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O verdadeiro Baurú
Peter Ho Peng

O verdadeiro Baurú é servido no Ponto Chic, restaurante de São Paulo. Localizado a poucos metros do Shopping Paulista, quase em frente à Praça Oswaldo Cruz, o Baurú, graças à reforma ortográfica, agora é o Bauru. Casimiro Pinto Neto, apelidado Bauru, na verdade não inventou o sanduíche que leva o seu nome. O Bauru, o dono de um restaurante, o Ponto Chic, estava um dia com muita fome. Era 1937. Pediu para um sanduicheiro, chamado Carlos, falecido, para abrir um pão francês, tirar o miolo e por um queijo derretido dentro.

O Carlos, cujo sobrenome ficou perdido para a história, misturou quatro queijos: suíço, prato, goude, e estepe, derretidos em banho maria, e encheu o pão. Já ia fechando quando o Bauru pediu para ele colocar fatias finas, mas não muito finas, de rosbife, por cima do queijo. Novamente, o Carlos ia fechando o sanduíche quando o Bauru pediu para juntar alguma vitamina. O Carlos juntou fatias de tomate fresco e de pepino em conserva. Esse foi o primeiro bauru, que depois se espalhou pelo Brasil, e depois mundo, pelos restaurantes brasileiros que foram imigrando.

Nesta mais recente visita ao Brasil, fui a um dos três Ponto Chic de São Paulo. Fui de metrô. Como funciona esse metrô. Estação Vergueiro. No meio do caminho, encontrei o um dos múltiplos centros ou espaços culturais de São Paulo, maravilhoso, e depois fui ao Ponto Chic, e pedi um bauru. Já veio com a opção de rosbife quente ou frio. Bem, grande coisa. Mas claro, queria quente.

Mas o que mais me interessava é saber como o bauru se espalhou sem franquias. Mesmo que o nome tivesse sido registrado, já teria passado a domínio público. Pela lei de marcas e patentes, isso tem um prazo. Não me lembro bem quanto tempo, apesar de ter vivido disso por alguns anos no passado. Bem. Vá lá. Não é a primeira coisa da qual me esqueci.

O importante foi a experiência de ir ao Ponto Chic e curtir o verdadeiro bauru. Depois, cinemas de rua, neste caso, o Belas Artes, cinema histórico, que se manteve por ter sido tombado, preservado como história, vi um filme que será 100% garantido, candidato a Oscar, “The Professor and the Madman”. Mais um pouco de São Paulo. Em outras edições terá mais.

Um bom bauru para todos!

Saudades do futebol irradiado
Peter Ho Peng

Querido leitor: essa vai ser para matar as ditas cujas, ou então fará o reverso, irá aumentar a tua saudade. Nós, amantes do futebol, e alguns de nós tivemos a sorte de escutar muitas partidas irradiadas, temos lembranças imemoriais. Mas aqui, onde todos os esportes são televisionados, se pratica a narração “play-by-play,” sem a emoção do narrador. Existe no rádio o “coloured transmission” ou seja, o narrador que dá cores ao jogo. É uma espécie de narrativa com emoção, mas, sem ter ouvido partidas narradas por rádio, duvido que se equipare ao nosso futebol irradiado. O único esporte que conheço se transmite com emoção equiparável ao nosso futebol é o turfe. Quem não lembra a emoção do narrador, acompanhando o Secretariat, segurado pelo jóquei, guardando energia, até a curva final, quando o jóquei soltou as rédeas, e o Secretariat foi passando cavalo a cavalo, vindo da décima posição, até fazer a última ultrapassagem, e ganhar uma das corridas que fazem parte da copa do mundo do turfe, a Tríplice Coroa. Mas dá para explicar porque o narrador das corridas tem a emoção na descrição da corrida. Os estádios não comportam 20% dos presentes nas grandes corridas. Um dos recordes de assistência foi cerca de 130,000 presentes, todos apostadores, fãs de cavalos, jóqueis, enfim, turfistas, e a maioria absoluta não consegue ver a corrida, por estar de pé no mesmo nível da pista. Então ou ouve pelo autofalante ou pelo rádio. E a emoção do radialista é presente. Ele vibra. Usando a tradução da língua inglesa, ele colore a corrida.

Mas no Brasil entre nós poucos tinham televisão, e poucos menos ainda podiam ir aos estádios. Mas todos assistiam as grandes partidas pelos rádios. Ou pelos rádios de pilha ou pelos auto-falantes nas praças estratégicas das cidades. No meu tempo, o Gre-Nal era grande partida. Ou quando o Brasil jogava uma partida pela Copa do Mundo. Imagino que o Fla-Flu ou o Coríntians-Palmeiras ou Coríntians-São Paulo fossem maiores, visto que Porto Alegre era uma pequena cidade do interior em relação ao eixo Rio-São Paulo. Então tivemos a sorte de herdar o futebol dos ingleses, via Argentina, e daí desenvolver uma gíria futebolística sem igual. Eu falo apenas a gíria do sul. Imagino que o Nordeste tenha desenvolvido mais outras gírias.

