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A história de uma artista: Blima Efraim
Nereide Santa Rosa

Cores e formas revelam os sonhos e a realidade dos artistas. A arte comunica emoções, encanta pela estética e pela mensagem que transforma, inevitavelmente, quem a aprecia. E quem faz arte vai além, em busca de seu percurso único e surpreendente. Afinal as obras são escolhas ao longo da vida. Tive o privilégio de entrevistar a artista brasileira Blima Efraim. Suas palavras e obras exemplificam como se constrói uma arte visualmente intrigante.

Nereire: Descreva Blima Efraim.

Blima Efraim: Como filha de um pai artista plástico, minha paixão pela arte começou cedo; grande parte como resultado de sua influência. Hoje me considero uma contadora de histórias. Cada pintura que eu crio conta inconscientemente sua própria história. O universo que eu retrato é a visão de tudo o que existe. Meu objetivo artístico é observar o mundo e adivinhar a mente da natureza. Gosto de antecipar o futuro das coisas. Quase todos os meus trabalhos tem seu segredo e uma história complexa por trás de cada peça. Minhas pinturas são criadas com os olhos fechados, e tenho o prazer de convidar o mundo a ver as imagens do meu universo interior. Recentemente, comecei a trabalhar em alcool ink sobre papel Yupo, uma descoberta maravilhosa. Este material é feito de plástico reciclável, e suas propriedades permitem que minha arte seja preservada indefinidamente, reduzindo assim o desperdício e o impacto ambiental em nossa natureza.

Nereire: Conte um pouco sobre sua trajetória como artista visual.

Blima Efraim: Somente em meados de 2010 decidi me dedicar de corpo e alma às artes. Doei vários trabalhos para instituições como “Children’s Resources, “SOS Children”, “Gilda’s Club”, “Wizo”, “United Way of Miami”, entre outros. Em 2014, fui convidada a doar uma obra a uma organização sem fins lucrativos brasileira que ajuda crianças em extrema pobreza ao redor do mundo e me apaixonei pelo projeto, onde me tornei diretora por três anos. Daí em diante me envolvi com a comunidade brasileira na Flórida.

Nereire: Quais são os seus planos como artista visual?

Blima Efraim: Eu não sou do tipo que planeja, sou daquelas que abraçam as oportunidades quando elas aparecem ou batem a minha porta. Se eu sinto que não há muita arte em minha vida, aí sim corro atrás das oportunidades. Acredito no meu destino como artista. Meu trabalho é pintar todos os dias e desenvolver minha arte a patamares ainda não explorados por mim. Amo o que faço e faço porque nasci para isso.

Nereire: Conte tudo sobre o Visual Arts do Focus Brasil que você coordena.

Blima Efraim: O Focus Brasil Visual Arts Awards é uma plataforma incrível criada para dar aos artistas visuais brasileiros que vivem nos Estados Unidos, a chance de serem reconhecidos e prestigiados. Nossa noite de premiação é regada de um elegante jantar, com direito a show de artistas e personalidades convidadas, e sorteios de obras de arte. Os artistas vencedores escolhidos por nossa Academia votante do Focus, composta de mais de 70 integrantes, levam para casa um lindo troféu com seu nome, e o prestígio e reconhecimento que merecem. O Visual Arts Awards não promove e nem executa exposições de arte, somente premia os artistas visuais brasileiros que se destacam aqui na terra do Tio Sam. Para mim foi, e continua a ser um desafio essa minha missão de lidar com artistas. Eu sendo uma deles, sei como é difícil entender e sentir o quão sensível cada um é. Todos ganham um prêmio por ter essa coragem de nos expor por dentro e por fora. Um viva cheio de amor a todos vocês!

A Arte do Cartoon entre os brasileiros
Nereide Santa Rosa

Ao longo dos anos, desde as primeiras décadas do século 20, a arte de desenhar cartoons avançou a passos largos e se tornou mais uma mídia para representar o cotidiano das pessoas de maneira leve, critica e divertida. Em tempos como os atuais, em que a comédia se torna limitada por tantos pré-conceitos, as tirinhas das famosas Histórias em Quadrinhos deliciam os leitores de gibis, revistas e jornais impressos.

O cartunista se inspira em temas cotidianos, e em poucas imagens, transmite mensagens ao leitor que podem variar desde aventuras, situações dramáticas ou cômicas, situações do cotidiano, caricaturas de personalidades, e muito mais.

Nos últimos anos surgiram personagens antológicos que se perpetuam para além de seus criadores: Mafalda, Kevin, Snoopy, Monica e Cebolinha, Garfield, e evidentemente, todos os personagens do universo Disney, a começar pelo Mickey.

Walt Disney e Carmen Miranda, em 1943, no Hotel Copacabana Rio de Janeiro

Durante a segunda guerra, em tempos de bom relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, Walt Disney visitou o Rio de Janeiro. Na ocasião, ele conheceu o cartunista brasileiro J. Carlos que já desenhava na revista Tico-Tico. Reunindo-se com Carmen Miranda, outro ícone brasileiro da época, Disney criou o personagem Zé Carioca em 1943 nas salas do Hotel Copacabana Palace dizendo que era uma homenagem ao cartunista brasileiro.

