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Os filhos são resultado dessa felicidade

A jornalista Patrícia Pioltini pode se considerar uma privilegiada. Ela sempre quis ter filhos, mas preferiu priorizar a carreira e só depois de seis anos de casada, teve o primeiro filho, aos 36 anos. O segundo aos 38 e o terceiro aos 40 anos.

Privilegiada porque muitas mulheres que fazem o mesmo, quando se decidem pela gravidez, nem sempre o relógio biológico ajuda. E o sonho de ser mãe acaba se tornando uma frustração.

“Ser mãe um pouco mais tarde me trouxe mais tranquilidade, me senti segura na decisão. Acredito que ser mãe é bom em qualquer idade. As mais jovens podem ter mais energia, disposição, mas uma das vantagens de esperar um pouco é estar mais estruturada emocional e financeiramente” – diz ela.

Patrícia considera a maternidade um enorme desafio. “Ser mãe – complementa – é o melhor presente que uma mulher pode receber. Dar a vida a alguém e poder ensinar esse alguém com o seu melhor é gratificante”.

Em momento nenhum ela se arrepende de ter tido os filhos, mas se tivesse que tomar a decisão hoje, com a maturidade dos seus 51 anos, não sabe se os teria e justifica: “O mundo está muito cruel, perdeu a base familiar. Hoje há muito extremismo. E não consigo ver um mundo melhor para os meus filhos. Na minha época, a gente brincava na rua, não tinha violência. Além disso, o mundo está muito virtual. A tecnologia trouxe progresso mas afastou o ser humano. Não consigo me imaginar começando a tarefa de ser mãe nesse mundo tão carente de amor”.

Para ela, os filhos selam uma união, mas o casal deve se bastar, independentemente de ter filhos ou não.

“Antes de sermos pai e mãe, somos amigos, companheiros, amantes. Os filhos são resultado dessa felicidade. Não acredito que a cumplicidade do casal aumente por causa dos filhos e se aumentar será um problema porque os filhos crescem e se vão”.

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Patricia Pioltini é Graduada em JORNALISMO/COMUNICAÇÃO pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP) (Dez/1988). Tem PÓS-GRADUAÇÃO pela University of California (UCLA), em Telejornalismo Comunitário.  Trabalhou nas emissoras SBT, TV RECORD, TV GLOBO e presta serviço de assessoria de imprensa na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Criar um filho é um ato político

Luana Cunha

A produtora cultural Luana Cunha está grávida de dois meses do primeiro filho. “Uma gravidez muito consciente e desejada, embora não tão bem planejada”, diz ela.

Luana lembra que o fato de engravidar em plena pandemia revela isso. Convenhamos, é um motivo e tanto a mais de preocupação. Outra preocupação é com a questão financeira. No momento em que estava deslanchando a carreira em Lisboa, onde mora há 5 anos, o setor cultural foi um dos que mais sofreram abalo.

“Nesse contexto e, sabendo que depois de ter a criança, a gente reduz a carga de trabalho, o ideal é ter uma reserva. Um cuidado que não tivemos. Minha geração já passava por uma instabilidade profissional e financeira porque está havendo uma mudança drástica no modelo de trabalho. Muita gente trabalhando por conta própria, sem direitos trabalhistas. Se pensar muito fica difícil engravidar, a gente desiste”, afirma sorrindo.

O que ameniza um pouco, ela ressalta, é que conta com o apoio do Estado: “a escola pública é ótima e no setor público de saúde você sabe que será bem atendida e a criança também. Não estaria cogitando ter filho agora se estivesse morando no Brasil”.

Luana também agradece por estar longe do Brasil nessa pandemia, país onde os casos explodiram. Mas, as regras duras de combate ao vírus em Portugal despertam o receio de ter que encarar a sala de parto sozinha.

“Essa pandemia soma angústias para uma mãe de primeira viagem. No auge da crise ninguém era autorizado a acompanhar as mães na hora do parto”, ela lembra.

