 90, estava morando em Paris e decidi fazer um doutorado sobre o cinema do Mojica. Ele tinha sido boicotado por boa parte da crítica e dos cineastas. A academia, é claro, o ignorava. Queria fazer um doutorado sobre um cineasta desprezado pela academia e não seria sobre o Cacá Diegues (creio que na época não havia nenhuma tese sobre ele). Tinha de ser alguém de que eu gostasse muito: só poderia ser sobre o Mojica.

Fiz um projeto de pesquisa, apresentei para um dos maiores especialistas franceses desse gênero, que eles chamam de “cinema fantástico”, o saudoso Jean-Louis Leutrat –erudito e desprovido de afetações intelectuais, coisa raríssima–, que estava com um livro sobre o gênero no prelo.

O Leutrat me disse que não conhecia o Mojica, mas topou ver dois filmes que emprestei a ele –umas cópias horrorosas em VHS legendadas em inglês que consegui com outro “mojicófilo”, o André Barcinski– e ler as 15 páginas do meu projeto de pesquisa.

Uma semana depois revi o Leutrat, que me recebeu com um sorriso sibilino e foi logo dizendo que topava me orientar. Quase caí para trás! Quando saiu o livro (“Vie des fantômes”), constatei que o Leutrat tinha citado o Mojica no prefácio. Não dava tempo de mais nada, o livro estava indo pra gráfica quando ele soube da existência do Mojica…

Consegui apoio do Cnpq (em 1994 ainda existiam bolsas de doutorado no exterior…) e comecei a pesquisa. Barcisnki me mandou mais fitas de VHS e mergulhei nas obras “de terror” do Mestre.

Vim ao Brasil e fui à casa do Mojica consultar seus famosos (e empoeirados) arquivos. Era a segunda vez que o via e fiz questão de falar daquela distante manhã de sábado. Ele me disse que na época tinha um estúdio em uma sinagoga abandonada no Brás e que naquele dia estaria certamente pelas redondezas.

Saí da casa dele com o nariz escorrendo e com quilos de fotocópias de matérias de jornal e outros documentos. Nos vimos muitas outras vezes. Ele sempre muito simpático e falante.

Quando a tese estava na reta final, ou quase, o Mojica aparece em Paris como convidado do Étrange Festival, cujo nome já diz tudo. Fui recebê-lo no aeroporto e o Mestre foi logo cobrando: “Alex, quando fica pronta essa tese?”.

Foi homenageado pelo festival e eu –que já tinha legendado em francês todos os filmes mojicais que seriam projetados– acabei subindo ao palco com ele para fazer tradução consecutiva das pragas que rogou e das perguntas feitas pela plateia (não sei o que era mais delirante, as pragas ou as perguntas daqueles malucos). A foto abaixo me esganando foi feita naquela noite, antes da performance no palco.

Mojjica brinca com o autor

De madrugada, depois do jantar em um restaurante perto do hotel, ele me pediu para solicitar ao garçom que colocasse em uma prosaica “quentinha” as batatas fritas que sobraram do steak tartare que devorou. Tentei explicar que não existiam “quentinhas” na França, mas ele insistiu e saiu carregando as batatas fritas já muxibentas embrulhadas em papel toalha.

Quando voltei ao Brasil, fui à casa dele entregar, emocionado, um exemplar da tese. Não pude deixar de escrever esta dedicatória, que não brilha pela originalidade, mas reflete o que sentia e sinto por ele: “Ao Mestre, com carinho”.

Acabo de saber que o Mestre se foi. Perdemos um grande criador. E eu perdi um amigo que me acompanhou –com seus filmes irreverentes– em uma parte do inesquecível período que vivi em Paris. Ao Mestre, todo o meu carinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

Alexandre Agabiti Fernandez é jornalista cultural desde 1988, passou pelas redações da Folha de S.Paulo, do Valor Econômico e da revista Cult, entre outras publicações. É graduado em Economia pela FEA-USP (1984), mestre em Cinema pela ECA-USP (1991) e doutor em Cinema pela Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle (2000). imprensaalexandre@gmail.com
Laine Furtado

Laine Furtado

Os desafios de morar nos Estados Unidos

Somos imigrantes brasileiros, queremos conquistar o nosso sonho americano e temos uma história marcada pela perseverança e capacidade de se reinventar

Morar nos Estados Unidos é uma decisão que reflete em mudança de paradgimas. Quando você escolhe viver num país que não é o seu, com certeza, você está tomando uma decisão que vai mudar a sua vida, e de sua família, radicalmente. Você jamais será a mesma pessoa porque a nossa vida é um somatório de experiências. Podemos ver isso quando retornamos ao nosso país, para férias ou quando regressamos depois de um período de tempo, e tudo mudou. Na verdade, nós mudamos. Você já passou por esta experiência?