O primeiro filme do Zé Carioca, Alô Amigos foi exibido em 1942, e o personagem se apresentava dizendo “Alô amigos, a vocês uma querida saudação, um gostoso aperto de mão. Amigos fazem assim, alô amigos”.

 

Aurora Miranda, irmã de Carmen Miranda no filme Los Tres Caballeros de 1944

O Zé Carioca ou Joe Carioca, como foi concebido inicialmente por Disney e sua equipe, teve a influência de um notório boêmio da noite do Rio de Janeiro, conhecido como Dr. Jacarandá, de quem Zé Carioca tomou emprestado o paletó, o chapéu e o guarda-chuva, e de um músico paulista, José Patrocínio de Oliveira, o Zezinho. A primeira história do Zé Carioca produzida para uma revista em quadrinhos foi O Rei Do Carnaval escrita por Carl Buettner para a revista Walt Disney’s Comics and Stories onde o personagem tenta conquistar uma jovem sambista inspirada em Carmen Miranda.

Em 1944, o roteiro das tiras de quadrinhos com Zé Carioca era escrito pelo norte-americano Bill Walsh e desenhado por Bob Grant e Paul Murry incluindo o personagem Panchito e do Pato Donald, no grupo conhecido como Los Tres Cabaleros.

Atualmente, a tira diária de jornal e, mais recentemente, os álbuns de quadrinhos constituem um veículo de arte sequencial. e o potencial dessa forma de arte foi ficando mais evidente em publicações vistosas para um público mais exigente.

As tirinhas são tipos de história em quadrinhos mais curtas, compostas geralmente de três ou quatro quadros e que na maioria das vezes circulam em jornais.

Os desenhistas de histórias em quadrinhos representam histórias de ação rápida nos desenhos dos movimentos dos personagens assim como nas palavras em diálogos rápidos e curtos, escritos em balões.

A história começa com uma situação, depois evolui para um problema e fecha com a solução pelos personagens. As palavras têm relação direta com a imagem.

Um dos maiores exemplos de sucesso de personagens de HQs são os super-heróis da empresa Marvel Comics, com fãs pelo mundo inteiro. A primeira HQ desse grupo foi lançada em 1939, mas o sucesso chegou com a popularização dos super-heróis Homem Aranha, Homem de Ferro, Thor, X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby. Hoje os seus personagens se expandiram para além das revistas de HQs aparecendo em múltiplas mídias como games, filmes de cinema, aplicativos, brinquedos e muito mais. O mesmo sucesso alcançado por Mauricio de Sousa no Brasil e que atualmente já repercute nos Estados Unidos.

Capas divulgação Monica Adventures Editora Papercutz, 2019.

Em 2019, a exposição “Portraits of Monica” aconteceu em Los Angeles com a presença do cartunista Mauricio de Sousa. Os personagens de Mauricio representam o sucesso da Arte brasileira em cartuns. Os gibis em ingles com A turma da Monica Jovem da editora Papercutz, podem ser encontrados nas lojas de comics em New York. Sucesso do Brasil!

 

 

 

 

 

 

Personagem Tipzik, 2020, criado pelo cartunista brasileiro Clayton

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nereide Schilaro Santa Rosa
Pedagoga, arte-educadora e escritora especializada em Arte, História e Cultura. Escreve sobre arte-educação, biografias de artistas e exposições de artes. Atua como palestrante em instituições educacionais, organizações não-governamentais nos Estados Unidos e Brasil. Publicou cerca de oitenta livros, vencedora do Prêmio Jabuti em 2004 pela coleção “A Arte de Olhar”, e outros prêmios conferidos pela Fundação Nacional do Livro Infanto juvenil, no Brasil. Esta coluna é um espaço dedicado a comentar arte e divulgar artistas brasileiros(as) que trazem aos Estados Unidos sua contribuição para o cenário artístico mundial. nereideschilarosanta@gmail.com
Três personalidades de sucesso nos EUA
Nereide Santa rosa

Escrever sobre Carlos Borges, Yara Maura e Fernanda do Valle nos orgulha e nos mostra como o brasileiro faz sucesso no exterior. Os três são nomes relevantes no meio empresarial e no cenário artístico e literário internacional, tendo em comum o fato de serem escritores, além de palestrantes e empresários e o reconhecimento da comunidade brasileira nos Estados Unidos, e no mundo. Seguiram carreiras diversas mas são exemplos de perseverança, excelência profissional e sucesso. Conheça um pouco mais de cada um.

