Procurar por:
O Oriente Médio (novamente) em chamas

Peter Ho Peng

Parte III – A guinada mundial

O que há então de novo? O mundo repudiou Israel nesse conflito. A Europa quase inteira (menos a Hungria, não me perguntem por quê) irá reconstruir a Palestina. Não classificaram publicamente as ações de Israel de Terrorismo Estatal, mas para o bom entendedor meia palavra basta. Mesmo dentro de Israel os oponentes do primeiro-ministro Netanhyahu se unem para fazer um governo de coalizão, que substitua o atual. Essa coalizão vai de A a Z, compreende todo o espectro político do país. A maldade das “margaridas” israelenses foi tão óbvia que os judeus mundiais não querem se identificar com essas flores. A Anti Defamation League, organização judia anti-zionista, tradicionalmente liberal e associada à esquerda americana, está quieta.

Quem fez Israel foram os americanos, após a Segunda Guerra, e, com a simpatia mundial, após o holocausto, foram com tudo em cima dos palestinos, apropriando-se de suas terras paulatinamente. Houve retaguarda militar de outros países, mas não se enganem: foram os americanos que fizeram Israel. O século XX foi o século da pax americana; tudo que se fazia no mundo era feito com um só corretor: os EEUU. 

O dinheiro da ajuda humanitária mundial vai reconstruir a Palestina, mas deveria ser totalmente dinheiro americano; quem fez a cacáca foram eles, mas o resto do mundo vai ter que limpar. Porém os americanos estão dando uma guinada na sua política. Tradicionalmente o Partido Democrata sempre foi o maior apoiador de Israel. Agora a política atual de Israel não encontra eco no Partido Democrata. A condenação a Israel veio principalmente dos congressistas democratas. Enquanto Trump e Netanyahu, o chefe de Israel, eram gêmeos univitelinos, agora mesmo o Partido Republicano está em silêncio. Leitores do B&B, vós notastes esse silêncio? 

Biden prometeu ajudar na reconstrução de Gaza. Com um pequeno caveat, mais para inglês ver: diz que vai canalizar a ajuda americana não para Hamas, que os EEUU chamam de organização terrorista, mas vai canalizar dinheiro para a Autoridade Palestina, um governo que não funciona, corrupto e disfuncional. E sempre afirmando seu apoio incondicional a Israel. Biden tem que ajudar na reconstrução de Gaza. Claro, foram eles que fizeram o estrago. Como posso fazer essa afirmação? 

Aqui tem um dito popular: Follow the money = Siga o rastro do dinheiro. Como o seu dinheiro, ou o nosso dinheiro, os impostos que pagamos, como isso contribui para a guerra no Oriente Médio? Simples. Grande parte dos fundos americanos que vão para Israel, são arrecadados via um canal que o IRS (Internal Revenue Service) chama de 501(c)(3). São ONGs, filantropias que vivem de doações, os doadores recebem abatimento do imposto de renda. Judeus americanos, ricos ou não, e americanos simpatizantes com as vítimas do holocausto, contribuem para Israel. Existem mais de 20 tipos de ONGs 501(c). Mas essa filantropia é solicitada para pesquisa e desenvolvimento, educação, defesa, coisas desse tipo; não poderia ser destinada para ataque, destruição e ocupação. É evidente que os helicópteros Apache e suas bombas são usados singularmente para ataque e destruição. Nenhum contribuinte para Israel quer se identificar com o que Israel fez agora. Israel sempre fez isso, mas agora passou da linha. Aqui o IRS não dá moleza. Vejam o próprio Trump enroscado com o IRS. Essa torneirinha pode e deve ser fechada. Mas será fácil mudar de roupa.

Um probleminha: Como exército ocupacionista, Israel controla tudo que entra e que sai da Palestina. Essa ajuda humanitária, para reconstruir hospitais, escolas, usinas de tratamento de água e esgoto, moradias, vai ter que pagar imposto de entrada, os custos do exército ocupacionista para abrir,  vistoriar, inventariar, conferir, reconferir, fechar e lacrar cada contêiner. Fazer todo esse trabalhão deve custar os olhos da cara; digamos, 30% do valor dos conteúdos de cada contêiner. A nossa famosa rachadinha, vestindo outras roupas, ternos e chapéus pretos. 

Mostrei nos artigos anteriores como os EEUU, esse mesmo país, ele próprio, foi construído da mesma maneira que Israel vai sendo, destruindo a Palestina, no caso atual; e os americanos destruindo os nativos, no caso anterior. Os americanos dão aulas de moral ao resto do mundo, mas para quem conhece História, os EEUU não possuem autoridade moral para dar lições de moral ao mundo. O pobre Biden, com todos os seus pepinos que tem por aqui, ainda tem que descascar abacaxi no Oriente Médio (abacaxi plantado e cultivado por eles mesmos). O Biden fala ainda no “two-state solution”, a criação de um estado palestino, que possa conviver pacificamente com um estado vizinho. Eu não creio na sinceridade disso; afinal, fala-se nisso desde que Israel existe. Enquanto isso, o seu plano de tentar usar investimento estatal feito com dívida orçamentária para infraestrutura vai sendo diluído pelos republicanos. Mas o investimento estatal em tecnologia para combater a China vai em frente.

Já que falei na China, notaram que eles ficam quietos nesse questão do Oriente Médio? É da cultura chinesa não botar azeitona no pastel dos vizinhos. E os americanos, vivem fazendo isso, botando azeitona no pastel dos outros, enquanto os seus pastéis estão furando e afundando no óleo, já preto de tanto uso. 

Minhas previsões: 

– Os quadros do Hamas vão engrossar exponencialmente.

– Netanhyahu vai ser despojado do poder e vai enfrentar a justiça israelense por corrupção. Israel vai ter nova liderança mas não vai mudar.

– Se houver alguma solução, não será liderada pelos EEUU. Ninguém mais acredita em  pax americana. É simples: os EEUU tem um montão de problemas neste momento. China. Covid. China. Orçamento. Fraude eleitoral. China. Racismo. Xi. Aquecimento global. Mais racismo. As iniciativas republicanas para supressão eleitoral. 5G. Captação de recursos para financiar seu plano de investimentos estatais para competir com a China. Inflação. Eleições de 2022. Tratado nuclear com o Irã. China. Os 30% da população que não quer ser vacinada. Furacões. De novo  China. Ai ai ai. Sim, o Biden bem que gostaria de dizer: danem-se vocês aí no Oriente Médio. Mas ele tem que estar no meio da confusão. E falando sempre pelos dois lados da boca, pois não pode perder votos em 2022. E em 2024 tem a volta do Trump. Fraude eleitoral vai sair da primeira página. Voltará a China à primeira página.

Balanço final. Quem venceu essa guerra? Não foi Israel. Não foram os EEUU. Não foram os civis palestinos. Não foi Hamas. Não foi o povo de Israel. Não foram os judeus externos que sustentam Israel com doações.  Não foi Netanyahu. É isso.

Um velho argumento – Parte II

Como o inevitável acontece (em três partes) – O Oriente Médio (novamente) em chamas 

Peter Ho Peng

Esse argumento de antepassados de há várias gerações terem sido donos de alguma terra sem história formal de posse, é bastante antigo. Quando os mórmons tomaram à força as terras dos nativos-americanos do Estado de Utah, usaram o argumento que essas terras haviam sido originalmente colonizadas por habitantes da Galiléia, antepassados dos mórmons, que teriam sido navegadores há milhares de anos, antes dos chineses e dos espanhóis, italianos e portugueses. Depois, os nativos-americanos de Utah teriam roubado essas terras dos antepassados dos mórmons. Assim, essa nova geração de fanáticos fundamentalistas estariam simplesmente reavendo a terra de seus antepassados. Nenhuma marca de alguma cultura que não seja a nativo-americana existe em Utah, e nenhuma evidência existe de que os antigos israelitas tenham sido navegadores. Mas nada disso importa: o que importa é que a liderança mórmon doutrinou seus seguidores e justificaram moralmente suas ações militares contra os nativo-americanos. Mentira funciona; os próprios mentirosos acabam crendo nelas.

Isso foi feito não apenas em Utah, mas foi feito em toda a América, Canadá incluso. A recente declaração do ex-senador e candidato a presidente dos EEUU Rick Santorum, que os EEUU construiram uma nação a partir do zero, perpetua esse tipo de mentira e abuso.

