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“Sempre me senti muito bem acolhido e entrosado com todos.”
Daniel Janequine

Acredito que a decisão da minha mãe de se mudar do Brasil para Orlando foi corretíssima, porque minha adaptação aqui foi super tranquila.

Em 1991, Orlando era uma cidade bem pequena ainda, com muitas plantações de laranja, principalmente na área do Metrowest e Windermere.

Para vocês terem uma ideia, a rua Apopka Vineland, -entre a Sand Lake Rd e a área de Lake Buena Vista, não era de mão dupla. Não existia o parque Universal’s Islands of Adventure e o restaurante Hard Rock era no formato de uma guitarra e ficava isolado do parque da Universal Studios. Ainda nem se falava em Metrowest e restaurante brasileiro. Só tinha o Sabor Latino, na I-Drive, o Brazilian Pavillion, em Winter Park e a churrascaria Porcão, em Miami.

Uma cidade que também não tinha muitos brasileiros morando e, os poucos que tinham, na sua grande maioria trabalhava com turismo fazendo transfer de passageiros, comércio na I-Drive ou na US192, em Kissimmee, guia de parques ou donos de operadoras de turismo.

A Southwest Middle School foi a minha primeira escola nos EUA. Que diferença do que estava acostumado no Brasil em termos de ensino, estrutura e o dia dia de alunos e professores. Me lembro da maneira em que o professor de matemática ensinava divisão. O que era aquilo? Até hoje, não sei fazer divisão da maneira americana. A escola fez de tudo para me ajudar na adapção, inclusive colocando um intérprete para auxiliar. Mesmo assim, isso não evitou alguns desastres do tipo entrar no período errado e assistir aula achando que estava “tirando onda”, mesmo porque não entendia nada do que o professor falava. Fora as diversas vezes em que em me perdi pelo colégio. A verdade é que meu intérprete era muito paciente comigo. Me lembro que no colégio tinha somente 5 brasileiros e a grande maioria morava aqui há pouco tempo. Logo percebi que tinha que dominar o idioma o mais rápido possível e assim foi feito.

A parte cultural também foi um choque muito grande para mim. Um ano antes, tinha ocorrido o Rock In Rio II e as grandes sensações da época, no Brasil eram as bandas americanas como Guns n’Roses, Faith No More, Metallica, Bon Jovi e Skid Row. Crente que eu iria chegar aqui em encontrar um bando de metaleiros na escola,  me deparei com o pessoal escutando muito Hip Hop, tipo Kris Kros, NWA e Dr. Dre. Eu, acostumado a usar roupas da marca Company e Redley chego aqui e vejo o pessoal usando aquelas roupas largas com as calças caindo mostrando a cueca. A minha primeira impressão foi que estava no meio de um manicômio.

Já na Dr. Phillips High School, as coisas foram ficando melhores. Já tinha uma turma um pouco maior de brasileiros. A escola era bem maior; eu já estava melhor entrosado com os colegas de turma. Naquela época, a grande dificuldade  para um jovem que veio da Zona Sul do Rio de Janeiro, acostumado com as festinhas e os saraus dos Colégios Andrews, Princesa Isabel, CEU, Gink e Santo Inácio; a turma do curso de Inglês do IBEU de Ipanema; a natação no Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea; praia, surfe; Jiu-Jitsu, na Academia do Pinduka; futebol na Lagoa; e as matinês de sábado, na Papillon e Babilônia, isso aqui era um tédio porque não tinha nada para fazer.

Fora os parques temáticos, que depois de um certo tempo você enjoa, só tinham o Rock On Ice, um boliche na Universal Blvd, um cinema no antigo Downtown Disney -que na época não era nem 1/3 do tamanho do que é hoje. No verão, tinha um Summer Night mixuruca no Wet n’ Wild que juntava um pessoal, mas sempre terminava cedo. É aos 16 anos de idade, quando a vida de um adolescente na América muda bastante, porque já é permitido dirigir. Tínhamos um pouco mais de liberdade e nessa mesma época aconteceu um fato “historico”, que ficou marcado na memória dos adolescentes da época. Nos sábados à noite, a JJ WHISPERS, localizada na Lee Road, era a única “night” na cidade para adolescentes, mas ficava muito longe de onde eu morava.

