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O Legado do Trumpismo

– O Castelo de Cartas populista que se desmorona aqui

Trump elegeu-se em 2016 com cinco argumentos centrais: 

1) É o candidato anti-establishment; o que vai terminar com o modo habitual de governar, vai revolucionar o governo, “drain the swamp” – acabar com a lama; 

2) É um empresário, excepcionalmente inteligente, afinal, escrevera um livro The Art of the Deal, ou seja, sabe negociar, e irá renegociar todos os tratados que “entregaram” os EEUU aos sangue-sugas internacionais, e, assim, fazer os EEUU novamente a ponta do mundo; e 

3) Irá construir um muro, que o México irá pagar, para acabar com os imigrantes ilegais, esses “criminosos, contrabandistas de drogas, que ameaçam a América; e 

4) sempre com a massa evangélica seguindo ao aceno do fim da legalização do aborto; e, finalmente, 

5) abolir o Affordable Care Act, ou Obamacare,  por ser “inconstitucional”. Isso tudo somado faria o Make America Great Again, ou MAGA, o chavão que Trump usou para se eleger, reunindo e sintetizando esses pontos principais.

Passados quatro anos, qual é o balanço dessa plataforma eleitoral e desse governo? Começando pelo item final, a pandemia mostrou a fragilidade do sistema de saúde americano. Tem muitas melhorias a fazer, aprendendo, por exemplo com o SUS de Cingapura, mas fica óbvio que o Obamacare não pode ser simplesmente abolido como querem os republicanos. A lei do aborto: não é preciso ser gênio para ver a demagogia dessa bandeira. 

A lei do aborto não vai sair da constituição, o que necessitaria uma nova emenda constitucional, que desemende a primeira; e nenhum candidato que usa essa bandeira iria executar isso, senão, qual seria sua nova plataforma? 

Aí, o Muro. Não construiu nem um décimo, o México não pagou nada, e o que construiu o fez com orçamentos alocados pelo Congresso para outros fins, ou seja, fez uso ilegal dessas verbas. Agora mesmo, seu estrategista principal, Steve Bannon, foi preso por ter montado um esquema para levantar fundos de doações particulares através de uma ONG que ele montou para esse fim, para construir o muro; centenas de milhares de doadores republicanos foram fraudados, com o Bannon e seus cúmplices acusados de retirar milhões desse fundo para usufruto próprio. Trump tenta se distanciar de Bannon, mas é claro, não tem como. E deixou o legado de milhares de crianças separadas dos pais na fronteira, muitas com menos de 5 anos de idade, alguns bebês de um ano, e das quais mais de 600 não se sabe mais onde andam os pais depois da separação. 

No item 2, Trump brigou com todo o mundo; saindo unilateralmente do acordo nuclear com o Irã, um acordo do qual participavam todos os países da União Européia; negacionista-mór, saiu do Acordo de Paris, no qual os países ricos do mundo se comprometeram a proteger o meio ambiente, perseguindo metas de redução de poluição principalmente de emissão dos gases que contribuem a mudanças climáticas na Terra, desfez todo o trabalho anterior de reduzir emissões; saiu unilateralmente da NAFTA, depois refez o acordo, mas no meio-tempo danificou sem mais reparos a indústria siderúrgica e metalúrgica (Pittsburgh e Detroit) do país; brigou com o G-7, querendo que a Rússia re-ingressasse ao G-8, depois de sua expulsão pela anexação da Criméia; comprou uma briga com a China, iniciando com barreiras tarifárias cujos efeitos todos os especialistas americanos disseram foram prejuízos aos consumidores e fazendeiros americanos; saiu da Organização Mundial da Saúde (WHO), justamente no meio da pandemia, acusando-a de haver falhado no controle do Covid-19, o que, naturalmente, não é função da WHO. No item 1, seu governo teve números recordes, literalmente dúzias, de pedidos de demissão no primeiro e segundo escalões, e julgamentos com condenação e prisão de sete pessoas do primeiro escalão por uma multitude de atos ilegais. Nunca houve uma administração tão fraturada, incompetente e corrupta. No meio de todas as reviravoltas de pessoal, dizia “I only hire the best.” 

Para culminar, veio a pandemia, que todos os países avançados europeus e asiáticos contiveram e levaram seus países a aberturas controladas e positivas. A resposta do Trump à pandemia foi a prova-dosnove de sua incompetência; primeiro, negando o perigo – “é uma gripezinha apenas, isso vai sumir, de repente”; depois, promovendo tratamentos não comprovados, como a Cloroquina, a injeção de desinfetante (Lysol, Clorox), enfiar luz ultra-violeta por alguma abertura do corpo, e sempre desobedecendo os especialistas de seu próprio governo, quanto ao uso obrigatório de máscaras, sempre praticando medicina sem M.D., e quando tudo desabou, com quase 250 mil mortos por Covid no momento (Novembro 2020), projetado para meio-milhão de mortos até o meio de 2021; com 4% da população mundial, o país mais rico do mundo conta por 25% das mortes por Covid. Restou colocar a China como bode expiatório (o Kung Flu). 

Não é apenas culpa do Trump. São muito fatores: os EEUU são uma federação de estados, que agiram de modo desconjuntado, é um país de dimensões continentais, com muitos viajantes internos e externos, e uma ideologia da liberdade individual, ninguém gosta de receber ordem do que fazer. 

Falência moral

Três pessoas de dentro da família, sua irmã (Maryanne), sua sobrinha (Mary) e seu ex-advogado particular (Michael Cohen) nos contam a falência moral desse sujeito, todas as suas falcatruas, e extremos, inclusive pagando prostitutas para urinar na cama onde Barack Obama havia dormido, durante uma visita à Rússia, e, em Las Vegas contratava mulheres para tomar um chuveiro dourado. 

Trump por quatro anos resistiu entregar suas declarações de imposto de renda, primeiro alegando que estavam sendo auditadas, mas esse argumento caiu, porque nunca há uma auditoria tão longa, e, agora, em Setembro, a Corte Suprema declarou que Trump não está acima da lei e precisa entregar suas contas a um tribunal de Nova Iorque. Aí foi revelado que Trump pagou $750 de imposto de renda nos últimos anos. E que está com $400 milhões de dívidas. E que é especialista em falências fraudulentas, tendo executado seis ou sete, deixando literalmente pintores pendurados no pincel, e que vai responder por mais de 4 mil processos assim que deixar de ser presidente, e por 40 acusações de abuso sexual incluindo estupro. Como presidente, esses casos não poderiam ir adiante, mas agora, não há como segurar.

Em cima da pandemia, o linchamento de George Floyd em plena rua de Minneapolis, com os protestos em mais de duzentas cidades americanas e muitas cidades mundiais, contra o racismo americano, escancarou mais ainda essa ferida aberta, o vício de origem que iniciou-se em 1619, com a chegada do primeiro navio-negreiro à América do Norte (o primeiro navio-negreiro chegou ao Brasil em 1532), e que nunca foi totalmente confrontado. A desigualdade social, a concentração de riqueza, o desemprego, a pandemia, tudo que expõe a disparidade racial, tudo aumentou com a pandemia, e estabilizou a recessão. A retomada da economia será muito mais lenta do que nos países com menor disparidade social e racial, com mais estrutura, menos laissez-faire. 23 milhões de desempregados, e centenas de pequenas empresas fechadas sem perspectiva de reabertura. Muito mais sofrimento do lado dos pretos e dos já pobres. 

Com tudo isso, e ainda com as mesmas bandeiras, o Trump ainda obteve 70 milhões de votos. Perdeu para 76 milhões do Biden, e uma lavagem no colégio eleitoral: 306 vs. 232.  Segundo Trump, perdeu porque foi fraudado nas urnas. Então o legado de Trump é claro: uma sociedade dividida, ficou óbvio o racismo, o elitismo, o egoísmo e a ignorância de parte dessa sociedade; o isolamento dos EEUU no mundo; o cultivo da anti-ciência, o cultivo da mentira. O custo disso tudo está sendo estimado em perto de 70% de PIB anual, o que será amortizado em uma geração. Uma baita hipoteca. Mas nós, americanos, venceremos, porque felizmente somos ainda muitos e somos competentes, temos um sistema educacional de ponta e uma juventude pronta para a briga. Vocês viram os jovens dançando nas ruas de todas as grandes cidades do país, comemorando a vitória de Biden? Milhões de jovens. Essa é a força do país.

O populismo mostrou o seu vazio; era um castelo de cartas, e o castelo de cartas desmoronou. Mas 70 milhões de americanos não viram, e mostraram sua face racista. A credibilidade dos EEUU foi pro brejo. Quem quer fazer negócios com americanos agora?

E o que podemos aprender, brasileiros, com isso? Aprenda quem quiser. As lições estão à vista. Como os americanos, muitos não enxergam o fracasso do populismo. Ignore this at your own risk.That’s it.

O bochicho da vila – Dona Léia e seu marido

O Estevão Armando Ferreira Moreira da Silva era um sujeito benquisto na vila onde morava, com a mulher. Mulato e forte, trabalhador honesto, tinha os filhos crescidos, já saídos de casa. O Estevão era um faz-tudo, pintura, encanamento, pedreiro, jardinagem, tudo bem feito e a preços justos, enfim, ele era por isso muito conhecido e popular na vila. A mulher, Dona Léia, era faladeira, e assim começa a estória. 

Pois um belo dia o prefeito da cidade veio visitar a vila. Aconteceu que o Estevão estava na rua e o prefeito o confundiu com algum conhecido, e como todo bom político, o abraçou efusivamente, e o Estevão, educadamente, retribuiu o gesto, mesmo sem entender o porquê da coisa. A partir daí, quando o Estevão saía da vila, seja para pescar ou para ir a algum encontro na cidade, a sua mulher fazia um bochicho que ele estava conversando algo importante com o prefeito. Ela inventou a estória que o prefeito queria que o Estevão se candidatasse a vereador, e pediu confidencialidade a suas amigas.

Bastou lançar a estória na cabelereira, e na manicure. A informação se espalhou como o vírus. Era um dos hubs do podcast da vila, um dos eventos super-spreader. Quando o Estevão foi cortar o cabelo num dos três salões da vila, já foi recebido efusivamente pelo barbeiro, o Osmar, que já sabia da estória, e já foi estendendo o melhor avental, lavado e passado, para cobrir Estevão em preparação ao corte de cabelo. Caprichou na afiação da navalha no couro, e cortou o cabelo com a navalha, o que normalmente fazia apenas aos graduados. Quando o Estevão disse que esperava apenas um corte com tesoura, mais barato, o Osmar disse: “Não se preocupe, Estevão, deixa comigo,  só não te esqueças da gente aqui!” O Estevão não sabia do que o Osmar falava, mas respondeu: “Que é isso, Osmar, tu me cortas o cabelo há pelo menos 25 anos, como é que vou me esquecer de ti?” ao que o Osmar respondia com uma piscadela de olho. Como tratavam isso confidencialmente, entendendo que esses assuntos não podem vazar antes da hora, o segredo persistiu por muito tempo. O salão do Osmar era o outro epicentro do zum-zum-zum da vila. Afinal, quem não tem o que fazer, fica feliz com o bochicho.