Voltando à Palestina

Como você se sentiria se fosse despejado de sua casa, que foi a casa de seus pais, seus tios, seus avós, sob a alegação de que sua terra pertenceu, há várias gerações passadas, a judeus? Não há prova de propriedade de nenhuma parte, pois a Palestina não é um estado constituído. 

Hamas atacou em protesto. E quando Hamas atacou Israel com bombas, Israel atacou com aviões e helicópteros Apache, soltando bombas precisas, com o argumento de estarem destruindo os túneis construídos por Hamas. Os generais de Israel declararam que seu objetivo foi destruir Hamas, fazer impossível seu re-erguimento. Porém esse argumento cai por terra quando vemos o saldo dos bombardeios israelenses: mais de 50 hospitais, escolas, templos, e centenas de pequenos negócios, prédios residenciais e escritórios foram destruidos na faixa de Gaza, centro do território onde moram os palestinos. 

Plantas de desalinização de água, estações de tratamento de esgoto, todo esse tipo de infraestrutura foi destruído por Israel. Ao todo,1800 prédios foram arrasados, a maioria residências e pequenos negócios. Apenas 20% dos túneis foram destruídos.  O que Israel destruiu não foi Hamas. Foi o resto da Palestina, Israel destruiu a Faixa de Gaza inteira, inclusive o que os palestinos chamavam de Champs Elysées- a avenida com as melhores lojas e prédios em Gaza. Civis indefesos.

Durante a segunda guerra, o filho de Benito Mussolini que pilotava um avião bombardeiro se divertia bombardeando grupos de civis indefesos, chamando isso de “margarida” – a forma dos corpos espalhados em torno do ponto central da bomba, como as pétalas da flor. Eu sei o que é maldade quando vejo uma. Eu sei que os judeus fazem maldades na Palestina. Não há outro termo para descrever a ocupação, os despejos e destruições de uma civilização. Para mim é um genocídio lento, deliberado. É Terrorismo Estatal.

O médico Dr. Abu al-Ouf do Hospital al-Shifa, chefe do grupo de atendimento a vítimas do covid-19, morreu soterrado num desses bombardeios, junto com doze membros de sua família, incluindo pais, esposa e filhos adolescentes. O comando militar israelense declarou que fez o necessário para Hamas nunca mais se reerguer. Mas o que fez foi para os palestinos nunca mais se reerguer. Hamas foi o bode expiatório. A mensagem de Israel foi clara: vocês, palestinos, não valem nada, exceto para nossos pilotos desenharem margaridas no solo. Cerca de 300 civis pereceram, incluindo 66 crianças. Quem são os terroristas? A estratégia de Israel é clara. Apagar a Palestina dos mapas. O restinho que sobra no mapa da Figura 2. Na próxima edição, e no terceiro e último capítulo desta série, dissertarei sobre o que mudou nessa equação.

Uma velha guerra, mas uma nova guerra…Parte I

Como o inevitável acontece (em três partes) – O Oriente Médio (novamente) em chamas

Peter Ho Peng

Devido às nossas limitações de espaço, trataremos desse tema em três capítulos, e, ainda assim, todos sintéticos, pois o tema dá muito pano para mangas. No primeiro tomo, mostrarei por quê essas guerras são inevitáveis. No segundo, tentarei mostrar como os Estados Unidos criaram e mantêm esse panorama. No terceiro, mostrarei o que há de novo nesse cenário, e o que mudou nessa equação.

Como sabemos, em História nada sabemos. Segundo bem disse Harry Truman (o vice do FDR), ‘As únicas novidades que existem no mundo são aquilo que nunca nos foi contado.’ (História é escrita pelos vitoriosos.) De novo, guerra no Oriente Médio. E tudo se encaminhava para o mesmo escaninho da História quando aparentemente a equação mudou. O que mudou? Aguardem os próximos JB&B!

Como começou essa guerra? Como sabemos pelos textos bíblicos, os judeus foram expulsos do Egito, numa guerra territorial. Moisés comandou os judeus que sobreviveram caminhando 40 dias e 40 noites pelo deserto e chegando à costa, partiu o Mar Vermelho ao meio, conforme os livros sagrados, escapou da África, e iniciou os dois mil anos dos judeus vivendo em pogrom – diáspora. 

Em diáspora, conhecemos bem a perseguição que os judeus sofreram, tendo como exemplo supremo o nazismo e Auschwitz. Com o repúdio ao nazismo, e sua derrota na Segunda Guerra mundial, os judeus sobreviventes ao genocídio foram acolhidos mundialmente. E o movimento para apoiar o retorno dos judeus ao seu território histórico começou a tomar corpo. Tudo que foi feito depois da vitória dos Aliados contra o Eixo foi liderado pelos EEUU. O século XX foi o American Century, e as guerras, as ditaduras, tudo fez parte da Pax Americana. O novo estado de Israel foi a moldura de ouro desse quadro. Era a hora de voltar à sua terra histórica. O problema foi fazer isso sem negociação com os que ocupavam esse território que os judeus pensavam ser seu território original. Os americanos lideraram, financiaram e armaram o novo Estado de Israel, que se instalou nesse território, dando um chega prá lá, a cotovelada aos seus vizinhos. Cotovelada armada, pois os americanos estavam por cima do mundo, e a superioridade militar que eles deram aos judeus era infinita. Estado Ocupacionista pura e simplesmente, desde então e para a eternidade, ou até a destruição total da Palestina.

Começando com cem mil e poucos habitantes, o novo Estado de Israel foi atraindo mais e mais imigrantes, pois quem não quer voltar para sua terra? E os israelitas foram expandindo gradualmente seu território, e dando sempre um ‘chega prá lá’ aos palestinos. Imaginem agora, com uma população de quase dez milhões.  Do seu território original, Israel ocupa hoje mais de 100 vezes a área inicial, se bem que a maior parte consiste de desertos. Com esse defeito de origem, as guerras são inevitáveis. A maioria do Estado de Israel consiste de territórios ocupados à força, dada a sua grande superioridade militar. Porém a grande vantagem dos israelitas foi haver organizado um estado que funciona, ocupando territórios onde não existia um estado organizado. Armados militarmente pelos americanos, e intelectualmente por conhecimento de judeus do mundo todo, Israel prosperou tremendamente. Sim, os séculos após séculos de diáspora vão formando, geração a geração, aquela mentalidade competitiva, não fìsicamente, pois os judeus não se destacam atlèticamente em nenhum esporte, mas se preparam intelectualmente. O exemplo pinacular, é claro, Albert Einstein. O exemplo militar é o arsenal de 200 bombas nucleares que Israel detém (atualmente).

O primeiro grande esforço de Israel foi produzir alimentos no deserto. Sem água doce, Israel desenvolveu primeiro métodos de desalinização de água do mar. Mas não pararam aí. Israel é hoje um país com alto nível de educação, renda, saúde, expectativa de vida, e alto em todos os parâmetros usados para medir qualidade de vida e desenvolvimento. Na pandemia recente, serviu de exemplo. 

Mas sua formação teve um defeito de origem que nunca foi solucionado. O Estado de Israel não foi negociado. Foi feito na marra. À força militar, ocupando territórios ocupados por outro povo, os palestinos. E até hoje é mantido por força militar. O mais recente “conflito” foi precipitado pelo despejo de seis (6) famílias palestinas de suas casas geracionais para fazer lugar a imigrantes judeus. As ações de despejo são justificadas por um velho argumento: essas terras são nossas: nossos antepassados eram donos desses terrenos. Como a Palestina não é um estado organizado, tem governos disfuncionais, não possui mecanismos para contestar esses argumento israelitas. Os novos imigrantes judeus são radicais, armados e completamente identificados com o método do “chega prá lá” ou da cotovelada. A ação de despejo é de demolir totalmente o que foi construido nesses terrenos contestados, e esse foi o estopim da recente guerra entre Israel e Hamas. Hamas é o braço armado dos palestinos, e é classificado pelos EEUU como uma organização terrorista. 

Para milhões de palestinos, essa rotina da ocupação israelita faz parte da humiliação diária que o Estado ocupacionista lhes inflinge.