Muitas histórias boas para contar.Porém, algumas proibidas só conto em “off” rsrsrs… Para lembrar de uma coisa, Orlando Downtown se resumia ao Rosie O’Gradys, na Church Street, que era um ponto turístico e mais nada. Não existia o Downtown Orlando dos dias de hoje.

Para você ter uma ideia, escutava a minha mãe dizer que saía com as amigas para uma balada chamada “Kookaburra”, em Lake Buena Vista. Nas férias, ía sempre visitar a minha familia no Brasil e, volta e meia, sempre tinha algum familiar nos visitando, o que ajudava bastante em relação à saudade. Com o tempo, a cidade foi crescendo e a comunidade também. Naquela época, não tinha internet, então a forma de saber notícias do Brasil era através de um fax, que recebíamos diariamente pela manhã. Acho até que quem enviava este fax era o pai do meu intérprete na Southwest Middle School.

Futebol, nem pensar! Tinha que pedir para o meu avô gravar os jogos do Flamengo em fita cassete e mandar por alguém que estivesse vindo para Orlando. Me lembro que, um pouco mais tarde, começou a a distribuição do Jornal O Globo, que vinha no vôo diário da TransBrasil.

Enfim, tudo isso foi muito bom porque acabei criando uma identificação muito grande com a cidade e com a comunidade local. Sempre me senti muito bem acolhido e entrosado com todos. Mais tarde, fui fazer faculdade na FSU, em Tallahassee e aí foi uma outra fase muito boa da minha vida.

Durante a vida como universitário, também fui muito bem acolhido e até cheguei a fazer parte de um grupo de fraternidade, tipo coisa de filme americano da década de 80. Durante a temporada do futebol americano, a cidade fica em festa e lembra o espírito de uma Copa do Mundo para o brasileiro. Uma coisa que me marcou muito, foi quando me formei e retornei para Orlando. Após 4 anos, logo percebi o quanto a cidade de Orlando tinha crescido, principalmente, a comunidade brasileira. As pessoas pensam que Orlando só vive em torno dos parques temáticos. Na verdade é muito mais do que isso. Uma comunidade vibrante, acolhedora e bastante diversificada, que vem crescendo cada vez mais.

Espero que continue assim, porque não é à toa que Orlando é conhecida como City Beautiful

Daniel Janequine nasceu em março de 1978, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro.
Imigrou para Orlando, com 13 anos de idade, com a família, em fevereiro de 1991.
Estudou na Southwest Middle School, faltando 2 meses para terminar a 8ª série.
Cursou 4 anos na Dr. Phillips High School, 2 anos no Valencia Community College, em Orlando; e, 3 anos, na Florida State University, em Tallahassee, onde recebeu o bacharelado em Finanças e Marketing.
Há 15 anos, trabalha no setor financeiro. Incialmente, em vários cargos no Bank of America; e, atualmente, trabalha no JP Morgan Chase, como Business Relationship Manager.
É casado, há 16 anos, com Katia Janequine, uma brasileira do estado de Goiás, que trabalha no ramo de Real Estate, com quem tem uma filha de 13 anos, Gabriela Janequine.

 

Pretendo passar o resto da minha vida aqui e só desejo manter a cultura brasileira presente na minha família
Gabriela Oliveira

Absolutamente, a decisão de meus pais migrarem para os Estados Unidos foi correta. Minha vida mudou completamente porque moro nos EUA. Acredito que ter sido criada aqui me deu um mundo de oportunidades e enriquecimento que poderia ser mais difícil de alcançar no Brasil. Apesar disso, existem os contras. Ficar longe da família é difícil, mas acho que com o FaceTime e o mundo virtual em que vivemos, tudo fica mais fácil.

Acho que de certa forma foi difícil me adaptar nos EUA. Como meus pais não foram criados nos Estados Unidos, tivemos que aprender muito juntos. Coisas como SAT, compreensão de leitura, vocabulário sempre foram algo que eu não ouvia ou praticava em casa porque falamos português. Eu não acho que isso me impediu de alcançar o que eu queria, mas tornou tudo um pouco mais difícil.

