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“Sei de gente que se mudou pra cá e o casamento terminou”

Elisabeth Tabacov Butler

“Mudei para os EUA, em 1994, e escolhi Orlando como a cidade para me estabelecer porque eu já tinha uma casa de férias pertinho do Sea World.

Sempre admirei a cultura americana e a ordem desse país comparado ao nosso querido Brasil. Na minha cabeça, tinha a ideia de morar aqui desde bem jovem.

A decisão final, para essa mudança, foi após ser assaltada 3 vezes em São Paulo, cidade onde nasci e cresci. Queria morar num país mais seguro.

Hoje, olhando para trás, tenho a certeza de que essa foi uma das melhores decisões da minha vida. E, meus filhos também sempre concordaram com isso.

Quanto à vida do casal, penso que uma mudança é sempre um desafio e requer um grande esforço, determinação e paciência de ambas as partes.

O processo de imigração pode ser bem estressante em todos os sentidos.

A família toda está envolvida nessa adaptação à nova cultura, sem falar dos obstáculos que a própria língua estrangeira representa, pricipalmente nos primeiros meses.

Penso que quem veio pra cá pra ficar e ficou pode se considerar um vencedor e está de parabéns. 

Penso também que se o casal está feliz com essa mudança e com essa conquista, assim como toda a família, a sensação de missão cumprida é muito gratificante e até une mais a família.

Sei de muita gente que se mudou para cá e que o casamento terminou; mas não pela mudança de país em si, mas sim por problemas pessoais que já existiam no passado.

A vida a dois pode ser maravilhosa assim como pode ser um desastre! O importante é que o casal tenha as mesmas metas, mesmos valores  e muito respeito um pelo outro.

E como diz o ditado: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido… mas aquele que vai acompanhado com certeza vai mais longe”…

Viver no exterior faz bem ou mal?

Cecilia Weissberg

Vim para os Estados Unidos por Amor! Deixei tudo para trás para viver com a pessoa amada. Teria ido pra onde fosse, mas sinceramente, sendo Estados Unidos, me senti mais confiante, por ser um País de prosperidade e oportunidades. Obviamente foi desafiadora essa mudança. As adaptações foram acontecendo por conta das dificuldades com o idioma, cultura, lidar com as saudades, não ter amigos e familiares. Confesso que chorei várias vezes por isso. 

No entanto, as “dificuldades” nos deixaram mais próximos; ele fazia de tudo para estar ao meu lado e amenizar as saudades da minha família. Me ajudou a trazer meus filhos e proporcionou minhas viagens ao Brasil. Hoje vejo que esta situação fortaleceu nosso companheirismo, nossa cumplicidade. 

Mas, sem dúvida, os primeiros meses foram cruciais. Foi preciso manter o foco no objetivo (felicidade ao lado dele), coragem para enfrentar o mundo novo (principalmente com a falta do idioma) e correr atrás da independência (no caso, atrás de trabalho).

E todo esforço, aprendizado e adaptação valeram a pena.

Fui cada vez mais acolhendo o país estrangeiro como meu também. Assim consegui entender que somos realmente seres do mundo, somos nós que criamos nossa própria realidade e a minha hoje é o que construí aqui. Somos todos seres dependentes, portanto, toda esta construção não foi sozinha. Foi ao lado de muitas pessoas amigas, colegas de trabalho, familiares, vizinhos.

Minha conclusão é que sem dúvida quando o casal se importa com a felicidade do outro, com as carências e angústias, fica mais fácil o entendimento e a felicidade em estar juntos vai superando e buscando as soluções. Não dá para dizer nada sobre o futuro das relações, porém, guardo comigo sempre um lema:

“Viver um dia de cada vez,”

Cecilia Weissberg 

Radialista e Jornalista nascida, em São Paulo, SP. Trabalhou em várias emissoras de rádio e TV brasileiras como  produtora comercial, produtora artística e jornalista. Nos Estados Unidos, envolveu-se com a comunidade brasileira da Flórida. 

Atualmente é engajada aos eventos do Focus Brasil  Foundation e apresenta o programa de rádio – Milk Shake – na Web Radio Gazeta News da Florida.

“Abri mão da carreira e não me arrependi”

Nívea Stelmann

A atriz Nívea Stelmann vive com a família em Orlando há quase 4 anos. No Brasil, participou de novelas de sucesso e interpretou personagens marcantes. Junto com muitos outros colegas, foi pêga por uma onda de demissões na TV Globo, onde trabalhou 20 anos seguidos. 

Foi o empurrãozinho que faltava para dar novo rumo à sua trajetória de vida. Já conhecia e gostava de Orlando. Com a rescisão do contrato, comprou um imóvel na cidade. Mas só concretizou o plano quando ela e o marido, pai da filha mais nova, já estavam com tudo organizado:

“Nós planejamos juntos, fizemos tudo com muita calma. Chegamos com green card, casa própria e uma reserva até começarmos a trabalhar” – ela conta.      