Muhammad Sandouka construiu sua casa há mais de 15 anos. Ele e seu filho, nascido nessa casa, demoliram essa casa, para resgatar materiais de construção depois que as autoridades israelitas decidiram que a casa deveria ser arrasada para melhorar a vista dos turistas do Templo nos arredores. O Sr. Sandouka, 42 anos de idade, instalador de cozinhas, estava trabalhando quando um inspector confrontou sua esposa com duas opções: Demolir sua casa, resgatando os materiais de construção, ou o governo de Israel iria arrasar tudo e cobrar dez mil dólares da família pelos seus custos. Assim é a vida dos Palestinos sob uma ocupação militar. Sempre sob o pesadelo da visitas das autoridades que vestem a estrela de seis pontas; o terror perene daquele “knock on the door”.

O que faz um poeta?

Peter Ho Peng

Lembranças do meu amigo Mario   

Mas como, Pedro, o nome do teu amigo não é proparoxítona? Não leva o acento agudo no á? Sim, é proparoxítona, mas ele é o Quintana! O Mario não leva acento! Quintaneiro, Mario escrevia quintanares (conforme Cecília Meireles) para nós, fazia quintanices conosco. Ah, meus amigos brasileiros, não sabeis o que perdestes!

(Frases soltas)

…até onde irá a procissão dos postes, unidos, pelos fios, à mesma solidão?

Senhor! Que buscas Tu pescar com a rede das estrelas?

De que me serve o molho de chaves, se joguei todas as minhas no mar?

Nasci em Shangri-La… Pois quem foi que não nasceu em Shangri-La?

As folhas enchem de fffs as vogais do vento…

Vidas e poemas têm a certeza do anacoluto…

(Sobre Camões): Seu nome retorcido como um buzio

(Poemas)

Um poema é como um gole d’água

bebido no escuro

Como um pobre animal

palpitando feri-i-i-do

Como uma pequenina-moeda-de-prata

perdi-i-i-da para sempre

na floresta escura…

____________________

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Primavera cruza o rio

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu.

Ficou girando, girando.

Em torno do catavento

Dancemos todos em bando.

____________________________________________________________________________

O mundo é fragil / Cheio de fremitos / como um aquário

O que faz um poeta? Escrever poesia? Eu acho que não é bem isso. O poeta é um amigo que faz todo dia ser um bom dia para lembrarmos dele. Como um parente, duas ou três gerações à parte, não importa. E como um parente, pode ser lembrado ou sorridente e bem tratado, ou ferido, com dor. Lembranças podem trazer alegrias ou tristezas. E suscitar perguntas. Algumas difíceis de responder. 

Como pode um escritor com um acervo tão extenso, tendo, ao longo mais de meio século, escrito doze livros e publicado várias antologias, e tendo traduzido Proust, Conrad, Voltaire, Virginia Woolf, Maupassant, Balzac, Graham Greene, Merimée, e outros, e ter sido admirado por Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, como pode esse ser, patrimônio da humanidade de um país, ter sido despejado do hotel onde morava, e onde morou por longos anos, foi deixado apenas com uma mala na calçada, sem um tostão, aos 70 anos de idade. Não apareceu ninguém naquele povoado para pagar a conta!!! 

Aí apareceu o craque Falcão, nosso imortal camisa 5 (e olha que sou tricolor doente); e, sem alarde, o hospedou em seu hotel pelo resto de sua vida, por mais 18 anos. E tudo que escrevia, o fazia à mão, sobre papel. Como pode esse acervo ter sido ignorado por mais de doze anos por aquela gente, até que um instituto do centro do país o hospedou e hoje o preserva como riqueza inequalável? Como pode esse patrimônio cultural nacional ter sofrido esse risco de ter sido danificado e perdido? Como pode o Mario ter sido rejeitado por duas vezes para a casa de Machado de Assis, até que ele rejeitou uma terceira candidatura? Bem, agora aquele primeiro hotel que para mim ficou malfadado, depois foi tombado e virou a Casa de Cultura Mario Quintana, mas, como dizemos aqui, too little, too late. 

Tudo isso vale a pena rever, é o nosso auto-retrato, como sociedade, como povo. É um exercício de auto-conhecimento. Será que adianta? Não acredito, mas tento. Ah, antes que me esqueça, tem post-scriptum. Fiz uma sacanagenzinha. Inseri duas penguices no meio das quintaneiras… Foi o jeito de eu estar ao lado do meu amigo. 

MARCO Maciel, Edmar Bacha, Fernando Henrique Cardoso, Jose Sarney, Arno Wehling, Evanildo Cavalcanti Bechara, Domicio Proenca Filho, Rosiska Darcy de Oliveira, Paulo Coelho.

O Plano Biden

Peter H Peng

Peraí um pouquinho. Estou confuso. Os americanos passaram os últimos vinte anos atacando a China por interferências estatais na economia, com acusações variadas; dirigismo, manipulação da moeda, competição desleal, pelo estilo chinês de estimular a economia com instrumentos políticos, subsídios, ou seja, ferramentas estatais. Por isso a enxurrada de barreiras tarifárias que já existiam, mas foram multiplicadas por Trump, aumentando as tarifas de importação sobre um número de produtos, tipicamente por um fator de 250% a 400%  (digamos, de 5 a 20% ou de 10 a 28%) e inserindo mais uns 40 novos itens na lista de espera. Havia um cronograma para esses novos items entrarem no pau, com a intenção de chamar a China à mesa de negociações. A China veio e negociou várias pausas nas tarifas e retorno de outras aos níveis anteriores, com o compromisso de compra de produtos agropecuários, mas a negociação parou no meio do caminho, por acusações mútuas de não-cumprimento de cláusulas.

Agora o Biden apresenta um plano econômico cópia-carbono do que a China faz há anos, propondo uns US$2 tri em investimentos estatais. Cerca de 3 trilhões de dólares já foram alocados para vários programas de auxílio Covid, contando o primeiro programa do Trump.  Segundo boatos particulares, os democratas tem programas na manga-da-camisa para mais 8 bilhões de dólares de investimentos estatais, ou gastos, segundo os republicanos. Simplificando, nessa primeira etapa, esses 2 tri seriam gastos, ou investidos, segundo os democratas, em obras de infraestrutura, incluindo pontes, estradas, incluindo uma rede de 500 mil postos de abastecimento de veículos elétricos, banda larga, habitação e qualidade de vida, creches, escolas, casas para atendimento de pessoas de terceira idade, pesquisa e desenvolvimento. Um item que chamou minha atenção foi a substituição total de tubulações de chumbo, que existem há décadas ou quase um século, nas construções mais antigas. Ao chumbo se atribui um retardamento do desenvolvimento cerebral de crianças, limitando seu potencial intelectual e comprometendo sua saúde futura. Como o país mais rico do mundo não fez isso antes? Resposta: por que os habitantes do país mais expostos ao chumbo eram os pobres, pessoas de cor, moradores nessas áreas comprometidas.

Investimento estatal para aumentar a competividade americana tem um alvo único: a China. Os EEUU precisam de um empurrão estatal para competir melhor. Por si só, o mercado não se mostrou suficiente para a América produzir a custos competitivos, nem em hardware (materiais e equipamentos) nem software (tecnologia). A demanda americana não gerou a oferta; conforme a teoria das leis do mercado, a demanda cria a oferta, e as duas pontas vão se equilibrando.

Os republicanos se opõem ao Plano Biden, chamando isso de Cavalo-de-Tróia para o Green New Deal. Seria um comecinho de gastos governamentais, contendo futuros passos imparáveis: uma vez que uma obra se inicia, precisa ser terminada, ou abandonada a grande custos, ou seja, a prejuízos completos. O Green New Deal estaria disfarçadamente escondido dentro disso. Alexandria Ocasio-Cortez, mais conhecida como AOC, deputada federal por Nova Iorque, é uma figura odiada pelos republicanos, e seria a eminência parda por trás disso. Quem é AOC? Pessoa de cor, foi motivo de chacota dos republicanos por ter trabalhado como barista, ou garçonete de bar. Convenientemente, eles esquecem que AOC saiu de uma família imigrante pobre em Nova Iorque para atender a Boston University, uma das pontas intelectuais americanas (escola de uma das minhas filhas também). AOC capitaneia a New Left, ou Left-Wing, a ala esquerda do Partido Democrata, aliada a Bernie Sanders, senador independente do Estado de Vermont. A ala esquerda do partido democrata quer um novo New Deal, no estilo do New Deal que Franklin Delano Roosevelt implantou para tirar o país da Great Depression, só que agora é o Green New Deal, programa de criação de empregos e distribuição de renda centrada em energia verde, projetos de proteção ao meio-ambiente e reversão da mudança climática. Os republicanos não vão apoiar, clamando que infraestrutura são apenas as obras tradicionais: pontes, estradas, e coisas do tipo.

