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Bater não resolve

Eraldo Manes

Um palavrão, um castigo rigoroso, uma humilhação em público podem traumatizar uma criança mais que uma palmada? Nem me atrevo a opinar. Neste assunto polêmico: “A Difícil Tarefa de Educar Filhos” é melhor para especialistas responderem. Não é um tema fácil. Na prática, fica muito difícil usar a teoria que aprendemos. Sabemos o que devemos e não devemos fazer, e ainda assim, vamos errar. Seres humanos são imperfeitos e muitas vezes se excedem na hora “H”. 

Gerações estão em constante mutações, culturas idem, ciência também. Comparar diferentes formas de educação dos nossos antepassados, da nossa e dos nossos filhos é chover no molhado. De modo geral, os pais sempre pensam em acertar na hora de melhor educar seus filhos. O importante é manter o bom senso e recorrer à ajuda de profissionais, livros, familiares, educadores para se manter atualizado na tarefa de educar um filho. Confira a opinião da psicóloga e de algumas mães que participaram da enquete.

Nesta edição, agradeço e dou as boas vindas a Ilton Caldeira, jornalista com larga experiência em Economia, que vai dividir suas análises com nossos leitores e fazer parte do time de colaboradores do B&B, que “vestem a camisa” há décadas, e nos brindam mensalmente com suas opiniões. 

Boa leitura!

A difícil tarefa de educar filhos

Luciana Bistane

Filho não vem com manual de instrução, também não existem cursos que ensinem pais a educá-los. E quando a gente se depara com birra, falta de atenção ou atitudes que recriminamos, o que fazer? 

As gerações anteriores adotavam o castigo, o grito, a surra. Os adultos que tiveram pais bravos não se tornaram, obrigatoriamente, pessoas ruins, é verdade. Mas, os especialistas ensinam que um tapinha dói sim, e que castigar não é sinônimo de educar. As agressões físicas ou verbais marcam uma criança e podem trazer consequências, como deixá-los agressivos ou antissociais. 

Se o objetivo é impor limites – que eles tanto precisam – e ensinar como enfrentar conflitos, ter responsabilidade, respeitar o próximo e ser boas pessoas, as novas linhas de pedagogia ensinam o caminho.

Primeiro de tudo: a criança tem que entender o porquê da sua atitude ser recriminável; quais as consequências dos seus atos. Já os pais devem procurar saber porque o filho agiu daquela maneira. Queria chamar atenção? Está infeliz ou incomodado com algo? Está disputando com os irmãos? Ou está fazendo birra porque apenas está com sono, com fome, ou com algum outro desconforto físico ou emocional?

E para isso não há outra opção a não ser uma boa conversa, de preferência, num tom afetuoso para que a criança se sinta acolhida, só assim ela vai entender que apesar dos pais não terem gostado do modo que agiu, os sentimentos em relação a ela não mudaram.   

Se a criança estiver muito irritada, nervosa, descontrolada, o melhor é um abraço. Nada como um abraço para acalmar a situação e só aí, então, ter uma conversa, mantendo contato visual, se colocando à altura dela.

Para isso, os pais também precisam se preparar para não reagir intempestivamente. Nada como respirar e pensar um pouco antes de qualquer reação. E, claro, educar também exige paciência. Sim, talvez seja preciso repetir várias vezes a mesma mensagem. E o mais importante, exemplos valem mais do que sermões.

Para tratar desse assunto, o B&B deste mês ouviu a arquiteta Cláudia Sucena Patat e a bailarina Joice Henry. Elas contam como enfrentam os eventuais conflitos que surgem com os filhos. Em artigos assinados por elas, a pedagoga Renata Loyola, mãe de 3 filhos, e a psicóloga Gabriela Ribeiro Filipouski, especialista em crianças e adolescentes, também dão dicas importantes de como educar crianças saudáveis emocionalmente.

Boa leitura! 

A cultura do terror

A extorsão,

o insulto,

a ameaça,

o tabefe,

a bofetada,

o golpe,

o açoite,

o quarto escuro,

a ducha gelada,

o café da manhã 

obrigatório,

a comida obrigatória,

a proibição de sair,

a proibição de dizer o 

que pensa,

a proibição de fazer o 

que se sente,

a humilhação pública

são alguns dos métodos 

de penitência e tortura 

tradicionais na vida 

de família. 