Pois cabelereira, manicure e barbeiro sabem da vida de todo mundo, e, em pouco tempo, o zum-zum-zum foi aumentando de tom e em volume, de modo que em duas semanas o Estevão já tinha o posto de vice-prefeito ou de deputado assegurado. Felicidade na vila, que por muito tempo se ressentia de não ter representação em governo algum. Iriam finalmente deixar de serem abandonados.

E, em pouco tempo, o bochicho ultrapassou os limites da vila e chegou a um assessor do governador.  Como bom assessor, era ambicioso, e, como não tinha trabalho para mostrar, abraçou o bochicho da vila, levando a informação ao governador que havia um sujeito popularíssimo chamado Estevão naquela vila, que, sozinho, poderia desequilibrar qualquer eleição. O governador enviou um par de asseclas, um homem e uma mulher, para investigar, e, na vila, foram com roupas simples, o homem, sem ter barbeado, e a mulher, sem maquiagem, justamente, conversar nos hubs de informação: o instituto de beleza e o salão do barbeiro. Logo, logo, corroboraram a informação, suas contrapartes felizes em compartilhar com esses novos clientes suas informações e sabedorias.

Enquanto isso, começaram a chover presentes na casa da Léia e do Estevão. Cachorrinhos, gatinhos, passarinhos e ordens de serviço, de tanto trabalho que o Estevão teve que compartilhar com outros faz-tudo. O que o fez ainda mais popular entre seus colegas e concorrentes.

Voltando ao governador, conversando entre si, valorizaram o seu serviço, revestindo de ouro suas tarefas, um com o outro, antes mesmo de reportar ao governador, de modo que quando se reuniram com o governador, o Estevão estava num novo pedestal de popularidade, e para prova real, falaram do testemunho dos outros faz-tudo da vila.

O governador para não perder o hábito de puxar o saco dos poderosos, levou a estória ao presidente, sabendo que este justamente precisava de mais votos nessa faixa social, já que entre os ricos o presidente já estava consolidado. A estória que o governador levou ao presidente foi de tal forma dourada que não restou dúvidas ao presidente: “Esse é o cara, preciso dele.”

A Léia gostou disso, orgulhosa de sua criatividade, exceto quando as gostosas da vila começaram a jogar beijinhos para o Estevão. Este, sem entender bem, fez a sua parte num motel vizinho, mas achou as mulheres muito oferecidas, fingindo um gozo interminável, e aos poucos ia deixando as oferecidas pro lado, não antes de provar o gostinho do mel.

Quando o Estevão viu, estava em Brasília, como Secretário Especial de Assuntos de Vilas, sob o Ministério da Cidadania, e a Dona Léia foi ensinada a ser nomeada Assessora Especial do Ministro, dada sua proclividade em comunicação. Ambos com salários de duzentos mil reais mensais, com direitos a 15 salários anuais e a 45 dias anuais de férias, com viagens e estadias pagas à cidade de origem. Mas nunca fizeram a viagem. 

É isso, quem conta um conto aumenta um ponto.

Os três circos da nossa vida
Peter H. Peng

Saudades vem sempre junto com o antigamente. Alegria vinha quando o circo chegava na cidade. Antigamente era o circo de lona, o itinerante, acompanhado de ciganas que liam nossas mãos. Eu acompanhava a chegada dos caminhões, quatro, ao terreno cedido pela prefeitura de Porto Alegre para esse que era o grande evento da minha infância. Eu chegava lá todas as tardes, depois da escola, de bicicleta, costeando a Rua do Riacho, ou Arroio Dilúvio, e ia ver o pessoal cravar a ferragem inclinada no chão, esticar a tenda, e erguê-la, tendo as cordas grossas fazendo a protensão, e o tronco de eucalipto no centro, levantando tudo. Até o dono do circo metia a mão na massa, dirigindo e verificando a qualidade e a segurança. Eu seria seguramente um futuro cliente. O que é que esse guri chinês veio fazer aqui de bicicleta? Depois montavam as arquibancadas e o círculo de proteção. Eu conversava, conversa de piá. “Prá que serve isso, seu moço? E moça. E o que é aquilo?” Eu ouvia seus nomes ou apelidos serem trocados entre si, e memorizava os mesmos. Era sempre mais fácil guardar os apelidos. Por que será? Óbvio. Depois eu os chamava pelos nomes próprios. Todos os trabalhadores e trabalhadoras me tratavam bem. E sabia que esses eram os próprios artistas.

Saudades e alegria, artificialismo e o último palhaço

Os caminhões ficavam estacionados num quadrado, protegendo o acampamento dos artistas, e as jaulas dos animais. Eu ia adivinhando quem seriam os palhaços, os domadores, o equilibrista, os malabaristas, as dançarinas, o baterista. O mestre-sala, claro, seria o dono do circo. Era pouca gente para todo o show. Evidentemente que os artistas seriam de multi-talentos. Apenas uma cozinheira não participava do circo, isto é, ela ficava no acampamento, cozinhando. Café da manhã, almoço e janta. E triturando os restos para os animais. O aroma da cozinha se espalhava por cem metros. Churrasco com farofa, arroz e legumes, num dia, feijão e arroz carreteiro, sopa de legumes no outro, Claro, tudo basedo no caldo de osso, a ser roído depois pelas feras.

Os circos completos vinham com roda gigante, carrossel de cavalos, e alguns com carrossel sobe-e-desce, e a loja de cachorro-quente, algodão azul, amendoim, refrigerante e pipoca, jaulas de macacos e leões; mas, para mim, o circo era só o circo.

No grande dia eu estava lá, levado pela empregada, pois meus pais, imigrantes da classe alta da China, não se misturavam com o povo. Eu ia lá, com o meu chapéu Nat King Cole, a empregada com o lanche dela e a sua coca-cola numa sacola. Mas eu levava uns cruzeirinhos para comprar o amendoim e o cachorro-quente. O amendoim, sempre o doce. E depois, de sobremesa, o algodão azul. Aí vinha a verdadeira delícia. Começava com as palhaçadas, dois palhaços fazendo cambalhotas, gozando com as platéias, soprando aquele apito que se esticava, e puxando o nariz de bola, para nosso deleite, um de cada lado, e o terceiro, da perna-de-pau, lá no alto, jogando balas por cima da rede de proteção. Eu tentava reconhecer quem era quem, por baixo da maquiagem. Para meu deleite particular, quando eu reconhecia um deles, gritava o apelido da platéia. Na batida do gongo, vinham os malabaristas, primeiro um, jogando garrafas no ar, aqueles pinos de bolão, depois outro, fazendo o mesmo. Depois do show das garrafas, vinha o que eu mais gostava de ver. Malabarismos com bolas. Primeiro duas bolas no ar, trocando de mão, depois duas bolas numa mão, jogando no ar e aparando numa só mão. Depois o mesmo na outra mão. Daí, três bolas no ar, quatro, cinco. Ai vinha o segundo e fazia a mesma coisa. Aí vinha o desafio. SEIS bolas no ar. O primeiro conseguia. O segundo conseguia. Depois era ver quem fazia isso por mais tempo, até um deles vencer. O gongo decretava o empate. O tira-teima seria com SETE bolas no ar. (Anos depois, vi um malabarista jogando OITO bolas no ar!!!) Apenas um deles conseguia, o outro reconhecia o vencedor e ambos saíam do palco pendendo-se nas várias direções, agradecendo as palmas e os urros da platéia, e os mais altos gritos, os meus, chamando o vencedor pelo apelido: Carioca! Foguinho!

Depois, o equilibrista, que fazia também papel duplo de palhaço perna-de-pau, dava aquele show na corda bamba, com os premeditados cai-não-cai, o silêncio da bateria e o AHHH da platéia. Naquele tempo eu acho que a vara era de bambú, antes dos tempos do grafite. E sempre com a bateria aumentando o suspense nos momentos críticos. No meio disso o leão, os tigres, e o domador, no chicote, comandando os animais de estimação. E o mágico, fazendo as cartas desaparecer e subir para dentro da cartola sem ninguém perceber. Ou de repente os números do baralho se transformarem num único número, e num único naipe, em geral o 8 (oito) de ouros, bem distinguível de longe. Tudo isso desapareceu.

O circo ficou moderno, profissional, tipo Disney. Artificial. Não mais ciganas lendo as mãos. Não mais acampamentos. Não existe mais terrenos baldios perto do centro das cidades para receber um circo itinerante. Eu moro perto da Disney. Que merda sem alma. Que pobreza. Pobres meninos ricos. Pobres meninas ricas. As crianças de hoje perderam tudo. Por falar nisso, isso também vai morrer em breve. O coronavirus vai matar esse tipo de aglomeração para sempre.

O circo moderno morreu, mas o pós-moderno existe. Basta ligar a televisão para ver esse circo. São circos one-man-show, com milhares, ou milhões, de coadjuvantes que não fazem nada, em cargos comissionados, falsários igualmente, só assistem. Nosso one-man-show, Trump. Ele faz mágica com os numeros, altera as enquetes, mente quanto aos casos de Covid-19, quanto aos testes disponíveis, PPE, ventiladores, mortes, tudo. E faz o “blame game.” A culpa é da China. Num passe de mágica, ele faz os números da economia também mudarem. Ele faz tudo, um palhaço que pinta a cara de laranja, usando lâmpada UV, faz malabarismos misturando tudo ao mesmo tempo no mesmo ar: Lysol, cloroquina, luz UV, vacinas, rendesevir, equipamentos PPE, China, Biden, curvas ascendentes de coronavirus, pretos, latinos, velhos, enfim, no final deixa tudo cair e se espatifar no chão. “Deixa morrer, eu quero mesmo é me reeleger.“ Dá samba! Na nossa macaquice congênita, o nosso médico charlatão, sem CRM, assina as mesmas bulas, faz as mesmas palhaçadas, as mágicas com os números, e canta o samba igualzinho. E nossos coadjuvantes são charlatões ignorantes, quer fardados, falsos empresários, ou economistas que não pensam, intelectuais falsos, sim, todos esses coadjuvantes com número-de-série. E, sim, comissionados, e, como um deles, o único que veste máscara, não para proteger do corona, mas para não se identificar na gangue, como esse mesmo disse, todos parasitas (1) do Estado. Ninguém mais os leva a sério. O mundo veio abaixo. Caiu o circo. Mas podemos re-erguer a lona velha, encardida, e reconstruir nossa felicidade. Depende de nós. VOTE!!!