Acredito que o maior desafio que o brasileiro enfrenta quando escolhe trocar o Brasil para viver nos Estados Unidos é conseguir mudar sua mente. O brasileiro pensa diferente do americano na forma de fazer negócios, por exemplo. Aqui não tem o famoso “jeitinho brasileiro” e para quem pensa em abrir um negócio nos EUA, o retorno é muito mais lento. Precisamos realmente de uma pesquisa de mercado, de cash flow e de fazer negócios no padrão americano de preço, qualidade do produto (ou serviço) e atendimento ao cliente.

No caso do imigrante que vem em busca de uma oportunidade de trabalho, a qualificação é fundamental. Precisamos ser melhores do que os americanos e quando somos bons de verdade, as oportunidades surgem e temos sucesso. A fluência da língua e o entendimento do “American way of life”  fundamentais para que possamos ter o “modus vivendi” americano. Um conselho que dou a todo imigrante que chega aos EUA hoje é que não perca a oportunidade de continuar crescendo no seu “field” de trabalho. Não podemos parar no tempo, especialmente num país como os Estados Unidos, onde temos todas as ferramenttas para sermos melhores.

Sobre a adaptação familiar, acredito que os brasileiros aprendem a conviver com a vida longe da família com o tempo. Os primeiros seis meses são os mais difíceis porque precisamos de tempo para nos adaptarmos a uma nova vida. Nas primeiras semanas tem o momento “euforia” onde tudo é novo, mas quando não podemos participar dos momentos especiais em família, sentimos que realmente tudo mudou.

Não dá para fazer uma visita na casa da mãe, comer o bolo de aniversário com o irmão, ir ao velório de um parente ou amigo. E precisamos ter estrutura psicologica para viver esta nova realidade. No entanto, hoje, com as redes socais, estamos mais próximos de nossos familiares e amigos e parece que a distância encurtou um pouco, não é verdade?

Gostaria de ressaltar que existe uma diferença muito grande na imigração que vemos hoje em relação há 20, 30 anos. Naquela época, os primeiros imigrantes brasileiros, desbravadores com certeza, tiveram uma experiência muito mais difícil do que os brasileiros que chegam hoje aos Estados Unidos. Nossa comunidade nos EUA era muito menor, na verdade não tinhamos uma comunidade, mas poucos brasileiros espalhados pelos Estados Unidos. E tudo era mais complicado.

Sou parte desta leva de brasileiros que chegaram nos anos 90 com garra para desbravar a terra realmente “desconhecida”. Meu objetivo num primeiro momento foi de ficar nos EUA por um ano e retornar ao Brasil. Diferente da maioria dos brasileiros que chegaram naqueles tempos, vim para a Flórida porque meu esposo, na época namorado, morava aqui e tinha duas opções: vir para os EUA ou para São Paulo. Acho que fiz a melhor escolha.(rsrsrs). Depois de morar um ano no Brasil, retornamos aos Estados Unidos para ficar. E realmente fincamos nossas estacas e vivemos o “American Way of Life”.

No entanto, muitos brasileiros, inclusive meu esposo nos seus primeiros 2 anos de América, vieram para explorar a terra, ganhar dinheiro e voltar ao Brasil. Quantas pessoas que chegaram no final dos anos 80 com o propósito de ficar aqui por um tempo e retornar ao Brasil estão aqui até hoje? Milhares. Mudaram suas prioridades e resolveram ficar, fazer dessa terra nossa nova pátria. E hoje temos dois amores: Brasil e Estados Unidos. Já não estamos aqui mais para explorar a terra, mas passamos a sermos como os pilgrims que chegaram nos EUA para fazer desse país sua nova casa.

Hoje, os brasileiros chegam para morar. E querem se inserir no contexto americano. São profissionais liberais e empresários, trabalhadores e estudantes, vindos de todos os cantos do Brasil, prontos para adotar os EUA como país. Chegam preparados para fincar estacas, investir e criar raízes. E isso é muito legal. No entanto, esses novos brasileiros muitas vezes querem implantar nos EUA seu “modus vivendi” brasileiro. E isso não dá certo porque quando estamos aqui precisamos viver de acordo com as regras do jogo americano. E isso é mais certo, não é verdade?