Instinto materno

Luana não acredita que as mulheres nascem com esse instinto, ela defende que a “maternidade é muito romantizada”, o que torna mais penoso para quem desafia o script imposto:

“Nem todo mundo tem vontade real de ter filho, acaba tendo porquê a pressão do relógio biológico é grande e também pesa o fato da mulher que decide não ter filho ainda ser vista como um ser estranho. É danoso a pessoa ter um filho só porque seria o caminho natural e, depois, ter que abrir mão de coisas que não estava disposta; essa relação não vai ser positiva”.

Ela aponta outros indícios dessa idealização da maternidade:

“Estou lidando mal com os sintomas do início da gravidez – azia, enjôo, cansaço e mal estar físico. Isso deveria ser mais discutido e não minimizado o lado difícil do processo….isso passa, são só 3 meses!!! Tá bom, pode passar, mas é difícil. As mulheres têm direito a essas informações até para fazer escolhas. Quem quiser um filho, sem passar por isso, pode adotar ou ter uma barriga de aluguel, permitido em alguns países”.

“Emocionalmente – acrescenta – essa romantização da gravidez também causa danos. Ok, tem mulheres que ficam felizes na gravidez, ou porque sonharam muito com isso, planejaram, sempre quiseram ser mãe. A ditadura é para as outras que não estão nesse pique. Eu, por exemplo, estou contente, mas quando passo muito mal me aborreço; e, ainda, me culpo por não estar radiante; é como se a gente tivesse essa obrigação. É uma carga de expectativa tão grande que a gente não corresponde, se angustia”.

Luana diz que, como tudo na vida, a maternidade tem lados positivos e negativos.

“Entre outras coisas, a maternidade impacta na vida profissional da mulher, muitas vezes adiando sonhos, diminuindo recursos ou impondo um acúmulo de funções e tarefas”.

Para ela, todos os prós e contras devem ser colocados na balança para que a decisão de ter um filho seja muito consciente.

“Criar um filho é um ato político, assim como não ter filho também pode ser. Educar impõe a responsabilidade de formar uma pessoa ética, emocionalmente equilibrada, responsável socialmente, empática com o próximo, pessoas mais sensíveis. Ser mãe não é só bonito, é um ato de responsabilidade no mundo em que vivemos hoje” – ela conclui.

CASAMENTO SEM FILHOS

Marilza Piovesan De Lorenzo

Quando nos casamos, eu ainda estava na faculdade. Decidimos esperar um pouco, o tempo foi passando e os filhos não vieram; vieram, então, as frustações e as cobranças.

Fui entendendo que não nasci para ser mãe, e aí tudo ficou mais fácil. Quando começaram a chegar meus sobrinhos, percebi qual era minha verdadeira vocação: ser TIA. Amo ser tia, amo ser chamada de tia, esta palavra soa como música para meus ouvidos. 

Com os sobrinhos, tudo se tornou mais fácil. Não posso dizer que transferi o amor de mãe para o de tia, porque o amor a gente não transfere, mas esse amor por eles tomou dimensões gigantescas, isso tornou a nossa vida mais leve. Não nos arrependemos de não ter tido filhos, aceitamos e somos bem resolvidos com essa questão. Enfrentei desaprovações da família e dos amigos que sempre faziam o mesmo comentário: “Você vai se arrepender por não ter tido filhos quando chegar a velhice”.

Sempre fui muito consciente da situação, sempre respondia a mesma coisa: quando Deus quiser vai chegar. Lidamos com muita sabedoria e tranquilidade, deixando nas mãos de Deus a decisão. Isso nos ajudou bastante.

Cobranças sempre existem. Quando o namoro vai se tornando mais sério, já começam as especulações, se vai sair casamento…quando marcamos a data do casamento, começam as perguntas, vai querer filho logo? Quantos filhos você vai querer? Prefere menina ou menino? A lista de perguntas pode ser enorme. Quando os anos vão passando e nada de filhos, as cobranças ficam mais chatas.

Uma cobrança que magoa muito quando somos jovens. A sociedade em que vivemos sempre está cobrando alguma coisa, isso acontece, e sempre vai acontecer, o que precisamos é ser forte e saber lidar com a situação. Sempre ter em mente que devemos enfrentar as cobranças com sabedoria e devemos sim, ter o poder de decidir se queremos ou não ter filhos.