Quem não lembra do narrador dizendo, já com emoção, que “o juiz confere o relógio e dá o apito inicial,” e então “rola a pelota.” E quando o Uruguai fez o gol no terceiro chute da partida, pegando nosso goleiro adiantado, desprevenido. A voz triste do narrador, falando “gol,” seguido de um silêncio mortal, e depois “goooollll,” numa voz chôcha, triste. Quem não lembra da emoção do narrador, nos descrevendo os “dribles sem bola” do Garrincha, indo e vindo, zanzando, o zagueiro inglês atrás dele, e a bola parada, intocada. O Garrincha fazendo o zagueiro de “João,” que era como o narradores apelidavam os zagueiros adversários enganados pelo Garrincha. Enxergávamos tudo como se estivémos no campo, em Estocolmo, em Santiago ou na cidade do México. Nossa Jules Rimet.

Mas não veremos mais a “folha-sêca” do Didi, depois que as bolas foram padronizadas, não é mais possível dar esse tipo de chute. Mas que herdamos o jogo dos ingleses, não há dúvidas, e os tiros de “córner,” o “drible,”, e o “charles” a são testemunhas disso. Mas se sobrou alguma dúvida do que escrevi, que o futebol veio da Inglaterra? Então pensem um pouco mais… Pensem na etimologia destas outras palavras: gol, goleiro, placár, falta, pênalti, bola, e até mesmo futebol, e poderia continuar na herança das palavras que nasceram imitando o som, mas tem outras tantas cuja etimologia vem da tradução literal, como: meio-de-campo, ou meio-campista, tiro-de-meta, guarda-meta, e por aí vai.   Mas o “drible da vaca, a costura, a janelinha, a caneta, o balãozinho ou chapéu, o pano, o paninho, o elástico, o chute de 3 dedos,” são gírias exclusivamente nossas. Adicionem aí a “bicicleta, a meia-bicicleta, a tabelinha, o cochilo, a gilete.” Imaginem como um narrador estrangeiro traduziria essa imensidão de jogadas, palavras que o narrador usa para descrever com uma única palavra, a jogada com a precisão exata.

Confesso que o racismo também existia na minha cidade. O Sport Club Internacional, um time popular, composto de negros, foi formado em contra-posição ao Grêmio Football Clube, ou o tricolor, e entrou nas competições chamado imediatamente de Colorado, que veio do colored, ou time de cor. Mais um exemplo de anglicismo. É claro que esse racismo foi sendo diluído com o passar do tempo, e à medida que a superioridade atlética dos negros foi se manifestando, mas que o racismo existiu, existiu. E fora dos esportes ainda prepondera na nossa sociedade.

E como co-adjuvante do narrador, vinha o comentarista, para dar um tempo para o narrador tomar uma água, e descansar um minuto, não, meio-minuto, ou quinze segundos, antes de retomar a narrativa. Mas o comentarista adicionava à narração, agregando precisão. Por exemplo, quando tinha um jogador flagrado em impedimento, “na banheira” ou “pescando,” o comentarista falava se esse impedimento era tão flagrante que o jogador tinha ido “pescar de caniço, anzol e carretilha,” ou seja, sem pressa, tendo ficado “na banheira” muito tempo. Ou descrevia a “catimba, a onda, la ola,” valorizando, matando tempo, “fazendo cêra.” E notava se o juiz iria descontar o tempo.

Antes do jogo começar, era o comentarista que notava que estava tudo pronto dentro das quatro linhas, eram 11 contra 11, titulares, reservas, quem era o juiz, os 2 bandeirinhas. Se os 8 gandulas estavam bem posicionados, enfim, tudo pronto para o show começar.

Se o juiz expulsava algum jogador, era o comentarista que explicava porque o sujeito tinha sido “mandado para o chuveiro,” e o narrador complementava com o “diga boa tarde (ou boa noite) ao senhor Lorenzetti*.”

A partida entre amigos também tinha suas gírias. Era a “pelada,” onde ocorria com frequência o “frango,” o gol que o goleiro toma por falta de habilidade, mas que qualquer outro impediria, e que os amigos narravam entre si fazendo o “cócoricó” para gozar o goleiro adversário, descrevendo o “galináceo, o frango-carijó,” entrando no gol adversário. E entre nós havia mais a “bola estourada,” já que entre os profissionais existe o cuidado mútuo para não se machucarem sem necessidade.

E entre as torcidas tinha também uma gíria própria. Se o juiz apitava algo aparentemente injusto contra o seu time, era automàticamente taxado de “ladrão, gatuno, puto, veado, filho-da-puta.”

E a gíria futebolística foi exportada para outras atividades. Por exemplo, numa partida de xadrês, num jogo de cartas, num debate entre dois, ou entre qualquer competição, onde um lado bate o outro com grande vantagem, dizemos que o vencedor “deu um banho-de-bola” no vencido naqueles embates.

Vou ficando por aqui. Espero que tenha ajudado vocês, queridos leitores, a matar um pouco de saudades, trazido boas lembranças, e que eu tenha “matado essa bola no peito, baixado ao terreno e chutado firme e balançado as redes” e não tenha chutado “por cima,” na trave, ou “balançado as redes pelo lado de fora.”

Um forte abraço e continuem torcendo pelos seus times, pois essa relação é de um valor inestimável, que levaremos até o fim. Em tempo: sim, confesso, eu sou tricolor doente.

