A Origem do Futebol no Brasil

As enciclopédias dirão que um anglo-brasileiro, Charles Miller, trouxe o futebol para o Brasil. Verdade, o Charles Miller teve um papel importante para o desenvolvimento do futebol no Brasil, mas a origem do futebol no Brasil antecede ao Charles Miller por várias décadas. 

Charles Miller foi, aos 9 anos de idade, estudar na Inglaterra, mais precisamente em SouthHampton, no sul da ilha britânica, e foi um jogador notável. Ele inventou o drible que conhecemos como “chaleira” ou “charles” – a primeira palavra derivada da segunda, e ambas reconhecendo o Charles Miller como o inventor desse drible. Lembram? O jogador, geralmente um atacante, levanta a bola na corrida, enganchando-a no calcanhar de um dos pés, e prensando a bola com os dois pés, assim levantando-a por cima de suas costas e cabeça, e por cima do zagueiro adversário, que passa correndo em sentido contrário, pois é ludibriado, pensando que o atacante deixou a bola para trás. O atacante controla a bola, geralmente matando no peito e baixando-a no terreno, tudo isso na corrida. Quando o zagueiro tenta se recuperar, o atacante já está com uma vantagem de uns 5 metros. Ele voltou ao Brasil, depois de 10 anos na Inglaterra, e trouxe na bagagem duas bolas, chuteiras, dois uniformes completos e uma bomba.

Em 1900, mais precisamente em Rio Grande, no Sul gaúcho, foi fundado o Sport Club Rio Grande, dando início assim, ao futebol organizado no Brasil. Os paulistas dirão que a Associação Alética Ponte Preta foi o primeiro time do Brasil, embora nas atas de fundação o Rio Grande anteceda o Ponte Preta por 3 semanas. Eu tive uma intersecção na vida com o Sport Club Rio Grande, que contarei mais tarde nesse artigo. 

Mas isso não importa. O importante a registrar é que o esporte bretão foi trazido ao Brasil muito antes desses clubes serem formados. A origem disso foi o Irineu Evangelista de Souza, depois Visconde e Barão de Mauá. Claro, um gaúcho. O Irineu, quando na Inglaterra, viu o progresso baseado na industrialização e no transporte barato dos produtos industrializados. Esse transporte era baseado nas vias ferroviárias dos bretões. De volta ao Brasil, convenceu o Imperador, Dom Pedro II a seguir o caminho dos ingleses. O Imperador comprou a idéia e, guiado por Irineu, iniciou a industrialização brasileira e a construção da malha ferroviária que conectou o interior do Brasil aos principais portos navais, tanto fluviais como marítimos. Do Norte ao Sul, de Madeira, no coração da selva amazônica a Mamoré (Rondônia) a Rio Grande, passando, claro, pelo Rio de Janeiro, por Santos, etc. As ferrovias faziam viável o escoamento da madeira, borracha, minérios, carne, etc, para a Europa, o que marcou um salto no desenvolvimento do Brasil.

Nas cidades, os bondes, uma miniaturização dos trens, possibilitaram o deslocamento fácil e barato das populações, impulsionando assim o comércio varejista e os serviços. E quem construiu as ferrovias e os bondes? Trabalhadores inglêses, que tinham o know-how. E esses operários, para diversão e descanso do trabalho, jogavam futebol. Isso foi pelo menos 30 anos antes do futebol ser praticado de maneira organizada no Brasil.

