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“Me esforço para dar minha opinião com calma”

Monique Vasconcelos

Para Monique se tornar avó “foi renascer”. E com Camille veio a certeza: “a função de uma avó é levar aos netos beleza, poesia, encantamento e, sobretudo, alegria”. 

“Viver é uma chance única, e deve ser aproveitada com todo vigor. Esta foi a mensagem que meus pais me passaram. E é a minha mensagem para meus netos”, ressalta.

Como fazer isso? 

Ela dá um exemplo: 

“Comprei uma tenda e mandei fazer um colchãozinho. Cobria a tenda com um cobertor para ficar bem escurinho. A partir dos 6 meses, ela começou a dormir no nosso quarto, na tenda, sobre o chão. Na hora do sono, introduzi um cd de músicas clássicas, adágios, porque são calmas. Ela criou gosto musical e passou a mergulhar no sono com rapidez”.

Quando os netos Camille e Lucas foram crescendo, a avó passou a recitar poemas, sempre de Manuel Bandeira, porque, segundo ela, “são sonoros e muitos deles são ótimos para crianças”.

As historinhas eram adaptadas para o contexto das crianças e “a gente vivia cada uma delas brincando”, Monique lembra e segue dando exemplos de como encantar a criançada.  

“Um dia, resolvemos fazer um museu no escritório de casa, com tudo de estranho que havíamos encontrado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Nossa! Como a gente aproveitava!!!”

“Outra farra  era o banho. Descobri bolas que coloriam a água da banheira. Eles ficavam fascinados. Com todas estas atividades, nossa relação foi criando raízes profundas”.

Vó à distância 

Camille e Lucas imigraram para Orlando, a menina com 6 anos e ele com três. 

“Foi um baque” – assim ela define esse momento. Teve que reinventar a relação e nada mais atual do que uma avó recorrer ao facetime, recurso que passou a ser utilizado todo domingo. Mas não costuma segui-los nas redes sociais para “poupá-los do mico perante os amigos”.

“Quando nos revemos em Orlando é uma festa! Vamos ao teatro, colhemos laranjas, fazemos Madeleine – biscoito francês, seguindo o Youtube. Quando me despeço deles para retornar ao Rio, digo: “Logo, logo vovó estará de volta. Aproveitem bastante a vida .” 

Monique se considera uma avó à moda antiga, que “se preocupa em transmitir valores e hierarquia”. E diz: “na casa deles, quem manda são os pais. Na educação deles, quem manda são os pais. Quando estão na minha casa, quem manda sou eu. Mas, não faço todas as vontades deles não, e imponho limites”. 

Quando discorda dos pais procura ser diplomática: “me esforço para dar minha opinião com calma”, mas não deixa de se posicionar.

“Procuro ser uma avó atual, seguir os conceitos do mundo atual, complexo e plural. Quanto a alegria de viver, esta não custa um tostão. Ela é simples, é clássica! Nunca sai de moda”, ela conclui.

“Nossa função é ajudar com a experiência e a maturidade”

Rosana Almeida

A empresária, Rosana Almeida, mora em Orlando, há mais de 20 anos e nunca deixou de trabalhar. Vive ocupada, mas sempre acha tempo para o neto Lucas. 

“Meu neto me fez voltar ao tempo: brincamos de massinha, pinturas, vemos desenhos animados e agora ele está aprendendo as bandeiras,  está com 4 anos, mais esperto, já demostra mais interesse”.

Rosana entende quem não quer ou não pode ser “avó full time”, mas para ela ser avó tornou-se sua prioridade. 

“Não deixo minha vida profissional mas, não abro mão de acompanhar o crescimento de meu neto Lucas, que amo de paixão” – se declara. 

Lucas tem 4 anos é uma relação “incrível” com a avó, segundo ela:    

“ Me liga pelo I cloud, quer sempre estar em casa, e sempre dou um jeito, encontro tempo para levar e buscar na escola, ficar com ele, levá-lo para dormir em casa. Durante a pandemia, o ensinei a nadar. Temos uma relação muito próxima”.  

E ao contrário de muitas avós que trabalham e se sentem culpadas, ou, ficam tristes quando não podem ajudar os pais nos cuidados com os filhos, Rosana é bem resolvida. “Minha filha e meu genro até me protegem quando percebem que estou ocupada e não posso ficar com o Lucas, eles me poupam. Não há ressentimentos por parte deles, nem culpa da minha parte”.

Quando discorda dos pais da criança, espera um momento oportuno e se manifesta: “dou minha opinião e eles decidem. Minha filha, às vezes, não gosta, mas escuta, analisa com o marido. Aliás, acredito que é nossa função ajudar com nossa experiência, maturidade”.