CARLOS BORGES

Jornalista, produtor e diretor, Carlos Borges, radicado há 30 anos nos Estados Unidos e realizador de inúmeros eventos culturais internacionais. Atualmente é o CEO do Focus Brasil Foundation que congrega brasileiros ao redor do mundo valorizando seus empreendimentos e cultura brasileira. Em seu primeiro livro “Observando Estrelas”, ele compartilha revelações, narra fatos desconhecidos do grande público e comenta depoimentos sobre a história da mídia televisiva no Brasil e a sua estreita relação com as celebridades.

NSR: Qual foi a sua intenção ao publicar o livro “Observando Estrelas”?

CB: Eu já tinha esse desejo de contar essa incrível história de convivência com grandes ídolos. Tendo a origem que eu tive, numa família de recursos limitados, eu nunca imaginaria que isso pudesse acontecer. Então, o “Observando Estrelas” tem essa dupla mensagem. A de que sonhar vale sempre a pena porque tudo é possível se você se joga com paixão e comprometimento. A segunda é a observação dessas estrelas.

NSR: Quais as suas ações e próximos eventos nos Estados Unidos?

CB: Quando esta edição do Jornal B&B estiver nas mãos dos leitores, nós da Fundação Focus Brasil ainda estaremos diante de mais 4 eventos até 15 de dezembro. Por volta do dia 20 de dezembro estaremos divulgando nosso calendário 2020, que terá grandes novidades.

NSR: Mande uma mensagem para nossos leitores.

CB: A mensagem é de que nunca se deixem levar pelas vibrações negativas de quem quer que seja. Seja seu proprio herói. Um herói com bom senso, respeito e amor ao próximo. Assim, você vence sempre!

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YARA MAURA SILVA

A paulista Yara Maura Silva é autora e produtora teatral, cronista, poeta, letrista, jornalista, desenhista e conferencista e executiva Internacional. Como Vice Presidente Internacional da MSP em New York, Yara Maura foi responsável pela promoção e pelo lançamento de publicações, produtos e desenhos animados, com os personagens criados pelo seu irmão, Mauricio de Sousa, em cinco continentes. Atualmente Yara Maura é Presidente da I.M. Licensing & Publishing International, Inc. em New York City. Nos livros de Yara Maura, ilustrados com a Turma da Mônica, os assuntos são apresentados em forma de textos em versinhos. Yara profere palestras ao redor do mundo em apoio as causas do Ensino de Português como língua de herança. Condecorada em Paris em 2015 com a “Médaille d’Or de la République Française”, recebeu o diploma de “Honneur Aux Femmes et Hommes de Valeur” e o título de Vice Presidente de Honra da Divine Academie Française des Arts Lettres et Culture.

NSR: Quais serão os seus próximos compromissos nos Estados Unidos?

YMS: Tenho que atender a uma cerimônia no BEA no fim do ano para receber um título especial. Existem datas especiais em que sou convidada a falar sobre algum assunto, como por exemplo Dia da Criança, Dia Nacional da Língua Portuguesa, e no Aniversário do BEA. Os demais compromissos são no exterior.

NSR: Mande uma mensagem para os nossos leitores.

YMS: O Jornal Brasileiras e Brasileiros tem sido um elo importante entre os Jornalistas e a Comunidade Brasileira dos Estados Unidos. Eu me sinto honrada em estar ao lado de escritores que admiro: Carlos Borges e Fernanda do Valle neste artigo da Nereide Santa Rosa, uma das organizadoras do bem sucedido “Encontro de Escritores Brasileiros nos Estados Unidos” em New York.

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FERNANDA DO VALLE

Formada em Turismo e Fotografia, nasceu no Rio de Janeiro, filha do inesquecível jornalista Luciano do Valle, formou-se pelo The New York Institute of Photography. Desde 2015 vive na Pennsylvania, é palestrante e escritora.

NSR: Qual foi a sua intenção ao publicar o livro “Eu, ele e a enfermeira…na luta contra a anorexia”?

FV: Em 2008, quando eu estava internada para tratar a minha anorexia, procurei publicações de pessoas que tivessem vivido o que eu estava vivendo, para que pudesse entender melhor o meu processo, sentir-me menos sozinha e até mesmo receber uma palavra de esperança, de encorajamento. Ainda internada, decidi escrever a minha história com o objetivo de ajudar outras pessoas que sofrem com os transtornos alimentares. Foi um grito aos meus leitores “Hey, você não está sozinha (o)”.

NSR: Quais as oportunidades que surgiram a partir da sua publicação?

FV: A melhor oportunidade que surgiu após a publicação do meu livro foi poder, através da minha obra, ajudar outras vidas. Eu queria apenas tocar a alma, o coração de quem estivesse lendo. Transformei a minha doença em um propósito.

NSR: Quais as suas ações e próximos eventos nos Estados Unidos?