(1) Para quem não adivinhou ou não acompanhou a história do parasita, ou não identificou o ministro mascarado, foi o Guedes que chamou os funcionários públicos de parasitas, isto é, chamou-se a si mesmo de parasita.
Racismo na América, aqui e aí
Peter Ho Peng

Uma Ferida Aberta há Quatro Séculos, agora Exposta, ainda Crua

Todos vimos na TV os protestos Black Lives Matter durante o mês de Junho inteiro. Iniciando-se com protestos pelo linchamento de George Floyid numa rua de Minneapolis, os protestos se espalharam como fogo por centenas de cidades americanas.  E por quase todos os países da Europa, da América Latina, e até pelo Brasil. É evidente que, para se manifestar da maneira como estourou, arrebentando, essa rebelião contra a brutalidade policial e da justiça americana contra os pretos e as minorias raciais e pela injustiça social era um sentimento fortemente reprimido por muito tempo. Para ser mais preciso, quatro séculos. Vimos brancos e pretos juntos no protesto. A grande maioria jovens. (Asiáticos visìvelmente ausentes, mas este é outro assunto, ao qual tenho autoridade para explicar). Dentro do meu reduzido círculo de amigos brasileiros, não encontro conhecimento dessa história. Assim, neste espaço compacto, espero dar uma idéia aos leitores do JB&B da dimensão desse sentimento de angústia, revolta e sede de justiça. No Justice, no Peace.

A origem de tudo foi a prática da escravidão. Paralelismo em quase todos os aspectos. Com amplas terras em suas colônias, na América e no Brasil, Inglaterra e Portugal, gente fina, exportavam escravos da África para essas sua colônias, para trabalhar na construção dessas colônias, principalmente em agricultura e em mineração. Na enxada, na pá e na picareta. Desde 1432, quando Vasco da Gama chegou na África, Portugal imaginou o tráfico de escravos. O primeiro navio negreiro, também chamado de tumbeiro, pois era a tumba prescrita, chegou em Pernambuco entre 1532. Na América, o primeiro navio negreiro inglês chegou em 1619. Esses europeus, na sua cultura cristã, sabiam o que era um bom negócio. Mão de obra barata era com eles mesmos. Não importa se os pretos eram sequestrados, famílias eram destruídas, nada. Iam para o navio tumbeiro de qualquer maneira, porque grana é grana. Depois, com o chicote, os ferrolhos e o enforcamento dos desobedientes, foram produzindo a cultura negra nas suas colônias. Parte dessa cultura inculcada era o ensinamento religioso, cristão, de que preto não tinha alma. Claro, nenhuma educação era dada às crianças negras, que nasciam escravos. Ainda no meu tempo, cansei de ouvir, pela tia de minha própria esposa: “Fulaninha é só preta por fora. Por dentro é branca, branquinha.” Assim as nações escravistas foram construídas por séculos.

Menos conhecido foi o paralelismo no nascimento das duas nações, após as independências das matrizes – ambas celebraram a igualdade e a irmandade dos filhos das pátrias amadas. Senão vejamos:

“Dos filhos desta pátria és mãe gentil, pátria amada, Brasil!”  (“Uvirudu”, Osório Duque Estrada, 1822). Só que quem nascia no Brasil, preto, não era filho da pátria.

“All men are created equal, with Freedom and Justice for all” (Todos os homens são criados iguais, com Liberdade e Justiça para todos) – Thomas Jefferson, Declaração da Independência, 1776

No caso americano, quem escreveu isso se esquecera que George Washington, comandante das forças americanas na guerra da independência contra os colonizadores britânicos, era senhor de centenas de escravos, e Jefferson, igualmente, centenas, tendo inclusive uma preferida, Sarah, com quem teve, dizem, sete ou nove filhos, criados mas não reconhecidos ou adotados. E a Escravidão foi mantida até 1863, quando Abraham Lincoln aboliu a escravatura nos EEUU, após vitória na guerra civil, Norte contra o Sul; o Sul que queria separar-se para manter seus privilégios escravistas.  Os estados nos quais predominavam as plantations, estados sulistas, os derrotados na guerra civil, como as Carolinas, Georgia, Alabama, Louisianna e Mississipi, foram legados aos antigos escravos, mesmo porque muitos escravos lutaram ao lado de Lincoln. (Que, como Kennedy, terminou assassinado. Não é só no Brasil que tem assassinato político.) Aqui deram a cada preto dois alqueires e uma mula. Te vira aí. Endividados, vendiam as terras e passavam a servos endividados pelo resto da vida.  O nosso paralelo a abolição assinada pela princesa Isabel, em 1888, a alforria, e, sem ter como sobreviver, a formação das favelas. Mais dignos foram os quilombos. Que ainda, heròicamente, resitem.  Nos EUA a escravidão foi substituida por um apartheid legal, leis separatistas, servitude e anos de roubo de terras. 

Esse Juneteenth (19 de Junho) que estamos comemorando agora, foi a data em 1867 na qual os escravos do Texas foram informados que estavam livres. A abolição de Lincoln levou dois anos e meio para chegar ao Texas. Deu para entender o que era esse domínio branco?

Os pretos eventualmente prosperaram. Essa data se transformou num Natal deles. Até que em Tulsa, Oklahoma, onde criaram um Black Wall Street, um distrito próspero, tiveram tudo destruido, incendiados, arrasados por exércitos milicianos do Ku Klux Klan, uma organização branca nazista. E essa data foi apagada, passaram a borracha nos livros de História. Nunca mais essa História foi ensinada nas escolas. Pensam que Máfia e os milicianos existem apenas na Itália e no Brasil?

E quanto aos direitos? Nada. Não eram cidadãos. Apenas depois de Martin Luther King Jr., os negros adquiriram o direito ao voto. E só os homens. Nesse periodo. Claro, MLK terminou assassinado, aos 43 anos de idade. Por um assassino de aluguel. Igual ao assassino de Kennedy, depois apagado por outro assassino de aluguel. Pensam que queima de arquivos foi inventada no Brasil?

O linchamento de negros por enforcamento era comum. Strange Fruit hanging from the poplar tree, blood on the leaves and blood at the roots, dizia a letra de Abel Meeropol, cantada pela maravilhosa voz de Billie Holiday, que teve a carreira boicotada e cortada por se recusar a retirar essa canção de seu repertório. Ainda em 2019, um adolescente negro foi assassinado por uma gangue de vizinhos brancos por estar namorando uma moça branca da comunidade. O racismo aqui é mais forte do que no Brasil. Mas não ficamos muito atrás. Na minha cidade, Porto Alegre, há cerca de um século um preto foi enforcado na frente da principal igreja católica de então: a Igreja da Nossa Senhora das Dores, na rua central da cidade. Isso mesmo.  Podem conferir.

Quem acompanha minhas estórias no JB&B talvez lembre que eu usei a expressão “ Pau que nasce torto … nunca mais acerta o vaso…”  Previ isso, defeitos de formação, vícios de origem, que nunca foram controntados, e ainda estão longe de serem resolvidos, e continuam a travar o desenvolvimento da sociedade. Após quatro séculos, esse racismo está embutido na cultura americana. Com todas as consequências de desigualdade perante a lei, desigualdade social, etc, etc. (E no Brasil?)

Com menos de um-oitavo da população americana, os pretos compõem quarenta porcento  da população carcerária. E das vítimas da pandemia. As mazelas de discriminação, direitos humanos, direitos civis, injustiça criminal, social, educational e econômica se manifestam agora também com o Covid-19, que expôs essas feridas, e o linchamento de George Floyid mostrou que as feridas permanecem abertas. E que todo o progresso social terá que passar por essa História.

Deu para entender o que se passa nesse movimento Black Lives Matter? James Baldwynn, autor negro americano, escreveu que “o confronto com uma cultura enraizada não garante sua mudança, mas o não-confronto garante sua permanência.” O status quo é um peso, que resiste ao movimento, a mudanças. Não mudar é garantir que a direção dessa sociedade será ladeira abaixo. A dívida de quatro séculos com os escravos e seus descendentes tem que ser encarada e o poder branco tem que pagar essa dívida, de algum modo. Ao invés disso, no Brasil colocam um preto na Fundação Palmares que prega que a escravidão foi boa para os pretos. E aqui, um ministro de estado preto (aqui se diz secretary of state) que diz que os pretos americanos são imigrantes. Por isso cresce aqui, entre os jovens, brancos, pretos e latinos, uma consciência de que nada vai mudar, exceto com uma revolução. Aí não sei. É isso.

 

Uma ordem histórica
Peter Ho Peng

Um Papa digno de ser Papa

Na Quarta-feira de Cinzas passada eu estava no Brasil, e as manchetes locais celebraram a ordem papal mais importante, na minha opinião dos últimos séculos. Papa Francisco emitiu a todas as dioceses mundiais esta ordem: colaborem totalmente com investigações de todas as delegacias em casos de pedofilia (e abusos sexuais). Abusos de poder.

Em edições passadas do JB&B (Janeiro de 2019 e Janeiro de 2020) eu escrevi que esse tema era importante demais para ter recebido até então apenas vaga e incompleta atenção do Papa. Escrevi que eram casos criminais, e que a cooperação com investigações criminais de todas delegacias mundiais era a ação que eu pensava necessária. Naqueles artigos fui pesado na crítica ao Papa. Agora preciso me retratar.

A fim de entender melhor essa ordem papal, fui na arquidiocese de Porto Alegre, a primeira no Brasil a responder à ordem papal, e me informei como essa ordem estava sendo obedecida. Uma Comissão apropriadamente nomeada de Tutelar, pois foi constituída para proteger principalmente crianças, será composta por padres, irmãs, médicos, psicólogos e psiquiatras infantis, advogados, juízes, pedagogos, professores de direito, membros da Polícia Civil e Polícia Federal, num total de 12 pessoas, 4 homens e 8 mulheres, membros da sociedade porto-alegrense. Que orgulho senti.

Fui também à Unisinos, universidade jesuíta em São Leopoldo, cidade localizada a uns 40 km ao norte da capital. Que maravilha! Não encontro palavras para descrever minha surpresa. Criada do nada, tem um campus totalmente planejado, magnífica biblioteca, com seis andares, armazenando documentos e referências raras. O restaurante universitário, ou RU, é um restaurante por quilo da mais alta categoria. Uma incubadora de tecnologia ajuda empresas em fase de start-up e empresas já andando sòzinhas a crescer. Abriga também gigantes tecnológicos mundiais que encontram na Unisinos quadros bem preparados a um custo bem menor do que aqueles de seu país de origem. Por que fui lá? Eu sabia que a decisão do Papa tinha sido difícil. Tentei entender quão dificil havia sido. É que o Papa, por ser o primeiro jesuíta em dois mil anos a chegar ao papado, deve ter entendido há muito tempo, que precisava dar essa ordem; mas como chegar ao papado? Então fui lá na Unisinos, para tentar entender o pensamento dos jesuítas. Encontrei o apoio do curador da biblioteca, que conhece essa História de primeira-mão, sendo professor de História e tendo vivido 24 anos em Roma.

