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Praias lindas e eu via tudo cinza

Camila Brasil

Atualmente, Camila está com 19 anos, mora em Lisboa há dois anos e o pior já passou. Mas lembra que aos 15 se mudou para a Austrália com a mãe e lá ficou bastante deprimida. 

“Praias lindas e eu via tudo cinza” –

 diz ela.  

A situação foi se agravando aos poucos. Foi perdendo o apetite e dormindo cada vez mais cedo pra evitar a noite, quando tudo “ficava pior”, até não querer ir mais para a escola. Chegava a ir de carro com a mãe mas se recusava a descer do carro e voltava para casa. 

Quando começou a frequentar a escola, não queria se enturmar, mas quando os grupos foram se formando, ela foi se sentindo excluída e isso piorava as coisas; não tinha amigos, não saia de casa e se sentia muito sozinha. Passou a ter questões existenciais. Nunca pensou em suicídio ou coisa parecida, mas se perguntava: qual o sentido da vida? Por que estamos aqui?   

Descobriu Nietzche e se identificou com o pensamento do filósofo alemão, além de se apaixonar pela leitura. “Encontrei nos livros grandes amigos que me faziam companhia“.

Hoje, analisando a situação, ela atribui a depressão a alguns fatores: de uma hora pra outra, tudo deixou de ser familiar, a comida, os costumes, além de ter ficado longe dos amigos e da avó, com quem cresceu. Além disso, como chegou no meio do ano, não conseguia acompanhar as matérias e não se sentia pertencente ao grupo de colegas. 

Camila acredita que muitos adolescentes que mudam de país devem passar por isso. “É uma ruptura em um momento que a gente está fortalecendo os laços de amizade”  diz ela.

Cada um tem sua história, mas na opinião de Camila, alguns fatores da modernidade afetam a todos e angustiam os jovens, como a necessidade de definir uma profissão, entrar na faculdade e a preocupação com o futuro profissional. Ela, por exemplo, gostaria de fazer filosofia ou artes, mas está se preparando para um curso de biotecnologia pensando na sobrevivência financeira. 

“Além disso – acrescenta – o mundo virtual também gera ansiedade. Tem gente que se aborrece porque recebe poucos likes, as coisas estão ficando muito superficiais, isso tudo causa uma insatisfação constante”.

Se mudar para Lisboa lhe fez bem. “Foi uma luz – conta – é muito difícil num lugar que a gente não gosta”. Em Portugal, ela fez amigos e está mais feliz. E olha de forma positiva tudo o que passou:

 “Me ajudou a amadurecer, não que eu tenha descoberto as respostas para os meus questionamentos, mas aprendi a aceitar o que não tem resposta. E aprendi a gostar dos meus momentos de solidão, até gosto quando estou sozinha”, ela conclui.

Houve um motivo que deu início à depressão?

Fabiana Oliveira

Troquei de trabalho e era muita pressão, comecei a desenvolver crises de pânico, ansiedade e muita dificuldade para dormir. Piorava a cada dia. Como sempre fui muito extrovertida e comunicativa, minha família e os amigos não perceberam os primeiros sinais porque eu vivia uma realidade para a sociedade e outra de solidão interna. 

Em meio a um surto, me lembro apenas de flashes, me joguei na frente de um carro na John Young Parkway. O carro parou a tempo, mas no dia seguinte à noite saí vagando pelas ruas e meu esposo foi atrás. 

Meu esposo decidiu me levar ao psiquiatra e fui internada em um hospital psiquiátrico. Quando tive alta, tentei me afastar do trabalho, mas disseram que eu não podia, então continuei mesmo sem condições.  

Certo dia, em uma reunião, acabei tendo outra crise. Depois disso, fui afastada e fiquei meses sem querer sair de casa, me isolei de tudo e de todos. Não tomava banho, comia compulsivamente, não cuidava da casa, nem da família, só chorava muito e dormia. Foram anos de grande desespero, sem ver uma solução. 

Os primeiros tratamentos não ajudaram?

No início, eu mentia para a psicóloga por vergonha e medo. Levou um tempo para eu me abrir. Em 2019 foi o auge das crises, foi quando tentei me matar e acabei internada. Depois disso, mesmo em tratamento com psicólogo, psiquiatra e tomando vários remédios eu ainda tinha crises, eles não resolviam e eu me sentia frustrada. 

