“Não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.”

Alessandra Manes

É impossível saber se a decisão de meus pais de deixar o Brasil estava certa ou errada. Na verdade, não acho que possa ser certo ou errado, é exatamente como é. Parece a decisão certa, mas é simplesmente porque não sabemos como as coisas teriam sido diferentes se tivéssemos ficado no Brasil. Eu sei que a decisão não foi fácil para eles. Deixando para trás todos e tudo o que sabiam para tentar oferecer melhores oportunidades para minha irmã e eu. Eu tinha apenas 4 anos e era muito jovem para entender completamente o que estávamos deixando para trás. Agora, como adulto, esta é a única vida que conheci, então é claro que acho que a decisão foi certa. Estou feliz com a minha vida e o que pude realizar nos EUA, mas isso não quer dizer que ficaria menos feliz no Brasil. De acordo com as circunstâncias, hoje parece ter sido a decisão certa. Houve momentos em que pareceu errada. Estar longe da família é cada vez mais difícil à medida que envelhecemos. Não ser capaz de compartilhar ocasiões especiais como aniversários, formaturas, casamentos, nascimentos sempre pesou muito em mim. Não estar junto de familiares doentes ou ir a funerais nunca é fácil. O certo é que sinto que a decisão nos fortaleceu como família e sou grata por isso.

“Não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.”

Com apenas 4 anos de idade, foi muito fácil me adaptar aos EUA. Lembro-me muito pouco da vida no Brasil, então não há como comparar. Aprendi rapidamente o idioma e me integrei aos colegas das escolas. Para meus pais, foi muito mais difícil deixar pra trás família, amigos, trabalho e cultura para viver num lugar onde tiveram que aprender o idioma e novos costumes. Não é surpresa que, ao tentar se adaptar, eles estabeleceram amizades com outros brasileiros imigrantes, como forma de não se sentirem tão longe do Brasil. Amizades estas, que se desenvolveram por anos e, hoje, tornaram-se como uma família. Isso ajudou a todos se sentirem mais confortáveis ​​com a transição. Essa nova “família” também garantiu que eu e minha irmã nunca perdêssemos o contato com a herança brasileira. Sempre estive conectada às raizes brasileiras. A capacidade de me integrar perfeitamente à cultura americana sem nunca perder a minha história brasileira, me proporciona o melhor dos dois mundos.

 

Sempre que Alessandra vai ao Brasil, este encontro com os primos é indispensável. Da esquerda para à direita, em pé: Lucas, Bruno, Rodrigo, Alessandra, Ana e Vinicius; sentados: Renato, Milena, Leonardo, Roberta, Claudia e Thais.

A pior parte é o fato de estarmos longe da família. Felizmente, a tecnologia ajuda a diminuir esta distância. Nos comunicamos regularmente por meio de aplicativos de vídeo e mensagens que, às vezes, nos esquecemos que um oceano nos separa. Sempre estamos conectados uns aos outros. Somos extremamente abençoados por termos ido ao Brasil e recebido os familiares aqui com frequência para matar saudades. Não é possível estar presentes em todas as festas de aniversário, casamentos, nascimentos e funerais. Durante a minha graduação, senti muito a falta dos familiares que amo profundamente e não puderam estar presentes. Um exemplo do efeito colateral negativo de viver longe. À medida que envelhecemos, isso fica ainda mais evidente. Emprego, agenda apertada e muitas responsabilidades nos impedem de viajar com a frequência que gostaríamos. Por isso costumo dizer: “não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.” Isto é uma ocorrência diária que nunca tem fim.

Uma das diferenças culturais mais importantes entre americanos e brasileiros está na conexão familiar. Os brasileiros dão muita ênfase nisso; algo que escolhi manter vivo para minha própria vida. Apesar da distância, estou mais perto da minha família no Brasil, do que muitos americanos que estão próximos de suas famílias que moram nas proximidades. Meus primos e suas esposas são como meus irmãos. Converso com eles regularmente e sinto que a distância somente reforçou os nossos laços familiares. Testemunho amigos americanos com pouco ou nenhum relacionamento com suas famílias. Outra diferença significativa entre americanos e brasileiros é como valorizam viagens pelo mundo. Os americanos parecem menos focados ou interessados ​​em explorar o mundo. Frequentemente, contentam-se em viajar dentro do próprio país, e não vêem benefício em se aventurar para fora da sua bolha de conforto. Muitos americanos que conheço nem possuem passaportes. Enquanto os brasileiros amam explorar o mundo. A maioria dos brasileiros que conheço já viajou para vários países em vários continentes e esse é um dos meus objetivos.

Para concluir, quero esclarecer que estou muito feliz nos EUA e não tenho planos imediatos de morar em outro lugar. Não quero me limitar de forma alguma e, por isso, sempre valorizo o fato de ter meus passaportes brasileiro e italiano, e manter a porta e a mente abertas, caso uma oportunidade na vida se apresente.

 

Em Orlando, Alessandra gosta de compartilhar seu tempo de folga com os pais, Maida e Eraldo,
com a irmã, Fernanda e com os sobrinhos, Leonardo e Gabriela

 

Alessandra Bellissimo Manes nasceu em São Paulo, SP, em 1986. Veio para Orlando, Fl com os pais e uma irmã, em 1990.
Estudou na Water Bridge Elementary School, Hunter’s Creek Middle School e Cypress Creek High School.
Graduada em Psicologia pela University of Central Florida, e Bacharel em Direito pela Barry School of Law, em Orlando.
Atua nas áreas de Família e Imigração.
Formada há 5 anos, Alessandra atualmente faz parte da equipe de John W. Foster, um dos mais respeitados advogados de Família da Flórida Central, no FCLC Group.