(*) Naquele tempo os chuveiros elétricos eram quase todos da marca Lorenzetti. O drible charles é um dos mais bonitos e mais difíceis de fazer. Foi uma marca registrada de Charles Miller, o anglo-brasileiro ao qual é dada a honra de trazer o futebol ao Brasil. Em artigo concomitante a este, explico completamente a origem do futebol no Brasil. O drible charles depois reapelidado de chaleira, consiste em passar da bola na corrida, prender a bola com os dois pés, levantar a bola com o calcanhar de um dos pés, de modo que a bola passa por cima das costas e da cabeça do atacante, e por cima do defensor, que vai correndo em sentido oposto, pois pensa que o atacante deixou a bola para trás. O atacante mata no peito, controla e segue em frente com a bola controlada, já uns 5 metros na frente do defensor.
A Origem do Futebol no Brasil
Peter Ho Peng

As enciclopédias dirão que um anglo-brasileiro, Charles Miller, trouxe o futebol para o Brasil. Verdade, o Charles Miller teve um papel importante para o desenvolvimento do futebol no Brasil, mas a origem do futebol no Brasil antecede ao Charles Miller por várias décadas. 

Charles Miller foi, aos 9 anos de idade, estudar na Inglaterra, mais precisamente em SouthHampton, no sul da ilha britânica, e foi um jogador notável. Ele inventou o drible que conhecemos como “chaleira” ou “charles” – a primeira palavra derivada da segunda, e ambas reconhecendo o Charles Miller como o inventor desse drible. Lembram? O jogador, geralmente um atacante, levanta a bola na corrida, enganchando-a no calcanhar de um dos pés, e prensando a bola com os dois pés, assim levantando-a por cima de suas costas e cabeça, e por cima do zagueiro adversário, que passa correndo em sentido contrário, pois é ludibriado, pensando que o atacante deixou a bola para trás. O atacante controla a bola, geralmente matando no peito e baixando-a no terreno, tudo isso na corrida. Quando o zagueiro tenta se recuperar, o atacante já está com uma vantagem de uns 5 metros. Ele voltou ao Brasil, depois de 10 anos na Inglaterra, e trouxe na bagagem duas bolas, chuteiras, dois uniformes completos e uma bomba.

Em 1900, mais precisamente em Rio Grande, no Sul gaúcho, foi fundado o Sport Club Rio Grande, dando início assim, ao futebol organizado no Brasil. Os paulistas dirão que a Associação Alética Ponte Preta foi o primeiro time do Brasil, embora nas atas de fundação o Rio Grande anteceda o Ponte Preta por 3 semanas. Eu tive uma intersecção na vida com o Sport Club Rio Grande, que contarei mais tarde nesse artigo. 

Mas isso não importa. O importante a registrar é que o esporte bretão foi trazido ao Brasil muito antes desses clubes serem formados. A origem disso foi o Irineu Evangelista de Souza, depois Visconde e Barão de Mauá. Claro, um gaúcho. O Irineu, quando na Inglaterra, viu o progresso baseado na industrialização e no transporte barato dos produtos industrializados. Esse transporte era baseado nas vias ferroviárias dos bretões. De volta ao Brasil, convenceu o Imperador, Dom Pedro II a seguir o caminho dos ingleses. O Imperador comprou a idéia e, guiado por Irineu, iniciou a industrialização brasileira e a construção da malha ferroviária que conectou o interior do Brasil aos principais portos navais, tanto fluviais como marítimos. Do Norte ao Sul, de Madeira, no coração da selva amazônica a Mamoré (Rondônia) a Rio Grande, passando, claro, pelo Rio de Janeiro, por Santos, etc. As ferrovias faziam viável o escoamento da madeira, borracha, minérios, carne, etc, para a Europa, o que marcou um salto no desenvolvimento do Brasil.

Nas cidades, os bondes, uma miniaturização dos trens, possibilitaram o deslocamento fácil e barato das populações, impulsionando assim o comércio varejista e os serviços. E quem construiu as ferrovias e os bondes? Trabalhadores inglêses, que tinham o know-how. E esses operários, para diversão e descanso do trabalho, jogavam futebol. Isso foi pelo menos 30 anos antes do futebol ser praticado de maneira organizada no Brasil.

Voltemos ao tema. A ponte preta real deu origem ao time paulista, existiu e existe até hoje e foi construída no fim do século 19 para transpor a estrada de ferro Jundiaí-Campinas. Como a ponte original, de madeira, ficava manchada pela fuligem das locomotivas, foi recoberta de piche. A alvenaria tomou o lugar das tábuas, mas a tinta preta continua lá sobre os trilhos. Notem a origem dos ferroviários. O Rio Grande, sem campo para jogar, pediu emprestado um terreno da Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil (Companhia Auxiliar de Ferrovias no Brasil), empresa belga que construía uma linha de trem entre Porto Alegre e Uruguaiana. Mais tarde o Rio Grande construiu o Estádio Arthur Lawson, outro inglês. Posso agora contar como minha história pessoal se cruzou com a história do Sport Club Rio Grande. Entre 1959 e 1966, joguei basquete pelo Petrópole Tênis Clube, o PTC, em Porto Alegre. Fui infantil e juvenil. Joguei exatamente uma única partida com a camiseta da seleção gaúcha juvenil, sendo depois cortado. Nosso treinador, técnico e irmão mais velho era o Eduardo Arthur Lawson, neto do Arthur Lawson, quem deu o nome ao estádio do Rio Grande. O nosso Lawson, ou Magrão, como o chamávamos foi titular da seleção brasileira. Para registrar o meu apreço pelo Magrão, conto agora que na ocasião de uma celebração de um campeonato municipal do time adulto do PTC íamos todos, adultos e juvenis, que éramos os líderes da torcida do PTC, comemorar num bar dos arrabaldes. Eu creio que essa celebração ia das 21 às 22:30 horas. Os juvenis, ainda menores, não bebiam cerveja nessas ocasiões. O PTC tinha esse cuidado. Ao final da celebração, eu tinha que pegar um bonde, da Cristóvão Colombo até a estação central, que ficava na Praça Parobé, no Abrigo dos bondes, que davam então a meia-volta. Daí eu pegava outro bonde e, direção a Petrópolis, meu bairro, descendo na parada da Eça de Queiróz. A casa de meus pais era na Eça de Queiróz 892, ou seja, a um quilômetro da parada do bonde. Estimo que viagem toda, do bar celebratório até minha casa levaria cerca de uma hora. E quem me acompanhava, do bar até minha casa, para ter certeza que chegaria, certificando-se da minha segurança, caminhando pela ruas escuras? Sim senhoras e senhores, era o Magrão.

