A tragédia de Brumadinho

Conversas com o Chirú

Fim de mais uma semana de trabalho bem feito, gado alimentado descansando; leite tirado; crianças em casa após um dia de escola; roupas lavadas e estendidas nos varais, churrasco de costela no ponto; chimarrão, com yerba mate argentina esperando a água quente da chaleira, pendurada no trempe, no calorzito das brasas restantes do fogo de chão; Chirú na cadeira preguiçosa, nós, peões, ao redor, nas banquetas de cepo.

Conhecemos o chefe, precisamos acender a chama para o papo fluir. Mas antes da conversa, a rodada de mate. As cuias e as bombas se revezam nas mãos.

Essa conversa geralmente se faz no sábado; o trabalho no campo é diário, o gado pasta todos os dias. E as vacas dão leite também todos os dias. Mas o domingo é o dia de descanso para a maioria. E também de igreja para muitos. A turma do domingo se reveza. Mas na noite do sábado a turma do domingo também se junta ao resto, quando sabe que o Chirú será provocado naquele sábado.

Mas o chefe também nos conhece, o Chirú detectou muito antes da conversa começar. “Me diga o que tens em mente, tchê” – iniciou o Chirú, falando diretamente comigo, êle conhecia seus peões e sabia que eu saberia expressar bem a  pergunta da turma.

Mais uma rodada de mate, uma rodada de silêncio. Mas sabíamos que o que esperávamos viria. Dei um tempo e falei: “Como que conheces tão bem as pessoas, Chirú? São tantas as pessoas que trabalham aqui, plantando, colhendo, tantos visitantes que recebemos, vizinhos, as famílias, as pessoas dos povoados, escolas, igrejas, e não falas, mas percebemos que não fazes julgamentos errados acerca delas. Sabes se são honestas, se são competentes, se trabalham duro, se procrastinam, enfim, se farão parte da nossa turma. E quanto aos nossos políticos, raramente te vemos errar. E que ficas quieto quando tens dúvidas.” Pedrão interrompeu: “O que é procrastinar, Ernesto?” Respondi: “Procrastinante é o sujeito que não faz o que precisamos que faça, sabe que não é urgente, vai deixando, deixando, espera mais um pouco, até que a tarefa fica urgente, e se atrapalha, outros fazem a tarefa, ou seja, atrapalha outros.”  Aí Chirú interrompeu. “Desculpe interromper, Ernesto, mas acho que é mais bem entendido explicando o contrário. O sujeito que não procrastina, Pedrão, é um como o meu compadre Mário, que alguns de vocês conheceram antes de havermos-lo perdido. O Mário quando recebia uma tarefa, por exemplo, consertar uma cêrca, trabalho de uma hora, e êle tinha vários dias para fazer, partia imediatamente para a tarefa, fazia tudo em uma hora, não perdia nenhum minuto. O procrastinante deixa para as últimas horas.” Todos entenderam, mesmo os que não conheceram o Mário. Eu completei: “E o cara não se integra na turma, a turma vai ficando cansada. É como uma peça na engrenagem que não deixa a máquina funcionar direito.”

Mais uma rodada de mate, uma rodada de silêncio. O Pedrão quer saber mais. “Como isso acontece? Isso tem cura?” Nós sabíamos porque o Pedrão perguntava. A mulher dele era procrastinante. O Chirú sabia. E responde com a delicadeza de sempre. “Eu acho que isso vem de casa, Pedrão. O sujeito aprende isso pelos exemplos. É como se fosse de berço, pois a criança aprende com os pais. Para mudar isso, o melhor que se pode fazer é continuamente dar exemplos, sem falar.” Mais uma pausa, e uma rodada de mate. Tempo para a gente digerir as palavras do Chirú. Ficou mais uma vez, tudo bem compreendido e entendido pela tropa e pelo Pedrão. Agora o Chirú vai responder à minha pergunta.