Nas fotos, Gabriela aparece com o namorado, Christian Pierce e com os pais, Maria do Carmo e Edsel Oliveira.

Sinto muita falta da família no Brasil. Como mencionei acima, sinto falta de ver meus primos crescerem e meus avós envelhecerem. No entanto, é algo que sempre fez parte da minha vida e não sei como seria diferente. A tecnologia através do FaceTime e das ligações gratuitas pelo WhatsApp tornou a adaptação mais fácil.

A cultura entre os dois países é diferente. A forma como você cumprimenta as pessoas, algo tão simples, é completamente diferente. Acho que os relacionamentos em geral são muito mais profundos no Brasil. Por exemplo, com seu dentista, manicure, cabeleireiro, você conhece a vida deles e se torna amigo. Já nos Estados Unidos, os relacionamentos podem ser muito mais distantes e isso é algo a que nós brasileiros temos que nos adaptar.

Estou muito feliz nos EUA. Pretendo passar o resto da minha vida aqui e só desejo manter a cultura brasileira presente na minha família.

Gabriela Oliveira nasceu em São Paulo, SP, em1995.
Chegou em Orlando,Fl com os pais, quando tinha apenas 3 meses.
Estudou na Windermere Preparatory School & na Florida State University
Profissionalmente exerce o cargo Senior Internal Auditor. É solteira e reside atualmente na Califórnia.
Os americanos incentivam o crescimento e a responsabilidade mais cedo
Tatiana Souza

Hoje em dia, não tenho a menor dúvida de que meus pais tomaram a decisão certa de sair do Brasil. Os primeiros anos, durante a transição foram mais difíceis, acredito que pela minha idade na época. Tinha apenas 16 anos e estava completando o segundo ano do colegial no Brasil. De repente, tive que me desligar do meu ciclo de amizades, família e de tudo que estava acontecendo e encarar uma nova vida em outro país.

Imagino que eu tenha tido mais dificuldades de adaptação nos EUA do que meus pais, devido à minha idade na época que essa mudança aconteceu, e, por não ter feito a escolha…rs. Meus pais estavam decididos e felizes com a decisão tomada.

Ao longo dos anos, grande parte da minha família migrou para Orlando; o que fez com que a saudade fosse por um período curto. Atualmente, somente o meu pai reside no Brasil, e antes do confinamento do COVID-19, ele nos visitava a cada 3 meses, o que é bastante confortador para todos nós.

São muitas as diferenças culturais entre os dois países. Acredito que hoje não sinto tanto o choque cultural porque já estou aqui há 21 anos. No começo, a alimentação me surpreendeu, visto que aqui se come muita comida congelada, fritura e fast food. A individualidade do americano faz parecer que são frios; mas com a convivência, na realidade é o oposto. A forma como eles encaram a vida com seriedade, são pontuais e profissionais. Nós brasileiros, somos mais sentimentais em relação à super proteção, enquanto os americanos incentivam o crescimento e a responsabilidade mais cedo. Por exemplo, comecei a trabalhar com 16 anos e se tivesse morando no Brasil, com certeza isso não aconteceria.

Hoje em dia não penso mais em voltar para o Brasil..na verdade me sinto tanto americana como brasileira. Já vivi mais tempo da minha vida aqui do que no Brasil. Me formei aqui, estou me realizando profissionalmente e constitui uma família.

Tatiana com os avós e a mãe, Rosana Almeida, que abraça o neto Lucas
Tatiana Almeida Souza nasceu na cidade de São Paulo, SP, em 1983.
Chegou nos Estados Unidos com os pais, com 16 anos de idade.
Estudou nos EUA, na Cypress Creek High School e University of Central Florida
É Vice President of Sales na Meritage Homes Orlando, sétima maior construtora nos EAU.
Desde 2013 é casada com o brasileiro, Luciano Medeiros, com quem tem um filho, Lucas de 3 anos.
Graças ao meu trabalho, me facilita visitar o Brasil várias vezes ao ano.
Danielle Nascimento Edri

Não tenho a menor dúvida que meus pais terem deixado o Brasil para começar uma nova vida, nos Estados Unidos, foi a melhor decisão para toda a nossa família.