Acabei de participar do Primeiro Encontro de Escritores Brasileiros em NY, organizado pelo Focus Brasil. Agora, estou lançando no Brasil o meu novo projeto Liberte-se: Você nasceu para ser real, não perfeita. O projeto engloba o lançamento do meu novo livro, de mesmo título, junto com uma exposição de fotos também de minha autoria. O Liberte-se chega para mostrar a diversidade dos corpos, em suas formas, idades e etnias. O lançamento da versão em inglês do projeto Free Yourself: You were born to be real, not perfect já está agendado para 2020, em alguns pontos dos USA. Também estou trabalhando na tradução do “Eu, ele e a enfermeira… na luta contra a anorexia” para o inglês.

NSR: Mande uma mensagem para nossos leitores.

FV: Um dia de cada vez! Não deu hoje? Tudo bem. “It´s okay”. Não se puna, não se cobre. Afinal, você nasceu para ser real, não perfeita (o).

Da Caipora ao Halloween! Travessuras ou gostosuras?
Nereide santa Rosa

Esta é a caipora, entidade fantástica da mitologia tupi, muito difundida na crença popular do Brasil, uma variante da lenda do curupira. É associada às matas e aos animais de caça, e se diz que vaga pela floresta aterrorizando as pessoas. Nessa obra do pintor brasileiro Lula Cardoso Ayres, o caipora é assustador.

CAIPORA. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra5827/caipora>. Acesso em: 17 de set. 2019. Verbete da Enciclopédia. Lula Cardoso Ayres, 1945, museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Para quem vive na América, a cultura do susto e das brincadeiras de aterrorizar tem data e horário. O Halloween é uma festa de origem celta e chegou por aqui com os irlandeses no século XIX e tem relação com o fim do verão. Acontece na véspera do Dia de Todos os Santos, dia 31 de outubro que passou a ser conhecido como Dia das Bruxas.

No México é nessa mesma data que as festas começam para comemorar o Dia de los Muertos. A arte popular mexicana manteve o culto e as homenagens aos mortos presentes na cultura pré-colombiana. A festa dos mortos, em homenagem aos antepassados, é comemorada anualmente de 31 de outubro a 2 de novembro. Trata-se de uma grande festa popular realizada com alegria, música, comidas e bebidas, fogos de artifício, fantasias e adereços com imagens de caveira e até mesmo desfiles de carros alegóricos.

As máscaras de caveira são usadas nas ruas e servem de tema para bonecos, doces e alimentos típicos.

 

BONECOS DE CAVEIRA, tradicionais na festa dos mortos.

Mas foi nos Estados Unidos que surgiu a tradição moderna de “doces ou travessuras”. Há indícios disso em brincadeiras medievais que usavam repolhos, mas pregar peças tornou-se um hábito nesta época do ano entre os americanos a partir dos anos 1920. Hoje, o Halloween é o maior feriado não cristão dos Estados Unidos. Em 2010, superou tanto o Dia dos Namorados e a Páscoa como a data em que mais se vende chocolates.

Para quem viajar a Las Vegas, o Halloween estará presente até fevereiro do próximo ano na grande exposição sobre as obras de arte inéditas de Tim Burton no Neon Museum. O cineasta também é artista visual plástico e suas obras em estilo gótico estão na exposição O mundo de Tim Burton.

 

 

Cartaz divulgação O mundo de Tim Burton – Neon Museum Las Vegas

Ao longo dos anos, o Halloween foi “exportado” para outros países, entre eles o Brasil. Ao mesmo tempo, vem ganhando novas formas e dado a oportunidade para que adultos brinquem com seus medos e fantasias de uma forma socialmente aceitável. As lendas, os mitos que envolvem essas tradições remontam a séculos e é muito divertido poder comemorar ou participar de festas tão antigas que ainda fazem sucesso.

E por que esse sucesso? O místico é fascinante e atrai a curiosidade das pessoas. A dança, a arte das máscaras e fantasias, os sons são manifestações que evocam sentimentos de proteção e fazem com que lidemos com mais tranquilidade a imprevisibilidade da vida.

Nesta obra o artista brasileiro representou um dos personagens do Bumba meu Boi chamado Jaraguá, considerado um ser que representa o mundo sobrenatural.

 

 

JARAGUÁ, Lula Cardo Ayres, 1941, do Bumba-meu-boi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra12233/jaragua-do-bumba-meu-boi>. Acesso em: 17 de set. 2019. Verbete da Enciclopédia.

O Bumba-meu-Boi é uma festa com simbolismos culturais importantes: o Boi como figura fundamental para a produção pecuária e da agricultura da época colonial, a resistência dos africanos, a presença do xamanismo indígena e a presença portuguesa na referência cristã sobre a superação das dificuldades através da ressurreição do Boi. A festa surgiu nas áreas pecuárias do Brasil no século XVIII, na região do estado do Piauí, como crítica aos problemas sociais da época: contando e representando a história do Boi que ressuscita. Com o passar do tempo, a representação foi adquirindo influências portuguesas e indígenas nas músicas, nos ritmos, e assimilando novos personagens.