A ordem dos jesuítas, fundada por Santo Ignácio de Loyola, faz o juramento de trabalhar nas fronteiras. Essas fronteiras podem ser geográficas, mas podem ser também as fronteiras da pobreza. São os missionários, fazem o trabalho de base, de campo. Como então um jesuíta passa a fazer trabalho episcopal, de diocese, como entra na hierarquia da Igreja? Um bispo superior pode dar a ordem a um jesuíta de passar ao trabalho, digamos, burocrático. O convite pode ser recusado três vezes. O quarto convite passa a ser uma ordem. Passando ao bispado, dom Bergoglio eventualmente foi Arcebispo de Buenos Aires, e depois erguido ao cardinalato, em Roma.

Apenas cerca de 1% dos bispos católicos são jesuítas. Entendam a dificuldade política. Para chegar a ser Papa, dom Bergoglio teve que fazer muitas manobras. Uma delas, que recebeu mais atenção, ocorreu durante a ditadura militar, no caso da argentina, praticante de terrorismo estatal. Conhecida era a ocupação da Plaza de Mayo por las madres, centenas de mães de desaparecidos nas mãos da ditadura. Las madres de la Plaza de Mayo caminhavam em silêncio, com um lenço branco nos cabelos. Freiras que apoiavam essas mães foram assassinadas. Padres jesuítas que simpatizavam com os oponentes da ditadura foram ordenados por dom Bergoglio a se afastar dessa oposição. Na verdade, ele fez isso não porque favorecia a ditadura, mas para proteger esses padres. Dentro da igreja havia padres e bispos que colaboravam com a ditadura, como informantes. Dom Bergoglio seguramente sabia disso, e protegeu os padres jesuítas. Sem conhecer os detalhes, muitos, como eu, criticaram o bispo Bergoglio nessa ocasião.

Foram sete anos de papado, até Francisco sentir-se forte o suficiente para emitir essa ordem papal. Eu penso que essa questão, os abusos sexuais e a pedofilia dentro da igreja, é uma questão de vida ou morte da igreja, e o Papa Francisco seguramente pensava o mesmo há muito tempo. Bento XVI tinha em sua posse um dossiê que manifestava essa mesma avaliação. João Paulo II assinou esse dossiê, em seu leito de morte, ajudado pela mão de Bento XVI. Mas Bento XVI não se sentia forte o suficiente para emitir esse tipo de ordem. Renunciou, dando início ao papado de dom Bergoglio, Papa Francisco.

Sete anos de costuras políticas, e muitas outras antes do papado, e finalmente veio essa ordem papal. Notem que a percepção de que essa ordem seria um tema de vida ou morte para a igreja desafia a Igreja Católica dos Estados Unidos, e arrisca uma cisão vertical na própria Igreja. A Igreja Americana se opõe, agora obedece, mas poderia no futuro cindir. É que aqui (moro nos EEUU) existem os lawsuits e a igreja americana poderia quebrar finaneiramente. Os americanos são os maiores doadores mundiais.

Outra observação digna de nota. Esse crime ocorre em todas as igrejas, não é exclusiva dos celibatários. Esse crime não se restringe a religiosos, ocorre em organizações como os escoteiros, e nos exércitos. A Igreja Católica até agora foi a única a dar tal ordem.

Por tudo isso, peço perdão aos meus leitores pela contundência equivocada nos artigos passados, esperando que agora a História tenha sido retificada.Viva o Papa Francisco, dom Bergoglio, um ser humano dos Pampas, homem inspirado e corajoso, que lutou uma batalha de vida inteira, pela vida de sua Igreja.

Patrimonialismo, o Futuro do Capitalismo – Reprojetando o Futuro
Peter Ho Pend

O que a crise do coronavirus deixa à vista – lições de moral e de fracasso da sociedade

Recentemente, como parte do pacote multi-trilionário (em dólares) de estímulo da economia, e de resgate dos americanos (um pouco para as micro-empresas, para as pessoas que trabalham, e um muito para os milionários, das grandes empresas), uma sociedade inteira que parou pela pandemia do coronavirus, o Federal Reserve Board (ou Fed, o Banco Central daqui) baixou os juros básicos a zero por cento ao ano. Ou seja dinheiro para quem quiser, para mover a economia. Alguns aproveitaram a deixa. Esse estímulo tem a faceta de bailout. Como funciona isso? Quando Trump deu o presente aos bilionários no início de seu governo, reduzindo seus impostos, a grana foi para comprar ações de suas próprias empresas, não para investir, mas para inchar o preço de suas ações. Isso gerou a corrida para Wall Street, e essas grandes empresas distribuiram grandes dividendos, que foram, claro, para encher os bolsos dos acionistas. Mas como essa subida foi artificial, riqueza não foi criada, com a crise, essas empresas mostraram a verdadeira cara, cairam. Agora o pacote de resgate da economia ajuda, sim, um pouco os desempregados, e os de menor renda. Mas tem um enorme buraco para fazer o bailout, o bote salva-vidas para as grandes empresas. É o monetarismo em ação.

Justiça seja feita, alguns setores usam os empréstimos sem juros e repassam a seus consumidores. Várias empresas fabricantes de automóveis vendem carros sem juros em 84 parcelas. Sete anos, a expectativa de vida de um carro bem usado, digamos, 200 mil milhas no odômetro. Refinanciar hipotecas e automóveis, sim, mas pegar dinheiro para investir, não vi.

Parte do pacote seria uns US$2mil a 3mil para cada família, ouvi dizer. Para alavancar o consumo na retomada. Isso é bom. Mas por quê ninguém pega a grana semi-gratuita para investir? O que ocorre?

Uma hipótese tem a ver com a teoria de Thomas Piketty, economista francês de menos de 50 anos de idade, intelectual do mais alto coturno. Senão vejam seu currículo: MIT, London School of Economics, e Legião de Honra, a mais alta condecoração da França, que ele se recusou a receber. Autor do best-seller Capital in the Twenty-first Century, Piketty estudou os movimentos do capitalismo nos últimos 250 anos. A observação estrondosa dele é que existe um ponto de inflexão na concentração de renda, a partir do qual o capital deixa de ser gerador de inovação e de emprego, ou seja, perde seus poderes distributivos, e passa a ser patrimônio. Por quê isso ocorre? Simples: a redistribuição vem da criação, mas a criação pára, porque a remuneração de patrimônios -aplicações financeiras- supera a remuneração de capital de risco. Essa formação de patrimônios é consequência de um processo de concentração de renda, um processo que se retro-alimenta em moto perpétuo, à medida em que o capital perde seu atributo distributivo, que é a criação de novos negócios e empregos.

Empreendorismo não se aprende na escola. Aprende-se em casa. Eu aprendi com meu pai e minha mãe. E o que aprendemos em nossa casa de agora é o contrário: não empreender, se encostar, não crescer, não desbravar. Como diz um amigo, grande inventor, fazem parte da turma do NUNCA. NUNCA sair da casinha, se negam. Sim, mudar é difícil. O status quo tem uma massa inercial tremenda.

A minha idéia então é que ninguém pega o dinheiro do Fed porque não precisa de mais dinheiro; quem já tem, já tem, e, além disso, não sabe o que fazer com dinheiro como capital-investimento.

Favela Nazzali, que junto com Flamengo e Sucupira, reúnem 16 mil famílias na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, onde fome forçam moradores a ir às ruas (Folha de SP). Notem o esgoto a céu aberto.

O problema social dessa acumulação de renda, além da desigualdade social, é que a sociedade desaprende a investir, perde seu instinto de criação e renovação. O que a classe alta ensina pelo seu exemplo social para o resto da sociedade é isso: não tome riscos, não adianta, a desigualdade vai continuar, a renda vai continuar a se concentrar, faça como nós, trata tuas economias como patrimônio.

Peraí, escritor. Estás falando dos EEUU ou do Brasil? Dos dois, claro!  Então, se, numa sociedade, quem pode não cria, como é que ficamos? Resposta: ficamos condenados ao declínio paulatino. Nosso modelo é os EEUU, seguimos cada passo à risca, não temos direção própria. Na crise do coronavirus fazemos o papel do macaco. Copiamos tudo que os EEUU faz. Temos um capanga do Trump que também pratica medicina sem diploma. Promove ainda a hidroxicloroquina, mesmo ainda quando o Trump já parou de fazer esse receituário. Só sobrou o Nicolás Maduro para acompanhar o nosso Trump dos pobres nesse barco da hidroxicloroquina. Temos até um pacote monetarista. O nosso pacote de estímulo econômico prevê R$600 mensais para cada trabalhador. E os informais? O que virá depois? O que a sociedade ensina aos pobres? Vejam a ilustração que dou. Vejam o esgoto a céu aberto na frente da casa pobre. Vejam as crianças. Qual é a lição de moral que ensinamos aos outros?

Voltando ao patrimonialismo. Não precisamos ir muito longe. Olhem em volta de si mesmos. Quantos amigos vocês têm da classe média, que, sem serem milionários, se comportam como patrimonialistas? E quantos herdeiros milionários vocês conhecem que, além de gerir patrimônios herdados, herdaram também a capacidade criativa do patriarca ou matriarca da família? Será que a segurança financeira compensa o que um deixa de aprender, crescer na vida? Para não falar na alegria de descobrir a vida. Não é à toa que em espanhol “busca-vida” significa “aventureiro”.

Extendam isso para a sociedade como um todo. O mecanismo de concentração, aumentando as desigualdades, é mesmo força motriz de crescimento, como alguns pensam, ou seria fator de declínio?

Outro subproduto desse pacote de salvatagem das empresas americanas, é que os EEUU professam o capitalismo mas praticam o socialismo. Esse pacote é um bailout, o bote salva-vidas para empresas problemáticas no melhor estilo socialista. É o tal “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.” É um caso extremo, dirão alguns. Mas sociedades mais avançadas, como a Coréia do Sul, a Cingapura, enfrentaram e superaram o coronavirus sem esse bailout.

Isso tudo é o só meu palavrear. Não encontrarão essas bobagens em outro lugar. É isso.

Peter Ho Peng nasceu na China e cresceu em Porto Alegre. Formou-se na UFRGS em engenharia química e na Georgia Institute of Technology (MSc e PhD). É morador de Tierra Verde, Flórida.
peterhpeng@yahoo.com
Como riqueza é construída–Califórnia
Peter Ho Peng

O custo da ignorância

No meu livro Vôos Pátrios e na edição de abril de 2011 do JB&B descrevi uma visita que fiz à família de minha filha na Califórnia. Reportei na minha Carta da Califórnia, como riqueza é gerada, numa economia pós-industrial: pela criação de conhecimento. Busquem aquele artigo no JB&B, ou comprem o meu livro. Ou peçam para o …., não, é muita coisa para eles irem lá atrás.