A herança do reaganismo e do thatcherismo, a idéia de um governo minimalista, está se mostrando. Os EEUU foram paulatinamente se dividindo, resultando em dois países, dentro do mesmo território. Acumulação de riqueza de um lado e empobrecimento do outro. Um país rico e outro pobre. A divisão social só aumenta, e a cisão é brutal. Não há quase nenhum ponto de contato entre essas duas metades americanas, que definitivamente tem um componente fortemente racial. 

O plano Biden claramente procura remediar a situação. Grande parte do programa desse plano é restituição, sem contudo ter esse nome. O que é restituição? É uma devolução do que o escravismo causou aos negros durante os 402 anos desde que os primeiros escravos foram trazidos da África. Impossível quantificar uma reparação aos descendentes dos escravos, dos linchamentos, raptos, estupros, todo tipo de abuso. Por isso, o uso do termo “reparação” não tem futuro aqui. O termo “restituição” pode ter melhor aceitação. Alguns componentes desse plano: mais moradia, transporte, creches, escolas, casas de passagem, hospitais onde existe maior déficit desses componentes sociais; as áreas de negros. 

O partido republicano não dará um único voto para esse plano. O interessante é que o plano Biden contempla reparar esses déficits que se encontram também em zonas rurais, predominantemente de brancos pobres, republicanos. A desigualdade social não é apenas entre brancos e pessoas de cor. É também entre os americanos urbanos e os rurais.

O plano Biden propõe uma escala mais progressiva nos impostos, aumentando o imposto de renda corporativo (IRPJ) de 21% para 28%. O termo progressivo (não tem nada a ver com o termo progresso, gente!) ainda não pode ser aplicado; poderíamos dizer; uma escala menos regressiva, e só, pois ainda é uma escala regressiva. Igualmente haverá uma nova escala de IR pessoa física para rendimentos maiores do que 400 mil dólares anuais. Esse plano tem amplo apoio popular (inclusive dentre os eleitores republicanos); todos consideram justo que quem ganha mais tem que contribuir mais. Considerem que apenas 5% da população tem renda acima de US$400 mil anuais. Considerem que cerca de 100 das 150 maiores empresas americanas não pagaram um único centavo de IR no ano passado.

A China não fala nada, apenas sorri. Afinal, os americanos estão aprendendo direitinho a lição. Observem como a mídia reage: não se fala mais em governo chinês dirigindo a economia, competição desleal, etc.

O mais curioso ainda é que a China está justamente completando esse ciclo de investimentos na cadeia de suprimento estimulando a oferta. Eles fizeram isso o suficiente, e estão com a oferta competitiva organizada. Agora estão preparados para fazer justamente o contraponto: estimular a demanda. Saibam o seguinte: assim como os republicanos se opõem a essa manobra de “imprimir dinheiro” julgando esse intrometimento do estado na economia um desperdício, uma hipoteca a ser paga pelas novas gerações, na China também houve uma oposição. Essa oposição usou o termo “jogar dinheiro pela janela,” para classificar a incompetência da burocracia estatal chinesa em investir. E esse grupo político está em peso atrás dessa mudança da política de estímulo da demanda. O estímulo da oferta que a China praticou criou disparidade social. A nova política que veremos na próxima década tem a intenção de reverter isso. 

Que bicho vai dar nesse jogo? Qual é o número do dragão? Quem vende bilhete por aí? É isso.

Entendendo um outro mundo

Peter Ho Peng

Tao, visão do mundo através de um prisma oriental 

Os leitores do B&B estão cansados de saber que escrevo sobre a China. Este artigo joga uma nova luz no mapa, e prometo, não é repeteco. A demanda por informações sobre a China decorre das surpresas que a China apresenta a cada curva da estrada. As inovações  tecnológicas são tantas; porém novas tecnologias são fáceis de explicar e entender. São ciências lineares, basta conectar as linhas. O difícil de entender são as mudanças disruptivas num mercado, numa sociedade, ou para usar o termo da moda, mutações do ecosistema. É difícil entender evoluções que requerem mudanças mais ou menos radicais no modo de pensar, pois cultura é entranhada em cada um de nós. Como um cara mais ou menos bi-cultural, eu posso entender melhor os dois lados. O entendimento da China e das empresas chinesas pode ser melhor esclarecido se passarmos pelo tao, um prisma que filtra a luz que a China vê.

​Uma boa analogia encontrei no Página/12, um jornal argentino; intelectual como a nossa Piauí. Esse jornal argentino discorre sobre a filosofia taoísta, do yin e yang, o claro-escuro, luz-sombra, positivo-negativo, quente-frio, a unidade dos opostos, o equilíbrio, e usa o tao para explicar as surpresas com as quais os chineses nos presenteia. Página/12 inicia descrevendo o platonismo e o tao mostrando aí as diferenças entre duas visões do mundo: a grega (origem do pensamento Ocidental) e a chinesa (Oriental). Para Platão (~400 BC), o filósofo-pai de todos Ocidentais, antes de iniciar uma ação, é necessário traçar um plano. Hoje os herdeiros do platonismo fazem um plano de operações e rolam planilhas, muito Excel nas nossas vidas. Os generais ocidentais tecem um plano ou modelagem no qual calculam um número de mortos e feridos, nas tropas aliadas e nas inimigas, chegando a um ponto de inflexão a partir do qual o inimigo se rende incondicionalmente. Os homens-de-negócio tecem um plano ou modelagem que culmina numa curva de crescimento e num cálculo de taxa de retorno. Não é à toa que os generais ocidentais que sobem ao topo são os especialistas em logística.

​Já o clássico chinês “A Arte da Guerra”, por SunZi, também escrito Sun Tzu, ~500 BC, ignora essas questões: seu eixo é o “potencial da situação”. Este estrategista oriental não parte de uma modelagem, ou planejamento, mas do estudo de cada contexto: como a água, deve-se encontrar o declive natural. O bom general oriental faz a avaliação constante dos fatores favoráveis e desfavoráveis para ambos os lados: qualidade e quantidade das tropas, seu moral, competência dos generais, relação do rei com seu povo. Pesando os fatores, eles criam um quadro de guerra sem se prender a um plano que expirará rapidamente, no calor do combate. Ainda usando a metáfora da água, ela conforma-se ao objeto que coabita o seu espaço, assim como as artes marciais usam a força do adversário para derrubá-lo. “As tropas vitoriosas são aquelas que venceram antes de entrar no combate; os perdedores são aqueles que só buscam a vitória no momento do combate ”. Tudo acontece antes, na fase da paciência. O heroísmo não existe. Essa “falta de mérito” é o grande mérito.

​O exemplo de guerra de mais recente memória foi a Guerra do Vietnam. O Ocidente nunca entendeu como os americanos perderam a guerra do Vietnam, dada sua tremenda superioridade militar e o seu uso sem restrição moral de bombas de napalm, o desfoliante que destruía as florestas vietnamitas eliminando assim os supostos esconderijos dos vietcongs. Os EEUU se prepararam para a grande batalha, quando o inimigo jogaria a toalha, mas os vietcongs frustraram o confronto: eles gradualmente desmoralizaram os americanos com a guerra de guerrilhas, até que os americanos deram no pé. Fugiram, literalmente. Aqui se diz: a guerra do Vietnam foi ganha no asfalto da Quinta Avenida (5th Ave. – rua central de Nova Iorque ). Lembram da Jane Fonda? E vejam como está hoje o Vietnam, apenas 50 anos depois. De um país atrasado, e arrasado tanto pela guerra com os americanos como por séculos de colonização francesa (bárbaros, que deixaram terra arrasada por onde passaram, por exemplo, por toda a África), hoje, com 40% da população do Brasil, tem uma economia pujante, que passa voando em ritmo por cima da nossa, já equiparada em PIB per capita mas com muito melhor distribuição de renda e custo de vida muito menor, ou seja, o poder aquisitivo é superior. É o país que mais cresceu em 2020, enfrentando o Covid-19, mais do que a China, que foi a única economia entre os desenvolvidos que cresceu em 2020 (2,8% no Vietnam contra 2,3% da China).​

Como isso se repete em negócios e em mutações sociais? 