Tarsila do Amaral também se inspirou no mundo das lendas ao representar a Cuca, que é um mito inspirado nas bruxas europeias, as mesmas que inspiraram a festa do Halloween. Tarsila pintou o quadro “A Cuca” no começo de 1924 e o descreveu como “um bicho esquisito, no meio do mato, com um sapo, um tatu, e outro bicho inventado”.

A Cuca, Tarsila do Amaral, 1924

Da Caipora ao Halloween, da Cuca ao Dia de los Muertos mexicano, as comunidades comemoram o desconhecido, o real e o imaginário, com travessuras ou gostosuras. Todas são maneiras de lidarmos com o sobrenatural como válvula de escape de uma realidade que pode ser até mais assustadora. Happy Halloween for all!

Escultoras brasileiras se destacam no cenário internacional

Na história da arte, a participação de artistas mulheres foi aumentando ao longo do tempo. Mas não foi um caminho fácil. O reconhecimento das obras feitas por mulheres artistas foi lento e por muito tempo, com pouca representatividade.

Ocomércio de obras de arte começou na época do Renascimento com o aparecimento de mercadores e banqueiros na Europa ocidental, e a arte começou a ser objeto de status social entre as classes emergentes da época. Os artistas renascentistas se tornaram reconhecidos e valorizados. Nesse tempo poucas artistas pintoras se destacavam e eram proibidas de assinar suas obras, não frequentavam ateliês, não tinham contato com modelos vivos, nem realizavam afrescos. Os temas que sobravam eram os retratos e as naturezas-mortas. Algumas aceitavam encomendas na qualidade de artistas de ofício, como as italianas Properzia De Ross e Sofonisba Anguissola, que chegou a se tornar a pintora oficial na corte do rei Felipe II. Mas a primeira mulher a ser admitida na Academia de Desenho de Florença, no ano de 1612, foi Artemisia Gentileschi que obteve a permissão para pintar cenas narrativas e religiosas. Recentemente sua vida foi tema para livros, filmes, peça de teatro e documentário de TV.

Waltzing Matilda, Alice Aycock, Marylin L. Mennello Sculpture Garden, Orlando, – imagem da autora do texto

Os tempos sombrios para as artistas mulheres começaram a se dissipar lentamente pois séculos depois, a famosa e tradicional Escola Nacional de Belas-Artes, em Paris, ainda restringia a presença de mulheres entre seus alunos. A Academie Julian, em Paris, fundada em 1868, só permitiu a frequência de mulheres em 1897. No início do século XX, ali estudaram as pintoras brasileiras Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Georgina de Albuquerque e as escultoras brasileiras Nicolina Vaz e Julieta de França.

A arte modernista no Brasil com Malfatti e Tarsila foi decisiva para abrir caminho a nomes como Lygia Clark, Djanira da Motta e Silva, Tomie Ohtake, Ligia Pape, Beatriz Milhases, Leda Catunda, e tantas mais. Nos Estados Unidos, surgiu o movimento da arte feminista na década de 1970, que fez crescer a conscientização do papel feminino nas artes visuais. Hoje podemos apreciar a arte feita por mulheres em diferentes suportes, desde pinturas, gravuras, instalações, vídeos, literatura, esculturas que mostram a sensibilidade e a crítica do olhar feminino para o nosso cotidiano. Mas ainda existe um árduo caminho a se conquistar, para que haja real oportunidade de expressão a mulheres artistas de todos os segmentos da população, sem nenhuma distinção.

Entre as escultoras brasileiras que vivem nos Estados Unidos, três nomes se firmaram no cenário internacional das Artes: Elizabeth Freire, Frida Baranek e Fernanda Frangetto.

 

Liminaridade 1, Frida Baranek, 2019, malha de metal galvanizada pintada dourada Aproximadamente 320 x 200 x 200 cm. Foto gentilmente cedida pela artista para publicação no JornalBB.

A obra de Elizabeth Freire consiste em esculpir em mármore, terracota, bronze em maquetes. Expôs em espaços públicos como o Art Museum of the Americas em Washington e na Ann Norton Foundation em West Palm Beach. A proposta de Frida Baranek, artista brasileira que vive entre New York e Miami, vai muito além dos materiais tradicionais escultóricos. Suas obras são geralmente construídas com materiais industrializados. E é exatamente no uso dessa diversidade de formas que a artista representa seu olhar, sua intenção, sua crítica e expressão.

Curiosidade, transcendência, novos olhares e perspectivas fazem com que o trabalho de Frida se apresente em múltiplas facetas. Sua obra está presente no National Museum of Women in the Arts, em Washington, entre outros.

Fernanda Frangetto é mais um nome que se destaca no mundo das artes. Brasileira residente em Doral, Flórida, suas instalações trazem mensagens e significados contemporâneos, integrando temas e discussões, ideias e conceitos aos espaços. Ela mesma explica “Para mim, escultura é a arte de pintar em três dimensões.” As obras de Fernanda puderam ser apreciadas no Hall in the City of Doral e no Consulado Geral do Brasil em Miami.