Voltemos ao tema. A ponte preta real deu origem ao time paulista, existiu e existe até hoje e foi construída no fim do século 19 para transpor a estrada de ferro Jundiaí-Campinas. Como a ponte original, de madeira, ficava manchada pela fuligem das locomotivas, foi recoberta de piche. A alvenaria tomou o lugar das tábuas, mas a tinta preta continua lá sobre os trilhos. Notem a origem dos ferroviários. O Rio Grande, sem campo para jogar, pediu emprestado um terreno da Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil (Companhia Auxiliar de Ferrovias no Brasil), empresa belga que construía uma linha de trem entre Porto Alegre e Uruguaiana. Mais tarde o Rio Grande construiu o Estádio Arthur Lawson, outro inglês. Posso agora contar como minha história pessoal se cruzou com a história do Sport Club Rio Grande. Entre 1959 e 1966, joguei basquete pelo Petrópole Tênis Clube, o PTC, em Porto Alegre. Fui infantil e juvenil. Joguei exatamente uma única partida com a camiseta da seleção gaúcha juvenil, sendo depois cortado. Nosso treinador, técnico e irmão mais velho era o Eduardo Arthur Lawson, neto do Arthur Lawson, quem deu o nome ao estádio do Rio Grande. O nosso Lawson, ou Magrão, como o chamávamos foi titular da seleção brasileira. Para registrar o meu apreço pelo Magrão, conto agora que na ocasião de uma celebração de um campeonato municipal do time adulto do PTC íamos todos, adultos e juvenis, que éramos os líderes da torcida do PTC, comemorar num bar dos arrabaldes. Eu creio que essa celebração ia das 21 às 22:30 horas. Os juvenis, ainda menores, não bebiam cerveja nessas ocasiões. O PTC tinha esse cuidado. Ao final da celebração, eu tinha que pegar um bonde, da Cristóvão Colombo até a estação central, que ficava na Praça Parobé, no Abrigo dos bondes, que davam então a meia-volta. Daí eu pegava outro bonde e, direção a Petrópolis, meu bairro, descendo na parada da Eça de Queiróz. A casa de meus pais era na Eça de Queiróz 892, ou seja, a um quilômetro da parada do bonde. Estimo que viagem toda, do bar celebratório até minha casa levaria cerca de uma hora. E quem me acompanhava, do bar até minha casa, para ter certeza que chegaria, certificando-se da minha segurança, caminhando pela ruas escuras? Sim senhoras e senhores, era o Magrão.

Há cerca de uns quatro ou cinco anos atrás, o meu “brimo” de estimação, um primo em primeiríssimo grau da minha esposa, filho de um “turco” – chamávamos todos os árabes de “turcos” naquele tempo – e eu até hoje brinco com ele, chamando-o de “briminho,” pois tìpicamente os “turcos” não conseguem dizer “primo,” falando em seu lugar, “brimo”; pois bem, esse primo me levou em seu carro de Porto Alegre a Rio Grande, uma viagem de uns 300 km, só de ida, para eu visitar o Magrão. Fomos recebidos pelo Magrão e sua esposa e fui até mesmo jogar um pouco de basquete com o Lawson. Relembrei o cuidado que ele teve comigo depois da celebração do campeonato. O Magrão não lembrava. Oxalá esse conto a ajude a lembrar aquela experiência tão importante para mim, tudo que o Magrão me ensinou com aquele gesto. Generosidade, carinho, cuidado de um irmão mais velho com um irmão mais moço.

Retorno às origens do futebol no Brasil. O historiador Luiz Carlos Ribeiro, da UFPR, explica como a lenda de Charles Miller se desenvolveu: “A história é escrita a partir de registros, só que é complicado encontrar documentos sobre o futebol brasileiro no século 19. Charles Miller era um membro da burguesia paulista – seu pai era diretor da São Paulo Railway, que originou o São Paulo Athletic Club –, e as elites são fáceis de registrar: aparecem em jornais, se preocupam em guardar documentos.” Volto ao Irineu Evangelista de Souza, então o Barão de Mauá. Ele importou as companhias estrangeiras para tocar as obras. O futebol já era popular na Inglaterra e, naturalmente, veio como passatempo para cá. Espalhados pelo Brasil, essa rede de imigrantes foram todos fundadores do futebol brasileiro. Entre 1852, ponto de partida da primeira ferrovia, e a Proclamação da República, em 1889, foram construídos mais de 9.500 km de trilhos – um terço da nossa malha atual. E concomitantemente com o crescimento da malha ferroviária, o esporte foi se espalhando pelo Brasil. Citando a Editora Abril:

“A forma mais clara de mapear isso é seguir a criação de times ferroviários. As empresas ferroviárias foram importantes lugares de organização sindical, que usavam o futebol como elemento de união entre seus funcionários; o resultado disso é a criação de vários clubes vinculados a essas instituições. Entre as décadas de 1900 e 1970, 94 times foram fundados por ferroviários em 20 diferentes Estados. Dessa forma, a bola no pé chegou aos mais diversos cenários brasileiros: de Palmares (com a Associação Atlética Ferroviária, da terra de Zumbi) à Floresta Amazônica (com o Ferroviário Atlético Clube, criado por empregados da Madeira-Mamoré). À primeira vista, dá a impressão de que os clubes ferroviários foram numerosos, espalharam o futebol pelo Brasil, mas não tiveram lá muito impacto em campo. Muitos deles, porém, foram bem-sucedidos, afirma Ernani Buchmann, autor de “Quando o Futebol Andava de Trem”, livro que narra a relação entre ferrovias e futebol no Brasil. “A Desportiva Ferroviária, de Vitória (ES), teve relevância nacional nos anos 1960 e 1970 e a Ferroviária de Araraquara fez barulho nos campeonatos paulistas dos anos 1960. Um dos mais destacados recentemente, aliás, é o Ferroviário de Curitiba, completa, referindo-se a uma das agremiações que originaram o Paraná Clube, de volta à série A do Brasileirão em 2018. O estádio da Vila Capanema, bairro dos ferroviários curitibanos em que o Paraná manda seus jogos, aliás, foi palco da Copa do Mundo de 1950. Ponte Preta que batiza o time paulista foi construída para transpor os trilhos da Jundiaí-Campinas. Não foram só os times das empresas ferroviárias que herdaram esse legado. O Corinthians é o maior exemplo disso: apesar de não ter nenhuma ligação direta com empresas de trem, foi fundado em 1910 por operários do bairro do Bom Retiro que trabalhavam na São Paulo Railway, primeira ferrovia do Estado, que ligava o Porto de Santos ao interior. Quatro anos depois, imigrantes italianos criaram um time com o objetivo de rivalizar com os operários do Bom Retiro: o Palestra Itália, atual Palmeiras. Outro filhote da São Paulo Railway é o próprio clube da empresa, que existe até hoje, mas com outro nome: virou o Nacional Atlético Clube, tradicional time da zona oeste paulistana. Desse jeito, de forma direta, indireta, e às vezes mais indireta ainda, as ferrovias foram colocando o futebol brasileiro nos trilhos. Companhias de trem e seus funcionários foram essenciais para a fundação de clubes como Corinthians, Noroeste (SP) e Asa de Arapiraca.

Como esse modo tão moderno e eficiente de tranporte, tanto de bens como de gente, desapareceu? Na década de 1920, um dos slogans do governo de Washington Luiz, era “governar é fazer estrada”, indicava o princípio da decadência férrea do Brasil. Essa rivalidade rodovia versus ferrovia, inclusive, foi no futebol. Nos anos 1950, a cidade de Itapetininga (SP) parava para ver o clássico local entre o Clube Atlético Sorocabana (nome de uma importante ferrovia paulista) e o Departamento de Estradas de Rodagem Atlético Clube. No governo JK (1956-1961), e ao longo de toda a ditadura, a situação se agravou. De lá para cá, o transporte de passageiros por trilhos praticamente deixou de existir, só restando o de carga, ainda assim com infraestrutura limitada. Os bondes tiveram seus trilhos arrancados. Visite qualquer país da Europa e veja como já tínhamos o que eles tem agora: um transporte ferroviário econômico, e arrancamos tudo, virando ferro-velho. Será que os fabricantes de automóveis e as refinarias de petróleo não deram uma mãozinha, fazendo a cabeça de nossos dirigentes? E o bolso também? Mas como debater isso, num país ignorante e sem liberdade? Cada momento que vocês estiverem num congestionamento de tráfego na avenida Paulista, na Marginal Tietê, vendo um trem passar, lembrem-se que jogamos tudo no lixo. Sim, fomos para o transporte individual, muito bonito, mas que nos custa muito. Viva o Brasil. Bem, essa foi minha história de futebol: 74 clubes do Brasil foram fundados diretamente por empresas ferroviária.

Para completar, volto ao Irineu Evangelista de Souza. No final de sua vida, foi torpedeado por herdeiros do Imperador. Faliu, vendeu suas empresas e seus negócios a preço de banana para pagar suas dívidas. Não fugiu. Acabou pobre mas não escondeu nada. Liquidou até seus óculos que tinha aros de ouro. Comparem esse comportamento com o de nossos governantes e nossas classes privilegiadas de hoje. Pensem se nossos governantes atuais podem ser comparados ao Irineu. Podem sim, ser comparados ao Washington Luís, que não registrou nada na história do Brasil.

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