Comparado a meus pais, tive mais dificuldade de adaptação por causa da escola. O meu maior obstáculo foi chegar com 12 anos de idade, sem falar inglês; principalmente, porque a 30 anos atrás tinham poucos brasileiros vivendo em Orlando. Na minha escola, só conheci uma menina que falava o Português. Os primeiros 6 meses foram terríveis, porque sou muito tímida.

Com o tempo, aprendemos a lidar com a saudade. No início, a comunicação com os familiares no Brasil era feita através de cartas. A ligação telefônica era caríssima. Hoje em dia, tudo mudou e com a tecnologia tudo ficou mais fácil. Converso com os meus avós frequentemente via Facetime. Graças ao meu trabalho, em companhia aérea, por 20 anos, me facilita visitar o Brasil várias vezes ao ano.

Ariela, Danielle, Ethan e Sharon

Na minha opinião, existem muitas diferenças culturais entre os dois países. É difícil afirmar qual cultura é melhor, porque amo as duas; e, em ambas, existem seus pros e seus contras. Respeito o jeito de ser, mais reservado, dos americanos, que aos olhos dos brasileiros pode parecer muito frios.

Desde 1990, quando passei a residir em Orlando, tenho sido muito feliz e nunca pensei em sair daqui. Gosto de viajar e conheço vários países do mundo, o que me possibilita o conhecimento de comparar lugares e outras culturas. Jamais pensei na possibilidade de voltar a viver no Brasil. Não me acostumaria com a burocracia, com a falta de segurança e com a corrupção ao extremo.

Danielle Nascimento Edri nasceu em São Paulo, Capital, em 1978. Chegou aos EUA, com os pais, em 1990, com 11 anos de idade.
Estudou no Westridge Middle School, Cypress Creek High School e no Valencia Community College.
Há 20 anos, trabalha na Virgin Atlantic Airways, como Gerente de Cargas.
É casada com o israelense/ americano, Sharon Edri, com quem tem 2 filhos: Ariela, 14 anos e Ethan, 12 anos.
Como comparar um hambúrger com uma moqueca de siri mole com farofa de dendê?
Amanda Borges Stroud

É difícil ter certeza de como as coisas teriam sido se meus pais tivessem ficado no Brasil. Minha vida tem sido abençoada e meu caminho aberto porque nasci nos Estados Unidos e tenho as oportunidades por ser cidadã. Também adquiri o senso de comunidade brasileira que meus pais ajudaram a criar em mim. Isso não seria o mesmo se meus pais não tivessem criado iniciativas como o Focus Brasil, o Press Awards, e o Miss Brasil-USA para a comunidade brasileira nos EUA.

Graças a Deus nunca sofri nenhum tipo de preconceito. De fato, recebi várias vantagens na Universidade por ser filha de imigrantes. Mas imagino que a minha experiência possa não ser a mesma de outros imigrantes e de sua segunda geração. Tenho plena consciência de que muitos sofrem preconceito sim, especialmente negros, morenos ou aqueles que não falam bem o inglês.

Amanda Borges com o esposo, Benjamin Stroud

Quando eu era pequena, todos os anos eu viajava, algumas semanas, para o Brasil com meu pai ou minha avó. Eu adorava! Mais tarde, viajei várias vezes sozinha no avião. Eu adorava o senso de aventura e de independência que sentia quando me comunicava com aeromoças e quando passava pela alfândega, apresentando meus passaportes! Chegava no Brasil e ficava com minha avó em Salvador, BA passava o tempo, relaxava, lia livros, caminhava na praia, fazia shopping e, até mesmo, assistia novela. Tenho muita saudades dessa época simples e inocente, e muito mais da minha avó maravilhosa, que Deus a abençoe. Desde os 17 anos só havia ido para Salvador. Em 2018, conheci o Rio de Janeiro com minha mãe, uma tia, uma prima e meu marido. Foi a primeira viagem dele para a América do Sul, e sua alegria em conhecer o Brasil fez com que todos nos divertíssemos ainda mais. Foi ótimo e já estamos planejando outra viagem para o Brasil assim que for possível.