Bem, naquele artigo, anotei uma dúzia de exemplos de uma educação superior, e notei que a Califórnia, se fosse um país, seria a sexta economia mundial. O Brasil seria a oitava entre os países, mas a nona se a Califórnia fosse um país. Sempre uso US$ como a moeda-base neste artigo. Vejam como eu acertei. Notei que a Califórnia tem menos do que 20% da população do Brasil.

Agora, em 2019, a Californa é a quinta economia mundial, com 3,155 trilhões de dólares, enquanto o Brasil ficou nos 1,9 trilhões de dólares. E seria a décima pois o Texas passou o Brasil. Em 2011 a Apple tinha um valor de mercado de 800 bi. A maior empresa brasileira, a Petrobrás, tinha um valor de mercado de 60 bi. Em 2019 a Apple passou a marca do trilhão de dólares, em valor de mercado. A Petrobrás caiu para 40 bi.

Na batalha contra o Covid-19, a Califórnia registra o menor índice de infecções per capita e o menor índice de mortes por infectados do país. A Califórnia foi o primeiro estado a fechar as escolas e recintos públicos, e a praticar o distanciamento social. O resultado foi: foi o estado que mais ràpidamente passou pelo apex da curva, e já é o maior doador de materiais hospitalares para os demais estados, visto que seus estoques não iam ser necessários. Isso sim, é o valor do conhecimento.

Enquanto isso, na nossa Flórida, a fim de capitalizar o Spring Break, o Governador DeSantis acolheu os jovens universitários nas nossas praias. Estimam-se que o valor dessas duas semanas de beberagem e brincadeiras tenha um valor de menos de 1 bilhão de dólares para a economia da Flórida, a partir das medidas dos sales taxes, impostos sobre as vendas, incrementais nos períodos de Spring Break. O custo normal disso é policiamento, mais crime, quebra-quebra acidentes, hospitais. O governador da Flórida, Ron de Santis, republicano, pensou que valia a pena, e propagou aos quatro ventos que protegia a economia da Flórida, os restaurantes, bares, hotéis. Mas tem um porém.

Quanto irá custar aos cofres da Flórida a sobrecarga das infecções do Covid-19? Irei estimar isso mais adiante. Por enquanto vamos falar do Spring Break.

O Spring Break é um costume antigo, original da Grécia, chamado Antestreria, no qual jovens e adultos faziam festa ao Dionísio, o deus do vinho e das festas. Por 3 dias bebiam até cair, com concursos para ver quem engolia um copo de vinho mais ràpidamente. Isso ocorreu até que o cristianismo fez isso parar. Por volta dos anos 30, nos EEUU, o Spring Break foi sendo desenvolvido, com os estados da Flórida e do Texas botando fogo na catraca, e hoje é um costume estabelecido, parte da cultura universitária americana.

Voltando então ao custo do Covid-19 aos cofres da Flórida, e do impacto da decisão do Ron de Santis abrindo o estado aos spring breakers. A Flórida tem a metade da popluação da Califórnia, em números redondos. Mas o nível de infectados vai ràpidamente chegando ao apex da Califórnia, e o número de mortes avança também rapidamente. Em números redondos, a Califórnia deu o apex em 48 infecções por 100 mil habitantes, e a Flórida  ainda não chegou ao seu paex, com 72 infecções por 100 mil habitantes. A Califórnia registrou 1 morte por 100 mil habitantes, número decrescente, enquanto a Flórida vai para 2 mortes por 100 mil habitantes, número crescente. Qunato custa isso por infectado hospitalizado e por vida perdida? A Califórnia, por haver contido a explosão irá reativar a sua economia mais rapidamente, enquanto que a Flórida vai ficar paralisada por pelo menos o dobro do tempo. Vamos por partes. Se a Flórida tivesse aprendido com a Califórnia, teria ganho um par de mêses em atividade econômica, e gasto a metade em custos hospitalares. Assim, posso calcular que o custo em paralização marginal da economia e em custos hospitalares, é pelo menos de 50 a 100 vezes maior do que o lucro do Spring Break.

Esse é o preço que pagamos pela ignorância do nosso governador, que não teve cabeça própria para pensar e seguiu à risca os mandamentos do homem-laranja, que aliás, tem um devoto lá na terrinha. É isso.

Coronavirus confirma minha leitura das situações da China e Hong Kong (e a CIA também!!!)
Peter Ho Peng

Duas edições atrás, publiquei no JB&B o artigo “Entenda a China” no qual expressei minhas respostas a dois assuntos que preocuparam meus amigos incessantemente durante todo 2019. “Peng, que negócio é esse de barreiras tarifárias, de guerra Trump versus China?” e “Peng, o que está acontecendo em Hong Kong?”

Revendo; naquele artigo, escrito em 2019, eu defendi duas teses:

a) Sobre Hong Kong, disse que nada de maior iria acontecer. Os protestos, distúrbios, em Hong Kong, não seriam aquela fagulha que poria fogo em toda a pradaria. Sim, até o final do contrato assinado com Margaret Thatcher, 2047, no qual o conceito de “one country, two systems” emergiu, a China não irá intervir. Mas a evolução do conceito terá que evoluir. Principalmente no aspecto de liberdade de expressão. A ênfase do meu argumento foi colocada na dependência de Hong Kong à China, e na “free ride” ou carona que Hong Kong pegou de 1971 a 2001 com o desenvolvimento da China. Essas duas datas marcam, a primeira, a visita de Nixon e Kissinger à China, o começo do final do boicote à China; e a segunda, a entrada da China na OMC, Organização Mundial do Comércio, ou WTO, World Trade Organization. Revendo meu argumento, durante esse período de organização da China para o seu longo período de crescimento continuado, Hong Kong foi o porto de entrada de capital e investimento estrangeiro na China, beneficiando-se de sua posição geográfica. Sem criar nada, simplesmente recebeu, por herança. Após o ingresso na WTO, a importância de Hong Kong como porta de entrada de investimento estrangeiro diminuiu progressivamente. A bolsa de Hong Kong ainda é usada para a abertura de capital (IPO – Initial Public Offering) de algumas empresas chinesas. Hong Kong continua com turismo e com a base financeira, mas sua importância estratégica para a China é minúscula.

b) Sobre a guerra tarifária Trump versus China, eu manifestei a opinião que a China emergiria mais forte dos boicotes e banimentos impostos pelo governo Trump. Fui lá atrás, pulei dez mil anos de história, para chegar na história da China nos últimos 1500 anos, e descrevi os principais eventos que forjaram o pensamento do povo chinês e como culminaram com a China atual. Revisei a humiliação que os imperialismos ocidentais e japonês submeteram a China durante os 1800s e 1900s, e a resiliência que a China demonstrou para superar esse domínio imperialista. A China passou por boicotes e guerras militares e comerciais muito piores do que a que os EEUU fazem agora. Análises de economistas americanos, dentro do próprio governo, vinham medindo o efeito das barreiras tarifárias e concluindo após dois anos, que o maior prejudicado foi o povo americano. A China, no novo tratado assinado com Trump, pouco cedeu.Tratei também da questão da acusação de roubo de propriedade intelectual e do argumento de segurança nacional para justificar o banimento da Huawei. Mostrei que a liderança em tecnologia, nessas duas frentes, Inteligência Artificial e velocidade wifi (5G) reside na China.  Agora, em Janeiro de 2020, o Pentágono, a CIA, Central Intelligence Agency, veio à tona desafiando o argumento de Trump, que a segurança nacional estaria ameaçada, justificando o banimento da Huawei. A CIA disse que é justamente o contrário. O banimento da Huawei prejudica tanto as cadeias de suprimento das pequenas e médias empresas americanas de tecnologia afastando-as da China, que, esse atraso, essa defasagem, isso sim, ameaça a segurança nacional dos EEUU.

Mais recentemente, o surgimento do Covid-19 ou coronavirus e as ações dos vários países em resposta à essa pandemia, confirmam as minhas previsões e argumentos em ambos temas. Vejam: Hong Kong primeiro; os protestos pararam e a dependência de Hong Kong à China ficou super-evidente. Hong Kong não tem vida própria. Como pode querer independência?

Agora, sim, o Covid-19 foi gerado na China. Quem são os culpados? Todas as responsabilidades passam pelo Partido Comunista da China. A burocracia estatal, criação do PCC,  deixou o virus prosperar, por ignorância. Os burocratas relativizaram o primeiro apito, impondo silêncio como se esse primeiro apito fosse ou um alarme falso ou, pior, uma tentativa de subversão. Os médicos de Wuhan que sopraram o apito alertando para um novo virus, foram silenciados e obrigados a assinarem declarações de que espalharam boatos. O primeiro deles Li Wenliang, 34 anos, foi contagiado e morreu. Li está sendo venerado como mártir agora. Ele teria detectado o paciente zero. O hábito da população dessa província, de comer animais exóticos, o que é proibido por lei, é crime, mas a lei não é exercida, o hábito é tolerado, com o risco conhecido. É bastante sabido que morcegos transmitem novos viruses para animais terrestres e um desses animais, que parece um tatu, é raro, e em risco de extinção, tem a caça proibidas, mas sua carne é produzida em criadouros e era livremente comercializada em Wuhan. Não sabemos ao certo, pois falta informação, mas parece que esse animal foi o hospedeiro do primeiro Covid-19. Novamente, perguntamos como o PCC fez vistas grossas para esse hábito proibido. Lamentável. Isso possibilitou à endemia se espalhar mais rapidamente.

Contudo, após esse erro ser reconhecido, a China demonstrou ao mundo como reagir à um problema sério de saúde local e mundial. A China isolou rápida e totalmente uma inteira província. Mais de 50 milhões de habitantes em quarentena e sendo testados. Leis duras para ninguém desobedecer. Por exemplo, quem esteve em contato com alguém teste-positivo, e mentir, comete crime capital, passível de pena de morte. Então a endemia está sendo contida. A resposta da China, não no primeiro momento da endemia, mas no segundo momento, serve de modelo para o resto do mundo. Fica evidente que a China enfrenta de frente seus desafios e que irá emergir mais forte de qualquer conflito.

O virus virou pandemia. O mundo parou, tratando de evitar a contaminação de suas populações. As economias mundiais pararam. No centro dessa parada, a China. As cadeias de suprimento mundiais são tão dependentes de insumos chineses que o coronavirus parou a economia mundial, e os mundo todo irá pagar um preço muito maior do que a China paga nessa parada. O Banco Central americano – Federal Reserve Board – tenta estimular a economia com política monetária extrema, baixando a taxa de juros para ZERO%! É o grito de desespero, é a última bala no cinturão. Dinheiro de graça para quem quer investir. Isso foi no domingo,  13 de Março de 2020. Na segunda-feira, o Dow Jones caiu 10% nos primeiros 10 minutos de atividade. Na quarta-feira o DJI caiu abaixo do índice antes do Trump assumir. Ou seja, mesmo com essa injeção de grana, a economia americana não alça vôo. Por ora, basta notar que seus mercados (principalmente Europa) e seus suprimentos (principalmente Asia) estão paralisados e a economia americana não decola sòzinha. A redução de atividade econômica na China teve efeitos-cascata pelo mundo todo, e mostra onde se encontra o epicentro da economia mundial. O Covid-19 confirmou a minha leitura que a guerra comercial Trump versus China é mais uma questão de soberba americana do que qualquer outra coisa.

