Apoio às causas climáticas

Bryan Caulkins

Como sou encarregado de gerir os Investimentos de pessoas e suas famílias, às vezes por gerações, eu e minha equipe temos que manter nossos olhos num horizonte de tempo maior do que somente os próximos 4 anos. Um pouco mais sobre o longo prazo mais abaixo.

Acredito que no curto prazo o governo Biden-Harris focará na “cura da divisão americana”. Visto que tivemos um governo radicalmente diferente da norma nos últimos 4 anos. Não houve indústria ou ramo da sociedade que não teve pedras viradas (ou atiradas) durante o governo Trump. Passado esse período, espero que voltaremos ao “novo normal” que conhecemos pós-pandemia, e que vai ser o “pós-Trump”.

Quanto a mudanças vindo de Washington, acredito que ainda temos que esperar a decisão de qual lado terá maioria no senado. O interessante é que historicamente o mercado financeiro tem melhores retornos com um governo sem os três níveis democratas ou republicanos. Ou seja, com o congresso e presidência democratas, e senado republicano, se a história se repetir, trarão melhores retornos à frente. A diversidade é realmente uma força poderosa.

Em se falando de diversidade, o sentimento que percebo nas conversas com concidadãos em geral é que o “average Joe” (expressão para uma pessoa comum) e a Kamala Harris, a primeira vice-presidente mulher, com ascendência negra e asiática e pais imigrantes, trarão um senso renovado de inclusão que foi intensamente atacado no governo Trump.

Já falando na minha especialidade, uma coisa que Wall Street vai observar intensamente é o aumento de impostos corporativos declarados durante a campanha do Biden. Tipicamente o governo democrata aumenta impostos e concentra no governo a responsabilidade de distribuir às partes vulneráveis do país. Contrastando com os governos típicos republicanos que preferem diminuir impostos corporativos e deixar que as empresas usem esse fluxo de caixa para contratar mais trabalhadores e assim fazer a distribuição de renda. 

A realidade é que, primeiramente, o aumento de impostos corporativos anunciado na campanha não é muito significativo. E segundo, há um movimento muito positivo para o mercado financeiro vindo do Federal Reserve, o Fed, ou o Banco Central dos EUA. Mesmo que haja maiores impostos, e isto significa piores resultados para as empresas já que terão menos lucro líquido, o presidente do Fed continuamente sinaliza que continuará, com força total, a políticas monetárias drásticas para ajudar a economia a se recuperar da pandemia. A injeção de dinheiro continuará em um nível sem precedentes, e isso deve injetar ânimo nos mercados financeiros, como aconteceu na década que seguiu a crise de 2008.

Outro âmbito que espero ver bastante contraste por parte do Biden (mas talvez não necessariamente mudanças, de novo isso pode depender do senado), é a tratativa internacional. O novo presidente, como um político de longa carreira pública, tem no seu histórico inclusive como vice-presidente um approach muito mais suave e colaborativo com os pares dos EUA e ao redor do mundo. E tem nas suas prioridades inclusive retomar as conversas sobre apoio às causas climáticas.

Em conclusão, os próximos 4 anos, até onde posso prognosticar, vão ser uma correção do curso, comparando a essa direção incomum que os EUA tomaram nos últimos 4 anos sob liderança do Trump. Mas é como sempre digo aos meus clientes, 4 anos dentro de um plano de vida não é muito tempo. O verdadeiro teste dessa nova direção vai ser o real interesse dos próprios cidadãos em abandonar a polarização que se alastrou no país em tão pouco tempo. E voltar a abrir suas portas para imigrantes e a diversidade, para continuar sendo a terra da oportunidade, que foi o que tornou os EUA o que é hoje.

Bryan Caulkins é um financial advisor, co-fundador da Proxy Financial. Apesar de ser americano, ecresceu no interior do estado de São Paulo, se mudando de volta aos EUA após terminar seu curso superior na Universidade de São Paulo. Com mais de uma década de experiência em Wall Street, trabalhou em quase todas as áreas da indústria de investimento. Bryan tem mestrado em investimentos da Universidad Adolfo Ibañez, no Chile, e MBA na Vlerick Business School da Bélgica. Atualmente reside em Orlando, Flórida, com a esposa e seus três filhos.