Permitam-me dar um exemplo que conhecemos de perto. O Uber iniciou e dominou por muito tempo os aplicativos de automóveis de aluguel. A China abriu as portas ao Uber, que tinha o plano de monopolizar esse mercado na China, como já havia feito em outros países. A leitura deles era que o Didi, o Uber chinês, que tipicamente usa frotas com padrão mais baixo, não iria resistir a um modelo superior. De repente o Didi deu um nó no Uber, o absorbeu e o Uber abandonou seus ativos na China. O Didi no Brasil é a 99, que já opera em mais de 300 cidades brasileiras. Com 31 milhões de motorista, o Didi vai passando o Uber, e um dos diferenciais foi modo de tratar os taxistas convencionais como parte do seu ecosistema, os cooptando, ao invés de confrontá-los, como o Uber fez. A precificação do Uber aos motoristas é brutal, 25% mais taxas. O Didi tem taxa variável, de 6 a 20%, com incentivos por produção, e não tem outros encargos. O Didi trabalha, sim, com frotas mais baratas, mas os usuários estão bem com isso, se o preço for melhor. 

A mais nova modificação de seu entorno no Brasil foi a parceria com o WhatsApp, que é usado por 120 milhões de brasileiros, e permite a conexão com o aplicativo diretamente pelo WhatsApp sem passar pelo aplicativo Didi. Abre caminho também para aqueles que não recebem telefonia móvel ou localizados onde o sinal é fraco, e usuários que possuem telefones mais simples e limitados. O Didi vai modificando o ecosistema em seu entorno.

​Aliás o Uber também faz, integrando-se aos restaurantes, aproveitando a pandemia, mas faz isso de modo a se comportar como o dono de milhares de restaurantes. Os restaurantes trabalham para o Uber, que cobra até 35% de comissão. A Uber é dona de uma frota de milhões de automóveis e de uma rede de milhões de restaurantes. Os motoristas do Uber e os cozinheiros desses restaurantes são reféns, e trabalham para o Uber. O Didi tem milhões de parceiros.

​Escrevendo sobre a China, na tentativa de ajudar o Brasil a deixar de ser o país do futuro, deitado eternamente em berço esplêndido, tive percalços pelo caminho. Um leitor me acusou publicamente, escrevendo para o B&B, de eu ser ponta-de-lança de Pequim. Eu respondi educadamente convidando-o a me visitar como amigo, e tomar um café que torro artesanalmente a partir de grãos crus. Enviei um CV e a biografia familiar, salientando o histórico de nobreza e educação superior, de empreendedorismo por 50 anos, sempre na iniciativa própria, desenvolvendo minhas próprias inovações tecnológicas ou vivendo apenas do meu conhecimento técnico-científico.

​Aí em seguida contestei o título que esse leitor me outorgara. Argumentei que depois que o João Saldanha reinventou o futebol, não existe mais ponta-de-lança. Disse: os últimos foram o Pelé e o Zico. Fora do Brasil, o DiStefano, Platini, Cruyff; e claro, El Pibe, o maior craque de todos os tempos, um que nunca será superado, pois contava com La Mano de Dios.

​Entenderam o tao? Um boxeador tentou me dar um soco frontal. Num golpe de tai-kai, desviei o golpe e em seguida o derrubei no chão e o imobilizei com uma chave de pescoço. Entenderam agora o que o Didi fez com o Uber? E o que o Ho Chi Minh fez com o Westmoreland? É isso.

Meu amigo Josias, o mudinho

Meu amigo Josias era mudo. Não mudo de nascença; mas mudo profissional, ele descobriu que ficar quieto dava melhores resultados do que falar. Só respondia com acenos de cabeça, e escutava tudo muito bem escutado.

Aos poucos, o Josias adquiriu a reputação de mudinho. Era aluno brilhante, e os professores o poupavam de falar. Ele escrevia super-bem, e tirava nota dez em tudo. Era dispensado das aulas de canto, tocava qualquer instrumento, mas não usava a voz. Na educação física fazia tudo bem, especialmente nos esportes individuais, como natação e atletismo de pista. 

Pensam que os caras bons de lábia iam melhor com as gurias? As mocinhas não, eram frutas verdes, ainda longe da maturidade, mas as mais velhas, frutas maduras, prontas para a colheita, viam na discrição do Josias o fator determinante. Ele não falava, iria guardar silêncio com toda certeza. A mesa do Josias sempre tinha bilhetinhos, e convites para um encontro no cinema tal e tal, uma matinéezinha que não faz mal a ninguém. Bastava um código, sessão das 3, cine tal, letra da fila e número da cadeira, pronto, tava marcado o encontro. O que se passava no escurinho do fundo da sala de projeção ninguém ficava sabendo, garantia total.

E não eram apenas as frutinhas maduras. Tínhamos uma professora, de Biologia, a dona Lia, muito fogosa, e sempre tesuda, deixava toda a gurizada com vontade. Mas só quem não demonstrava era o Josias. De aluno nota dez, passou a rodar em Biologia. Preocupados, seus pais contrataram aulas particulares para o Josias com a Dona Lia, à tarde, dois dias por semana. Ninguém sabia disso, o Josias só desapareceu do clube certos dias por semana, ficou quieto todo o tempo. Os pais dele pagavam por duas aulas particulares semanais, mas o Josias continuava tirando nota baixa em Biologia, então a Dona Lia acertou com os pais dele dobrar as aulas pelo mesmo preço, até que suas notas subissem. 

É difícil entender como um aluno nota dez em tudo fracassava tanto numa única matéria. Eu era o melhor amigo do Josias, nos conhecíamos desde os quatro anos de idade, e jogávamos bola, íamos à praia, nadávamos na piscina, enfim, tínhamos muito em comum. Eu desconfiava, e o Josias sabia que eu sabia, e que não fazia bochicho. 

Os tempos passaram, e nos fomos cada um para nossos lados. Eu me casei, tive filhos, me divorciei, enfim, tudo normal. Arranjei uma namorada, crente. Eu me deixei levar, sei lá, ela me fez eu me converter, e eu não vi nada de mal nisso, afinal, ela ficou feliz em me salvar. Eu me tornei um crente, do tipo duvidoso, mas no papel me converti. Vivo tranquilo, normal. Pensava estar sonhando, quando um dia vi o Josias na igreja. Nos abraçamos, pois a amizade infantil é sempre a melhor. A gente se separa, andamos por caminhos diferentes, mas nunca julgamos um ao outro, temos com certeza diferenças de opinião, ideologia, mas nunca isso interfere em nossa amizade. Pois assim, de vez em quando, eu via o Josias na igreja. Solteiro, ele não casou. 

Mas tinha sempre alguma mulher madura, casada, viúva ou solteira, sentada perto dele. Eu ficava só observando. Será que o Josias manteve todo esse tempo a reputação de mudinho? As mulheres tem uma tática para chegar perto do Josias. Primeiro, sentam perto, numa fileira apertada, e ficam roçando as coxas. Depois tiram as bíblias das caixinhas, deixando só uma para os dois. Aí, elas obrigam o Josias a ler junto as passagens daquele dia. Aí ficam mais perto, e podem roçar mais partes, braços, etcetera. Sempre com a certeza que o Josias era mudo e um guarda-segredos de nascença.

Bem, elas acham que seduzem o Josias, pensam que são as feras, mas eu que conheço bem o cara, sei bem como ele atua. Aos poucos ele fez a fila na paróquia. Eu pisquei o olho para ele, eu sabia quem era a fera. Ah, meu velho amigo, o verdadeiro, o legítimo come-quieto. Que me deixava as rebarbas. Obrigado, Josias.

Porque Trump é como é e como Trump se tornou conhecido como o Pelé

Peter H. Peng

A mais completa psico-análise do Trump veio a nós da sobrinha dele, Mary Trump, clínica psicologista, em seu livro Too Much and Never Enough (Demais e Nunca Satisfeito), com o subtítulo How my family created the World’s most dangerous man (Como minha família criou o homem mais perigoso do mundo). (Traduções não oficiais deste escriba).