Filhos, com certeza, enriquecem ainda mais o relacionamento, a cumplicidade entre o casal, mas creio também que essa união se fortalece mesmo sem os filhos. Tudo vai depender da sintonia, do entendimento entre o casal, com respeito e amor em relação às decisões tomadas por ambas as partes.

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Marilza Piovesan De Lorenzo – Formada em História e Geografia, com pós graduação em Metodologia do Ensino.  Lecionou no Brasil, antes de se mudar para o Estados Unidos. marilza.pl@hotmail.com

Decisão: ter ou não ter filhos

Eliana Barbosa

A maternidade deve ser uma escolha consciente e sensata, embora, ainda em pleno século XXI, possa configurar, para muitas mulheres, como uma obrigação social. E esse é o grande perigo e dilema presentes no universo feminino. 

A forma como a maternidade é romantizada pelas pessoas causa nas mulheres muitas dúvidas e até culpa, em algumas situações, porque a verdade é que ser mãe, desde a gestação, é um caminho com desconfortos, obstáculos, dores, dúvidas, medos, decepções e, consequentemente, instabilidade emocional. Mas pouca gente comenta sobre estes percalços… Sem falar também na insegurança das mães em relação ao próprio corpo, e as críticas que possam surgir. 

Por isso, ao escolher ser mãe, mais do que uma realização pessoal, toda mulher deve estar amadurecida emocionalmente e preparada para enfrentar os naturais desafios de criar um ser humano com amor e limites, exemplificando valores como dignidade, compaixão e bondade. Este amadurecimento vem do autoconhecimento (em que a futura mãe deve olhar para si mesma, encarando suas forças e fraquezas, e aceitar que terá que abrir mão de muitos sonhos), da busca de informações sérias sobre a maternidade, e do aprimoramento de sua autoestima (para que, abastecida de amor próprio, possa ser fonte de amor verdadeiro, sem apego ou dependência emocional, para este filho que vai gerar). 

A mulher preparada para ser mãe não se deixa levar pela ilusão de que filho salva casamento (porque não salva, definitivamente!), e não idealiza que o filho será seu apoio quando chegar à velhice. Ela não cria idealizações em relação ao filho (profissão, casamento, netos…), porque sabe que são estas expectativas que podem trazer profundas decepções. 

Às mães de primeira viagem, não se culpem se o amor pelo bebê não for assim tão intenso no começo da gestação. Cada caso é um caso, e muitas vezes, esse amor é alimentado no dia-a-dia, quando o bebê dá seus chutes na barriga, e quando nasce, em cada sorriso, nos seus balbucios, nesta interação amorosa. O importante é que os pais conversem muito com o bebê, desde a gestação, com palavras positivas e de incentivo, coloquem música erudita para ele, e, ao amamentá-lo, olhem profundamente em seus olhos. Isso sim fará uma grande diferença no desenvolvimento emocional de seu filho.

Quanto à mulher que escolhe não ser mãe, não se deixe levar pela culpa ou medo das críticas e cobranças que virão. Só você sabe o que é melhor para sua vida, ninguém mais. Infelizmente, este julgamento da sociedade ainda é comum neste mundo.

Fique firme em sua escolha, aproveite a liberdade de ser e viver como você bem quiser, tenha sonhos e metas e batalhe para que todos eles se realizem, mas jamais deixe de fazer o bem, onde e quando puder. Seja fonte de amor para quem carece de afeto e atenção, visitando orfanatos, creches e asilos de idosos, levando alegria e otimismo por onde passar. 

Lembre-se: você não precisa ser mãe para ser boa, caridosa, generosa e atuante em uma sociedade carente de boas ações. O importante é ser feliz e contribuir para a felicidade à sua volta.

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Eliana Barbosa é psicoterapeuta, life coach, terapeuta de Florais de Bach, articulista de jornais e revistas internacionais, autora de 5  livros no campo do autodesenvolvimento, co-fundadora do Centro de Cura dos Sentimentos, e ministra palestras transformacionais no Brasil e nos Estados Unidos. Mais informações: www.elianabarbosa.com.br. Contato: eliana@elianabarbosa.com.br