Tudo acima é verificação. Agora vai mais uma previsão. Puramente especulativa. Passada a crise, a China vai mostrar que tem massa própria, um mercado interno gigante e diversificado o necessário e suficiente para fazer o re-start de sua economia voando solo. Como um quebra-cabeças, eles podem colocar em jogo uma peça de cada vez, movimentando a cadeia produtiva numa ordem planejada, até que a velocidade cruzeiro-alvo seja alcançada. Esse não é um quebra-cabeças para o mercado resolver dentro de um prazo finito. É minha especulação. É isso.

Trump conversa com o Chirú
Peter Ho Peng

Buenas, a sabedoria do Chirú chegou aos ouvidos do Trump. Louco para entender o caso da China, o Trump quis conversar com esse tal de Chirú. A Casa Branca então solicitou ao Itamaraty uma entrevista com o Chirú. Iria buscar  no jato presidencial, hospedá-lo a preço de ouro no hotel do Trump. O Chirú só disse: “Será um prazer, mas tem de ser aqui na estância. Não deu alternativa ao Trump.

Imaginem o Donald Trump, perguntando ao Chirú o que aconteceu com a China. 

O Trump iria chegar lá nos pagos montado numa mula, pois com o terreno encharcado só com mula. O meu amigo Chirú diria, passando a cuia, com a água quentinha da chaleira, como boas-vindas, e dando um tempo para o Trump afoito e impaciente perguntar: “Well, Mister Rú, I would like to know what is going on with China, I heard that you have a lot of wisdom. Can you help me?“

O presidente americano tem essa pencha de não escutar seus assessores, e nem entendeu o apelido Chirú. Afinal, ele chamara o presidente da Coréia do Norte, frente-a-frente, de Mister Jun. Bem, o embaixador do Brasil nos Estados Unidos não fala inglês (era o filho número 2), então o tradutor providenciado pelo Itamaraty foi um tal brasileiro que mora no estado americano da Virgínia, que bota nome e apelido nos outros, xinga a mãe, mistura inglês no que diz, e não poupou o presidente americano:

“Esse paquiderme é de uma ignorância sesquipedal; Chirú, ele quer entender a China em cinco minutos. Esse é o intervalo de atenção dele ( “attention span”). Mais longo do que isso ele dispersa e termina falando sòzinho e talvez nos xingue. E ele pensa que teu nome é Chi, o sobrenome Rú, como um chinês.”

O Chirú apenas aquiesceu, de cabeça. O Chirú fala perfeitamente inglês, mas não contou para ninguém do Itamaraty, que programou a visita. Aliás, ninguém do Itamaraty perguntou, simplesmente assumiram que um gaúcho grosso da fronteira precisaria de um intérprete.

“Buenas, Mister Dônaldi, che viejo, então queres que eu te explique o que acontece do outro lado do mundo? Quer mais mate ou “ancim” tá bueno?“ Uma rodada de mate para acalmar os ânimos do Donald, que estava nervoso. O Trump segurou a cuia mas não sabia o que fazer com aquele troço.

O tradutor meio que matou a tradução, se atrapalhou todo com o castelhano e não sabia o que era o outro lado do mundo; não viu que o Chirú estava tirando sarro, mas afinal o Donald entendeu.  O Chirú tentou condensar tudo em cinco minutos. Como dizer ao presidente americano o que se passa com a China em cinco minutos?

O Chirú continuou, enquanto o tradutor acompanhava traduzindo:

“Qual é a população do teu país? 330 milhões? E a população economicamente ativa? 130 milhões? Qual o regime de trabalho, horas semanais? Quarenta? OK”

“Agora, primeiro, os chineses trabalham 12 horas por dia, seis dias por semanas. Setenta e duas horas por semana por cabeça. A China tem 750 milhões de pessoas na população econômicamente ativa. Quase seis vezes mais. E esses chineses trabalham quase o dobro de horas cada um, do que vocês trabalham. Então a grosso modo dá umas quinze vezes mais trabalho do que no teu país. Tem que gerar mais riqueza.”

“Ah, mas os americanos tem automação, robot?”

“ Os chineses também tem muita automação.”

“E o desperdício no teu país, Mister. Na China eles não desperdiçam nada, nem estêrco humano. Então, além de trabalhar e produzir muito mais, eles economizam mais que vocês.”

“Eles já passaram os americanos. O problema é tua teimosia, che viejo, em não querer ser o vice. E te agaranto, cumpadre, o perigo amarelo ainda nem atacou. É, Mister Dônaldi, os tempos estão demudados.²”

O terraplanista tentou traduzir mas complicou-se de novo no “agaranto” e no “demudados”. E traduziu “perigo amarelo” como “yellow fever.” Chirú só quieto saboreando o sarro.

“Quanto ao boicote que estás tentando: os chinas já passaram por dificuldades muito maiores do que essa. Eles tem dez mil anos de história. É claro que eles não tem medo de vocês. E vocês atacaram, quando tinham a seu dispor diplomacia, amizade, paz e parcerias. Os dois gigantes podem prosperar juntos, lado a lado.”

“E nesta guerra tarifária, os chineses chamaram teu blefe, destes o truco, eles retrucaram e foram para o vale-quatro. Aí te pegaram de quatro, Mr. Dônaldi.”

“Mister Dônaldi, porque fostes tão mula ancim?” Mais uma rodada de mate. O astrólogo suava e gaguejava. “Pois nosso vizinho era assim também, como tu. Brigava com todo mundo, porque era o tal, o maioral, etcetera e tudo, quando ele já era. O professor lá das bandas de lá (Uruguay) me disse que era um tal de Ego que flagelava esse vizinho. Bem, depois das tantas, ninguém mais queria trabalhar com ele. Esse vizinho terminou quebrando, acredite. É isso.³”

O Trump não entenderia nada, nem o tradutor, mas sei que meus leitores entenderam o Chirú.

Footnotes
¹ O Chirú é um personagem que eu criei; é o capataz de uma fazenda de gado, nos pampas gaúchos, nos fundos dos fundos das fronteiras; é o chefe de turma, que conversa com os jovens da turma, depois do churrasco de sexta-feira, depois do trabalho, e responde às inquietudes que se passam nas mentes dos mais jovens. Nessa conversa, que pode ser sobre qualquer assunto, futebol, religião, política, amor, chatice, solidão ou felicidade, o mate corre solto. O que poucos entendem, é que o mate não é para tomar: é para conversar. A rodada de mate dá tempo para as idéias voarem e pousarem.
² Esse virginiano, astrólogo, terraplanista, plagia o General Mourão Filho, o mineiro, com esse termo, ignorância sesquipedal, usado quando descrevia o seu colega de farda Arthur da Costa e Silva, o outro gaúcho.  O Chirú começa a gozar do tradutor terraplanista, que não sabe o que é o outro lado do mundo. E não sabe o que é “ancim” (assim).
³ Bandas de lá: Uruguay; doença do Ego, teimosia, já indicada pela metáfora da mula, e finalmente o Chirú fechando a conversa plagiando o Professor Pasquale Cipro Neto.

Peter Ho Peng nasceu na China e cresceu em Porto Alegre. Formou-se na UFRGS em engenharia química e na Georgia Institute of Technology (MSc e PhD).
É morador de Tierra Verde, Flórida. peterhpeng@yahoo.com
Entenda a China
Peter Ho Peng

Este Voo Pátrio é o resumo de um livro de 150 páginas. Dada a aproximação da China com o Brasil, há uma grande demanda por entendimento da China. Para entender a China é preciso conhecer sua História. “Quem não conhece a História está condenado a repetí-la”, diz o velho ditado. A História forja o pensamento de um povo. No caso da China, história multi-milenar. Entretanto, o Ocidente criou miragens chinesas que modelaram seu entendimento, e que continuam a guiar sua visão, errando contìnuamente. Eu chamei isso de eurocentrismo em artigos passados no B&B.

Como preâmbulo, darei uma medida do dinamismo da China. A revista americana Fortune publica todo ano um ranking das 500 maiores empresas globais. Esse pódio foi criado há uns 70 anos. Em 2019, dessas 500, 121 eram americanas (126 em 2018), 119 chinesas (a China conta 129, pois ela inclui 10 empresas de Taiwan, que a China considera chinesas), e 8 brasileiras. A primeira idéia da velocidade de crescimento da China pode ser dada observando que em 2001 dessas 500, apenas 10 eram chinesas, 6 brasileiras. A brasileiras de 2019 são as estatais ou para-estatais: Petrobras, CVRD, BB, Itaú-Unibanco, Bradesco;, JBS. A CEF (a Caixa) é novata no ranking mas ingressou no pódio já no meio das 500 e o BB caiu quase 200 posições. Não precisa ser gênio para sacar. O Brasil não criou nada, apenas repartiu a bonança estatal entre dois de seus bancos. É o canetaço que conhecemos. Das 25 novas entrantes, 13 são chinesas. Ficamos parados no tempo, e a China passou por cima. Como? Continue lendo.

A China tem 4000 anos de cultura escrita, e foi formada a partir de guerras entre dinastias, emergindo vitoriosa a dinastia Qin, há 22 séculos, resultando na consolidação progressiva de territórios que formaram a China atual. Cerca de 55 minorias étnicas em 36 províncias, regiões autônomas e municipalidades compõem o mosaico da China. Com quase um bilhão e meio de habitantes, ocupam uma área comparável à dos Estados Unidos e à do Brasil. Não deve ser fácil governar essa gigantesca massa de gente e de território. Mas o governo da China não deixa dúvidas de que governa. Sim, às vezes até demais e eles sabem disso.

A História antiga da China mostra uma civilização avançada, com conhecimentos de navegação,  astronomia, medicina, cerâmica, tecelagem, escrita, agricultura muito superiores às da Europa de então. Documentos da época, como mapas geográficos globais, mapas celestes, mapas do corpo humano, técnicas de construção, invenções como o papel, os tecidos de seda, e trocas comerciais como a presença de milho na China (nativo do Peru e não auto-propagável; precisa ser plantado) e arroz na América do Sul, e muitas outras plantas agrícolas, ao longo dos séculos, evidenciam a troca comercial da China com a América centenas de anos antes de Colombo. Modernamente, testes de DNA, tanto mitocondrial (linha materna) como masculina, de povos indígenas certificadamente não-miscigenados com estrangeiros demonstraram clara ascendência chinesa, com genes que não são encontrados em nenhum outra parte do mundo. A opulência dos palácios imperiais e das obras gigantescas –A Grande Muralha da China é a sétima maravilha do mundo– serviam como demonstração do poder central e do gigantismo de uma nação única; então a maior nação do mundo por extensão; por milênios o centro de gravidade cultural e populacional.