Para castigo da 

desobediência e 

escarmento da 

liberdade, a tradição 

familiar perpetua uma 

cultura do terror que 

humilha a mulher, 

ensina os filhos a 

mentir e contagia a 

peste do medo.

Os direitos humanos 

teriam que começar 

em casa.

(Do livro “O livro dos abraços”, 

do escritor uruguaio Eduardo Galeano) 

Canto da calma

Gabriela R. Filipouski

Educar é um processo desafiador, já que toda criança necessita, desde o ambiente familiar, ser capaz de se integrar socialmente, ser responsável, respeitosa e resiliente.

O fato de não terem maturidade cognitiva e emocional para lidar com o mundo que as cerca não significa que as crianças não tenham sentimentos e não estejam atentas ao que as cerca. Por isso, é importante que as aprendizagens sejam orientadas pelo afeto, valorizando a conexão com o meio familiar, o respeito e o aprendizado mútuo, aspectos que possibilitam que cresçam com autonomia.

Auxiliar as crianças em relação a seu comportamento é ensiná-las a lidar com situações da vida. A educação deve favorecer o pensamento crítico. Nesse sentido, castigos e punições são capazes de motivar obediência mas, se não forem acompanhados de reflexão, não auxiliam a compreender o que aconteceu, não se relacionam com aprendizagem nem favorecem a autonomia e a socialização infantis.

Educação e punição não devem ser associadas, mas – sempre que o castigo for adotado como forma de agir em situações de conflito com a criança – precisa ser colocado com firmeza, como consequência da ultrapassagem de limites anteriormente combinados. 

Mais valioso do que limitar é orientar, daí fazer sentido propor que a criança, ao ser castigada, tenha oportunidade de pensar sobre o que fez (alguns adotam o “cantinho do pensamento” como recurso, oportunidade em que os adultos também refletem sobre o ocorrido, sendo assim não seria melhor chamar este espaço de canto da calma) e depois, favorecer uma conversa que possa se aprofundar em valores e atitudes, quando o adulto se dispõe a ouvir as razões da criança e a dialogar com ela a respeito do ocorrido. Aprender a relação de causa e consequência é um ato importante para aprender a lidar com a vida lá fora.

Mas atenção, comunicação, clareza e valorização da autonomia entre crianças e adultos significa que todos devem ser ouvidos, respeitados e considerados em suas opiniões e capacidades, tendo em vista o cuidado e a vida em harmonia. As crianças podem definir se vão usar a blusa vermelha ou a verde, se vão comer primeiro a salada ou o prato quente, mas não devem sair de mangas curtas em um dia extremamente frio, nem escolher comer apenas alimentos ultraprocessados, por exemplo. 

Os adultos têm o dever de cuidar, educar, ajudar as crianças a resolver problemas, favorecendo a convivência social, no núcleo familiar e fora dele. Ao estabelecer parcerias e cooperação, pais e mães colaboram para formar crianças mais empáticas, mais atentas à convivência social. É sua responsabilidade auxiliar os filhos neste aprendizado.

Gabriela Ribeiro Filipouski, psicóloga, especialista em atendimento clínico de crianças e adolescentes, mestre em atenção à saúde da criança e do adolescente, atualmente em formação em parentalidade. Integrante da Repensar Infância, onde periodicamente publica conteúdos sobre desenvolvimento infantil. gfilipouski@gmail.com

Instagram: @repensarinfancia

Aprender a relação de causa e consequência é um ato importante para aprender a lidar com a vida lá fora.

Entre respeito ou obediência, Joice fica com o primeiro

Joice Passos Henry

A paulista Joice Henry conta que seus pais foram muito rígidos na educação dela. “Regras eram regras e pouco se falava como nos sentíamos ou como eles se sentiam”, ela lembra.

Por isso mesmo, ela sempre procurou conversar mais com seus três filhos, explicando porque certos comportamentos são inaceitáveis e que as escolhas tem consequências. E, de preferência, num tom ameno:

“Depois de um conflito, uma vez que estamos calmos, tento iniciar uma conversa e, geralmente, eles se abrem sobre o porquê fizeram ou não algo. Essas conversas são benéficas para ambas as partes. Compreendendo porque peço para que façam ou deixem de fazer algo, eles são mais propensos a acatar o pedido”.

Os filhos de Joice já sabem: quando aprontam alguma, precisam dar “um tempo” para a mãe respirar. Vão para o quarto até o momento da conversa.