Há cerca de uns quatro ou cinco anos atrás, o meu “brimo” de estimação, um primo em primeiríssimo grau da minha esposa, filho de um “turco” – chamávamos todos os árabes de “turcos” naquele tempo – e eu até hoje brinco com ele, chamando-o de “briminho,” pois tìpicamente os “turcos” não conseguem dizer “primo,” falando em seu lugar, “brimo”; pois bem, esse primo me levou em seu carro de Porto Alegre a Rio Grande, uma viagem de uns 300 km, só de ida, para eu visitar o Magrão. Fomos recebidos pelo Magrão e sua esposa e fui até mesmo jogar um pouco de basquete com o Lawson. Relembrei o cuidado que ele teve comigo depois da celebração do campeonato. O Magrão não lembrava. Oxalá esse conto a ajude a lembrar aquela experiência tão importante para mim, tudo que o Magrão me ensinou com aquele gesto. Generosidade, carinho, cuidado de um irmão mais velho com um irmão mais moço.

Retorno às origens do futebol no Brasil. O historiador Luiz Carlos Ribeiro, da UFPR, explica como a lenda de Charles Miller se desenvolveu: “A história é escrita a partir de registros, só que é complicado encontrar documentos sobre o futebol brasileiro no século 19. Charles Miller era um membro da burguesia paulista – seu pai era diretor da São Paulo Railway, que originou o São Paulo Athletic Club –, e as elites são fáceis de registrar: aparecem em jornais, se preocupam em guardar documentos.” Volto ao Irineu Evangelista de Souza, então o Barão de Mauá. Ele importou as companhias estrangeiras para tocar as obras. O futebol já era popular na Inglaterra e, naturalmente, veio como passatempo para cá. Espalhados pelo Brasil, essa rede de imigrantes foram todos fundadores do futebol brasileiro. Entre 1852, ponto de partida da primeira ferrovia, e a Proclamação da República, em 1889, foram construídos mais de 9.500 km de trilhos – um terço da nossa malha atual. E concomitantemente com o crescimento da malha ferroviária, o esporte foi se espalhando pelo Brasil. Citando a Editora Abril:

“A forma mais clara de mapear isso é seguir a criação de times ferroviários. As empresas ferroviárias foram importantes lugares de organização sindical, que usavam o futebol como elemento de união entre seus funcionários; o resultado disso é a criação de vários clubes vinculados a essas instituições. Entre as décadas de 1900 e 1970, 94 times foram fundados por ferroviários em 20 diferentes Estados. Dessa forma, a bola no pé chegou aos mais diversos cenários brasileiros: de Palmares (com a Associação Atlética Ferroviária, da terra de Zumbi) à Floresta Amazônica (com o Ferroviário Atlético Clube, criado por empregados da Madeira-Mamoré). À primeira vista, dá a impressão de que os clubes ferroviários foram numerosos, espalharam o futebol pelo Brasil, mas não tiveram lá muito impacto em campo. Muitos deles, porém, foram bem-sucedidos, afirma Ernani Buchmann, autor de “Quando o Futebol Andava de Trem”, livro que narra a relação entre ferrovias e futebol no Brasil. “A Desportiva Ferroviária, de Vitória (ES), teve relevância nacional nos anos 1960 e 1970 e a Ferroviária de Araraquara fez barulho nos campeonatos paulistas dos anos 1960. Um dos mais destacados recentemente, aliás, é o Ferroviário de Curitiba, completa, referindo-se a uma das agremiações que originaram o Paraná Clube, de volta à série A do Brasileirão em 2018. O estádio da Vila Capanema, bairro dos ferroviários curitibanos em que o Paraná manda seus jogos, aliás, foi palco da Copa do Mundo de 1950. Ponte Preta que batiza o time paulista foi construída para transpor os trilhos da Jundiaí-Campinas. Não foram só os times das empresas ferroviárias que herdaram esse legado. O Corinthians é o maior exemplo disso: apesar de não ter nenhuma ligação direta com empresas de trem, foi fundado em 1910 por operários do bairro do Bom Retiro que trabalhavam na São Paulo Railway, primeira ferrovia do Estado, que ligava o Porto de Santos ao interior. Quatro anos depois, imigrantes italianos criaram um time com o objetivo de rivalizar com os operários do Bom Retiro: o Palestra Itália, atual Palmeiras. Outro filhote da São Paulo Railway é o próprio clube da empresa, que existe até hoje, mas com outro nome: virou o Nacional Atlético Clube, tradicional time da zona oeste paulistana. Desse jeito, de forma direta, indireta, e às vezes mais indireta ainda, as ferrovias foram colocando o futebol brasileiro nos trilhos. Companhias de trem e seus funcionários foram essenciais para a fundação de clubes como Corinthians, Noroeste (SP) e Asa de Arapiraca.