Rosana segura o neto Lucas enquanto compartilha a foto com os bisavós do menino
Com 4 anos de idade, Lucas já demonstra aptidão para as Artes
Vovó Full Time

Recylda Passos

Me considero uma avó tradicional e coruja. Acompanho meus 3 netos desde que nasceram –dois meninos, William e Walter, hoje com 7 e 3 anos; e uma menina, Elza, com 4 aninhos. Minha outra neta, Zelda, com 1 ano, foi a única que não vi nascer por causa da pandemia. Ela mora em Nova York e só fui conhecê-la no primeiro aniversário, em maio de 2021, embora tenha acompanhado a gravidez à distância.  

Faço as comidas e sobremesas que gostam. Sou até mais severa que os pais, mas acabo cedendo – deixo comer chocolate, chupar balas, ver desenho na televisão e no telefone. Eles adoram ficar na minha casa. E até mudamos da Flórida para Kansas para ficar mais perto deles.   

Como os pais são muito ativos na educação dos meus netos, não sinto obrigação de ser uma educadora. Pelo contrário, quero que se sintam livres, como quando estão com os amigos, sem pressão, mas, claro, sempre no limite do bom senso. E eles sabem que na casa deles a pressão volta ao normal.

 Minha vida mudou radicalmente com a chegada dos netos; eu brinco, rolo no chão, até esqueço do reumatismo e dos 72 anos nas costas.  Adoro sair e viajar com eles. Os pais estão na linha de frente. Fico na retaguarda, como suporte se e quando necessário. Isso me faz sentir útil. E sempre estou disponível para cuidar dos meus netos. Acomodo minha agenda para poder estar presente em todas as atividades e aplaudir o progresso deles. É muito prazeroso quando vejo que o de 7 anos já está lendo e a de 4 já está até ensinando ao de 3 tudo o que aprende. 

Nossa relação com o mundo digital também é forte e a tecnologia nos aproxima. Durante a pandemia tiveram aulas online e eu assisti algumas de suas apresentações. Nos vimos frequentemente pelo face time. Eles ainda não usam Whatsapp ou marcam encontro pelo computador, mas falta pouco!

Para uma avó de primeira viagem eu diria que sua vida vai mudar para melhor. Mas esteja preparada para o gap de gerações, não deixe a sua experiência negar aceitação à diversidade de opiniões e decisões deles. Devemos aceitar a individualidade dos nossos netos. É um constante aprendizado.

Em Kansas, a vovó Recylda não desgruda os netinhos, William, Walter e Elza Henry
Zelda Fox, que vive em Nova York, curte a vovó Recylda pelo Facetime
…Procuro entrar no mundinho dela.

Marcello Pires

O empresário carioca Marcello Pires chegou nos Estados Unidos há 24 anos com a mulher e 3 filhos, duas meninas e um menino. Há um ano, uma das filhas lhe deu a primeira neta, a  Isabella Mayse. 

“Uma das coisas que mais me tocou foi ver minha filha – mãe”, ele conta.

Marcello diz que a relação dele com a neta é “muito gostosa, só diversão. Quando estamos juntos procuro entrar no mundinho dela, me coloco como um amiguinho com tempo e paciência para brincar, jogar, dançar. A maior herança que se pode deixar para quem se ama é o tempo e os momentos que passamos juntos”. 

Na opinião dele, o papel do avô é dar suporte, dar um alívio para os pais, “uma vez que tempo integral com a criança desgasta, cansa muito.”

Marcello procura ajudar no que pode, mas acredita que se a primeira mulher, avó da menina, estivesse viva, ela poderia ficar ainda mais próxima da neta.

“Infelizmente não consegui substituir a avó de sangue no cuidado com Isabella”, ele lamenta. 

Habituado aos costumes americanos, ele avisa sempre quando vai visitar a neta, em respeito ao genro que é americano. Marcello também não ultrapassa os limites impostos pelos pais da criança. Ele não discute, acata porque acredita que é assim que os avós complementam a educação. 

“ A cumplicidade deve ir até o ponto que não crie choque e desavença com os pais”, ele afirma.

A importância dos avós nos dias de hoje

Eliana Barbosa

Tem coisa melhor do que nos lembrar dos nossos avós e sua presença em nossa criação? Sim, melhor do que isso é nos tornarmos avós! Falo com propriedade, pois tive avós muito queridos e presentes, e, hoje sou avó de três lindas crianças. 

Os avós, em todos os tempos, representam um elo de união e fortalecimento das famílias, que, com sua paciência e amorosidade, transmitem sabedoria, contando histórias, compartilhando experiências e preservando valores. No entanto, é preciso que estejam abertos para outros aprendizados, tais como a internet e redes sociais – o que os aproxima das novas gerações -, e que tenham cuidado para não impor seus conhecimentos aos netos. 