Mary Trump revela uma história de escuridão e falcatruas da família Trump, inclusive como ela e seu irmão foram ludibriados pelo tio Donald, quando o pai de Mary faleceu, e deixou os filhos adolescentes como herdeiros. O Donald falsificou os acervos e levou os sobrinhos menores a um acerto de contas enganoso. Aliás, essa ainda será uma ação civil e criminal que o Trump enfrentará nos próximos meses. Mary nos explica como o seu tio Donald sempre foi um sociopata megalomaníaco. Hora para definições. Sociopata – pessoa que não se importa com os outros, se julga acima de todos, assoberbado, pensa que é superior, por isso não tem amigos de verdade, não se encaixa em nenhuma sociedade. Megalomaníaco – mania de grandeza, de poder, de riqueza, de indestrutibilidade, suscetível ao auto-engano, de onipotência, vítima de fantasias. Modéstia e humildade, zero. Megalomania e sociopatia são ambas doenças mentais, e o bom exemplo de nossos dias é o tio dela.

Pronto! A sobrinha dele, Mary, nos explica como uma pessoa pode mentir tanto, e tentar tantas vezes dar o golpe eleitoral, nada menos do que um golpe de Estado, no estilo sul-americano nosso, e alegar fraude por tanto tempo. O megalomaníaco é um mentiroso que termina acreditando nas próprias mentiras. Ele nunca irá aceitar que perdeu a eleição, pois se pensa imbatível. Aí faz o que fez, a invasão do capitólio, com cinco mortes, e uma sexta, dias depois, o suicídio de um dos policiais.

Um estudo de trapaceiros ingleses em jogos de cartas no século XIX foi documentado do seguinte modo, por um psicólogo-jornalista-escritor1, que estudou os autos da corte num caso de três trapaceiros:

Não há dúvidas que existem motivos para homens roubarem em jogos de cartas, além dos ganhos materiais; existem motivos psicológicos, parte integral da raça humana, e esses homens partilharem de traços humanos. Um desses traços é um profundo desgosto de serem derrotados, e esse sentimento comumente vem acompanhado de um perfil de arrogância o que torna a derrota ainda mais dolorosa e inaceitável; e é especialmente doloroso perder para um oponente odiado. Megalomania, o sentimento de que o sujeito está à parte e acima de seus pares, e seria intocável pelo fracasso, tem igualmente parte nisso. 

Um terceiro motivo seria a satisfação de vitória por uma trapaça bem sucedida; a satisfação de auto-congratulação de haver conseguido ludibriar seu oponente. 

Existem similaridades gritantes no caráter dos acusados nos três casos. Todos os três são grotescamente orgulhosos, arrogantes e reservados, não conversam porque desprezam aqueles que consideram inferiores…. e são claramente megalomaníacos.

A primeira teoria é que somos tão honestos, convivemos com pessoas tão  honestas e não entra na nossa cabeça que possam haver desonestos em nosso meio. A segunda teoria é que mentimos muito e por isso pensamos que outros em nossa volta não mentem tanto.

Os irmãos Grimm (Contos de Grimm) nos contam dezenas de histórias em que esses traços psicológicos são presentes: o lobo não se satisfaz nunca, até ser capturado; o ourives corcunda não se contenta com sua fortuna e quer mais até perder tudo e adquirir outra corcunda, a primeira nas costas, a segunda no peito.

Mas o que nos faz tão fáceis de sermos enganados? Os republicanos, em sua grande maioria, ainda acreditam no Trump. Existem duas respostas aparentemente diametralmente opostas para explicar nossa credulidade. A primeira teoria é que somos tão honestos, convivemos com pessoas tão  honestas e não entra na nossa cabeça que possam haver desonestos em nosso meio. A segunda teoria é que mentimos muito e por isso pensamos que outros em nossa volta não mentem tanto. Ambas situações explicam o engano. Pensem bem e vejam que essas teorias fazem parte do mesmo id humano.

Publius Terencius Afer (teatrólogo romano, 185 A.C.) escreveu: Existe uma grande demanda por homens que conseguem fazer o errado parecer certo. A demanda por mentirosos como o Trump seria uma maneira subconsciente dos republicanos et caterva de encontrarem uma retificação de suas próprias falsidades. O Trump retira sua própria satisfação no engano e na prática da arte de fazer a mentira parecer verdade. Qualquer semelhança com nossos políticos tupiniquins não é mera coincidência. Temos sociopatas e megalomaníacos de todas as cores.

Mas o que é que o Pelé tem a ver com isso tudo? Bem, vocês sabem como o Trump joga golfe. E eu, como golfista doente, conheço muitos golfistas e campos de golfe. Pois o Trump também rouba no jogo, sempre. Joga-se golfe por dinheiro, tantos dinares por tacada. Pois os atendentes dos campos de golfe, observando as trapaças, greenkeepers e caddies, já nos deram as tintas de como o Trump trapaceia no golfe. Ele chuta a bola que está perdida na grama alta (rough) de onde é difícil bater, até ela chegar a um terreno com grama não tão alta do qual ele poderá dar uma tacada. Ele faz isso com tanta frequência que foi apelidado de Pelé. É claro que os parceiros e adversário de golfe do Trump conhecem isso, e fazem simplesmente vistas grossas. São os enablers.

Como se trata isso na humanidade? Meus amigos me dizem: Peng, botas o dedo na ferida mas não dizes o que fazer. Minha resposta é: não cabe a mim dizer o que fazer. Mas posso dizer, e não me canso de repetir, que a impunidade é a mãe da corrupção. Faz parte da megalomania do criminoso a certeza de que, se for pego em flagrante delito, a punição não vai doer, e que a satisfação do crime para ele é muito mais valiosa. Mas, se vocês insistirem, eu conto como outras culturas lidam com esse tipo de comportamento. Por enquanto dou apenas um bocadinho chinês. A mulher do Mao Tse-tung, o Pai da Pátria, foi condenada à morte, por seus crimes durante a Revolução Cultural. Cadeira elétrica, zap e pronto. Problema resolvido. Outros países menos resolvidos, como os Estados Unidos, deram um tapinha na mão do Trump por sua tentativa violenta de dar um golpe. No nosso, trataram os militares e policiais assassinos e torturadores e os prisioneiros políticos, torturados e desaparecidos, da mesma maneira: anistia geral e irrestrita. Como eu disse, pagamos até hoje por isso. Repito, a impunidade é a mãe da corrupção. É isso.

__________________________________________________________

1. The Great Scandals of Cheating at Cards, A Study of Court Cases, por John Welcome, 1964.

Notícias Sub-reportadas em 2020 – Aqui e lá

Peter Ho Peng

Na tradição de rever o que foi notícia sub-reportada em 2020 pela grande mídia, do Brasil e dos EEUU;  escrevi isto. Num ano dominado por Covid-19; pelo linchamento público de George Floyd; e pela campanha eleitoral, com o perdedor alegando fraude; um negacionismo paralelo ao negacionismo do aquecimento global e da própria pandemia; o que não faltaram foram temas sub-reportados. 

Foi ampla a cobertura da passagem do deputado John Lewis, herói do movimento negro pelo direito de voto, da Marcha de Selma, Alabama, cruzando a ponte Edmund Pettus; Pettus, um Grand Dragon da Ku Klux Klan, os encapuçados que linchavam negros e incendiavam suas casas. E ampla a re-celebração do movimento pelo direito de voto dos negros (tão recente quanto 1965). 

Sim, 400 anos de escravidão, apartheid e servidão. Pena que a profundidade do racismo na sociedade não tenha sido bem descrita. Não se falou que, do início dos anos 60, até o seu assassinato, em 1968, Martin Luther King Jr. ainda era o mais odiado negro americano, por sua tática de não-violência, de tomar cassetada passivamente, não revidar, o que deixava os racistas loucos, doidos por um pretexto para matar. 

Não se falou suficientemente o quanto esse ódio racista continua vivo. Essa ponte ainda tem hoje o mesmo nome; os odientos membros da Klan semi-enterrados na lama da história americana, porém seus herdeiros vivos. Sim, ruas e avenidas com o nome MLK existem em todas as grandes cidades americanas, mas réplicas do rifle que foi usado para assassinar MLK ainda adornam os topos das lareiras americanas e são vendidas on-line. 

Outra mentira. O rifle que James Earl Ray supostamente usara para assassinar MLK em Memphis, Tennessee, levou 30 anos para ser examinado por simples testes de balística banais; e os resultados não batiam com os exames das balas recuperadas do corpo de MLK. Por isso os 70 milhões de votos do Trump surpreenderam o país; a mídia não conseguiu fazer soar quão racista é este país. 