Uma tempestade elétrica, em 1421, destruiu grande parte da nova capital, Peking, e o recém construído palácio imperial. Monges budistas interpretaram isso como um aviso dos céus. O imperador  estava sendo demasiado ousado e ambicioso. Fizeram a cabeça do imperador. Aí parou a inovação tecnológica da China, e começou o declínio do império e da nação, que levou aos séculos de exploração e humilhação pelos imperialismos terminando finalmente com a revolução republicana e a comunista.

Um artigo escrito por mim, entitulado “Quem descobriu o Brasil?” e publicado no Jornal Brasileiras & Brasileiros, trata desse assunto com maior profundidade. Eu lanço mão dessa referência de história não-eurocêntrica para documentar que durante as centenas de anos em que a China dominou os mares, e esteve por todo o mundo, nunca colonizou ou explorou os povos menos evoluídos que encontrou; sempre praticou um comércio bi-lateral: a filosofia de respeito da vida oriental.

Bem diferente da maneira como os imperialismos europeus (principalmente Inglaterra, Austria-Hungria, Alemanha, França), americanos e japonêses trataram a China. A partir de 1800, com ampla superioridade militar, principalmente com as armadas navais, os imperialistas invadiram e tomaram os portos principais de entrada e saída de mercadorias, tornando esses territórios colônias, humilhando os governos chineses monárquicos. Simultaneamente ao domínio dos portos, inundaram a China com ópio. O contrabando era livre. Na volta, os navios iam carregados de seda, chá e preciosidades dos palácios imperiais. O ópio vicia o usuário sem saída, e acaba com ele, com suas famílias, suas posses.

Figura 1. Cartoon francês mostrando os imperialistas fazendo a partilha da China, sob o olhar de um mandarim (os manda-chuvas chineses, que deixavam as unhas longas como símbolo de riqueza: não faziam trabalhos manuais)

A humilhação das monarquias vigentes era completa: o controle dos portos era total, inclusive com toda a renda do tráfego portuário indo para os imperialistas, e todos, britânicos, americanos, alemães, franceses, japoneses, austríacos-húngaros, italianos e russos tinham o seu quinhão de território  e portos. Mas quem mais lucrou com o comércio de ópio foram os britânicos.

Para completar, o imperialismo caminhou sempre pari passu (lado a lado) com os missionários cristãos. Os imperialistas forçaram o governo monárquico chinês a conceder livre-conduto aos missionários, que podiam adquirir terrenos para construção de igrejas, e chegaram a converter igrejas budistas em igrejas evangélicas. O mesmo processo de catequese empregado na América, para salvar os indígenas nativos. Lembram, esses selvagens amarelos não tinham alma, e precisavam ser salvos; foram dizimados culturalmente e fìsicamente. Isso foi novamente empregado na China. Leis forçadas estabeleceram cortes judiciais estrangeiras dentro da China, que concordara que os cidadãos estrangeiros que cometessem crimes não estariam sujeitos às leis chinesas, e seriam, ao invés, julgados pelas cortes judiciais estrangeiras estabelecidas na China.

Um dos resultados desse colonialismo, foi a cessão de Hong Kong para os britânicos, em 1897, em um contrato de comodato por 100 anos. Desde 1842 Hong Kong já era colônia britânica. O acordo de 1897 foi para garantir que a China não iria, por um século, tentar reaver a colônia. Aproximando-se a data da devolução, em 1997, os britânicos tentaram de todos os modos prolongar o comodato, pelo menos por mais 50 anos. Mas a China já estava firme. Daí nasceu o conceito de “um país, dois sistemas” para organizar a relação entre China e Hong Kong. Porém criminosos de 20 países se refugiam em Hong Kong como um paraíso penal. Por exemplo, um adolescente em Taiwan matou a namorada grávida, depois jogou seu corpo numa mala, e fugiu para Hong Kong. Como o crime não foi cometido em Hong Kong, e não existe acordo de extradição entre Taiwan e Hong Kong, esse criminoso não pode ser julgado como assassino. Foi condenado a apenas 29 meses de cadeia por crime de lavagem de dinheiro. A China tentou uma lei de extradição. A governadora de Hong Kong concordou. Esse foi o estopim dos protestos. A governadora posteriormente revogou sua aceitação do mandato de extradição, e pediu desculpas, mas a população de Hong Kong não aceitou, e estradulou nos protestos, clamando por eleições diretas, democracia e independência. Eu retorno a esse tema mais tarde, depois de alimentar a discussão com mais História da China.

Esses séculos de imperialismo e subserviência das monarquias levou o Ocidente a desenvolver uma miragem chinesa: a de um povo inferior, fraco, ignorante e servil. Com tanta humilhação era natural que o povo se rebelasse, primeiro, contra os estrangeiros, principalmente os missionários, e rebeliões consecutivas levaram inevitàvelmente ao fim da monarquia, com a república declarada em 1911, e a formação de um Partido Nacionalista. Mas o novo regime não conseguiu administrar a desigualdade brutal do país, e um Partido Comunista (Mao Zedong) foi formado (1922). Junto com o Partido Nacionalista (Chiang Kaichek), foram aliados para tentar governar o país. Mas os Estados Unidos, junto com seus missionários, construíram uma imagem de Chiang como um cristão convertido: Chiang era apresentado na mídia ocidental sempre segurando a bíblia numa foto mostrando uma cruz na parede ao fundo; o Ocidente pensou: esse é o nosso cara. Construiram mais uma miragem e acreditaram nela. E os EEUU armaram Chiang para que ele expulsasse os quadros do PCC do governo de coalizão (1929) e fizesse da China uma democracia cristã. Mas o Japão invadira a China e conquistava cada vez territórios maiores, a partir da Coréia, que teve como colônia japonesa de 1910 a 1945. Um fato histórico pouco conhecido foi que os japoneses escravizaram 30 mil jovens coreanas e as levaram ao Japão como escravas sexuais, povoando assim os seus bordéis. O imperador Hiroito, acreditavam os japoneses, era descendente direto de Deus, e portanto invencível. Muitas guerras contra o Japão se seguiram, com Chiang tentando eliminar os comunistas e expulsar os japoneses ao mesmo tempo. Nesse meio tempo, Hitler e Mussolini levavam seus adeptos à loucura, com o sonho de dominar o mundo e purificar suas raças. E eclodiu a segunda guerra mundial (1939-1945). Os Aliados: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China se uniram para derrotar os países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão. O resultado da guerra todos sabem, mas talvez não saibam que o Chiang era um oportunista que ficou com um pé em cima do muro vendo os comunistas e os japoneses lutarem, para ficar com os espólios da refrega. Mas os comunistas foram os que lutaram, venceram e expulsaram o Japão. O povo chinês viu que Mao era o líder, e que Chiang era um fantoche dos americanos. Em pouco tempo a Revolução Comunista venceu Chiang também e o empurrou fàcilmente para Formosa (Taiwan). Esse foi um dos erros do ocidente, que insistiu no erro; de 1945 a 1971 a China foi representada na ONU por Taiwan. Felizmente depois tivemos a diplomacia do ping-pong que levou passo a passo à abertura formal. Leiam “Um chinês e nós”, artigo publicado no JBB em 2012, e que previu tudo o que acontece hoje na China.

A China nunca teve cartões de crédito, ela deu um pulo por cima.

Assim como o cartão de crédito alavancou o comércio, inicialmente, agora passa a trancar.

 

Figura 2. Shenzhen, o modelo de cidade do futuro

No início do período Mao, a China acertou em algumas coisas, mas errou em muitas. Mao fez uma reforma agrária, distribuindo terras a 300 milhões de camponeses miseráveis. Mao era intocável, a ideologia do Livrinho Vermelho se espalhou por toda a China. Dentro da reforma agrária de Mao, cada comuna tinha uma cota de produção, e o excesso seria contribuido ao erário público central. Isso funcionou inicialmente, mas depois levou o país a fomes brutais, forçando alguns camponeses a mendigarem. Mao era um gênio militar, mas um governador dogmático. Uma comuna de nome XiaoGang secretamente redistribuiu a terra sob sua guarda entre seus membros, num pacto de 79 palavras. A quota ao Estado seria dada ao Estado e o excesso seria para cada família vender secretamente. Um pacto secreto foi assinado com sangue, prometendo que, em caso de prisão ou execução de algum membro da comuna, os demais iriam cuidar dos filhos do aprisionado ou morto até a idade de 18 anos. Todos os membros assinaram. O experimento deu certo, com colheitas-recorde, batendo todos os 30 anos anteriores, e a renda familiar teve um aumento que superou a soma de todos os 20 anos anteriores. Um membro do partido que supervisionava a comuna ameaçou de punição severa ao camponês-líder do movimento, dizendo que eles haviam desenterrado as raízes do socialismo, mas um outro membro do partido acima dele observou os resultados e permitiu o experimento continuar, desde que não se espalhasse. Mas de boca-em-boca a idéia se espalhou, a informação sobre as colheitas-recorde chegou aos ouvidos de Deng HsiaoPing e, três anos após a morte de Mao, Deng iniciou uma nova reforma agrária, ao reverso da reforma de Mao: redistribuiu toda a terra do Estado e permitiu aos agricultores a venda dos excedentes, a preços livres, sem controles. Isso acabou com a fome na China e iniciou a revolução econômica. Isso aconteceu antes da abertura formal da economia. Mas o mais espetacular dessa estória é que hoje, a comuna de XiaoGang é um local histórico, e o pacto de 79 palavras tem um lugar de honra para os visitantes verem e lerem, e seus assinantes são considerados heróis da pátria.  O maior acerto de Deng: a instalação de um centro tecnológico em Shenzhen, no continente, ao lado de Hong Kong. Uma tentativa de criar um Vale do Silício chinês. Shenzhen tinha então uns dez mil habitantes. Hoje, Shenzhen tem uns 12 milhões de habitantes, e tem milhares de empresas inovadoras, é um modelo de cidade do futuro para o mundo inteiro. Esses pedaços da história da China são pouco conhecidos no Ocidente. Vou tentar sintetizar meu entendimento da psicologia do Ocidente, para justificar porque escondem tudo isso de nós. Os poderosos continuam com as miragens: um povo ignorante, inferior, submisso, dogmático, e aquela do Chiang segurando a Bíblia e a cruz na parede ao fundo, ou seja, o sonho de que a China pode ainda se tornar uma democracia cristã.  O ocidente não aprendeu que na China os erros e os acertos são reconhecidos e que a prática do dogmatismo vai passo a passo desaparecendo. Não se sobrevive 5000 anos de história escrita sem pragmatismo. Essa postura da liderança só se soma à confiança do povo no seu governo. Podemos discordar das ideologias, mas da governabilidade ninguém pode duvidar. Tentarei agora dar uma visão da China atual. A base da China atual é tecnologia inovadora. Darei apenas 3 exemplos. Na área de tecnologia de informação aplicadas ao comércio e serviços, a base dessa liderança é WeChat, o Whatsapp chinês com o código QR.