Diante desta análise, de quem já vive nesse país desde 1991, acho que os desafios existem para ser vencidos. Se chegamos há quase 30 anos (como é o meu caso) ou este ano, somos brasileiros vivendo na terra do Tio Sam. Somos desbravadores, prontos para conquistar o nosso sonho americano. E que possamos sonhar alto, porque nos Estados Unidos, a terra das oportunidades, o céu é o limite.

Laine Furtado é jornalista, formada pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora-MG, e editora da revista Linha Aberta, que este ano celebra 25 anos de circulação na Flórida. Laie Furtado foi presidente da ABI Inter (Associação Brasileira de Imprensa Internacional) por dois mandatos consecutivos. Apaixonada por moda e viagem, recentemente ela abriu um novo instagram @fashionandtravelreporter para compartilhar suas experiências de fashion and travel. laine@linhaaberta.com
Eleonora Paschoal
Desafios do Imigrante: começam antes mesmo de sairmos do Brasil

Organizar a vida profissional e pessoal é o primeiro desafio que enfrentamos independente do novo país que escolhemos para morar. No caso da vida profissional temos que verificar contatos que poderão ser úteis no futuro, conversar e explicar porque estamos mudando e, considerar a possibilidade de continuarmos prestando algum tipo de serviço ou consultoria à distância.

Outra coisa importante que deve ser resolvida antes de sair do Brasil é ter o visto certo para entrar nos Estados Unidos. Sem documentos em ordem, você não está buscando vida nova mas, sim, novos problemas. Estar ilegal ou irregular (quando a pessoa entra no país com visto de turista – por exemplo – vence o tempo permitido para a permanência mas continua como residente) significa desafios maiores, pois, tudo vai ser mais difícil e complicado, começando pelo trabalho. Uma pessoa sem status imigratório na maioria das vezes tem que se sujeitar a sub empregos e corre o risco de ser enganada e explorada, sem falar no medo de ser pega pela imigração e deportada.

Aqui vale um: Alerta Geral !!!

Para obter o visto correto você vai precisar de um advogado de imigração e, para não correr o risco de ser enganado, ter seus sonhos destruídos, ser vítima de um mal profissional ou de alguém que não é advogado mas se faz passar por um faça uma pesquisa rigorosa. Veja, não basta ter a indicação de um amigo que conseguiu o documento. Green card pode ser confiscado se o governo americano constatar fraude. Ter a permissão de trabalho e viagem também não lhe dá garantia de permanência no país, pois, estes são documentos fornecidos para facilitar a sua vida enquanto seu processo de imigração está sendo analisado.

Então, antes de fechar contrato com qualquer advogado de imigração verifique os registros que o profissional tem, por exemplo, na Flórida, o equivalente a OAB do Brasil é o Flórida Bar. Outra dica é olhar muito bem o currículo do profissional, ver se ele ganhou prêmios, se está ligado a associações… quanto mais referências documentadas você conseguir mais segurança de estar entregando o seu dinheiro, sua vida e o seu sonho nas mãos da pessoa certa.

Vencidos os desafios iniciais no Brasil. Chegamos! E agora?

Desafio número um: a língua

Uma coisa é vir passar férias e outra é morar. No dia a dia há um número impressionante de gírias e expressões que nos deixam, às vezes, sem entender o que a pessoa está falando, sem contar os diferentes sotaques. Assistir televisão com legenda pode ajudar a acostumar o ouvido a pronúncia e ajuda com o vocabulário. Mas, o destino é a Flórida…o fato da colônia brasileira ser muito grande neste estado cria uma falsa impressão de que tudo vai ser mais fácil. Há pessoas que estão, faz anos, morando em Orlando e não falam mais que meia dúzia de palavras em inglês. A vida profissional e social delas é restrita a comunidade brasileira o que é um limitador para quem quer começar vida nova e vai ser difícil acompanhar a vida dos filhos que vão se comunicar com escola e amigos em inglês.

Desafio número dois: trabalho X custo de vida

Muitas profissões precisam que se “americanize”o diploma para que se possa trabalhar e, em alguns casos é preciso voltar para a escola e enfrentar alguns anos de curso até ser considerado apto a exercer a profissão.

