Brasil, celeiro de variantes do Covid-19

Roberto Rodrigues Junior

A Organização Mundial de Saúde aponta o Brasil como um possível celeiro de novas variantes do coronavírus, depois da cepa que surgiu no Amazonas. Muito mais contagiosa, causou uma explosão de casos no país. Para o pneumologista Roberto Rodrigues Júnior, a preocupação é legítima:

“Quanto maior o número de casos, e até pela própria natureza da evolução e replicação dos vírus, novas variantes surgirão naturalmente. Isto não significa que obrigatoriamente serão mais agressivas ou transmissíveis, mas sempre há esta possibilidade”.

O Brasil passa pelo maior colapso sanitário e hospitalar da sua história. Mas as medidas de contenção do vírus não são uniformes. O presidente Jair Bolsonaro é contra o lockdown e a medida está sendo adotada em algumas regiões por determinação dos governos estaduais.

O pneumologista ressalta que a “situação é extrema, estamos com todos os hospitais públicos e privados na capacidade máxima de atendimento”.

Mesmo assim, o ritmo de vacinação ainda é lento. Ele lembra que o país tem grande experiência em vacinação e capacidade para imunizar toda a população, mas faltam vacinas, apesar de estarem sendo produzidas por dois centros de pesquisa – o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz.

O médico Roberto Rodrigues Jr que também é coronel e professor universitário, diz que o governo federal demorou em fechar acordos para a compra de vacinas:

“Sofreremos alguns meses adicionais para conseguirmos a vacinação de toda a população elegível. Considerável número de pessoas ficarão doentes ou morrerão por não serem vacinadas em tempo hábil.

No intuito de recuperar o tempo perdido, o governo federal encomendou, agora, vacinas de diversas empresas farmacêuticas, mas os maiores lotes não serão entregues em curto prazo” – diz ele.

Na opinião do médico, faltou maior divulgação de mensagens para conscientizar a população da gravidade da doença e da importância do uso de máscaras. Ele critica também o chamado “tratamento precoce” sugerido pelo Ministério da Saúde:

“Os medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina, distribuídos pelo governo, comprovadamente não têm eficácia para a Covid-19; e, ainda, geram uma sensação de pseudosegurança na população – “se eu ficar doente basta tomar o remédio e curo”.

Para o médico, o Ministério da Saúde cometeu um equívoco ao não ouvir as opiniões das sociedades médicas brasileiras, em particular as de infectologia, pneumologia e de terapia intensiva, para traçar diretrizes de tratamento.

“Preferiu seguir aconselhamentos de pequenos grupos médicos que sugeriram tratamentos com base em experiências, por vezes individuais, sem a devida comprovação científica” – ele acrescenta.

Em relação ao lockdown o pneumologista também tem opinião diferente a do presidente da República:

“O lockdown é um remédio amargo, com muitos efeitos colaterais, mas que salva vidas em situação extrema. Portugal é um bom exemplo com grande redução no número de casos. Defendo a adoção de medidas radicais de lockdown nas regiões brasileiras mais acometidas, juntamente com estratégias para garantir adesão e eficácia; desenvolvimento de ações propiciando condições logísticas para a adequada adesão das pessoas às políticas de isolamento físico, especialmente nas regiões e populações em maior vulnerabilidade”.

Apesar do presente sombrio, o médico Roberto Rodrigues Jr se mostra otimista quanto ao futuro próximo:

“Após um ano de pandemia, aprendemos muito. A tarefa é extremamente complexa, estamos em guerra e o inimigo é invisível, mas já temos boa noção de como podemos vencer. A ciência é a nossa maior aliada neste momento, e nos forneceu ferramentas para identificar o vírus e tratar dos pacientes graves. Também ganhamos uma excelente arma de defesa, chamada vacina. Precisamos dos esforços de todos para juntos defendermos nossas vidas e daqueles que amamos. Ainda passaremos por momentos difíceis, mas temos um horizonte mais promissor e saudável”.

Roberto Rodrigues Junior Médico Pneumologista TE Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia

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