Com muito orgulho, celebremos estas três mulheres artistas, três brasileiras, três escultoras. Legitima arte brasileira em toda a sua dimensão.

 

Instalação Band (escultora Fernanda Frangetto e sua obra), Doral Goverment Center, Doral-Fl-Imagem gentilmente cedida pela artista para o JornalBB. Fotografia: Toddy Holland.
Tempo de primavera, tempo de ver arte
Nereide Santa Rosa

Neste ano, tivemos a boa notícia de que a marmota Punxsutawney Phil saiu da sua toca por volta das 7h30 da manhã, e não viu a sua sombra! Na tradição americana e canadense, isso significa que a primavera chegará radiante em poucas semanas. Diz a lenda que, em 2 de fevereiro, o dia da Marmota na cidade de Punxsutawney na Pensilvânia, se a marmota Phil sair da toca, vir a própria sombra, e regressar, haverá mais seis semanas de mau tempo. Neste ano, ela não viu a própria sombra e a cidade vibrou com a notícia. Simples assim. Tradição centenária de um país onde o inverno é extremamente rigoroso. Neste ano, a esperança se renova, com a promessa de uma linda primavera. E para aproveitar a nova estação, nada melhor do que muita Arte, visitando espaços ao ar livre e museus.

Nos meses de fevereiro e março acontecem inúmeros festivais de arte que proporcionam aos floridianos, a oportunidade de conhecer artistas pessoalmente, e apreciar obras de variados gêneros e estilos.

E é na Central Flórida, no terceiro final de semana do mês de março, que acontece o mais antigo e prestigiado festival de arte ao ar livre. O Winter Park Sidewalk Art Festival tem sessenta anos e este ano reúne 225 artistas que expõem, gratuitamente, na praça central de Winter Park. Uma festa para os olhos, com arte para todos os gostos que atraem mais de 350.000 visitantes. Caminhando entre as tendas dos artistas e os jardins da praça, os visitantes podem apreciar pinturas, esculturas, gravuras, desenhos, em materiais como aquarelas, óleo, acrílico, assemblage, xilogravuras, ferro, vidro, madeira, barro, e muito mais. Cada curva do caminho oferece uma surpresa ao transeunte. Uma festa que valoriza o artista e reconhece a liberdade de cada um representar esteticamente sua proposta.

Winter Park Sidewalk Art Festival – imagem de divulgação no site oficial https://www.wpsaf.org/

Para aproveitar ainda mais a primavera, um passeio a Miami também pode ser agradável.Caso esteja planejando conhecer um pouco mais sobre arte latino-americana, e prestigiar os artistas brasileiros, o Pérez Art Museum Miami, é uma excelente opção. Localizado a beira da Bay Biscayne, cercado por uma paisagem extremamente generosa na luz e no brilho, o museu oferece espaços amplos com arte de qualidade, exposições de sua coleção permanente e as temporárias. Um dos destaques é o jardim das esculturas com obras de renomados artistas, perfeitamente integradas ao espaço, como a obra do artista brasileiro Ernesto Neto.

Ernesto Neto, Espaço divisório mínimo, 2008 Cor-Ten steel. Collection Pérez Art Museum Miami, gift of Jorge M. and Darlene Pérez. Imagem da autora.

No interior do museu, as obras agradam pela diversidade de temas, e mídias, despertando a curiosidade do observador, intrigando pela forma e pelo contexto. Tudo isso faz com que a visita não seja monótona. Pelo contrário, desperta o pensar e a criticidade. O museu destaca obras dos artistas latino-americanos, de sua coleção permanente, na exposição The Gift of Art. Entre cubanos, mexicanos, colombianos, e chilenos, vale destacar a obra do brasileiro Tunga que predomina em uma das salas.

Tunga, Element 5, 2014, iron., bronze, steel plaster, rubber, Crystal quartzo, linen. Collection Pérez Art Museum Miami. Imagem da autora.

Tunga é um dos artistas mais importantes da arte contemporânea brasileira. Ficou conhecido como o alquimista por se inspirar em ritos ancestrais e tradições milenares em suas esculturas, instalações e performances, sempre de grande impacto e significado. A obra denominada Elemento 5, feita em 2014, é composta de ferro, alumínio, bronze, cristal de quartzo, borracha, linho, terracota e gesso. Uma composição que faz referências a elementos tradicionais brasileiros como os potes de cerâmica organizados verticalmente sobre a armadura de aço. Os cristais de quartzo estão no topo e na base da obra, elementos místicos como se fizessem parte de um rito cerimonial antigo. O linho cria um contraponto com a verticalidade quebrando a aparente harmonia dos elementos superpostos. Seria uma bandeira branca? E a composição seria uma referência feminina? A interpretação fica a critério do espectador.

Se a primavera é tempo de tradições e lendas, nada melhor do que descobrir como a arte representa significados que vão além de um simples olhar. Descobrir as mensagens nas obras de arte é fascinante. Seja numa sala de museu, seja nas ruas e praças públicas.