Nessa situação você deve considerar ter um “pé de meia” para garantir as despesas. Pode ser interessante antes de vir pesquisar como está o custo de vida no estado em que escolheu para morar. Na Flórida uma família com 4 pessoas que precisa pagar: casa, carro, despesas com luz, água, telefone, alimentação… etc… vai precisar de cerca de 5 mil dólares por mês (em média) desde que não tenha que pagar escola. Já, em Washington DC só o aluguel de um apartamento com um quarto pode passar de US$4 mil dólares.

Outra coisa importante é que dependendo do lugar que escolheu para morar transporte público é artigo de luxo e ter um carro é uma questão de sobrevivência.

Desafio número três: escola e saúde

Se você tiver entrado legalmente no país colocar as crianças na escola é uma coisa relativamente simples mas burocrática. É preciso ter todos os documentos traduzidos, estar com vacinas em dia ( até os 19 anos é gratuita no serviço público). Esteja atento pois seu filho só vai poder estudar na escola do seu bairro. Por isso preste atenção: encontre primeiro a escola e depois procure a casa para morar.

College e Universidade são pagos e o valor para quem não é residente e não tem boas notas é incrivelmente alto. Pesquise!

E, pesquisar plano médico que, aqui, é seguro saúde é fundamental. Esqueça tudo o que você sabia de plano médico no Brasil. Esqueça se você, por qualquer coisa, corria para o hospital. Nos EUA, mesmo com seguro saúde, você vai sentir no bolso quanto “custa uma saudade”. Nem todos os procedimentos são cem por cento pagos pelo seguro e a conta nunca é entregue no dia mesmo que você ache que está pagando. Sempre há algum tipo de cobrança que chega pelo correio e pega você de surpresa. Então, ir para o hospital só se você estiver morrendo para não morrer depois.

Desafio número quatro: América é para os fortes!

Não desista do seu sonho americano.

Há quem diga que se conseguir sobreviver aos quatro primeiro anos você vai vencer na América. Ainda não sei se é verdade. O que posso dizer é que não é fácil começar. É isso mesmo, começar e não recomeçar. Quando chegamos a sensação é bem parecida com aquela do primeiro dia de aula, do primeiro dia no primeiro trabalho onde a única certeza que temos é que não sabemos nada e que o caminho vai ser duro e, algumas vezes até cruel. O importante é não desistir. Quando a caminhada ficar muito pesada respire fundo. Lembre daquelas carroças dos filmes do velho Oeste. A família toda numa estrada seca e poeirenta em busca da terra prometida. A busca por essa terra prometida é o lugar onde “O sonho americano” se torna realidade. É aqui. O American Dream é a liberdade para ser quem você quiser, é ter a chance de conquistar sucesso e prosperidade usando suas habilidades independente de sua classe social. O Sonho Americano está tão entranhado em cada pessoa que nasceu ou escolheu esta terra para viver que ele faz parte da declaração da Independência dos Estados Unidos: “todos os homens são criados iguais” com direito a “vida, liberdade, propriedade e a busca pela felicidade”

Eleonora Paschoal
jornalista radicada há 4 anos nos Estados Unidos, onde trabalha como correspondente das televisões SBT e Bandeirantes, sendo a primeira jornalista brasileira a atender dois veículos de comunicação diferentes mas do mesmo segmento. Eleonora trabalhou, também, nas TVs Record, SBT, Bandeirantes, Band News e Globo no Brasil. Especialista em média training fez palestras e treinamentos em vários estados brasileiros, países da África e Argentina. prevenção e gerenciamento de crises na área pública e privada
Carlos Borges
Carlos Borges

Irmãos, é preciso coragem…

Na minha opinião, o diagnóstico cabível a quem deixa seu país para iniciar uma nova vida em outro país, certamente vai detectar certa dose de loucura, espírito aventureiro e muita coragem. Na grande maioria das vezes o imigrante, como eu, nem pára prá pensar no coeficiente de coragem que ele teve e segue tendo que superar essa monumental transição. Eternamente inacabada.

São raros os imigrantes que, de fato, se integram de forma ao novo país que a antiga terra natal passa a ser uma referência puramente nostálgica, quando muito. As pesquisas estão, há décadas, mostrando que a ligação do ser humano com a terra onde nasce é inequivocamente umbilical. Neste caso, as exceções só servem mesmo para confirmar a regra.