“Depois de alguns minutos, conversamos como isso fez a outra pessoa se sentir ou se eles pensaram nas consequências”.

Mas isso não significa que a ex bailarina de produções da Broadway não seja firme, quando necessário:

“Algumas coisas são inegociáveis, como a limpeza do quarto, o tempo que ficam em frente às telas e a hora de dormir, por exemplo. Ensino a serem organizados e elogio quando está tudo bem feito. Mas, privilégios podem ser retirados como consequência de ações impróprias. Bater é o último recurso. Não é uma solução de longo prazo e na maioria das vezes é uma resposta do nosso temperamento e não uma forma de ensinar um comportamento melhor”, diz ela. 

O marido de Joice é da área da saúde, considerado um trabalhador essencial e, desde o início da pandemia, ela é quem está mais com os filhos.

“Talvez como uma tática de sobrevivência, passei a incentivá-los a resolver seus conflitos. Meu lema é: seja a solução, não o problema. Gostaria de dizer que sou uma mãe perfeita, que sempre posso manter a calma, mas isso não é realista. Todo dia é um aprendizado para eles e para mim”.

Joice aprendeu na prática o que todo mundo deveria levar em consideração: 

“Aprendi que as crianças são diferentes. Meu filho mais velho reage à punição melhor do que tirar algo que ele ama – legos, tempo na tela, tempo social. A do meio tem grande controle de impulso, se for avisada sobre a punição por vir, ela ficará dentro dos parâmetros aceitáveis. O meu terceiro não responde bem a castigo, sorri e conta uma piada, dá um abraço e espera que fique tudo bem. Fazemos muitos “intervalos” com ele e parece funcionar”.

Entre o respeito ou a obediência, Joice fica com o primeiro: “definitivamente, respeito antes da obediência, eles vêm juntos, de mãos dadas”.

Joice Henry nasceu em São Paulo, Brasil e com a família mudou-se para os EUA, em 1993. Ela morou na Flórida, Nova Jersey e Nova York. Joice passou alguns anos viajando pelo continente como bailarina para produções da Broadway; e agora se estabeleceu em uma pequena cidade no meio-oeste para desfrutar de uma vida mais tranquila com o marido e criar três filhos em uma pequena cidade. Por mais emocionante que fosse a vida antes dos filhos, ela diz que essa é a verdadeira razão de viver, eles fazem tudo valer a pena.

Talvez como uma tática de sobrevivência, passei a incentivá-los a resolver seus conflitos. Meu lema é: seja a solução, não o problema. 

Educar filhos não é tarefa fácil, requer esforço e empenho mas, é um privilégio.

Renata Loyola

O ato de educar vai além de suprir as necessidades imediatas. Educar requer muito amor envolvido.

Vivemos em uma era imediatista; as pessoas não gostam de passar por processos mas, querem resultados. Nem todos estão dispostos a investir no processo de educar. O ser humano não nasce pronto, em cada fase da vida há muito a aprender!

Da mesma forma, filhos não nascem com bula ou manual de instruções. Mesmo entre filhos de mesmos pais, nos deparamos com diversas diferenças. É preciso levar em consideração a individualidade de cada um e adotar métodos e estratégias diferentes, já que aquilo que funciona para um pode não funcionar para o outro. 

Obviamente que é preciso “escolher” as brigas, mas nunca podemos negociar Valores. 

Nunca podemos ignorar falhas que infringem princípios e nem ser coniventes com erros porque tudo tem sua consequência. É a lei da vida, regida, acredite ou não, pela lei da semeadura. Precisamos nos preocupar com que tipo de cidadãos estamos formando. 

Impor limites a um filho é essencial para a formação de sua personalidade. É também uma forma de amar, uma expressão de afeto, pois uma geração sem limites se torna uma geração indisciplinada. É preciso entender a linguagem do amor para que se possa dar limites de maneira efetiva. Toda correção deve ser feita racionalmente. Como pais também somos humanos, sujeitos a falhas, por isso é importante não corrigir ou repreender um filho no calor das emoções.     

Gerações anteriores pecavam em ser rígidas demais e não investiam em relacionamento. Relacionamento é muito importante, tanto quanto o princípio de autoridade. E a comunicação é uma chave mágica nos relacionamentos, lembrando que somos exemplos que serão seguidos, pois atitudes falam ainda mais do que palavras. Pais centrados e equilibrados formam filhos centrados e equilibrados. 

