Porque Trump é como é e como Trump se tornou conhecido como o Pelé

Peter H. Peng

A mais completa psico-análise do Trump veio a nós da sobrinha dele, Mary Trump, clínica psicologista, em seu livro Too Much and Never Enough (Demais e Nunca Satisfeito), com o subtítulo How my family created the World’s most dangerous man (Como minha família criou o homem mais perigoso do mundo). (Traduções não oficiais deste escriba).

Mary Trump revela uma história de escuridão e falcatruas da família Trump, inclusive como ela e seu irmão foram ludibriados pelo tio Donald, quando o pai de Mary faleceu, e deixou os filhos adolescentes como herdeiros. O Donald falsificou os acervos e levou os sobrinhos menores a um acerto de contas enganoso. Aliás, essa ainda será uma ação civil e criminal que o Trump enfrentará nos próximos meses. Mary nos explica como o seu tio Donald sempre foi um sociopata megalomaníaco. Hora para definições. Sociopata – pessoa que não se importa com os outros, se julga acima de todos, assoberbado, pensa que é superior, por isso não tem amigos de verdade, não se encaixa em nenhuma sociedade. Megalomaníaco – mania de grandeza, de poder, de riqueza, de indestrutibilidade, suscetível ao auto-engano, de onipotência, vítima de fantasias. Modéstia e humildade, zero. Megalomania e sociopatia são ambas doenças mentais, e o bom exemplo de nossos dias é o tio dela.

Pronto! A sobrinha dele, Mary, nos explica como uma pessoa pode mentir tanto, e tentar tantas vezes dar o golpe eleitoral, nada menos do que um golpe de Estado, no estilo sul-americano nosso, e alegar fraude por tanto tempo. O megalomaníaco é um mentiroso que termina acreditando nas próprias mentiras. Ele nunca irá aceitar que perdeu a eleição, pois se pensa imbatível. Aí faz o que fez, a invasão do capitólio, com cinco mortes, e uma sexta, dias depois, o suicídio de um dos policiais.

Um estudo de trapaceiros ingleses em jogos de cartas no século XIX foi documentado do seguinte modo, por um psicólogo-jornalista-escritor1, que estudou os autos da corte num caso de três trapaceiros:

Não há dúvidas que existem motivos para homens roubarem em jogos de cartas, além dos ganhos materiais; existem motivos psicológicos, parte integral da raça humana, e esses homens partilharem de traços humanos. Um desses traços é um profundo desgosto de serem derrotados, e esse sentimento comumente vem acompanhado de um perfil de arrogância o que torna a derrota ainda mais dolorosa e inaceitável; e é especialmente doloroso perder para um oponente odiado. Megalomania, o sentimento de que o sujeito está à parte e acima de seus pares, e seria intocável pelo fracasso, tem igualmente parte nisso. 

Um terceiro motivo seria a satisfação de vitória por uma trapaça bem sucedida; a satisfação de auto-congratulação de haver conseguido ludibriar seu oponente. 

Existem similaridades gritantes no caráter dos acusados nos três casos. Todos os três são grotescamente orgulhosos, arrogantes e reservados, não conversam porque desprezam aqueles que consideram inferiores…. e são claramente megalomaníacos.

A primeira teoria é que somos tão honestos, convivemos com pessoas tão  honestas e não entra na nossa cabeça que possam haver desonestos em nosso meio. A segunda teoria é que mentimos muito e por isso pensamos que outros em nossa volta não mentem tanto.

Os irmãos Grimm (Contos de Grimm) nos contam dezenas de histórias em que esses traços psicológicos são presentes: o lobo não se satisfaz nunca, até ser capturado; o ourives corcunda não se contenta com sua fortuna e quer mais até perder tudo e adquirir outra corcunda, a primeira nas costas, a segunda no peito.

Mas o que nos faz tão fáceis de sermos enganados? Os republicanos, em sua grande maioria, ainda acreditam no Trump. Existem duas respostas aparentemente diametralmente opostas para explicar nossa credulidade. A primeira teoria é que somos tão honestos, convivemos com pessoas tão  honestas e não entra na nossa cabeça que possam haver desonestos em nosso meio. A segunda teoria é que mentimos muito e por isso pensamos que outros em nossa volta não mentem tanto. Ambas situações explicam o engano. Pensem bem e vejam que essas teorias fazem parte do mesmo id humano.

Publius Terencius Afer (teatrólogo romano, 185 A.C.) escreveu: Existe uma grande demanda por homens que conseguem fazer o errado parecer certo. A demanda por mentirosos como o Trump seria uma maneira subconsciente dos republicanos et caterva de encontrarem uma retificação de suas próprias falsidades. O Trump retira sua própria satisfação no engano e na prática da arte de fazer a mentira parecer verdade. Qualquer semelhança com nossos políticos tupiniquins não é mera coincidência. Temos sociopatas e megalomaníacos de todas as cores.

Mas o que é que o Pelé tem a ver com isso tudo? Bem, vocês sabem como o Trump joga golfe. E eu, como golfista doente, conheço muitos golfistas e campos de golfe. Pois o Trump também rouba no jogo, sempre. Joga-se golfe por dinheiro, tantos dinares por tacada. Pois os atendentes dos campos de golfe, observando as trapaças, greenkeepers e caddies, já nos deram as tintas de como o Trump trapaceia no golfe. Ele chuta a bola que está perdida na grama alta (rough) de onde é difícil bater, até ela chegar a um terreno com grama não tão alta do qual ele poderá dar uma tacada. Ele faz isso com tanta frequência que foi apelidado de Pelé. É claro que os parceiros e adversário de golfe do Trump conhecem isso, e fazem simplesmente vistas grossas. São os enablers.

Como se trata isso na humanidade? Meus amigos me dizem: Peng, botas o dedo na ferida mas não dizes o que fazer. Minha resposta é: não cabe a mim dizer o que fazer. Mas posso dizer, e não me canso de repetir, que a impunidade é a mãe da corrupção. Faz parte da megalomania do criminoso a certeza de que, se for pego em flagrante delito, a punição não vai doer, e que a satisfação do crime para ele é muito mais valiosa. Mas, se vocês insistirem, eu conto como outras culturas lidam com esse tipo de comportamento. Por enquanto dou apenas um bocadinho chinês. A mulher do Mao Tse-tung, o Pai da Pátria, foi condenada à morte, por seus crimes durante a Revolução Cultural. Cadeira elétrica, zap e pronto. Problema resolvido. Outros países menos resolvidos, como os Estados Unidos, deram um tapinha na mão do Trump por sua tentativa violenta de dar um golpe. No nosso, trataram os militares e policiais assassinos e torturadores e os prisioneiros políticos, torturados e desaparecidos, da mesma maneira: anistia geral e irrestrita. Como eu disse, pagamos até hoje por isso. Repito, a impunidade é a mãe da corrupção. É isso.

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1. The Great Scandals of Cheating at Cards, A Study of Court Cases, por John Welcome, 1964.

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