Como esse modo tão moderno e eficiente de tranporte, tanto de bens como de gente, desapareceu? Na década de 1920, um dos slogans do governo de Washington Luiz, era “governar é fazer estrada”, indicava o princípio da decadência férrea do Brasil. Essa rivalidade rodovia versus ferrovia, inclusive, foi no futebol. Nos anos 1950, a cidade de Itapetininga (SP) parava para ver o clássico local entre o Clube Atlético Sorocabana (nome de uma importante ferrovia paulista) e o Departamento de Estradas de Rodagem Atlético Clube. No governo JK (1956-1961), e ao longo de toda a ditadura, a situação se agravou. De lá para cá, o transporte de passageiros por trilhos praticamente deixou de existir, só restando o de carga, ainda assim com infraestrutura limitada. Os bondes tiveram seus trilhos arrancados. Visite qualquer país da Europa e veja como já tínhamos o que eles tem agora: um transporte ferroviário econômico, e arrancamos tudo, virando ferro-velho. Será que os fabricantes de automóveis e as refinarias de petróleo não deram uma mãozinha, fazendo a cabeça de nossos dirigentes? E o bolso também? Mas como debater isso, num país ignorante e sem liberdade? Cada momento que vocês estiverem num congestionamento de tráfego na avenida Paulista, na Marginal Tietê, vendo um trem passar, lembrem-se que jogamos tudo no lixo. Sim, fomos para o transporte individual, muito bonito, mas que nos custa muito. Viva o Brasil. Bem, essa foi minha história de futebol: 74 clubes do Brasil foram fundados diretamente por empresas ferroviária.

Para completar, volto ao Irineu Evangelista de Souza. No final de sua vida, foi torpedeado por herdeiros do Imperador. Faliu, vendeu suas empresas e seus negócios a preço de banana para pagar suas dívidas. Não fugiu. Acabou pobre mas não escondeu nada. Liquidou até seus óculos que tinha aros de ouro. Comparem esse comportamento com o de nossos governantes e nossas classes privilegiadas de hoje. Pensem se nossos governantes atuais podem ser comparados ao Irineu. Podem sim, ser comparados ao Washington Luís, que não registrou nada na história do Brasil.

A Internet é um mar de falsificações
Peter Ho Peng

2018 foi o ano no qual a farsa veio à tona. A Internet é um mar de usuários falsos, inexistentes, ou existentes apenas eletrônicamente, mas não humanamente; sites falsos, movimentos de mouse falsos, cliques falsos, logins falsos, o único elemento verdadeiro são os anúncios comerciais, pagos pelos anunciantes. Como isso foi descoberto?

Alguns anunciantes do Facebook suspeitaram que o tráfego alegado pelo Facebook era exagerado. Fazendo uma auditoria preliminar conseguiram que o Facebook admitisse que havia um exagero. Mas esse exagero deve ser muito maior do que o que o Facebook admitiu inicialmente.

Preciso voltar um pouco atrás para explicar melhor a trama. A mídia, isto é, os donos das mídias, Facebook, YouTube, AOL, Amazon, etc, são pagos pelos anunciantes pelo número de visuários que cada mídia alcança. Por exemplo, 5 mil vistas no YouTube custam US$15 ou mais. Trinta segundos em um vídeo conta como uma vista. O preço varia também de acordo com o poder aquisitivo do usuário. Por exemplo, aquele visuário que lê o Vogue e/ou o The Economist tem um poder aquisitivo maior do que o visuário que lê matérias não sofisticadas.

Os donos das mídias criaram uma rede de usuários que não existem. “Bots” são robôs que fazem tudo aquilo que um usuário humano faz, simulando cliques, movimentos do mouse, teclado, até música tocando ao fundo, televisão ligada e telefones batendo na casa do “usuário” falso. Esses bots apenas esperam o anúncio se completar para reiniciar a farsa. Estima-se que apenas metade dos usuários da internet seja composta por seres humanos. Na ilustração do artigo, apresentamos uma “fazenda de cliques,” centenas de smartphones, organizados em linhas, como num escritório profissional, todos “vendo” o mesmo video, “pensando ou contemplando comprar” a mesma mercadoria no Amazon, ou baixando o mesmo aplicativo.

Os anunciantes pagam de acordo com o número de visitantes que esta mídia recebe, portanto estão jogando dinheiro no lixo, porque ninguém está vendo seus anúncios. Na ação contra o Facebook, os defensores admitiram 60% de tráfego exagerado, mas os acusadores estimaram esse exagero de 150% a 900%.