Simplificadamente, é um código multi-dimensional, que identifica unicamente cada portador. Todo chinês tem um código QR que ele carrega no seu celular. Através do código QR, ele pode fazer suas compras e vender, tudo automatizado. Por exemplo, ele consulta um cardápio à distância, faz o pedido e paga; em seguida é informado da hora em que o pedido estará na sua casa ou apartamento. Tudo em sequência de segundos. Ao mesmo tempo que recebe e aceita o pedido, o restaurante alardeia para uma rede de moto-boys que terá uma ordem de comida de tal tamanho e peso, no horário tal, e que precisará ser entregue no endereço tal, e que pagará x yuan (moeda chinesa) por tal serviço. O motoboy pelo seu celular sabe o custo de gasolina e tempo e distância até o restaurante e aceita a tarefa. Naturalmente tem que ser rápido no gatilho, pois tem uma concorrência livre no ar. O WeChat faz a comunicação, e um aplicativo de comunicação distribui as informações. Pensem na economia de tempo e gasolina que você teria, indo ao restaurante, pegar comida. Em questão de uns 30 minutos, o comprador recebe a sua comida, ainda quentinha, na sua porta. Todas as transações são feitas pelo código QR e pagas por uma caixa virtual, do tipo Paypal, na China chamada de AliPay. A diferença entre o Paypal e o Alipay é que o AliPay tem mais de 900 milhões de usuários, e o Paypal tem menos de 200 milhões. Por quê os Estados Unidos não conseguem essa velocidade? Porque o Paypal se baseia nos cartões de crédito. A China nunca teve cartões de crédito, ela deu um pulo por cima. Assim como o cartão de crédito alavancou o comércio, inicialmente, agora passa a trancar. O segundo exemplo é o WeDoctor. O WeDoctor começou como um aplicativo de agendamento de consultas. Agora integra 3.200 hospitais, 290 mil médicos e 150 milhões de pacientes. O hospital é virtual. O médico visita o paciente pelo aplicativo. Tem sempre médico de plantão. Claro, às vezes o paciente tem que esperar uma chamada de retorno. A família aciona um aparelho, e os exames de rotina, como pressão, temperatura, batimentos cardíacos, são feitos à distância. O paciente é examinado por video. Foi identificado que 80% das receitas médicas correspondem a um número reduzido de remédios, que podem ser fornecidos por uma máquina automática, colocada em locais estratègicamente distribuidos. A receita é enviada pelo celular e a máquina dispensa o medicamento, tudo pelo QR. O terceiro exemplo é o Ping An, uma empresa de seguros. Vou me restringir aos automóveis. O segurado aciona o seu seguro por um app no seu smartphone, responde algumas perguntas e envia fotos do seu veículo danificado. A Ping An analisa as fotos e responde em três minutos. Faz a oferta do acerto e se o segurado topar, os fundos são transferidos imediatamente para o usuário. O algoritmo da Ping An foi desenvolvido a partir de uma base de dados de 25 milhões de peças usadas em 60 mil marcas e modelos de carros vendidos na China, e custos de peças e mão de obra de 140 mil oficinas e chapearias. O algoritmo também informa se o dano pode ser consertado ou se a peça precisa ser reposta. Além disso, o sistema integra toda a informação com sistemas de reconhecimento de voz, face e imagens, numa matriz complexa de sistemas anti-fraude.  Em 2018, 62% das reivindicações foram acertadas dessa maneira. Percebam como os aplicativos são projetados para a conveniência e proteção dos clientes.

Vale a pena examinar as cidades do futuro. O transporte é a chave, e os trens-bala e os veículos elétricos formam as plataformas principais. Os trens-bala somam 5 mil e 600 veículos, numa malha de 30 mil quilômetros, crescendo 10% ao ano, e já conectam 33 das 36 províncias, e todas as grandes cidades. A velocidade máxima é de 350 km/h. O desenvolvimento que vem atrás dessa ligação pode ser exemplificado por uma viagem Pequim-Shanghai. Essa viagem por trem-bala leva menos do que 5 (cinco) horas, e custa R$120, ou, ao câmbio atual, cerca de 30 dólares por passageiro. Essa viagem por avião levaria 2 (duas) horas, mais o check-in e check-out, as esperas, e levaria ao todo umas 4 (quatro) horas para o passageiro, e custaria dez vezes mais. Cada avião transporta de 5 a 10% do número de passageiros de um trem-bala, precisa mais tripulação e consome o mesmo combustível. Os carros e ônibus elétricos metropolitanos crescem numèricamente e irão ultrapassar os convencionais. O segredo disso são as malhas de carregamento de baterias. Energias contínuas ou intermitentes, geradas por qualquer fonte, solar, energia eólica, termoelétrica, outras, alimentam o banco de baterias e os usuários carregam em qualquer posto. A China é líder mundial em equipamentos de geração de energia solar. Em 2018 construiu o equvalente a 3 Itaipús, e segue em ritmo acelerado. A China é líder mundial em baterias para armazenar energia de todo tipo. Isso ocorre por que a China tem as maiores reservas mundiais de lítio do planeta, e controlam muitas jazidas fora da China. O lítio é elemento essencial das baterias modernas. Os usuários podem também vender a carga excedente para a rede, energia que tiverem armazenado, para depois comprar nova carga mais barata fora do horário de pico. A frota atual é de cerca de 15 mil ônibus elétricos, cada um com autonomia de 300 quilômetros. Uma carga completa custa R$120 ou cerca de 30 dólares. Os automóveis tem autonomia de 400 quilômetros e pagam cerca de R$20 ou 5 dólares por carga. Isso dá 5 centavos de real por quilômetro rodado. Os veículos são totalmente silenciosos.

Eu não vejo ninguém no Brasil fazendo autocrítica. Os pais não ensinam isso aos filhos.

A China demonstrou como reconhece erros e acertos.

A base financeira é o capital aberto. A Bolsa de Shangai, a NASDAQ chinesa, com as ações do grupo apelidado STAR (Science and Technology Innovation Board), abriu na semana de 22 de Julho de 2019. No seu primeiro dia, esse grupo que abriu seu capital valorizou na média 44%. Uma empresa, Anji Microelectronics, chegou a 400% de valorização no dia da abertura de seu capital. Essa bolsa foi um projeto de estimação de Xi JinPing, chefe atual do governo chinês.

Para completar, a troca de mercadorias tem base em um projeto em andamento, chamado de One Belt, One Road Initiative, que interliga os continentes Ásia, Europa e África como nunca antes. As rotas marítimas são integradas com as malhas ferroviárias, rodoviárias e pipelines (gasodutos ou oleodutos). A comunicação é a base do comércio bi-lateral, e a base da paz e da prosperidade. Com base na infraestrutura, e identificando as áreas nas quais desenvolve liderança mundial: energia solar, armazenamento de energia, microeletrônica, inteligência artificial, robótica, manufatura.

Volto às primeiras-páginas dos jornais: os distúrbios em Hong Kong e a guerra comercial entre Trump e a China. A seguir, meus prognósticos, com base no que eu mostrei acima.  Não vai acontecer nada em Hong Kong; se Hong Kong ficasse independente iria falir. Nenhum dos desenvolvimentos tecnológicos aconteceram em Hong Kong, e sua dependência da China só aumenta. O interessante é que por 155 anos Hong Kong foi dos britânicos, seu governador era nomeado por Londres e respondia a Londres, e durante todos aqueles anos, não protestou por democracia e independência. Quanto a Trump, a China tem massa para aguentar o bloqueio americano, e quem está sofrendo mais são os consumidores e os agricultores americanos. Essa é uma guerra ideológica, não comercial. A perspectiva do Trump é apenas de quatro anos: a sua reeleição. A perspectiva da China é milenar.

O que o Brasil pode aprender com a História da China? Todos sabemos que o Brasil tem riqueza mineral, potencial energético, agrícola, tudo para crescer. Mas permanece atolado no lamaçal político, educacional, administrativo, ideológico, social. Fica parado.

Não há nada que corroa tanto como a corrupção, e esta está dentro do poder. Temos uma cidade-capital onde os corruptores e os corruptos são vizinhos. A diferença é que os corruptos moram em apartamentos estatais e os corruptores em hotéis de luxo, vizinhos. Tratam dos assuntos de interesse mútuo – o toma-lá-dá-cá – nos restaurantes finos da região. Essa corrupção é independente de ideologia. Eu defendo a tese que isso tem a ver com o caráter dessa gente, vem de dentro da alma. Continuarão a cultivar suas bases eleitorais, sejam elas populistas de um lado ou de outro. E no processo, vão destruindo a sociedade. Sem desfazer esse poder, nada irá mudar. Os populistas apenas mudam de lado. O populismo é projeto de poder, não de nação. O populismo surge porque as sociedades não conseguem satisfazer as suas populações. A corrupção faz tudo apodrecer. A impunidade é de pleno acordo. A corrupção segura o país. E nos amarra com um nó górdio. Aquele que não pode ser desamarrado; quanto mais se tenta, mais apertado fica. Só cortando.

Vamos tentar entender como a China fez tanto progresso em apenas 40 anos. Em primeiro lugar, ficou pragmática, superou o dogmatismo de Mao, um gênio militar, mas em política governamental, um desastre. Para isso, é preciso fazer autocrítica. Eu não vejo ninguém no Brasil fazendo autocrítica. Os pais não ensinam isso aos filhos. A China demonstrou como reconhece erros e acertos. Em segundo lugar, ter uma visão de longo prazo, construtiva, como a paciência ensina. Isso se chama também de planejamento. Mas o potencial produtivo do povo deve ter o objetivo de erguer o coletivo do buraco. Em terceiro lugar, tentar criar, como a China fez, em áreas onde o Brasil pode ter vantagens comparativas. E entrar na Nova Rota da Seda, pois é na região da Ásia-Pacífico que se dará o crescimento. A Europa parou, e os Estados Unidos está se esgotando. Onde nos ligamos para crescermos?

Tudo isso acontece dentro de um contexto: a China vem construindo uma nação, com perspectiva multimilenar. Ela passou pelo ópio, pela humilhação dos imperialistas, pelas revoluções e guerras heróicas e em apenas 70 anos levantou 830 milhões da miséria absoluta, e tornou-se a maior fonte de capital do mundo. Aguardem o meu livro.

Figura 3. A Nova Rota da Seda: The Belt and Road Initiative (2008-4000)