Outro passo é corrigir de forma que fique claro o porquê dessa correção. Não podemos cobrar dos filhos que sigam determinadas regras, ou tenham determinado procedimento se antes não deixarmos claro o que esperamos deles. Outra  arma preciosa é a confiança. Filhos precisam confiar em seus pais, a ponto de terem certeza que eles jamais dariam uma determinação que fosse para prejudicá-los. 

Precisamos criar filhos que sejam seres pensantes mas, saibam obedecer. Que sejam inteligentes, mas não pensem que já sabem tudo. Que saibam dialogar sem afrontar. A maior estratégia para administrar conflitos entre os filhos é lembrar quem eles são sangue do mesmo sangue. Desenvolver o senso de time, de parceria. Se a casa fosse comparada a uma empresa podemos dizer que o pai seria o presidente, a mãe a vice presidente e os filhos a equipe. Essa equipe só atinge o resultado desejado se caminhar unida, cada um cumprindo sua função .

É preciso educar com o senso de responsabilidade e de pertencimento.

Renata Loyola. – Casada com André Loyola, Mãe de 3 filhos, Mellody (21 anos), David (16 anos ) e Phillip (13 anos ) todos foram Homeschool. Está nos EUA há 24 anos. É bacharel em Pedagogia, Psicologia de aconselhamento e Teologia; é co-fundadora da Graça Fellowship Church.  Cuida de grupos no Facebook, como Brasileiros em Orlando FL, pioneiro de assistência ao imigrante brasileiro.  Apresentadora do canal Brasileiras em Orlando. É diretora da AME  (Associação de Mulheres Empreendedoras), e também da aliança de pastores. Brasileirasemorlando@gmail.com 

Filhos precisam confiar em seus pais, a ponto de terem certeza que eles jamais dariam uma determinação que fosse para prejudicá-los.

“Eles precisam saber que a gente também erra”.

Claudia Sucena Patat

Os pais da arquiteta Claudia Sucena Patat foram mais do tipo permissivos que autoritários. Mas existiam algumas regras, que ela, por ser a caçula de três irmãs, nem sempre precisava cumprir. 

Ainda assim, Claudia diz que, embora o objetivo seja o mesmo, a maneira de educar o filho Arthur, não é a mesma, por um motivo simples:    

“Hoje existe muito mais acesso à informação, literatura, troca de experiências, o que me permite lidar muito melhor com esse tema da educação, diferente do que meus pais tiveram na época que me educaram”. 

A arquiteta paulistana é contra o castigo, o grito, o tapa. Acredita que esse tipo de conduta “diz muito mais sobre os próprios pais do que sobre a criança”. O ideal, na opinião dela, é que os pais conheçam primeiro os próprios sentimentos, para depois lidar com os dos filhos. “Digerir” o ocorrido antes de corrigir as crianças, para não se exceder. 

“É claro que na teoria é muito bonito e nem sempre conseguimos colocar em prática – reconhece – Mas só de ter essa consciência, acho que vamos mudando aos poucos esse paradigma”. 

Claudia conta que já perdeu a paciência diversas vezes e acabou gritando e brigando com o pequeno. Ela argumenta que pedir desculpas ajuda a amenizar a sensação de culpa, além de mostrar aos filhos que pai e mãe não são perfeitos.

“Eles precisam saber que a gente também erra”. 

Para ela, a base da educação está no respeito e “respeito não se impõe, se constrói, dia a dia, ensinando o respeito à natureza, à nossa diversidade, às nossas diferenças, à vida e tantos outros. Não quero que meu filho me obedeça por ter medo de mim, muito pelo contrário, quero que ele saiba que sempre pode contar comigo”.

O Arthur só tem 2 anos, mas já foi tempo suficiente para a Claudia saber que os conflitos vão acontecer, são inevitáveis, mas que se aprende com eles. E conclui ensinando os três recursos que a ajudam a melhorar a relação com o filho:

“Conversa e rotina. A rotina ajuda a impor horários. E a conversa sempre é bem-vinda para exemplificar o que for preciso. Uma outra tática que tenho aprendido a fazer é negociar, sempre com 2 opções, e deixar ele escolher”.

Claudia M. Sucena Patat

Arquiteta paulistana e mãe. Criando o Arthur de 2 anos, em meio à pandemia, ainda pensando na possibilidade de uma segunda gestação.

claudiasucena@gmail.com