Chegou a pensar outras vezes em suicídio?

Sim, tentei algumas vezes. Cortei a rede do meu apartamento e tentei pular. Me joguei em frente de carro. Tomei vários remédios. Às vezes ia atravessar e pensava em me jogar em frente dos carros. 

Agora, o tratamento tem sido eficaz?

Depois de um longo período de terapias e remédios, meu psicólogo e minha psiquiatra conversaram e me sugeriram um novo tratamento – o TMS. Relutei no início, não acreditei que ia me ajudar, mas dois meses depois iniciei o tratamento. 

No final de 36 sessões eu já era outra pessoa e todos à minha volta percebiam a diferença. Até já diminuí os medicamentos. Hoje só tomo um para a depressão em dose baixa e outro para ADD ou TDAH. 

Como você está agora? 

Ainda sigo com acompanhamento psicológico e psiquiátrico, mas me sinto 90% recuperada, retomando a vida. Hoje, com minha fé restaurada, o apoio da família, dos amigos e de  excelentes médicos, consigo viver e conviver bem. Hoje amo ir à igreja, estar com a família e amigos, voltei a ajudar na comunidade, voltei a estudar e tenho muitos planos para o futuro. Quero viver e ser feliz ao lado das pessoas que amo. 

O que diria pra quem está passando por isso?

Busque ajuda o mais rápido possível, não sofra calado, as pessoas não sabem o que você sente. Busque um profissional, seja verdadeiro e, se precisar de remédios, não tenha medo, dependendo do caso eles são necessários. 

Depressão: cuidado com essa armadilha

Eliana Barbosa

Tendo sido comemorado, no dia 10 de setembro, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, com o objetivo de aumentar a conscientização sobre esse tema tão sensível e devastador, vamos refletir juntos sobre um sofrimento mental que, a meu ver, é a causa primeira das tentativas e das ocorrências de suicídio – a depressão! 

Sem dúvida, a depressão é um dos grandes males deste século, e tem arrasado muitas vidas e relacionamentos. E é preciso que fiquemos atentos, porque ela geralmente se inicia de forma sorrateira, e vai, pouco a pouco, invadindo o nosso cotidiano.

Muitas pessoas relatam sobre uma tristeza constante, falta de ânimo para viver a  rotina e até para conviver com seus parceiros, falta de “cor” na própria vida. Outras, principalmente as mulheres, se dizem deprimidas porque seus filhos cresceram e “bateram asas”, e elas não se prepararam para essa fase, na qual poderiam aproveitar para se dedicar à vida amorosa, viajar ou mesmo fazerem novas amizades.

Se você tem se sentido assim, veja como agir para se livrar dessa “armadilha” chamada depressão:

• Primeiramente, procure o apoio de um profissional do comportamento humano para que você se conheça melhor, possa desabafar suas dores e medos e aprender a traçar planos para sua mudança interior e cura. 

• Se esse profissional detectar que você está com depressão mesmo – séria doença mental – e se ele não for médico, é hora de você consultar um psiquiatra, porque o tratamento adequado da depressão necessita de remédios alopáticos, além do acompanhamento psicológico. Lembre-se que psiquiatra, ao contrário do que dizem os desinformados, não é “médico de doidos”, e sim, médico de qualidade de vida! E você sabe: quem tem depressão tem uma vida totalmente sem qualidade! 

• Faça também sua parte: situe-se no presente, no “aqui e agora”. Isso mesmo! A tristeza que se torna depressão é bem comum em pessoas que guardam ressentimentos, decepções e culpas – sentimentos do passado – e são inseguras quanto ao futuro – daí a ansiedade, que é um dos sintomas da própria depressão. 

• Ao ficar preocupado demais com o futuro, ou cheio de mágoas, culpas e saudades do passado, você simplesmente perderá o equilíbrio de sua vida e, assim, se tornará vulnerável às doenças, sejam físicas ou mentais. 