“Voltando ao Ernesto: como conheço as pessoas. Experiência de vida, Ernesto. Conheci muita gente. Ia observando e aprendendo com os exemplos, errando e acertando; acertando e errando. Escolas, exército, esportes, muito trabalho, fiz emprêsas, iniciativas próprias, família numerosa. Sempre com muitos amigos. Muitas pessoas à minha volta. Testemunhei muitos governos e muita reviravolta política. Mas eu tive sorte. Não herdei dinheiro nem negócios dos pais, tive que trabalhar. Eu tenho amigos de infância que nasceram em berço de ouro e aos cinquenta anos ainda pediam dinheiro ao pai para o cafèzinho. Mas eu tive que crescer e cresci. O que recebi de herança dos meus pais não tem preço, não troco nem por todo o chá da China.” Mais um mate, tempo para pensar e refletir.

“Mas foi minha mãe quem me deu a base. Me ensinava pelas coisas pequenas, como por exemplo, não pegar as flores dos vasos da escola, dos parques.” “Mas todo mundo pega, mãe,” eu respondia. Tá errado, filhinho, as flores são de todos, não tuas, foram plantadas por alguém, trabalho de alguns, para a alegria de todos, minha mãe ensinava. Ia me mostrando enquanto eu crescia.” Ficava claro para todos o amor da mãe pelo filho, e como o recíproco era verdadeiro.

“Mas como, Chirú, ela te ensinou a ler o caráter das pessoas, também?” emendou o Pedrinho.

“A base sim, Pedrinho. Ela dizia: “Falar é fácil, fazer é que são elas.Vais ver que quem mais fala é quem menos faz. E as pessoas boas não precisam falar. Sabem que um fazer basta.” “Nas coisas pessoais, eu via como meu pai e minha mãe eram generosos com os pobres, não apenas em bens materiais, mas em tempo, dando apoio emocional nas horas difíceis, guiando os jovens, e não falavam nisso. E observei como quem mais falava, como nas igrejas, obedecer a Deus, dar de si, antes de pensar em si, não praticavam, e eram os mais infiéis e os que menos faziam pelos outros.”

“E isso eu ia vendo na vida. Mas errei bastante, antes de acertar. Eu ia vendo, por exemplo, como os políticos prometem acabar com a corrupção, e são ainda mais corruptos que os antecessores. São os mais mentirosos. Vejam agora a tragédia do Brumadinho. Depois da tragédia igual de Mariana, os deputados reprovaram uma medida forçando a Vale a rever todas as centenas de barragens de lama de mineração que ela opera. Uma bancada no lamaçal. Mas não precisamos ir muito longe. Mais próximos de nós, nosso vizinho, estancieiro do lado, igualito a nosotros, falava muito, mas quando a vaca foi pro brejo, encheu a mala e se mandou, deixou todos pendurados, sabe-se lá que contas foram feitas. Minha mãe ensinava sem julgar, me ensinou a observar, que, quando a vaca vai pro brejo, a porca torce o rabo.”

PAUSA EDITORIAL

A Vale é o apelido da Companhia Vale do Rio Doce, ou CVRD, a maior mineradora do Brasil. Foi privatizada durante a gestão do FHC. Essa medida foi muito aplaudida pela direita, acreditando nas forças do mercado, e que freiariam a corrupção estatal, e criticada pela esquerda, mas que não tinha contra-argumento. A bancada é o apelido de qualquer câmara, estadual ou federal, ou mesmo municipal, e até o Senado Federal; neste caso usada para denominar os deputados federais. O político na lama é a gíria popular para dizer que esse político foi subornado para votar de uma maneira definida pelo subornador. A bancada no lamaçal é a corrupção geral, e usada ainda como metáfora à barragem de lama que desmoronou em Brumadinho (CE). A Câmara Federal votou essa medida submetida por ambientalistas e apoiada pela esquerda, depois da tragédia de Mariana (MG) em 2015, naturalmente, e os direitistas e os subornados votaram contra, sempre acreditando nas forças do mercado (e no poder da grana) e os mais radicais colocando os ambientalistas e a esquerda no mesmo saco, chamando a medida de conversa fiada de comunistas. E o governo do petista Fernando Pimentel autorizou em dezembro de 2018 uma expansão das atividades da Vale na mesma região do Ceará.