Mas algo ainda mais perverso está sendo feito pelos usuários, através de “trolling”. Em quase todas as linguagens do mundo, do Inglês aos idiomas escandinavos, e até ao Português, existe algo que relaciona essa palavra com falsidade, malvadeza. Por exemplo no nosso idioma existe o trouxa. Durante a guerra do Vietnã, pilotos americanos usavam os trolls como alvos falsos, para desviar a atenção dos inimigos, que desperdiçavam bombas em alvos simulados.

Os usuários estão usando os trollers na internet para destruir seus adversários. Por exemplo, nas eleições presidenciais que elegeram o Trump, os russos criaram uma equipe de trollers que, com fotos roubadas, principalmente de negros, fizeram assinaturas no Facebook e outras redes sociais e buscavam outros negros como alvo para disseminar mentiras sobre a Hillary Clinton a fim de persuadir essas pessoas a não votar. Era sabido que, como herança do Barack Obama, a grande maioria dos negros votaria na Hillary Clinton. O voto nos EEUU é opcional, não é obrigatório. Então a sugestão desses trollers era para esses negros a não comparecer. Até um brasileiro entrou nessa; teve sua foto roubada pelos russos, que a usaram para fazer um troll, mascarado de apoiador do Trump, vendo um video no Facebook, e conversando. Isso é uma visita real?

Outros trollers criavam fotos de políticos democratas fazendo algo errado, por exemplo, montados numa atriz de pornô, foto-montagens tão bem feitas que tinham credibilidade. Ou seja, eram equipes altamente profissionais.

Na área comercial, no Amazon, por exemplo, estórias infantis foram alteradas por inteligência artificial, que alteravam a voz do narrador, e alteravam as imagens de tal modo a evitar pagar direitos autorais a quem realmente trabalhou para contar a estória, ou seja, os autores originais. A cópia era produzida sobre o original, a baixo custo, e vendida a preço muito menor, mostradas lado a lado, ou seja, o original e a cópia falsificada, como mercadorias, lado a lado, numa prateleira. Naturalmente a falsificação muito mais barata. Esse tipo de falsificação ainda é difícil de detectar, e a questão de direitos autorais nesse tipo de falsificação, onde inteligência artificial é envolvida, ainda não foi bem definida judicialmente. Outros trollers criavam comentários falsos, avaliações falsas sobre mercadorias verdadeiras, em lojas falsas, a fim de dirigir tráfego de compradores para os concorrentes, os seus clientes, que de alguma maneira lhe pagavam pelo trolling, talvez os empregando diretamente, talvez por alguma maneira subreptícia para não serem identificados de imediato. Sem dúvida isso deveria ser criminoso. O Alibaba, o Amazon da China, tem 30.000 funcionários trabalhando em informática. Eles dizem que fazem mineração de dados. Mas quantos estariam fazendo trolling, falsificando videos, para evitar pagar direitos autorais? Quem vai verificar as prateleiras do Alibaba? E por aí afora.

Existe um método de identificar qual percentagem dos visitantes de um site é de humanos e qual de bots. Entretanto, há um ponto de inversão, no qual a tecnologia presente vai passar a identificar os bots como humanos e os humanos como bots. Isso será corrigido, mas no presente, vai ocorrer isso apenas no ponto de inversão, o qual não sabemos ainda qual será numèricamente esse ponto de inversão. Pode ser 50% ou mais.

Pessoalmente, não acredito em mais nada que vier pela internet. No título do artigo eu disse que a internet é um mar de falsificações. Deveria eu ter dito que a internet é um oceano de falsificações? E vamos mudar o nome Facebook para Fakebook?

A tragédia de Brumadinho
Peter Ho Peng

Conversas com o Chirú

Fim de mais uma semana de trabalho bem feito, gado alimentado descansando; leite tirado; crianças em casa após um dia de escola; roupas lavadas e estendidas nos varais, churrasco de costela no ponto; chimarrão, com yerba mate argentina esperando a água quente da chaleira, pendurada no trempe, no calorzito das brasas restantes do fogo de chão; Chirú na cadeira preguiçosa, nós, peões, ao redor, nas banquetas de cepo.

Conhecemos o chefe, precisamos acender a chama para o papo fluir. Mas antes da conversa, a rodada de mate. As cuias e as bombas se revezam nas mãos.

Essa conversa geralmente se faz no sábado; o trabalho no campo é diário, o gado pasta todos os dias. E as vacas dão leite também todos os dias. Mas o domingo é o dia de descanso para a maioria. E também de igreja para muitos. A turma do domingo se reveza. Mas na noite do sábado a turma do domingo também se junta ao resto, quando sabe que o Chirú será provocado naquele sábado.

Mas o chefe também nos conhece, o Chirú detectou muito antes da conversa começar. “Me diga o que tens em mente, tchê” – iniciou o Chirú, falando diretamente comigo, êle conhecia seus peões e sabia que eu saberia expressar bem a  pergunta da turma.

