A Internet é um mar de falsificações

2018 foi o ano no qual a farsa veio à tona. A Internet é um mar de usuários falsos, inexistentes, ou existentes apenas eletrônicamente, mas não humanamente; sites falsos, movimentos de mouse falsos, cliques falsos, logins falsos, o único elemento verdadeiro são os anúncios comerciais, pagos pelos anunciantes. Como isso foi descoberto?

Alguns anunciantes do Facebook suspeitaram que o tráfego alegado pelo Facebook era exagerado. Fazendo uma auditoria preliminar conseguiram que o Facebook admitisse que havia um exagero. Mas esse exagero deve ser muito maior do que o que o Facebook admitiu inicialmente.

Preciso voltar um pouco atrás para explicar melhor a trama. A mídia, isto é, os donos das mídias, Facebook, YouTube, AOL, Amazon, etc, são pagos pelos anunciantes pelo número de visuários que cada mídia alcança. Por exemplo, 5 mil vistas no YouTube custam US$15 ou mais. Trinta segundos em um vídeo conta como uma vista. O preço varia também de acordo com o poder aquisitivo do usuário. Por exemplo, aquele visuário que lê o Vogue e/ou o The Economist tem um poder aquisitivo maior do que o visuário que lê matérias não sofisticadas.

Os donos das mídias criaram uma rede de usuários que não existem. “Bots” são robôs que fazem tudo aquilo que um usuário humano faz, simulando cliques, movimentos do mouse, teclado, até música tocando ao fundo, televisão ligada e telefones batendo na casa do “usuário” falso. Esses bots apenas esperam o anúncio se completar para reiniciar a farsa. Estima-se que apenas metade dos usuários da internet seja composta por seres humanos. Na ilustração do artigo, apresentamos uma “fazenda de cliques,” centenas de smartphones, organizados em linhas, como num escritório profissional, todos “vendo” o mesmo video, “pensando ou contemplando comprar” a mesma mercadoria no Amazon, ou baixando o mesmo aplicativo.

Os anunciantes pagam de acordo com o número de visitantes que esta mídia recebe, portanto estão jogando dinheiro no lixo, porque ninguém está vendo seus anúncios. Na ação contra o Facebook, os defensores admitiram 60% de tráfego exagerado, mas os acusadores estimaram esse exagero de 150% a 900%.

Mas algo ainda mais perverso está sendo feito pelos usuários, através de “trolling”. Em quase todas as linguagens do mundo, do Inglês aos idiomas escandinavos, e até ao Português, existe algo que relaciona essa palavra com falsidade, malvadeza. Por exemplo no nosso idioma existe o trouxa. Durante a guerra do Vietnã, pilotos americanos usavam os trolls como alvos falsos, para desviar a atenção dos inimigos, que desperdiçavam bombas em alvos simulados.

Os usuários estão usando os trollers na internet para destruir seus adversários. Por exemplo, nas eleições presidenciais que elegeram o Trump, os russos criaram uma equipe de trollers que, com fotos roubadas, principalmente de negros, fizeram assinaturas no Facebook e outras redes sociais e buscavam outros negros como alvo para disseminar mentiras sobre a Hillary Clinton a fim de persuadir essas pessoas a não votar. Era sabido que, como herança do Barack Obama, a grande maioria dos negros votaria na Hillary Clinton. O voto nos EEUU é opcional, não é obrigatório. Então a sugestão desses trollers era para esses negros a não comparecer. Até um brasileiro entrou nessa; teve sua foto roubada pelos russos, que a usaram para fazer um troll, mascarado de apoiador do Trump, vendo um video no Facebook, e conversando. Isso é uma visita real?

Outros trollers criavam fotos de políticos democratas fazendo algo errado, por exemplo, montados numa atriz de pornô, foto-montagens tão bem feitas que tinham credibilidade. Ou seja, eram equipes altamente profissionais.

Na área comercial, no Amazon, por exemplo, estórias infantis foram alteradas por inteligência artificial, que alteravam a voz do narrador, e alteravam as imagens de tal modo a evitar pagar direitos autorais a quem realmente trabalhou para contar a estória, ou seja, os autores originais. A cópia era produzida sobre o original, a baixo custo, e vendida a preço muito menor, mostradas lado a lado, ou seja, o original e a cópia falsificada, como mercadorias, lado a lado, numa prateleira. Naturalmente a falsificação muito mais barata. Esse tipo de falsificação ainda é difícil de detectar, e a questão de direitos autorais nesse tipo de falsificação, onde inteligência artificial é envolvida, ainda não foi bem definida judicialmente. Outros trollers criavam comentários falsos, avaliações falsas sobre mercadorias verdadeiras, em lojas falsas, a fim de dirigir tráfego de compradores para os concorrentes, os seus clientes, que de alguma maneira lhe pagavam pelo trolling, talvez os empregando diretamente, talvez por alguma maneira subreptícia para não serem identificados de imediato. Sem dúvida isso deveria ser criminoso. O Alibaba, o Amazon da China, tem 30.000 funcionários trabalhando em informática. Eles dizem que fazem mineração de dados. Mas quantos estariam fazendo trolling, falsificando videos, para evitar pagar direitos autorais? Quem vai verificar as prateleiras do Alibaba? E por aí afora.

Existe um método de identificar qual percentagem dos visitantes de um site é de humanos e qual de bots. Entretanto, há um ponto de inversão, no qual a tecnologia presente vai passar a identificar os bots como humanos e os humanos como bots. Isso será corrigido, mas no presente, vai ocorrer isso apenas no ponto de inversão, o qual não sabemos ainda qual será numèricamente esse ponto de inversão. Pode ser 50% ou mais.

Pessoalmente, não acredito em mais nada que vier pela internet. No título do artigo eu disse que a internet é um mar de falsificações. Deveria eu ter dito que a internet é um oceano de falsificações? E vamos mudar o nome Facebook para Fakebook?

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