A sorte por estar aposentado – por Lineu Vitale

Lineu Vitale

É difícil atualmente definir a palavra “aposentado”. É aquele cara que ao invés de mentir sobre a idade, se vangloria dela? Antigamente era aquele indivíduo que parou de trabalhar por tempo de serviço. No Brasil, o termo foi usado pela primeira vez na Constituição de 1891 e aplicável aos funcionários públicos por invalidez. Aos olhos dos jovens, que surgiam em grande número para disputar o mercado de trabalho com os velhotes de 50, o aposentado era como um trator que se põe de lado porque saiu um modelo mais novo. Essa sensação de obsoletismo pode se tornar um momento dramático em nossas vidas. Nos Estados Unidos, a idade “oficial” de aposentadoria é 65, só que se esqueceram de me avisar e continuo a fazer as coisas que fazia aos 40, algumas melhores, mas agora doem um pouco.

Aquela imagem do aposentado que finalmente pode fazer o que sempre sonhou, só aquilo que lhe dê prazer, como escrever um livro, cuidar do netinho, cruzeiros marítimos ou até mesmo viver recluso numa praia paradisíaca, sem a obrigatoriedade dos “deadlines” ou obrigações, é falsa.

Há uma quantidade enorme de variáveis que define o bem-estar do aposentado: sua condição financeira, condição física ou mental e, principalmente, sorte. Sorte, força inexplicável da qual derivam os acontecimentos da vida. Não temos controle sobre o que virá e não podemos mudar o que passou. Só o que podemos fazer é nos adaptar à realidade. A triste realidade da realidade é que é o que é, não é o que gostaríamos que fosse. E envelhecer faz parte. Quanto à sorte, ou destino, fado, fortuna, ventura, acaso, graça divina, prêmio, e outros sinônimos, não há controle. Você não escolheu nascer no país em que nasceu, com seu sistema social e previdenciário. Você não escolhe nascer em uma família pobre, ou rica, ou branca, ou negra, homem ou mulher, e esses eventos influenciam a maneira como nos aposentamos. Você não escolheu ficar doente, incapacitado para o trabalho. Igualmente, não se escolhe perder tudo o que se conquistou na vida e ser forçado a voltar ao trabalho para sua subsistência. “Pobre homem, não teve sorte na vida!”    

Nos esquecemos que aposentadoria não é somente um planejamento financeiro. É um exercício emocional e social. Talvez meu perfil introspectivo torne essa transição um pouco mais fácil. O idoso é mais solitário. Sentir-se jovem, continuar estudando, aprender novas atividades, é fundamental para meu equilíbrio emocional e satisfação pessoal.    

Aqueles que exercem trabalho intelectual dependem de sua sanidade mental, de terem a sorte de, com a idade, não contraírem Alzheimer ou Demência, que antigamente chamava-se senilidade. Com sorte, pode-se chegar à aposentadoria em boas condições físicas e mentais e pode-se curtir a vida de maneira saudável.

Quando penso nisso, realizo como tenho a sorte de ter saúde perfeita, filhos bem-sucedidos e de boa índole. Momentos de alegria, de tristeza, de infância, de aventura, de renúncias, de arrependimento, vêm clara e constantemente em minha mente, em flashes de segundos, como os comerciais que dirigi como publicitário. Mas às vezes não me lembro onde parei o carro e o nome daquele artista que trabalhou naquele filme dirigido por aquele diretor famoso, gravado naquele país que não lembro o nome. 

Enquanto puder, não vou ficar sentado no banco da praça alimentando pombos. Enquanto puder, continuarei planejando coisas para o futuro, a viajar de moto, a criar projetos, a estudar, focado em deixar um legado para os jovens. E tenho tempo livre para fazer tudo isso porque estou, digamos, “aposentado”.

Lineu Vitale é publicitário. Atualmente dedica-se a produzir conteúdo didático para crianças brasileiras residentes no exterior para o site www.port4kids.com e para empresários para o site www.focoamerica.com. Mais detalhes sobre sua carreira, www.lineuvitale.com.