Mais uma rodada de mate, uma rodada de silêncio. Mas sabíamos que o que esperávamos viria. Dei um tempo e falei: “Como que conheces tão bem as pessoas, Chirú? São tantas as pessoas que trabalham aqui, plantando, colhendo, tantos visitantes que recebemos, vizinhos, as famílias, as pessoas dos povoados, escolas, igrejas, e não falas, mas percebemos que não fazes julgamentos errados acerca delas. Sabes se são honestas, se são competentes, se trabalham duro, se procrastinam, enfim, se farão parte da nossa turma. E quanto aos nossos políticos, raramente te vemos errar. E que ficas quieto quando tens dúvidas.” Pedrão interrompeu: “O que é procrastinar, Ernesto?” Respondi: “Procrastinante é o sujeito que não faz o que precisamos que faça, sabe que não é urgente, vai deixando, deixando, espera mais um pouco, até que a tarefa fica urgente, e se atrapalha, outros fazem a tarefa, ou seja, atrapalha outros.”  Aí Chirú interrompeu. “Desculpe interromper, Ernesto, mas acho que é mais bem entendido explicando o contrário. O sujeito que não procrastina, Pedrão, é um como o meu compadre Mário, que alguns de vocês conheceram antes de havermos-lo perdido. O Mário quando recebia uma tarefa, por exemplo, consertar uma cêrca, trabalho de uma hora, e êle tinha vários dias para fazer, partia imediatamente para a tarefa, fazia tudo em uma hora, não perdia nenhum minuto. O procrastinante deixa para as últimas horas.” Todos entenderam, mesmo os que não conheceram o Mário. Eu completei: “E o cara não se integra na turma, a turma vai ficando cansada. É como uma peça na engrenagem que não deixa a máquina funcionar direito.”

Mais uma rodada de mate, uma rodada de silêncio. O Pedrão quer saber mais. “Como isso acontece? Isso tem cura?” Nós sabíamos porque o Pedrão perguntava. A mulher dele era procrastinante. O Chirú sabia. E responde com a delicadeza de sempre. “Eu acho que isso vem de casa, Pedrão. O sujeito aprende isso pelos exemplos. É como se fosse de berço, pois a criança aprende com os pais. Para mudar isso, o melhor que se pode fazer é continuamente dar exemplos, sem falar.” Mais uma pausa, e uma rodada de mate. Tempo para a gente digerir as palavras do Chirú. Ficou mais uma vez, tudo bem compreendido e entendido pela tropa e pelo Pedrão. Agora o Chirú vai responder à minha pergunta.

“Voltando ao Ernesto: como conheço as pessoas. Experiência de vida, Ernesto. Conheci muita gente. Ia observando e aprendendo com os exemplos, errando e acertando; acertando e errando. Escolas, exército, esportes, muito trabalho, fiz emprêsas, iniciativas próprias, família numerosa. Sempre com muitos amigos. Muitas pessoas à minha volta. Testemunhei muitos governos e muita reviravolta política. Mas eu tive sorte. Não herdei dinheiro nem negócios dos pais, tive que trabalhar. Eu tenho amigos de infância que nasceram em berço de ouro e aos cinquenta anos ainda pediam dinheiro ao pai para o cafèzinho. Mas eu tive que crescer e cresci. O que recebi de herança dos meus pais não tem preço, não troco nem por todo o chá da China.” Mais um mate, tempo para pensar e refletir.

“Mas foi minha mãe quem me deu a base. Me ensinava pelas coisas pequenas, como por exemplo, não pegar as flores dos vasos da escola, dos parques.” “Mas todo mundo pega, mãe,” eu respondia. Tá errado, filhinho, as flores são de todos, não tuas, foram plantadas por alguém, trabalho de alguns, para a alegria de todos, minha mãe ensinava. Ia me mostrando enquanto eu crescia.” Ficava claro para todos o amor da mãe pelo filho, e como o recíproco era verdadeiro.

“Mas como, Chirú, ela te ensinou a ler o caráter das pessoas, também?” emendou o Pedrinho.

“A base sim, Pedrinho. Ela dizia: “Falar é fácil, fazer é que são elas.Vais ver que quem mais fala é quem menos faz. E as pessoas boas não precisam falar. Sabem que um fazer basta.” “Nas coisas pessoais, eu via como meu pai e minha mãe eram generosos com os pobres, não apenas em bens materiais, mas em tempo, dando apoio emocional nas horas difíceis, guiando os jovens, e não falavam nisso. E observei como quem mais falava, como nas igrejas, obedecer a Deus, dar de si, antes de pensar em si, não praticavam, e eram os mais infiéis e os que menos faziam pelos outros.”

“E isso eu ia vendo na vida. Mas errei bastante, antes de acertar. Eu ia vendo, por exemplo, como os políticos prometem acabar com a corrupção, e são ainda mais corruptos que os antecessores. São os mais mentirosos. Vejam agora a tragédia do Brumadinho. Depois da tragédia igual de Mariana, os deputados reprovaram uma medida forçando a Vale a rever todas as centenas de barragens de lama de mineração que ela opera. Uma bancada no lamaçal. Mas não precisamos ir muito longe. Mais próximos de nós, nosso vizinho, estancieiro do lado, igualito a nosotros, falava muito, mas quando a vaca foi pro brejo, encheu a mala e se mandou, deixou todos pendurados, sabe-se lá que contas foram feitas. Minha mãe ensinava sem julgar, me ensinou a observar, que, quando a vaca vai pro brejo, a porca torce o rabo.”

