Arte em isolamento – Crônica de um tempo

Nereide Santa Rosa

O tema desta coluna sempre foi Arte e Você. Agora é tempo de Arte sem você.

Escrever sobre Arte e sobre os artistas brasileiros que atuam de forma brilhante nos Estados Unidos é sempre um prazer. No entanto, neste momento em que estamos vivendo um hiato nas produções artísticas, é tempo de algumas reflexões sobre o papel da Arte em nossas vidas, e sua função numa sociedade distanciada. Os efeitos desse isolamento na produção artística está sendo (foi) terrível. Museus e cinemas fechados, peças teatrais e espetáculos cancelados, shows populares sem previsão de acontecer, milhares de artistas e profissionais que atuam nesse mercado estão sem trabalho.

Música executada nas sacadas de apartamentos

Que tempo é esse que estamos vivendo?

A realidade de um tempo em que a Arte está suspensa.

Suspensa no pensamento e na ação, no conjunto ao vivo e em cores, de distanciamento ao invés de proximidade. Fomos surpreendidos e em poucos dias o mundo se transformou.

A arte está suspensa…

Não podemos sentir o palco, a sala de cinema, os sons e os burburinhos do público, o sinal de chamada, as falas e vozes de pessoas comentando os espetáculos, as risadas, as queixas. Não vemos os detalhes de uma bailarina se equilibrando na ponta das sapatilhas. Não vemos a beleza de um quadro na parede do museu, a textura da tinta, as pinceladas do artista, as cores e a sua identidade. Não vemos os músicos afinando seus instrumentos antes do concerto. E a respiração ofegante do maestro ao domar o grupo. O sorriso de êxtase ao final do concerto. Os sons da coxia. Os sons da orquestra. Restou o silencio, afinal. Não escutamos mais o silêncio do apreciar uma obra de arte. Não vemos o gesto e a expressão do ator ao entrar em cena. Não vemos os figurantes ao fundo caminhando sorrateiramente. Ou o diálogo carregado de uma emoção única que acontece apenas naquele momento numa peça de teatro. Nada substitui o momento da Arte. Que falta nos faz a Arte em carne viva!

Andrea Bocelli- Catedral de Milão, 12 de abril de 2020.

Mas, o mundo continua e Arte nos salva das ansiedades tanto para os artistas que continuam produzindo, escritores que continuam escrevendo, bailarinos continuam dançando em suas casas. Para o artista, o público é fundamental para que a sua mensagem e sua ansiedade sejam resolvidas, e surge a Arte online. Ao mesmo tempo, todos cantam, dançam, pintam e desenham em frente às suas telas ou nas suas janelas.

A arte continua ali, junto de nós. Em frente a tela do computador. Interagimos com artistas, amigos e desconhecidos, amadores e profissionais.

Apreciamos espetáculos que muitos não teriam acesso em teatros ao redor do mundo, operas, concertos, balés, ou mesmo um cantor solitário numa igreja em Milão que, sozinho, emocionou o mundo. Podemos frequentar museus de arte do oriente ao ocidente sem sair de casa.

Assim foi…assim será. A Arte não nos abandona. Ela está aqui, agora, em meu teclado. E chega ao mundo, até como forma de agradecer e celebrar os soldados desta guerra nos hospitais e nas ruas, entre os voluntários que transformam o mundo epidêmico em algo melhor e esperançoso. Sim a Arte também está lá. Logo sentiremos as mesmas emoções que a Arte ao vivo nos permitia, seja num jardim, seja numa sala de teatro. Logo sentiremos o aconchego do som, do ritmo, da música viva e palpitante. Logo ficaremos próximos de obras que nos encantam há séculos. Essa é a nossa História. Porque, afinal, sempre superamos os tempos ruins. Nossa História, nossa Arte. O encontro está marcado, enquanto isso leia um bom livro!

 

 

Nereide Santa Rosa
Arte-educadora e escritora especializada em Arte, História e Cultura. Escreve sobre arte-educação, biografias de artistas e exposições de artes. Atua como palestrante nos Estados Unidos e Brasil. Publicou cerca de oitenta livros, vencedora do Prêmio Jabuti. Publisher Manager da Underline Publishing LLC e coordenadora do Focus Brasil NY.
nereideschilarosanta@gmail.com