 

Frank Stella, Quadrant, 1988, mídia mista sobre alumínio. Collection Pérez Art Museum Miami. Imagem da autora.

Mardi Gras é universal, samba é carnaval!
Nereide Santa Rosa

Nós, brasileiros que moramos no exterior, sempre que possível, buscamos referências de nossa Pátria. Mesmo distante ela está nas memórias, nas emoções e lembranças. Para a maioria, a arte e a cultura são formas de resgatar essas heranças e raízes. Sons, imagens, movimentos contextualizam nossas tradições.

Nossa Arte e cultura são a nossa Pátria. Ela está conosco no Hino Nacional tocado num estádio de futebol, ou no desfile de uma escola de samba. Aliás o samba é um dos links que usamos para relembrar nosso país. O ritmo do samba significa Brasil! E samba significa carnaval!

A palavra samba teve origem de semba, que significa umbigada, um movimento usado no batuque e em várias danças de origem africana. Ao praticar a umbigada em reuniões, os africanos tinham oportunidade de se comunicar e fortalecer suas raízes. O semba deu origem ao samba, e outras variações de cantos e danças como o samba de roda proclamado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

O leitor pode se perguntar por que o ritmo do samba é tão envolvente? A explicação está na construção do ritmo. Nós percebemos com facilidade o ritmo de uma música pela combinação das batidas mais fortes chamadas acentos e das mais fracas chamadas pulsos. Os músicos geralmente marcam o acento no início da melodia seguido pelos pulsos. No samba é diferente: o ritmo é sincopado, isto é, primeiro vem o pulso depois o acento. Isso causa um efeito sonoro de tensão e excitação e é por isso que, ao ouvirmos o samba, queremos sair dançando. Os ritmos sincopados africanos se espalharam pelo mundo, entre outras influências, se tornaram a origem do jazz e do samba. Nos Estados Unidos, essa matriz rítmica africana, chamada swing, deu origem ao blues e ao jazz, do qual derivou o rock e a música pop contemporânea. No Brasil, a sincope como base rítmica está no choro, no lundu, no batuque e é claro, no samba. E é no Carnaval que o samba se destaca. Apesar de ser uma referência cultural para os brasileiros, o carnaval não é uma festa brasileira. Aqui nos Estados Unidos, a tradição carnavalesca surgiu em Nova Orleans, com o Mardi Gras, palavras francesas que significam terça-feira gorda. O carnaval já existia na Antiguidade com animadíssimas festas para comemorar o fim do inverno e início e o renascer da primavera. Entre outras coisas, a diversão era inverter os papeis sociais: poderosos representavam os menos favorecidos, os palhaços se tornavam reis, homens se vestiam de mulheres, e assim por diante. Daí o uso de máscaras e adereços para compor os personagens. Assim o Carnaval cresceu e se expandiu e os símbolos antigos são usados até hoje, inspirando músicos e artistas. No desfile Mardi Gras deste ano da Universal Studios em Orlando, sob o tema Party Animals, há 12 carros alegóricos onde poderemos ver fantasias e máscaras que já eram usadas pela Commedia Dell’Arte renascentista, como os chapéus de três pontas com guizos nas pontas e as belas máscaras ainda comuns ao carnaval de Veneza.

Máscara veneziana, Veneza, 2014, imagem arquivo pessoal da autora.

No Brasil, a história do carnaval iniciou-se no período colonial com o entrudo, que era uma brincadeira de jogar água entre as pessoas nas ruas. Mas, a antiga tradição dos cortejos africanos, os Congos, aliada à música tocada nos saraus do Rio de Janeiro no início do século 20, fez nascer ranchos, ou grupos de músicos, que saíam pelas ruas tocando sambas e choros no bairro Estácio de Sá no Rio de Janeiro. Como havia uma escola de magistério naquele bairro, dizia-se “O Estácio fornece professores do samba!” e assim nasceu a escola de samba Deixa Falar, que desfilou pela primeira vez em 1928. O resto da história todos conhecem. O tempo passou e a tradição permanece, pois onde há brasileiros, há muito samba.

Aqui na Flórida, um grupo de brasileiros e de norte-americanos com samba no pé, criou a Escola de Samba Sambalá que além de desfilar pelas ruas de Boca Raton, fornece aulas de bateria e de dança. Muito ritmo e muito samba no sul da Flórida. No início de março, o Brasil será todo alegria, seja nos bailes dos clubes, seja nas ruas com os desfiles das escolas e os cortejos com trens elétricos, os frevos, maracatus, afoxés, e muito mais. É tempo de festa. É tempo de samba! É tempo de saudades!