• Guarde bem: sua vida é como se fosse um navio e sua mente é o capitão desse navio. Se sua mente (o capitão do navio) está em desarmonia ou desequilíbrio, sua vida (o navio) com certeza perderá o rumo. 

• Dessa forma, preste atenção em sua mente – escolhendo pensamentos otimistas, gratidão, bom humor, novos amigos e aprendizados -, bem como em suas emoções – curando sentimentos tóxicos –, e aprimore sua espiritualidade – alinhando suas ações ao seu propósito de vida. 

• E, assim, de forma integral, cuidando do corpo, da mente e da alma, permita que a alegria esteja de volta em todos os dias de sua vida! 

Acredite: Você merece!

DEPRESSÃO

Luciana Bistane

Considerada o “mal do século” pela Organização Mundial de Saúde, a depressão afeta, em todo o mundo, cerca de 300 milhões de pessoas de todas as idades, e vem crescendo entre os adolescentes. A Covid-19 teve participação importante no aumento nessa faixa etária. 

Um estudo feito pela Universidade de Calgary, no Canadá, que teve a participação de mais de 80 mil jovens de várias regiões do mundo, concluiu que cerca de 25% deles apresentaram sintomas altos de ansiedade devido à pandemia e entre eles os sintomas de depressão duplicaram em comparação com estimativas feitas antes de 2019.     

Os fatores podem ser genéticos, biológicos, ambientais ou psicológicos. A intensidade pode ser leve, moderada ou grave. Um transtorno que afeta a capacidade de dormir, trabalhar, comer, se relacionar e nos casos mais graves pode levar ao suicídio. 

Segundo a Organização Panamericana de Saúde, cerca de 800 mil pessoas se matam por ano e o suicídio já é a segunda causa de morte entre pessoas com 15 e 29 anos. Sim, depressão é coisa séria. 

Quando o motivo é mais evidente, como a perda do emprego, luto na família ou trauma psicológico, é mais fácil identificar o problema. Mas em muitos casos, a depressão vai se instalando aos poucos. Os sinais são variados e nem sempre claros: um cansaço extremo, irritabilidade, angústia, pensamentos obsessivos, perda de apetite ou comilança exagerada, comportamentos compulsivos, problemas ou disfunção sexual, entre outros. A duração depende da pessoa, do motivo e de como a questão foi enfrentada. 

Embarcamos nesse tema para alertar sobre o problema. Uma dessas entrevistadas não quis ser fotografada, mas as duas abriram seus corações para compartilhar suas experiências. 

A corretora de imóveis Fabiana Oliveira chegou ao fundo do poço, mas conseguiu se livrar do sofrimento e está retomando a vida. A estudante Camila Brasil também conta como superou a pior fase. E em artigo assinado por ela, a psicóloga Eliana Barbosa dá várias sugestões que podem ajudar a enfrentar e vencer a depressão. 

Boa leitura!

Coisa de Louco!

Já foi o tempo de se rotular como “louco” um indivíduo que sofre de depressão. Quem pensa assim deveria ser taxado de preconceituoso ou ignorante. A ciência já avançou o suficiente para entender que a depressão é uma doença de difícil diagnóstico. E, apesar de não garantir cura completa, é um transtorno que pode ter bons resultados com terapias e uso de medicamentos corretos. 

Apesar disso, o difícil para o paciente acometido pela depressão é enfrentar a discriminação entre seus pares. Somente quem já passou pela experiência, -seja com episódios de depressão, ansiedade, bipolaridade, déficit de atenção, hiperatividade, síndrome do pânico, irritabilidade-, sabe a sensação de desespero em não conseguir manter o controle no momento do episódio.

Médicos apontam que os sintomas podem ocorrer por um desbalanceamento químico, formação genética, personalidade e fatores ambientais. Geralmente vem seguido de traumas como luto, parto, perda de emprego, separação conjugal, estresse e baixa autoestima. Seja o que for é muito difícil conviver com estas bruscas oscilações de humor, pânico, medo, euforia, tristeza e discriminação social. 

O assunto é complexo e preconceituoso. Convidamos 6 pessoas e somente 2 concordaram em participar da pauta. Agradeço a coragem de Fabiana e Carolina por compartilharem suas experiências com o leitor do B&B. 

Boa leitura.