Quando decidi mudar do Brasil para os Estados Unidos, eu e minha então esposa tínhamos uma idéia mais romântica do que prática, sobre como seria essa “nova vida”. Éramos,  e somos até hoje (não mais casados, mas muito amigos e próximos um do outro), pessoas que se acreditavam sem medo e dispostos a desbravar possibilidades.

Profissionalmente, eu havia chegado a um ponto na carreira em que precisava “implodir” a acomodação e buscar novos desafios. Esta foi, de fato, a minha motivação. A pressão de amigos, parentes e na empresa foi muito grande. Achávamos que, tendo a situação que tínhamos na Bahia, era absoluta loucura deixar aquilo para se aventurar nos Estados Unidos. Até porque, o que tínhamos como “seguro” era um trabalho específico e sob contrato que duraria um ano…

Os primeiros 5 anos como imigrante, entre Tampa Bay e Miami, foram de grande aprendizado no qual uma filosofia nos ajudou imensamente: não brigar consigo mesmo em nenhuma hipótese e lembrar, a cada dificuldade no processo de adaptação, que estávamos aqui por livre e espontânea escolha.

“A rotina dos imigrantes é de desafio contínuo”

Mesmo quando enfrentamos situações limite, doença grave, escassez de oportunidades profissionais ou o longo processo de obtenção da residência permanente, em nenhum momento tivemos dúvida de que, embora adoremos o Brasil, era aqui que queríamos viver. Isso ajudou muito…

O nascimento de nossa filha, Amanda, quando estávamos aqui há 3 anos, foi um “turning point”. Não que houvessem dúvidas de que queríamos viver definitivamente aqui, mas a chegada de um filho muda radicalmente a perspectiva de qualquer pai ou mãe. A prioridade passa ser completamente o filho, sua vida, suas perspectivas e todo um conjunto de coisas atreladas ao lugar onde se vive. O país onde se quer que eles, nossos filhos, cresçam.

Sim, é possível se apoiar na filosofia para seguir em frente num processo que muitas vezes parece uma interminável corrida de obstáculos: idioma, leis, comportamento, cultura, distância de seres amados, valores éticos, e o escambau (como se diz na minha terra).

Um aspecto que me parece importantíssimo: entender o mais profundamente que se possa, a natureza do povo e do lugar que escolhemos para viver. Nem sempre é fácil para nós brasileiros, que herdamos um legado dos mais desanimadores e complicados quando se trata de civilidade, respeito às leis, etc…; exercitar a humildade e fazer da dificuldade uma plataforma de possibilidades.

Me orgulho imensamente do que conquistamos nesses 30 anos “de América”, como se diz no jargão americanóide. E sempre me pergunto como estaria hoje, na Bahia, um profissional de 64 anos, que nos Estados Unidos vive a plenitude de seu trabalho, atividade intelectual e criativa.

Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, uma nação complexa e desafiadora em todos os aspectos possíveis e imagináveis. Para uma ampla maioria de imigrantes brasileiros, o  enfrentamento cultural é bizarro. Por isso são muitos os segmentos da comunidade brasileira que, em alguma medida, se “guetizam” para encontrar na comida, nos shows, no futebol ou no bate papo sobre as novelas e a política, o território comum, a zona de conforto e o próprio lenitivo para, horas depois, fazer a reimersão na “vida paralela”, a vida de imigrante.

O desafio do brasileiro imigrante é esse:  fazer, quase todo dia, dos limões uma limonada. E fazer disso um ritual, um ato de contrição em respeito a suas escolhas.  

Carlos Borges

 

