Orlando está na “corrida” para a tecnologia

Eraldo Manes Junior

Orlando já sente os reflexos da nova febre tecnológica que toma conta de Miami?

Eraldo Manes: A onda migratória que acontece nos Estados Unidos, formada por pessoas procedentes de estados como Califórnia, Texas, Nova York com destino à Flórida  não é algo exclusivo de Miami. Claro que Miami leva uma vantagem geopolítica entre as demais cidades do Estado, por dispôr de infraestrutura que favorece diferentes indústrias, como: comércio, negócios, finanças, transportes, saúde, turismo, etc. Miami tem porto, aeroportos, serviço alfandegário, excelentes rodovias, emprego, vida noturna, lazer, cultura, hospitais, escolas e praias. 

A cidade funciona como um hub que liga os EUA às Américas Central e do Sul, Europa e África; e atrai turistas do mundo inteiro. Especula-se que Miami pode se tornar o novo polo de tecnologia no país, semelhante ao que aconteceu nos últimos 40 anos na região conhecida como “Vale do Silício”, na Califória, que liga as cidades de San Jose a San Francisco, berço de empresas como Apple, Google, Ebay, Oracle, Tesla, Air BandB, Uber, Instagran, Yahoo etc. Apesar disso, Orlando está competindo fortemente nesta corrida.

Segundo a associação de corretores de Miami, os preços estão subindo com o aumento da procura?

Eraldo Manes: Sim, é fato que a pandemia do Covid-19 trouxe uma revolução nos costumes. O isolamento proporcionou a experiência do trabalho remoto. Logo, as empresas perceberam maior satisfação dos empregados, menor desperdício em deslocamentos, e maior produtividade. A logísitca foi então transferir esta mão de obra qualificada de estados com alto custo de vida e impostos, para estados menos onerosos, como a Flórida, que era tradicionalmente conhecida por receber turistas e público da Terceira Idade. 

Agora, a Flórida atrai perfis como “baby boomer”, “geração Y” e “millennium”. Apenas para efeito comparativo, de acordo com o site Zillow, uma casa de 1960 sq/ft, de 4 quartos, 2 banheiros construída em 1965, em San Carlos, Califórnia tem um valor estimado de $2,383.200. Com $700,000 é possível comprar uma casa nova, em Lake Nona, Orlando, Florida, com 2,952 sq/ft, com 4 dormitórios, 4 banheiros e piscina.  

Quais os benefícios e as desvantagens que esse momento pode trazer? Valorização dos imóveis para quem pretende vender?

Eraldo Manes: Isto já vinha acontecendo antes da pandemia. Em 2019, o déficit imobiliário nos EUA já era de, aproximadamente, 4 milhões de unidades. A pandemia também contribuiu para o aumento do preço da madeira de construção e a escassez de material de acabamento. Em 2010, uma casa que demorava entre 4 a 7 meses para ser construída e cumpria com o material do memorial descritivo, atualmente, os grandes construtores acabam utilizando materiais similares para entregar a obra entre 9 e 12 meses prometidos. 

O juro baixo para financiamento da casa própria é outro fator relevante para estimular o boom imobiliário nos últimos 5 anos. Isso torna o mercado favorável para o vendedor e complicado para o comprador. Com poucas casas à venda e muitos interessados, os preços sobem muito. No mercado de imóveis novos, é comum os interessados ficarem em lista de espera. Quanto aos usados, acaba ocorrendo uma “disputa” para conseguir que uma porposta seja comparada com outras 5 ou 10 oferecidas pelo mesmo imóvel. 

Maior difícil acesso à moradia para as classes de renda inferior? 

Eraldo Manes: Os tipos de financimanto da casa própria nos EUA são na forma de cash, ou através de financiamentos: convencional, FHA e VA. A primeira opção, fica geralmente para os investidores, enquanto as formas de financiamentos são adequadas a pessoas com estabilidade de emprego, bom histórico de crédito e aporte financeiro para entrada e custos de escritura. 

O FHA (Federal Housing Administration), programa que recebe subsídio do governo, chega até 96% do valor do imóvel e é oferecido para pessoas com crédito moderado. 

Os modelos VA são subsidiados para atender veteranos do serviço militar. Famílias de baixa renda, -que ganham menos de $30,000 por ano, no estado da Fórida,- acabam não qualificando para nenhum destes programas. 

O governo local do Orange County tem mostrado alguma iniciativa de criar moradia para público de baixa renda. Algumas áreas abandonadas da cidade, que ficam no entorno do downtown de Orlando, já recebem projetos que incluem comércio no piso térreo, apartamentos verticais, área de lazer e cultura para incluir a população mais carente.

Qual a sua mensagem para quem está pretendendo investir em imóveis, nesse momento? 

Eraldo Manes: No primeiro semestre de 2021, registraram-se vários negócios que receberam múltiplas ofertas logo depois de serem listados no mercado. Com previsão de inflação alta para 2021 e juros baixos com possibilidade de subida, a corrida para o investimento em imóveis foi enorme. Entretanto, já existe uma sinalização de estabilidade de preços no mercado de Orlando. Até o fechamento desta edicão, o MLS (Multiple Listing System) já mostrava um recuo nos preços de 1.5% em algumas propriedades listadas no mês de agosto. No dia 31 de julho, terminou o prazo da moratória que o governo americano havia oferecido para inquilinos se manterem em suas residências. De posse de seus imóveis, alguns proprietários estão preferindo vender suas propriedades para aproveitar os preços altos, do que relocá-los. 

Ainda é um bom negócio ou os preços já não estão tão convidativos?

Eraldo Manes: Qualquer coisa que disser é somente uma opinião. Empresas como Amazon, Walmart -que instalaram centros gigantes de distribuição de mercadorias por venda online-; a Disney promete relocar seus funcionários da Califónia na região da Flórida Central; o contínuo crescimento da Universidade da Central Flórida, -com mais de 60 mil alunos para o ano de 2021-, a migração natural de americanos mencionada nesta pauta levam a crer em um momento de celebração. Diferentemente de Miami, Orlando tem muito espaço para crescer. Com excelente infraestrutura de vias de acesso, novas escolas e hospitais vão continuar impulsionando a pujança do mercado imobiliário nas imediações como Kissimmee, Winter Garden, Windermere, Celebration, Davenport, Clermont, Minneolla, Oviedo, St. Cloud, Poinciana, Haines City, Winter Springs, entre outras preferidas pela classe média. 

Com o fim da pandemia, a Flórida deverá retomar o mercado do Turismo e voltar a atrair investidores no mercado imobilário como os asiáticos, latinos e brasileiros.

Eraldo Manes é paulistano, formado em Comunicação Social. Vive em Orlando há mais de 30 anos.

É fundador e publisher do Jornal Brasileiras & Brasileiros. (1994-2021).

Ex-presidente da Central Florida Brazilian American Chamber of Commerce (2016-2018); sócio fundador da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (2006-2021).

É Corretor de imóveis, licenciado pelo estado da Flória, e é Sales Agent na Pointon Realty. 

eraldo@pointonrealty.com

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