No Brasil, deixou a fama e o glamour. Diz que até gosta da sensação de anonimato quando vai à escola dos filhos, por exemplo, e assegura que viver no exterior só fez bem para o seu relacionamento afetivo: 

“Acho que une. Sempre fomos unidos mas, aqui, ainda mais porque só temos um ao outro pra contar. A renúncia profissional foi minha, já que aqui ele faz a mesma coisa que fazia no Brasil. Eu abri mão da minha carreira e nunca me arrependi. Ao contrário, cada ano que passa gosto mais de viver aqui. “Somos caseiros. Não gostamos de eventos e quase não saímos”.  

Fugir da violência no Rio de Janeiro foi outro motivo que levou a atriz para os Estados Unidos. Depois de vivenciar o sequestro de uma pessoa da família e ser testemunha de um tiroteio em um shopping na Barra da Tijuca, começou a desenvolver síndrome do pânico. Com o filho mais velho entrando na adolescência, a preocupação com segurança aumentou. 

Hoje, em Orlando, o problema é outro:  “O único desafio pra mim é lidar com a saudade da minha família”.  Já o casamento vai muito bem, ela garante: “Não tivemos problemas no nosso relacionamento”. Nívea acredita que “com amor, boa vontade e dedicação das duas partes, todos os obstáculos que possam surgir serão ultrapassados”

Enfrentando desafios juntos

Lucia Helena Salvetti De Cicco

Mudar de país não é fácil. É preciso planejar e pesquisar muito para onde ir. Eu e meu marido mudamos para os USA por vários motivos: o principal foi que a violência no Brasil aumentou muito. A decisão de mudança foi mútua e decidimos que, -para a segurança de nossos filhos e nossa deveríamos mudar de país, pois o Brasil estava ficando insuportável. Começamos a nos preparar um ano antes e escolhemos Orlando pois passávamos as férias aqui todos os anos e adorávamos.

A distância da família e amigos acabou nos unindo ainda mais, pois éramos nós dois e nossos filhos; e, precisávamos nos adaptar. Eu e o Celestino sempre tivemos um relacionamento aberto e muito estável. Somos coniventes e parceiros, dividindo a carga dos problemas entre nós. Então, todas as dificuldades que passamos quando mudamos para os USA fortaleceu ainda mais o nosso relacionamento. Não importa o local quando o relacionamento é seguro.

Somos um casal que sempre teve muito amor e respeito um pelo outro. Não enfrentamos nenhum sério problema em nosso relacionamento com a mudança para os USA. Enfrentamos as dificuldades juntos e a superamos. Se um casal é honesto e sincero, um com o outro, e existe muito amor, os problemas tornam-se pequenos e superáveis. 

Uma relação de casal surge quando duas pessoas decidem projetar juntos suas vidas. Por isso, é fundamental que o casal edifique uma série de pilares sólidos sobre os quais possam construir todos os seus projetos em comum.  A base para esses pilares é o amor, o respeito e o entendimento. O fracasso, em muitos casos, deve-se à falta de um entendimento entre ambos e, a mentira e a desonestidade acabam com qualquer relacionamento,  colocando tudo a perder.

Lucia Helena Salvetti De Cicco

Nasceu em Campinas, SP e mudou-se com a família para os USA, em 2000.

É jornalista formada pela PUC Campinas. 

Foi assessora de Imprensa da Bosch e da Pucc 

Em 1996, criou os sites Saúde Vida on line – www.saudevidaonline.com.br e Saúde Animal – www.saudeanimal.com.br os quais mantêm até hoje.

É Relações Públicas e Assessora de Imprensa da C.F. Realty e da C.F. Vacations

lhsc2010@gmail.com

Desafios que casais imigrantes enfrentam em terra estrangeira

Sandra Freier

Quando pensamos qual a motivação que leva um casal a mudar para um país estrangeiro, abrindo mão da sua língua materna, cultura, família e profissão abrimos espaço para um grande debate. Com 20 anos de América, posso dizer por experiência própria e com acompanhamento clínico de famílias imigrantes, seja qual for a razão que leva um casal a tomar a decisão de mudar, a unidade e a forma como eles irão encarar os desafios farão toda a diferença.

São vários os fatores que levam um casal a imigrar para outro país, entre eles: realizar um sonho de juventude; prosperidade financeira; segurança; melhor condições de vida e estudo para os filhos; uma nova chance para o relacionamento conjugal; oferta de trabalho ou transferência da empresa que um dos cônjuges trabalha etc.