Escola de Samba Sambalá, 2019, imagem cedida por David de Hilster, crédito de Ingrid Imroth. Visite o site: http://www.sambala.org/home/
Nereide Santa Rosa

ARTE E VOCÊ 

 Nereide Schilaro Santa Rosa

Nereide Schilaro Santa Rosa – Pedagoga, arte-educadora e escritora especializada em Arte, História e Cultura. Escreve sobre arte-educação, biografias de artistas e exposições de artes. Atua como palestrante em instituições educacionais, organizações não-governamentais nos Estados Unidos e Brasil. Publicou cerca de oitenta livros, vencedora do Prêmio Jabuti em 2004 pela coleção “A Arte de Olhar”, e outros prêmios conferidos pela Fundação Nacional do Livro Infanto juvenil, no Brasil. Esta coluna é um espaço dedicado a comentar arte e divulgar artistas brasileiros(as) que trazem aos Estados Unidos sua contribuição para o cenário artístico mundial. nereideschilarosanta@gmail.com

Romero Britto: a marca de um artista

Ao pesquisar, estudar e escrever sobre brasileiros de sucesso nos Estados Unidos se torna inevitável comentar Romero Britto, esse artista que adotou o mundo como sua casa desde a década de 1980.

As formas de Romero Britto cativam milhares e custam milhões. As linhas definidas, as cores sem sombras, as formas simplificadas de suas obras são reconhecidas em múltiplos países. Romero Britto se tornou um ícone, além de ser uma celebridade internacional. Ele criou uma marca que encanta diferentes culturas e povos pela singeleza do seu design.

Muitas pessoas podem se questionar por que isso ocorre? Qual seria o motivo de seu sucesso?

Com certeza há múltiplas justificativas pessoais, como perseverança, acreditar em si mesmo, criatividade.

Mas vamos conversar sobre o apreciar de suas obras. O que vemos e como elas nos cativam? Por que as suas obras se tornaram marcas de produtos diversificados, retratos de celebridades, esculturas comemorativas, roupas, adereços e muito mais?

Para começo de conversa, imagem é comunicação. As imagens produzidas por Britto são extremamente comunicativas: quem as aprecia, imediatamente reconhece a forma e a fácil mensagem do artista. Essa proximidade do publico é um meio que facilita a transmissão da mensagem e auxilia a captura do olhar de quem a aprecia. Nas suas obras não existe um ponto focal na imagem: ele ocupa todo o espaço, define toda a composição. Não há partes que se destacam.

Quando decidiu ser artista, Romero, nascido em Recife em 1963, foi em busca de uma linguagem visual que representasse um mundo colorido, alegre, positivo. No período em que esteve na Europa, Britto ficou fascinado pelas cores de Matisse, pelo cubismo de Picasso, pelo uso das linhas de Mondrian. Mas tudo isso ainda não era o suficiente para o artista. Atravessou o oceano e veio para Miami. Aqui a pop art de Andy Warhol já estava consolidada desde a década de 1960, assim como a arte de Roy Lichtenstein, inspirada em grafismos de história em quadrinhos, e de Keith Haring cujos grafites coloriram os muros de New York com mensagens ativistas.

Eram tempos de arte pública, de arte próxima do público, de proximidade entre arte e mercado. Romero Britto assimilou esses tempos, e criou imagens voltadas para o grande público se engajando nos caminhos da globalização. Ganhou espaço tanto no mundo da Arte como no merchandising.

Detalhe do Houston Mural, Keith Haring, New York

Desde então, as cores puras intensas inseridas em formas estilizadas são apreciadas tanto em galerias, museus e leilões, ou por transeuntes em praças, assim como estão disponíveis para qualquer pessoa que queira adquirir produtos decorativos com sua assinatura.

Britto diversificou sua produção, avançando com voracidade para o mundo comercial, fato que se tornou possível a partir da valorização da sua produção como artista. Romero Brito escolheu relacionar sua identidade, forjada na infância nas ruas de Recife, a uma marca reconhecida nas cidades do mundo.

Quem passa pelo terminal 8 no Aeroporto JFK em New York encontra a escultura de sua autoria como uma mensagem de boas-vindas da cidade. A obra representa New York e foi doada por Eunice Kennedy Shriver em 8 de junho de 2011. É muito provável que a maioria dos passageiros que passam por ali, reconheçam seu design, cujo conceito também está presente num objeto decorativo que leva sua assinatura e está disponível para venda em uma vitrine num centro comercial.

Com tanto sucesso tornou-se inevitável que sofra críticas, análises mais profundas, estudos acadêmicos, e alguns críticos ferozes. O leitor mais crítico pode se perguntar se suas obras seriam uma arte acessível ou uma marca comercial? Trata-se de um objeto decorativo ou de um objeto artístico?

É bom lembrar que arte representa ideias, conceitos e intenções de quem a produz e para quem é produzida. As obras de Romero revelam uma dicotomia entre a obra que permanece além dos tempos e um produto feito para consumo global.

Romero Britto continua em sua trajetória. Hoje é uma celebridade que realiza inúmeras ações sociais contribuindo para instituições renomadas ao redor do mundo, inclusive teve a honra de ser selecionado várias vezes como porta-voz das artes no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Realmente um brasileiro marcante num mundo tão diversificado.