Nos dias de hoje, temos os avós aposentados, com tempo e disposição para cuidarem dos netos; os que vivem na mesma casa dos netos; aqueles que ainda estão ativos profissionalmente, sem tanto tempo para se dedicar aos netos; aqueles que se isolaram ou foram isolados pela família, perdendo a chance dessa convivência tão salutar; e os avós distantes, que felizmente têm ao seu dispor as novas tecnologias que amenizam a saudade.  

Se você, avô ou avó, vive com seus netos, ou mesmo cuida voluntariamente deles, de forma sistemática ou de vez em quando, saiba o quanto é importante se livrar desta crença de que avós deseducam os netos. Não!!! Avós precisam atuar alinhados com os pais das crianças e adolescentes, para que estes cresçam com limites, respeitosos e amorosos. Vocês, avós, não devem, em hipótese alguma, comprar o amor e a atenção de seus netos. Vocês já são amorosos, doces, e, com a maturidade que têm, são muito mais pacientes do que os pais de seus netos. Porém, essa paciência não pode significar permissividade, e sim, mais compreensão e diálogo com eles. 

Aos avós que ainda trabalham, recomendo que jamais se sintam culpados pelo pouco tempo de convivência com seus netos. Lembrem-se que vocês são modelos para eles, no sentido de que envelhecer não é desistir dos sonhos, e sim, buscar sempre algo novo para fazer e descobrir. Meu sogro de 94 anos, bisavô dos meus netos, viaja todos os dias para sua fazenda, é ativo e independente, e é o xodó da criançada, cheio de planos, muitas conversas, e juntos dão boas risadas. Um exemplo para todas as gerações!

Para as crianças, os quitutes saborosos, o passeio de carro, os filmes na TV, os jogos de tabuleiro, enfim todas as experiências alegres vividas com seus avós são de extrema importância para o desenvolvimento de uma personalidade sadia, porque os avós, de forma geral, são fontes de amor duplicado, abraços, incentivos e orientações. 

E para os avós, os netos são uma fonte rejuvenescedora, pela alegria e vitalidade que representam. 

E mais… Um estudo da Universidade de Boston, entre os anos de 1985 e 2004, concluiu que através desta interação entre avós e netos é possível diminuir o risco de depressão em quem já passou dos 70 anos, bem como nos jovens também.

Enfim, é uma bênção para avós e netos vivenciar momentos e lembranças juntos, enquanto a vida permitir! 

Portanto, aproveitemos!

A importância dos avós

Luciana Bistane

O mundo mudou muito nas últimas décadas e com ele a composição das famílias. Os filhos têm pai e mãe biológicos, adotivos; dois pais, duas mães, só mãe, só pai. O que não mudou em nada foi o posto dos avós.

Ok, com o ingresso em massa das mulheres no mercado de trabalho, muitos avós têm atualmente vida profissional e social muito mais agitadas. E mesmo os aposentados ou donas de casas também já não se encaixam no esteriótipo da velhinha de xale na cadeira de balanço. 

Hoje os idosos são antenados, conectados e se aventuram no mundo digital, muitas vezes, só para estar perto deles, os netos. Mas, algo em geral – do mais tradicional ao mais moderno – permanece intacto: o amor por esse filho alheio, que também é seu, duplamente seu. 

No poema a “Arte de Ser Avó”, Rachel de Queiroz nos lembra que “um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino…aquela criança, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo amor”. 

…“A avó oferece a sedução do romance e do imprevisto. Faz coisas não programadas. Leva a passear, não ralha nunca. Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É confidente nas horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina”. 

Não é preciso ser especialista para saber o quanto tudo isso cativa uma criança. Casa de avó é mesmo porto seguro, fonte de afeto. Mas, e os psicólogos, o que dizem dessa liberalidade toda, desse amor sem limites, dessa cumplicidade incondicional? 

Em seu artigo para esta edição do B&B, a psicoterapeuta Eliana Barbosa, explica porque é importante os avós agirem alinhados com os pais das crianças. E aponta o diálogo com os netos como a melhor forma de explicar limites e impor respeito amorosamente. 

A empresária Monique Vasconcelos, que mora no Brasil, conta como dribla a distância dos netos que vivem nos Estados Unidos. Ouvimos também a dona de casa Recycla Passos, uma avó “old fashion”, daquelas que mudam até de cidade para ficar perto dos netos. Já o Marcello Pires ficou viúvo e ocupa o lugar da avó, mas teve que se adaptar aos costumes de outro país.  Você vai ver ainda o depoimento da Rosana Almeida, uma avó moderna e ocupada, mas que sempre dá um jeito de abrir espaço para o neto Lucas na sua agenda. São histórias diferentes que mantêm o poema de Rachel de Queiroz, escrito no século passado, mais atual do que nunca!