Fatores realmente convincentes e motivadores. O que a maioria dos casais não sabe ou não acredita que pode acontecer é o impacto que uma mudança provoca no relacionamento.

De acordo com pesquisas, nos últimos 10 anos, ʺa população imigrante brasileira continuou a crescer no início dos anos 2000; e depois se estabilizou por cerca de uma década. Entre 2014 e 2017, voltou a crescer, refletindo as difíceis condições do Brasil, incluindo a recessão de 2013, que foi acompanhada por alto desemprego e inflaçãoʺ1

A mudança de país rompe os laços familiares. Para os latinos, isso acaba sendo um choque cultural. A família brasileira é muito achegada, mesclada, todos estão envolvidos, reúnem-se em finais de semana; filhos ficam com os avós enquanto os pais trabalham e uns ajudam os outros. Um casal imigrante vive um isolamento nos primeiros meses até que se forme um ciclo social; e, mesmo assim, enfrenta o desafio com relação a deixar os filhos no  extended day ou com baby sitter, se ambos os pais trabalham. Geralmente, os primeiros trabalhos conquistados são na área de construção e limpeza, os quais são dignos e com boa remuneração. O cansaço físico, no final do dia, tem um peso significante na vida do casal, principalmente quando as tarefas de casa não são compartilhadas. 

Se nos primeiros meses o casal percebe que não atingiu os objetivos determinados, especialmente na área financeira; e começa a passar por dificuldades, a tendência é um dos cônjuges culpar o outro pela decisão da mudança e deseja retornar ao Brasil. Já atendi casos em que famílias precisaram morar em um quarto, como roomates  para diminuir as despesas, privando tanto o casal como os filhos de viver com liberdade e em um ambiente saudável. 

Alguns casos por exemplo: é o da  família que muda com a intenção de realizar um investimento no país. Financeiramente estão bem, mas o marido precisa ficar parte do tempo no Brasil para manter seus negócio. Ou, quando a mulher abre mão do seu trabalho no Brasil para acompanhar o marido com a intenção de  restaurar o relacionamento. E, quando não há trabalho para o imigrante, principalmente para o homem ou se a remuneração ou posição profissional dele é inferior ao da mulher? Ciúmes é gerado, bem como sentimento de inferioridade da parte do homem, além do empoderamento e controle por parte da mulher. Desdobramentos em função deste cenário podem ser observados, tais como: consumo de álcool ou drogas como forma de escape ou fuga da realidade e até mesmo violência doméstica. Conflitos não resolvidos no Brasil são transferidos para o outro país e a probabilidade de resultar em um divórcio é grande; principalmente, se a mulher consegue a sua independência financeira. Os conflitos precisam ser reconhecidos e tratados independente da mudança. Cobrar ou culpar o cônjuge pela decisão em deixar uma profissão no Brasil não melhora a situação; ao contrário, é mais uma brasa acessa para incendiar a crise no casamento. 

Neste quadro do casal que migra para os EUA, é importante levar em consideração dois aspectos:

1- Se o casal é jovem, sem filhos e quer realizar este sonho de construir um patrimônio para o futuro da família, é importante estabelecer valores e princípios no relacionamento conjugal. Fazer um planejamento com metas realistas e datas a serem cumpridas. Se há alguma área de conflito no relacionamento conjugal, não ʺacumular sujeira debaixo do tapeteʺ, achando que poderá sacudi-la em pleno vôo para os EUA. Trabalhe os pontos fracos do relacionamento; priorizar um ao outro e certificar que ambos estão confortáveis com as decisões tomadas. 

Na chegada ao novo país, o casal precisa estar unido, sem deixar dominar-se pelo encanto da conquista material e nem dar passos em falso adquirindo dívidas.Relacionar-se com casais brasileiros para minimizar o distanciamento e saudades, e buscar grupos de apoio. É muito comum igrejas serem referências ao apoio emocional para famílias.

Há a probabilidade de casais jovens serem bem sucedidos quando fortalecem seus vínculos, respeitam um ao outro e aprendem a delimitar o tempo de trabalho, bem como trabalharem juntos os objetivos financeiros. Transparência na comunicação, tempo para lazer e o cuidado pessoal são fatores importantes para o sucesso nesta decisão. 

2- Se o casal já vem migrar com filhos, a atenção e planejamento devem ser redobrados, assim como uma reserva financeira. As crianças se tornam vítimas e vulneráveis quando vivem os conflitos gerados pela mudança mal planejada. Filhos não seguram casamento. Podem prolongar  a crise no relacionamento mas sofrem as consequências  de viverem numa estrutura disfuncional. Se um dos motivos principais do casal em mudar para os EUA é oferecer melhores condições de vida aos filhos, isso inclui qualidade de tempo com a família, a qual, na maioria das vezes é ignorada. Filhos não são comprados com vídeo games, Iphones ou Ipads. Filhos precisam da presença dos pais, do acompanhamento na escola, do afeto e de ambiente saudável no lar.  Lembrem-se que os filhos não pediram para mudar,  eles também precisam de adaptação, sentem falta dos avós e da família no Brasil. É preciso planejar bem, considerar todos os desafios e saber administrar o tempo de trabalho com da família. 