O racismo nunca foi encarado, como, por exemplo, fez Nelson Mandela com sua Truth and Reconciliation Commission. Agora, levemente, começa a emergir pelas bordas a conversa de reparações, surge o conceito de Transitional Justice, que reconhece que reformas sociais desse tipo precisam ser amplas, não podem ser graduais, visto que reformas graduais vão sempre deixando gente prá trás, gerações perdidas para sempre.

Nem tudo que foi sub-reportado é coisa ruim. A Zero Hora, meu jornal brasileiro, havia fechado 2019 com uma bela reportagem sobre a adoção de uma adolescente de 17 anos, Jocasta, que foi abandonada pela mãe, aos 9 anos, junto com 4 irmãos menores, e nunca conheceu o pai. Antes de ser abandonada, criava os irmãos, fazendo de tudo dentro de casa. Depois, na casa-lar de Porto Alegre, seguiu criando os irmãos mais moços. Um por um, viu os irmãos sendo adotados. Quanto mais tempo passa, menor a chance dela mesmo ser adotada, visto que pais adotivos preferem recém nascidos ou crianças bem pequenas. Jocasta se atrasou na escola, mas chegou à nona série. Aí apareceram dois brasileiros, um casal do Rio de Janeiro, que residem e trabalham em Portugal, sem filhos, e com pouco mais de 40 anos de idade, que acharam a Jocasta e foi amor à primeira-vista. Jocasta estava por um fio de esperança de algum dia ter pais, e nem acreditou quando recebeu uma nova certidão de nascimento. Uma história de amor, que mereceria ser mais contada e recontada. Brasileiros do exterior, mas vale.

Vejamos 2020 na nossa terra, relembremos um pouco. Elegemos um presidente que prometeu desinchar o estado, combater a corrupção, abrir as caixas pretas do BNDES. Seus artífices seriam os ministros da Justiça e o da Economia; Moro e Guedes; os dois ministérios-chave. Do ponto de vista da base eleitoral, ele tinha os evangélicos, dando tudo para revogar as leis do aborto, e os militares. Algum paralelo com o Trump? (“I will drain the swamp”). 

Vejamos alguns pontos principais que aconteceram desde então. Antes volto atrás para explicar o que é caixa-preta: esse termo foi usado para denunciar operações dos governos anteriores. Seguindo as leis existentes de sigilo bancário, o presidente do BNDES, Joaquim Levy, negou abrir as contas. Demitido Levy, um novo presidente foi nomeado, e, super-empolgado, no estilo “I will drain the swamp” deu entrevistas sensacionalistas, e trabalhou um ano inteiro obsecado por abrir a tal de caixa-preta. Contratou do exterior uma super-auditoria, por 84 milhões, procurou, fuçou, procurou e no final nada encontrou. Eu jamais diria que o erário público nunca foi lesado. Mas ladrão brasileiro profissional não passa recibo, não deixa provas, é muito competente. Então o assunto saiu das manchetes e esse sujeito sumiu do mapa, seguindo, contudo,  mamando do BNDES, quietinho como um gato.

Com o Moro foi um pouco diferente. Baluarte do movimento anti-corrupção, depois de apenas um ano, pediu demissão, por não conseguir resistir a pressões para mudanças na Polícia Federal, que investigavam os esquemas dos filhos do presidente, principalmente as rachadinhas com funcionários-fantasmas nomeados e comissionados-laranja. E a cada dia apareciam mais sujeiras: um tal de Queiroz, policial desligado, mas ainda ligado aos milicianos suspeitos do assassinato de Marielle Franco, vereadora carioca que denunciava os crimes praticados pelos milicianos, foi também identificado como o portador dos fundos de rachadinhas, dinheiro em espécie, que iam às famílias do presidente, e desapareceu; depois foi preso num condomínio no interior de SP, propriedade de um dos advogados ligados à família do presidente, sendo que o tal ilustre doutor falou que nem sabia quem estava morando lá, e fica tudo por isso mesmo. Afinal, é Brasil.

E as reformas? Os pilares do programa do Guedes eram a Reforma da Previdência e a Reforma Administrativa. Digo primeiro que a Previdência, falida, tinha mesmo que buscar uma saída. Mas a solução aplicada foi triste. Já na reforma administrativa, dois secretários especiais, o Salim Mattar, da Privatização, e o Paulo Uebel, da Desburocratização, após 2 anos de se gabar, pediram demissão. Usando a linguagem do Guedes, debandaram. Tudo continua tão burocrático como sempre. Quanto à privatização, ou desestatização, cito apenas 2 casos ilustrativos. Após 2 anos de blá-blá-blá, o Salim levantou uns 100 bilhões de nossos pobres reais  de um patrimônio estatal de 1,5 trilhões, designados para venda à iniciativa privada (desinchar o Estado, conforme o Guedes). Sim dois anos para vender 6,5% dos ativos à venda. Duas privatizações /desestatizações emblemáticas:

1) O  Complexo Eólico dos Campos Neutrais (CECN), localizado no meu estado, o RS, nos municípios de Santa Vitória do Palmar e do Chuí, vendido pela Eletrobrás por 500 milhões (meio bi) à empresa Omega Energia, empresa sem nenhum pedigree em energia, feita apenas para arrematar as barganhas que o governo iria oferecer. O CECN foi construido com investimentos de 3,1 bi. Com uma capacidade instalada de 583 MW, o CECN gerou em 2017 um lucro líquido de 345 milhões. Para efeito de comparação essa potência é pouco menos do que 5% de Itaipú. Anda em curso uma ação contestando a ilegalidade e inconstitucionalidade do leilão. Tomara que alguém tenha vergonha na cara, mas eu duvido, truco, quero, invido, real-invido e vale-quatro.

2) A TAG – Transportadora Associada de Gás, uma malha de gasodutos no Norte e Nordeste do Brasil, da Petrobrás, foi arrematada (90% das ações) por 33,5 bi, que recebeu de lambuja o perdão de uma dívida de 3,9bi com o BNDES. O lucro annual da TAG foi de 7 bi. Só a Petrobras paga 4,9 bi anualmente pelo aluguel dos ramais da TAG, dos quais 50% é lucro, que voltavam à Petrobras. Agora a Petrobras continua a pagar os 4,9 bi anuais de aluguel, mas apenas 10% do lucro voltariam a seus cofres. Aliás, enquanto eu escrevia, a Petrobras já vendeu os 10% remanescentes do seu partrimônio na TAG, a um preço que dará o retorno ao comprador em UM (01) ano. Isso mesmo. Negócio da China.

Há menos de um ano, Salim falou, numa palestra, todo empolgado, do seu orgulho em trabalhar para o minitrump. Confiram se quiserem.  HYPERLINK “https://youtu.be/hKl6x1zc2R4″https://youtu.be/hKl6x1zc2R4 ou busquem no google: “O país que recebemos” por Salim Mattar.

Essas foram apenas duas das jóias da coroa que o Mattar orgulhosamente “desestatizou” – desinchou o Estado, privatizou, a troco de banana, entregou o nosso patrimônio, sim, nosso. Por que esse esforço capitaneado pelo Guedes (o “Posto Ipiranga”) dá com os burros n’água? 

Pensem um pouco: há 25 anos, tivemos o pacote econômico mais feliz da nossa história como país. O Plano Real. De uma hiperinflação de 4 dígitos, baixamos a 1 dígito, que se manteve por mais de duas décadas. Quem fez isso? Foram o Presidente Itamar Franco, com o FHC, Ministro da Fazenda, e a equipe de economistas, Pérsio Arida, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Frisch; coordenados por Clóvis Carvalho, um advogado. Carvalho, FHC e Itamar, não eram economistas, mas ótimos políticos, costuradores. Tem algum destes economistas de competência mundial, na equipe do Guedes? NÃO!!! Por que não? Porque a ideologia do Bolsonaro e do Guedes e do Mattar é divisionista, incapaz de unir e montar uma equipe forte com base na diversidade. Para eles, é nós, de um lado e os outros, doutro. Tudo comunista, independentemente das diferenças entre eles. Sim, FHC e Lula são indiferenciáveis para o Mattar. Mentira minha? Então vejam o link fornecido e pensem no contexto, à luz da recente debandada.

Aí a pandemia escancarou a incompetência do trump-minhoca. O Brasl se transformou no epicentro do Covid-19, batendo recordes. Com o trump-minion boicotando a saúde da população, sabotando a vacina do Butantã, simplesmente por ser de origem chinesa, e com o filho zero-um emendando o chute contra a China do alto do Itamaraty. 