Carlos Borges nasceu em Alagoinhas, Bahia, e antes de completar dois meses já estava em Salvador, cidade que tem como sua alma e coração. Jornalista desde 1972, rapidamente desenvolveu uma carreira em duas áreas: imprensa escrita e televisão. Antes de completar 21 anos já comandava o Núcleo de Produção da TV Aratu (então integrante da Rede Globo, na Bahia). Mesmo tendo na TV as oportunidades e recompensas que seriam menos alcançáveis na mídia impressa, ele jamais se afastou de sua paixão original: a escrita.
Em 1989, quando já atingira o topo de sua profissão no Brasil, dirigindo os setores de produção das duas maiores emissoras do estado (Itapoan e Aratu), Borges tomou uma decisão inesperada: aceitar o convite para participar do núcelo original que lançou, em Orlando (Flórida), o canal Nickelodeon. O que deveriam ser 12 a 18 meses de uma aventura com data de encerramento pré-determinada, se tornaram três décadas de vida e trabalho nos Estados Unidos.
Empreendedor por índole, Carlos Borges construiu uma reputação internacional como promotor cultural e ferrenho defensor das artes e cultura brasileiras. Seu trabalho vem sendo reconhecido nos Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Itália e Brasil. Foi condecorado, em 2014, com a Ordem do Rio Branco, explicitamente por seu trabalho “em promover a imagem positiva do Brasil e dos brasileiros”.
São, até aqui, 67 troféus, medalhas, diplomas, proclamações e reconhecimentos. Mas o que sempre ressalta toda vez que lhe perguntam sobre seus 46 anos de carreira (em 2019), apenas reafirma sua inexorável baianidade, seu amor incondicional à cultura brasileira e sua dedicação aos milhões de brasileiros que vivem fora do país. Manter a chama brasileira sempre acesa nos corações imigrantes é sua missão e propósito.
Fabio Lobo – Introdução
Fabio Lobo

As dores e delícias dos brasileiros na América

A vida na América traz muitos desafios e conquistas. No começo, dependendo das circunstâncias individuais, aqueles superam estas, o que faz com que muitos fiquem pelo caminho e voltem rápido ao Brasil. Ou entendam e abracem os Estados Unidos de uma vez. Nenhuma via será pavimentada por facilidades. Geografia pode até adequar caráter, ensinar novas coisas. Mas não faz malandro virar santo da noite pro dia. Nem muito menos corrompe o espírito dos que trazem do Brasil uma bagagem sólida de humanidade, ética e respeito ao próximo. Nos adultos, os EUA potencializam o que se é. Cedo ou tarde.

Independente do tempo que se planeja ficar, é preciso se estabelecer na América. Tem o documento (este cada vez mais difícil de obter), a carreira, a língua, a saudade. Para os que vieram meio “no susto” mas, do fundo do coração, sabem que têm pra onde voltar –apesar do aprofundamento de algumas crises no Brasil–, a dúvida sobre se vale MESMO a pena insistir e investir tanto no sonho americano tende a ganhar contornos de desassossego. Afinal, o Brasil continua sendo um grande país, com possibilidades em todas as áreas. Para quem viveu insegurança, dificuldades, traumas e dramas pessoais –ou mesmo não é bem-vindo por lá, por um motivo ou outro–, fechar a porta de vez pode ser menos difícil.

Fato é que entre os discursos “Brasil nunca mais” e “não vejo a hora de voltar”, há um catatau de cenários e histórias, quase sempre individuais e intransferíveis. Mesmo a disponibilidade de capital e um projeto definido não garantem imunidade aos sobressaltos da vida por aqui. Com ou sem dinheiro, com medo, ódio ou amor ao Brasil, a verdade é que a iniciativa de deixá-lo nunca será fácil. E virar americano MESMO, penetrando na essência deste país sem tentar sufocar as virtudes da boa brasilidade é, a qualquer tempo, muito importante para não passar ridículo. Nem aqui nem lá. Ligar pra família falando “broken Portuguese” depois de dois anos nos EUA é risível. Mas isso é pauta pra outra oportunidade.

Este mês conversamos com alguns brasileiros conhecidos –e, de uma maneira ou de outra, relevantes para a comunidade brasileira– sobre suas respectivas experiências como imigrantes. Já estabelecidos há bastante tempo nos EUA, esses compatriotas empresários, comunicadores, jornalistas e ativistas sociais falam um pouco sobre suas vivências, os motivos de terem deixado o Brasil, as lutas, as dificuldades e as barreiras enfrentadas antes, durante e depois de adotarem os Estados Unidos da América como casa.

As mensagens, mesmo que diversas e estritamente pessoais, em algum momento são comuns a todos nós e, mais ainda, mostram que na América não existe “free lunch”! A ninguém será possível a realização do sonho americano por mera osmose. Tem que trabalhar pra caramba. O sofrimento e as dúvidas virão, com maior ou menor intensidade, em muitos momentos da caminhada. Adaptação e reinvenção terão de fazer parte da vida de uma forma intensa e verdadeira. Fechar-se em nichos pode ajudar no começo, mas custará muito caro lá na frente. E, numa terra cujo sucesso e liderança vêm inegavelmente de um tecido social diverso, sonegar a própria chance de se apresentar como estrangeiro é de ímpar pequenez. Com vocês, os que ficaram.