Sim, este é um país de oportunidades, ainda que nos últimos anos, a política tem se estremecido, a pandemia mudou a realidade do mundo, mas como diz o sábio ditado: a oportunidade a gente é quem faz. 

Há algumas regras de ouro para o casamento, independente da mudança de país: nutrir o amor e a admiração um pelo outro; estar voltado um para o outro ao invés de dar as costas; aceitar e respeitar a opinião do cônjuge; resolver os problemas que têm solução e superar os impasses; criar significado na vida em comum (John Gottman).2

Atitudes contrárias como a reclamação contínua, negatividade, críticas, discussões infindáveis que só aumentam a tensão, a perseguição, o distanciamento são agentes nocivos ao casamento cujo estrago pode ser irreparável.

O casal deve pensar que a família é o maior patrimônio que se deve preservar na América. Não há preço, nem conquista material que possa substitui-la. Como toda sociedade, o casamento depende de ambas as partes para que seja bem sucedido e para que os obstáculos sejam vencidos. 

Hoje em dia, a ajuda profissional na língua portuguesa para casais e famílias imigrantes está mais acessível. O importante é dar o primeiro passo.

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Sandra Freier tem mestrado em Aconselhamento Pastoral e Terapia para Casais e Familia. 

Ela também é Secretária Executiva de uma organização sem fins lucrativos cuja missão é erradicar a fome, a pobreza, o analfabetismo e o treinamento de liderança para pessoas carentes no Haiti e na Amazônia, Brasil. 

Com mais de 10 anos de experiência, Sandra tem se dedicado a ajudar a comunidade brasileira na área de aconselhamento com o propósito de estabilizar emoções, recuperar dignidade, auto-suficiência, auto-estima, viver relacionamentos saudáveis e promover o crescimento individual como um todo. 

Iniciou sua carreira como terapeuta em Orlando, após acompanhar muitos casais e famíias imigrantes em crises e identificar a necessidade de um professional que falasse sua língua. 

Em 2011, foi uma das fundadoras da New Hope Assistance Center, onde atendeu famíilias carentes, promovendo assistência legal, material e emocional.

Em 2018, criou a ‘Bridges to the World’, atendendo adultos, casais, famílias e crianças, em Pompano Beach, Fl. 

bridgestls.contact@gmail.com.

Instagram@bridges2world

Alguns artigos podem ser encontrados no site http://www.bridgestotheworld.us

Imigrar une ou separa casais?

Luciana Bistane

No início, a novidade, o entusiasmo. Tudo é descoberta, aprendizado. Com o passar do tempo, a euforia vai dando lugar a um choque de realidade: a falta de ombro amigo, a saudade da família, os boletos em dólar, a ausência de uma rede de apoio com os filhos pequenos, uma eventual perda de status. E o tão acalentado sonho de viver em outro país vai sendo posto à prova.  

Ninguém escapa: é preciso se adaptar a uma nova realidade – com outra cultura, outros valores, outro idioma, outra gastronomia e a falta de conexão social, pelo menos, no início. Gerenciar os sentimentos, superar os obstáculos, encarar a burocracia para conseguir um green card e ainda manter um casamento feliz é o grande desafio.  

Até que a imigração os separe 

Essas dificuldades podem unir ou separar os casais e muita gente se separa. Quais os acertos dos que se saem bem? E quais os erros dos que se saem mal?  

Ouvir a opinião de quem tem conhecimento de causa é – no mínimo – curioso. Convidamos para essa edição quatro imigrantes brasileiras, que vivem em Orlando. 

A atriz, Nívea Stelmann abriu mão de uma carreira de sucesso e não se arrepende. Tá feliz da vida com o casamento. Ela diz que mudar de país fortaleceu ainda mais o relacionamento e explica o porquê.  

Em artigos assinados por elas, a corretora de imóveis, Beth Tabakov, a radialista, Cecília Weissberg e a jornalista, Lucia Helena Salvetti De Cicco, dizem o que consideram importante para que as uniões sobrevivam – com louvor – à imigração. 

Cada casal tem seu próprio universo e não existe uma cartilha a seguir, mas uma regra vale pra todo mundo: não há green card que resolva conflitos mal resolvidos levados na bagagem,  ensina a psicóloga,  Sandra Freier.   

Acostumada a lidar com casais estrangeiros, em seu artigo ela aponta os principais desafios que podem abalar as estruturas do casamento e diz como superá-los.