São culturas extremamente diferentes em todos os aspectos. A comida, o modo em que as pessoas lidam uns com os outros, o business, a música, a dança, tudo é diferente. Acho a Cultura brasileira bem mais vibrante e mais alegre que a americana. Você sente um calor humano e uma afeição entre as pessoas -amigos pessoais e desconhecidos- que simplesmente não existe da mesma maneira nos EUA. A comida brasileira também me agrada mais. Como comparar um hambúrger com uma moqueca de siri mole com farofa de dendê? Ao mesmo tempo, sinto que as coisas de modo geral são bem mais organizadas e seguras nos EUA. Aqui, raramente me sinto insegura, e com um pouco de cabeça é fácil evitar situações perigosas. Não tem essa neurose de não poder usar bijuteria, jóia ou qualquer objeto valioso nas ruas. Não posso nem imaginar uma pessoa entrar no meio da rua com uma arma em pleno sol do dia para assaltar meu carro. Simplesmente não é uma coisa com que as pessoas se preocupam aqui, e isso tem muito valor em termos de segurança e bem-estar mental.

Amanda entre os pais, Andrea Vianna e Carlos Borges

Como posso saber o que o futuro vai me trazer? Por enquanto não tenho plano de sair dos EUA. Mas, as coisas aqui também não estão lá muito bem e estou super decepcionada com vários aspectos da sociedade e do governo americano. Eu e meu marido, que é cidadão da Inglaterra, já pensamos seriamente de nos mudar pra lá. Mas uma mudança grande assim não seria nem fácil nem barata, e, realisticamente, estamos felizes e confortáveis aqui nos EUA. Nunca considerei me mudar para o Brasil. A não ser que tivesse uma razão relacionada com o trabalho, não creio que moraria no Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amanda Borges Stroud nasceu, em Miami, FL em 1992, e é filha de brasileiros.
Estudou na John I. Smith Elementary School,  na Doral Middle School, na Ronald Regan Doral Senior High School e na New York University Tisch School of the Arts
Formada em Digital Producer, Amanda é casada com o britânico/americano, Benjamin Stroud, desde 2019.

 

“Não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.”
Alessandra Manes

É impossível saber se a decisão de meus pais de deixar o Brasil estava certa ou errada. Na verdade, não acho que possa ser certo ou errado, é exatamente como é. Parece a decisão certa, mas é simplesmente porque não sabemos como as coisas teriam sido diferentes se tivéssemos ficado no Brasil. Eu sei que a decisão não foi fácil para eles. Deixando para trás todos e tudo o que sabiam para tentar oferecer melhores oportunidades para minha irmã e eu. Eu tinha apenas 4 anos e era muito jovem para entender completamente o que estávamos deixando para trás. Agora, como adulto, esta é a única vida que conheci, então é claro que acho que a decisão foi certa. Estou feliz com a minha vida e o que pude realizar nos EUA, mas isso não quer dizer que ficaria menos feliz no Brasil. De acordo com as circunstâncias, hoje parece ter sido a decisão certa. Houve momentos em que pareceu errada. Estar longe da família é cada vez mais difícil à medida que envelhecemos. Não ser capaz de compartilhar ocasiões especiais como aniversários, formaturas, casamentos, nascimentos sempre pesou muito em mim. Não estar junto de familiares doentes ou ir a funerais nunca é fácil. O certo é que sinto que a decisão nos fortaleceu como família e sou grata por isso.

“Não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.”