PAUSA EDITORIAL

A Vale é o apelido da Companhia Vale do Rio Doce, ou CVRD, a maior mineradora do Brasil. Foi privatizada durante a gestão do FHC. Essa medida foi muito aplaudida pela direita, acreditando nas forças do mercado, e que freiariam a corrupção estatal, e criticada pela esquerda, mas que não tinha contra-argumento. A bancada é o apelido de qualquer câmara, estadual ou federal, ou mesmo municipal, e até o Senado Federal; neste caso usada para denominar os deputados federais. O político na lama é a gíria popular para dizer que esse político foi subornado para votar de uma maneira definida pelo subornador. A bancada no lamaçal é a corrupção geral, e usada ainda como metáfora à barragem de lama que desmoronou em Brumadinho (CE). A Câmara Federal votou essa medida submetida por ambientalistas e apoiada pela esquerda, depois da tragédia de Mariana (MG) em 2015, naturalmente, e os direitistas e os subornados votaram contra, sempre acreditando nas forças do mercado (e no poder da grana) e os mais radicais colocando os ambientalistas e a esquerda no mesmo saco, chamando a medida de conversa fiada de comunistas. E o governo do petista Fernando Pimentel autorizou em dezembro de 2018 uma expansão das atividades da Vale na mesma região do Ceará.

Quando a vaca vai pro brejo é uma expressão do campo, bastante usada. Em tempo de extrema sêca, seca tudo, seca o pasto, falta comida e água para o gado. O brejo, o pântano, é o último recurso, e o gado vai beber essa água, ruim que seja. O gado entra e se atola, não consegue sair sem ser puxado, içado, ou guinchado por um trator. É aquele período de grande dificuldade. No caso acima, significam aquela crise econômica que o fazendeiro vizinho não teve coragem para encarar. A porca torce o rabo também vem do campo. A porca, e o porco enfiam o rabo entre as pernas, quando ficam com medo.

UFA do Editor

O Chirú continuou. “Eu tive muita sorte. Conheci muita gente; gente boa e gente má; mentirosos e verdadeiros, fui aprendendo a distinguir, com os erros e acertos.”                                                                                                                                      O Chirú ia falando devagar, dando tempo para o chimarrão rodar, as cuias iam trocando de mãos, mas certamente para dar-nos tempo para digerir os novos pensamentos e informação.                                                                      Não era preciso falar mais nomes, dar mais exemplos. Tínhamos tudo claro na nossa frente. A informação vinha pelo rádio, televisão, nas canchas de bocha do povoado, e nos jogos de futebol inter-fazendas. “Mas Chirú, podes nos dar exemplo de erro teu?”  “Eu cometi enganos grandes. Por exemplo, iniciei acreditando no governo militar, admito. Pensava em disciplina e no fim da corrupção. Entrei naquele papo de que liberdade não é libertinagem.” “Mas rapidamente entendi que a vida nos quartéis é muito diferente da vida do povo, e que essa falta de vivência e de conhecimento de como uma democracia funciona, e de como os poderosos se mantém no poder usando o poder do dinheiro era uma falta de conhecimento de governo por parte dos militares importante.”

Mais um tempo, para digerirmos aqueles pensamentos, que o Chirú sabia nunca havíamos ouvido. “E percebi que os poderosos, os que têm dinheiro, se mantiveram no poder, patrocinaram o golpe militar e já tinham preparado os meios de se manter por cima.” Mais um tempo. “E que a falta de liberdade e de democracia, não resultam em disciplina. E que torturadores no poder não poderiam nos levar a um caminho certo. E que quem aplaudia isso eram os mais mentirosos.” “Eu cresci. Fui um forte exemplo que as pessoas crescem, mudam.”  “Mas Chirú, por que os outros não crescem?,” emendei. “Ernesto, penso que é mais um exemplo do que minha mãe dizia, o tal do falar é fácil, fazer é que são elas.” O Chirú seguia falando devagar e sem se empolgar.  “Essas pessoas que não crescem, ou porque nasceram em berço de ouro e não precisam crescer, nunca foram desafiados, ou não crescem porque mentem.” Mais mate para alimentar a conversa. “Pois quem mente, mente não apenas aos outros; mente também a êles próprios, mentem a si mesmo. E não crescem porque quem mente a si mesmo, vai continuar se enganando. Pensam estar sempre certos. E aí não conseguem crescer.” “Mas cada um de nós já viu isso. Qual de nós nunca errou? Mas conseguimos superar isso encarando. E assim mudamos e crescemos. Mas quem se engana a si próprio tem dificuldade. Esses reunirão falsidades em seu redor. E porque ninguém em seu redor lhes diz o correto. Não querem ninguém ao seu lado que discorde. Novamente minha mãe vem à lembrança. Quando a vaca vai pro brejo, a porca torce o rabo. As pessoas que mentem a si próprias não têm coragem de se olhar no espelho e se encarar, continuando a negar. E não entendem que as outras pessoas mudam, crescem, porque elas não mudam.” A noite já caíra, o céu sem lua brilhava como nunca, o Cruzeiro do Sul comandava as outras estrelas. No nosso céu gaúcho que sabíamos brilhar como nenhum outro. E nós havíamos extraído mais uma conversa com o Chirú, não precisávamos agradecer em palavras. As banquetas guardadas, os espetos limpos, o trempe limpo, as cuias lavadas e as bombas brilhando com as luzes do céu, as cinzas apagadas e coletadas, mais o nosso “Boa noite, Chirú” demonstravam na prática nossa gratidão. Por nós, pelas nossas famílias e pelos nossos filhos.