O resultado é sempre o dólar saltando alto e desregulando as cadeias produtivas, a cada vez que esses dois abrem a boca. Enquanto tudo isso acontece, silêncio do Guru Olavo. Por que ele não digita, como sempre ofende os outros, tuitando “homúnculo gayzista precheca chamuscada de fiofó libertino” para o Mattar? Simples: por que é tudo cria dele, o astrólogo terraplanista. 

Mas o filho zero dois, comparsa (e óbvio chefe) do Queiróz, nunca deixa passar em branco, tuitando sempre: “TEM QUE DENUNCIAR!!!” Triste que tenha que ser este jornalista amador que sequer mora no Brasil que precisa escrever isso.

Para completar, aí apareceu o tio que estuprou a sobrinha de dez anos de idade, no Espírito Santo (reparem o nome do estado), e a menina engravidou. No hospital que operaram a menina e retiraram o feto ainda não formado, os médicos foram fisicamente atacados por turbas de evangelistas, naturalmente, base eleitoral do trump-minhoca. A criança de dez anos foi assim estuprada duas vezes, uma vez pelo tio e de novo pelos evangelistas. Isso escreveu um jornalista brasileiro, e eu assino em baixo. É isso.

Que mundo é êsse?

Peter Ho Peng

Pelos anos 1300 o aventureiro genovês Marco Polo observou assustado os chineses fazendo moeda de papel. Escreveu ao seu superior na Itália (ele reportava ao papa), descrevendo a coisa mais estranha que já havia visto naquela terra. Os chineses pegam casca de árvore e fazem uma pasta, que depois secam e fazem moeda dessa pasta, e usam essa moeda em todo o reino, de ponta a ponta. O papa e o rei italiano (em qualquer país, a igreja e o poder sempre foram muito chegados…) e toda suas respectivas cortes morreram de rir. Pensaram: esses chineses estão dando alguma coisa para o Marco beber, e fazê-lo delirar. Imagina, fazer moeda de casca de árvore!!! Vejam, haviam inventado o papel do algodão, mas agora, fazer dinheiro de casca de árvore? Ora bolas, moedas são cunhadas, são de ouro ou prata! São metais preciosos! O resto do mundo levou mais seis séculos para o entender e adotar o papel-moeda. Para entender que o lastro que lubrifica as trocas comerciais não é o metal precioso. Imaginem, 600 anos de vantagem na velocidade do comércio. 

Por que diabos estou levantando esse assunto? Porque novamente os visitantes ocidentais estão totalmente perdidos na China. O dinheiro desapareceu. A nova moeda é digital, QR. Quem está por trás disso é o tal de fintech, abreviação de Financial Technology. Esse segemento tem vários players, Tencent, Ant, etc. O grupo Ant está preparando um IPO – initial public offering ou  abertura de capital – nas bolsas de valores de Hong Kong e Shanghai, que, segundo os especialistas, avaliará seus ativos em igualdade com o JPMorgan, o maior banco privado do mundo. O JPMorgan ocupa a cadeira 48 no pódio das Global 500 da Fortune, o pódio que este escriva cultiva como parâmetro comparativo. Esse banco, fundado em 1799, emprega mais de 250 mil funcionários e tem US$2,5 trilhões em ativos!!! 

Só para comparações conosco, nosso querido BB tem a cadeira 288 (por enquanto) e tem 100 mil funcionários (ordem de grandeza) e ativos de US$361 bilhões. Ou seja, 40% dos funcionários do banco americano para gerir 15% dos ativos. Bem, entendemos, um dos bês é de Brasil! Agora entra em campo uma nova geração daqueles malucos que inventaram a moeda de papel há mil anos. A Ant, empresa-descendente daqueles malucos de 1200 tem o mesmo valor do JPMorgan, só que foi fundada há apenas 16 anos (2004). Moeda virtual?!! Sim, mais uma de chinês…Ai ai ai dragões me mordam… Essas plataformas chinesas de comércio virtual colocam o vendedor e o comprador frente a frente, sem passar por um banco meeiro. No caso do Ant, ele financia ambos os lados. Os seus algoritmos (inteligência artificial) analisam os cenários, conhecem os desonestos (reconhecimento facial) e precificam os riscos de modo que as taxas de financiamento são as menores possíveis. E por isso o lastro requerido para essas operações é muito baixo. Chegaram a operar com apenas 2% de lastro, contra uns 30% usados pelos bancos chineses estatais que financiam as grandes obras dos governos africanos, por exemplo. O governo chinês deu um safanão no Ma, exigindo mais lastro (~20%), pois no final das contas quem segura o rojão é o banco central da China, e eles não entendem como o Ant funciona. Isso detonou, por ora, o IPO que mencionei.  

Preparem-se para uma maior velocidade nas mudanças sociais,

políticas e econômicas

Num outro campo, as vacinas contra o Covid-19 estão empregando uma tecnologia chamada de messenger-RNA. Normalmente as vacinas são produzidas a partir de um virus ativo e assim cultivam um anti-virus que combate o virus maléfico, ou seja, é um processo biológico. A nova tecnologia modifica o RNA (ribonucleic acid, ou ácido ribonuclêico) que é presumidamente a proteína que deu início à vida no Universo, com um tal de messenger (mensageiro) que detecta os viruses maléficos e manda um sinal para outras proteínas no organismo a bloquear a ação danosa do virus maléfico. Ou seja, é um processo de tecnologia de informação aplicada ao nível celular. 

Nesse mesmo campo, o Prêmio Nobel de Medicina neste ano outorgado a duas pesquisadoras que independentemente descobriram como modificar um gene, cortando pedaços daquele hélice dupla que carrega o código genético e substituindo o pedaço defeituoso por um normal. O potencial disso seria curar todas as doenças que tenham origem genética, consertando isso na fonte. (Novamente passamos em branco por esse tal de Prêmio Nobel, mantendo nossa conta de zero).

Onde quero chegar: o mundo se transforma a largos passos, e o que move tudo é Knowledge and Science como a humanidade nunca havia visto. A vitória da Ciência e do Conhecimento é inevitável. Mas Sabedoria entra na parada. Wisdom para saber o que é certo e o que é errado. E como isso se reflete por aqui? Vimos 70 milhões de americanos que votaram contra a Ciência, acreditam ainda que as eleições foram roubadas, negam o aquecimento global, negam que exista uma pandemia, apesar de 300 mil mortos e 16 milhões de infectados, e continuam enchendo os bolsos do Trump, um fundo para desmascarar as eleições fraudulentas (perto de 300 milhões de dólares até agora). Mas Giordano Bruno foi queimado na fogueira pela Igreja, por sua ciência herética. O mesmo fez a Rainha Maria, matando mais de 200 hereges dessa maneira. Criou um drinque, Bloody Mary.

E no nosso país, seguimos com um STF administrando o país, e ouvimos a diatribe contra a China, pelo filho zero um, ao lado do terraplanista, e seus seguidores de mídia social. A China que paga nossas contas, comprando 35% do que produzimos em agricultura e minérios. Qual a consequência natural disso? A China estará cultivando soja na África, reduzindo sua dependência dos EEUU e do Brasil. Afinal, quem  não é bem-vindo, procura outros pagos. E em alguns países a ignorância está vencendo.

Por falar em África, notem outra tendência altamente visível: os times europeus de ponta (Premier League, UEFA), que eram recheados de brasileiros, estão agora recheados de africanos. E suas camisetas estão já se enchendo com caractéres chineses. Estamos saindo do mapa aos poucos. Como perdemos essa hegemonia? Tem que ser velho como eu para lembrar. A decadência sempre começa pelo topo. E foi com o João Havelange, que essa decadência começou. Com o assassinato virtual do João Saldanha, o maior gênio do futebol mundial, ordenado pelo ditador Médici e executado pelo Havelange. Mas essa é outra estória. Como relaciono tudo isso? Quem não conhece a estória do Marco Polo, da moeda de casca de árvore, até o QR, não vai entender a velocidade do mundo atual. Quem não conhece a estória do João Saldanha não vai entender como os jogadores africanos estão deslocando os nossos dos gramados europeus. Essa queda não é apenas um buraco na estrada, e nos iludimos se pansarmos que vamos nos re-erguer ao topo já já. 

Quem não conhece a História está condenado a repetí-la, como já dizia o velho Burke. Mas além de burros, somos surdos e desinformados.