Quando a vaca vai pro brejo é uma expressão do campo, bastante usada. Em tempo de extrema sêca, seca tudo, seca o pasto, falta comida e água para o gado. O brejo, o pântano, é o último recurso, e o gado vai beber essa água, ruim que seja. O gado entra e se atola, não consegue sair sem ser puxado, içado, ou guinchado por um trator. É aquele período de grande dificuldade. No caso acima, significam aquela crise econômica que o fazendeiro vizinho não teve coragem para encarar. A porca torce o rabo também vem do campo. A porca, e o porco enfiam o rabo entre as pernas, quando ficam com medo.

UFA do Editor

O Chirú continuou. “Eu tive muita sorte. Conheci muita gente; gente boa e gente má; mentirosos e verdadeiros, fui aprendendo a distinguir, com os erros e acertos.”                                                                                                                                      O Chirú ia falando devagar, dando tempo para o chimarrão rodar, as cuias iam trocando de mãos, mas certamente para dar-nos tempo para digerir os novos pensamentos e informação.                                                                      Não era preciso falar mais nomes, dar mais exemplos. Tínhamos tudo claro na nossa frente. A informação vinha pelo rádio, televisão, nas canchas de bocha do povoado, e nos jogos de futebol inter-fazendas. “Mas Chirú, podes nos dar exemplo de erro teu?”  “Eu cometi enganos grandes. Por exemplo, iniciei acreditando no governo militar, admito. Pensava em disciplina e no fim da corrupção. Entrei naquele papo de que liberdade não é libertinagem.” “Mas rapidamente entendi que a vida nos quartéis é muito diferente da vida do povo, e que essa falta de vivência e de conhecimento de como uma democracia funciona, e de como os poderosos se mantém no poder usando o poder do dinheiro era uma falta de conhecimento de governo por parte dos militares importante.”

Mais um tempo, para digerirmos aqueles pensamentos, que o Chirú sabia nunca havíamos ouvido. “E percebi que os poderosos, os que têm dinheiro, se mantiveram no poder, patrocinaram o golpe militar e já tinham preparado os meios de se manter por cima.” Mais um tempo. “E que a falta de liberdade e de democracia, não resultam em disciplina. E que torturadores no poder não poderiam nos levar a um caminho certo. E que quem aplaudia isso eram os mais mentirosos.” “Eu cresci. Fui um forte exemplo que as pessoas crescem, mudam.”  “Mas Chirú, por que os outros não crescem?,” emendei. “Ernesto, penso que é mais um exemplo do que minha mãe dizia, o tal do falar é fácil, fazer é que são elas.” O Chirú seguia falando devagar e sem se empolgar.  “Essas pessoas que não crescem, ou porque nasceram em berço de ouro e não precisam crescer, nunca foram desafiados, ou não crescem porque mentem.” Mais mate para alimentar a conversa. “Pois quem mente, mente não apenas aos outros; mente também a êles próprios, mentem a si mesmo. E não crescem porque quem mente a si mesmo, vai continuar se enganando. Pensam estar sempre certos. E aí não conseguem crescer.” “Mas cada um de nós já viu isso. Qual de nós nunca errou? Mas conseguimos superar isso encarando. E assim mudamos e crescemos. Mas quem se engana a si próprio tem dificuldade. Esses reunirão falsidades em seu redor. E porque ninguém em seu redor lhes diz o correto. Não querem ninguém ao seu lado que discorde. Novamente minha mãe vem à lembrança. Quando a vaca vai pro brejo, a porca torce o rabo. As pessoas que mentem a si próprias não têm coragem de se olhar no espelho e se encarar, continuando a negar. E não entendem que as outras pessoas mudam, crescem, porque elas não mudam.” A noite já caíra, o céu sem lua brilhava como nunca, o Cruzeiro do Sul comandava as outras estrelas. No nosso céu gaúcho que sabíamos brilhar como nenhum outro. E nós havíamos extraído mais uma conversa com o Chirú, não precisávamos agradecer em palavras. As banquetas guardadas, os espetos limpos, o trempe limpo, as cuias lavadas e as bombas brilhando com as luzes do céu, as cinzas apagadas e coletadas, mais o nosso “Boa noite, Chirú” demonstravam na prática nossa gratidão. Por nós, pelas nossas famílias e pelos nossos filhos.

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