Com apenas 4 anos de idade, foi muito fácil me adaptar aos EUA. Lembro-me muito pouco da vida no Brasil, então não há como comparar. Aprendi rapidamente o idioma e me integrei aos colegas das escolas. Para meus pais, foi muito mais difícil deixar pra trás família, amigos, trabalho e cultura para viver num lugar onde tiveram que aprender o idioma e novos costumes. Não é surpresa que, ao tentar se adaptar, eles estabeleceram amizades com outros brasileiros imigrantes, como forma de não se sentirem tão longe do Brasil. Amizades estas, que se desenvolveram por anos e, hoje, tornaram-se como uma família. Isso ajudou a todos se sentirem mais confortáveis ​​com a transição. Essa nova “família” também garantiu que eu e minha irmã nunca perdêssemos o contato com a herança brasileira. Sempre estive conectada às raizes brasileiras. A capacidade de me integrar perfeitamente à cultura americana sem nunca perder a minha história brasileira, me proporciona o melhor dos dois mundos.

Sempre que Alessandra vai ao Brasil, este encontro com os primos é indispensável. Da esquerda para à direita, em pé: Lucas, Bruno, Rodrigo, Alessandra, Ana e Vinicius; sentados: Renato, Milena, Leonardo, Roberta, Claudia e Thais.

A pior parte é o fato de estarmos longe da família. Felizmente, a tecnologia ajuda a diminuir esta distância. Nos comunicamos regularmente por meio de aplicativos de vídeo e mensagens que, às vezes, nos esquecemos que um oceano nos separa. Sempre estamos conectados uns aos outros. Somos extremamente abençoados por termos ido ao Brasil e recebido os familiares aqui com frequência para matar saudades. Não é possível estar presentes em todas as festas de aniversário, casamentos, nascimentos e funerais. Durante a minha graduação, senti muito a falta dos familiares que amo profundamente e não puderam estar presentes. Um exemplo do efeito colateral negativo de viver longe. À medida que envelhecemos, isso fica ainda mais evidente. Emprego, agenda apertada e muitas responsabilidades nos impedem de viajar com a frequência que gostaríamos. Por isso costumo dizer: “não importa o quanto tempo você esteja conectado virtualmente com a família. Nada substitui o contato físico.” Isto é uma ocorrência diária que nunca tem fim.

Uma das diferenças culturais mais importantes entre americanos e brasileiros está na conexão familiar. Os brasileiros dão muita ênfase nisso; algo que escolhi manter vivo para minha própria vida. Apesar da distância, estou mais perto da minha família no Brasil, do que muitos americanos que estão próximos de suas famílias que moram nas proximidades. Meus primos e suas esposas são como meus irmãos. Converso com eles regularmente e sinto que a distância somente reforçou os nossos laços familiares. Testemunho amigos americanos com pouco ou nenhum relacionamento com suas famílias. Outra diferença significativa entre americanos e brasileiros é como valorizam viagens pelo mundo. Os americanos parecem menos focados ou interessados ​​em explorar o mundo. Frequentemente, contentam-se em viajar dentro do próprio país, e não vêem benefício em se aventurar para fora da sua bolha de conforto. Muitos americanos que conheço nem possuem passaportes. Enquanto os brasileiros amam explorar o mundo. A maioria dos brasileiros que conheço já viajou para vários países em vários continentes e esse é um dos meus objetivos.

Para concluir, quero esclarecer que estou muito feliz nos EUA e não tenho planos imediatos de morar em outro lugar. Não quero me limitar de forma alguma e, por isso, sempre valorizo o fato de ter meus passaportes brasileiro e italiano, e manter a porta e a mente abertas, caso uma oportunidade na vida se apresente.

Em Orlando, Alessandra gosta de compartilhar seu tempo de folga com os pais, Maida e Eraldo,
com a irmã, Fernanda e com os sobrinhos, Leonardo e Gabriela
Alessandra Bellissimo Manes nasceu em São Paulo, SP, em 1986. Veio para Orlando, Fl com os pais e uma irmã, em 1990.
Estudou na Water Bridge Elementary School, Hunter’s Creek Middle School e Cypress Creek High School.
Graduada em Psicologia pela University of Central Florida, e Bacharel em Direito pela Barry School of Law, em Orlando.
Atua nas áreas de Família e Imigração.
Formada há 5 anos, Alessandra atualmente faz parte da equipe de John W. Foster, um dos mais respeitados advogados de Família da Flórida Central, no FCLC Group.