Como riqueza é construída–Califórnia

Peter Ho Peng

O custo da ignorância

No meu livro Vôos Pátrios e na edição de abril de 2011 do JB&B descrevi uma visita que fiz à família de minha filha na Califórnia. Reportei na minha Carta da Califórnia, como riqueza é gerada, numa economia pós-industrial: pela criação de conhecimento. Busquem aquele artigo no JB&B, ou comprem o meu livro. Ou peçam para o …., não, é muita coisa para eles irem lá atrás.

Bem, naquele artigo, anotei uma dúzia de exemplos de uma educação superior, e notei que a Califórnia, se fosse um país, seria a sexta economia mundial. O Brasil seria a oitava entre os países, mas a nona se a Califórnia fosse um país. Sempre uso US$ como a moeda-base neste artigo. Vejam como eu acertei. Notei que a Califórnia tem menos do que 20% da população do Brasil.

Agora, em 2019, a Californa é a quinta economia mundial, com 3,155 trilhões de dólares, enquanto o Brasil ficou nos 1,9 trilhões de dólares. E seria a décima pois o Texas passou o Brasil. Em 2011 a Apple tinha um valor de mercado de 800 bi. A maior empresa brasileira, a Petrobrás, tinha um valor de mercado de 60 bi. Em 2019 a Apple passou a marca do trilhão de dólares, em valor de mercado. A Petrobrás caiu para 40 bi.

Na batalha contra o Covid-19, a Califórnia registra o menor índice de infecções per capita e o menor índice de mortes por infectados do país. A Califórnia foi o primeiro estado a fechar as escolas e recintos públicos, e a praticar o distanciamento social. O resultado foi: foi o estado que mais ràpidamente passou pelo apex da curva, e já é o maior doador de materiais hospitalares para os demais estados, visto que seus estoques não iam ser necessários. Isso sim, é o valor do conhecimento.

Enquanto isso, na nossa Flórida, a fim de capitalizar o Spring Break, o Governador DeSantis acolheu os jovens universitários nas nossas praias. Estimam-se que o valor dessas duas semanas de beberagem e brincadeiras tenha um valor de menos de 1 bilhão de dólares para a economia da Flórida, a partir das medidas dos sales taxes, impostos sobre as vendas, incrementais nos períodos de Spring Break. O custo normal disso é policiamento, mais crime, quebra-quebra acidentes, hospitais. O governador da Flórida, Ron de Santis, republicano, pensou que valia a pena, e propagou aos quatro ventos que protegia a economia da Flórida, os restaurantes, bares, hotéis. Mas tem um porém.

Quanto irá custar aos cofres da Flórida a sobrecarga das infecções do Covid-19? Irei estimar isso mais adiante. Por enquanto vamos falar do Spring Break.

O Spring Break é um costume antigo, original da Grécia, chamado Antestreria, no qual jovens e adultos faziam festa ao Dionísio, o deus do vinho e das festas. Por 3 dias bebiam até cair, com concursos para ver quem engolia um copo de vinho mais ràpidamente. Isso ocorreu até que o cristianismo fez isso parar. Por volta dos anos 30, nos EEUU, o Spring Break foi sendo desenvolvido, com os estados da Flórida e do Texas botando fogo na catraca, e hoje é um costume estabelecido, parte da cultura universitária americana.

Voltando então ao custo do Covid-19 aos cofres da Flórida, e do impacto da decisão do Ron de Santis abrindo o estado aos spring breakers. A Flórida tem a metade da popluação da Califórnia, em números redondos. Mas o nível de infectados vai ràpidamente chegando ao apex da Califórnia, e o número de mortes avança também rapidamente. Em números redondos, a Califórnia deu o apex em 48 infecções por 100 mil habitantes, e a Flórida  ainda não chegou ao seu paex, com 72 infecções por 100 mil habitantes. A Califórnia registrou 1 morte por 100 mil habitantes, número decrescente, enquanto a Flórida vai para 2 mortes por 100 mil habitantes, número crescente. Qunato custa isso por infectado hospitalizado e por vida perdida? A Califórnia, por haver contido a explosão irá reativar a sua economia mais rapidamente, enquanto que a Flórida vai ficar paralisada por pelo menos o dobro do tempo. Vamos por partes. Se a Flórida tivesse aprendido com a Califórnia, teria ganho um par de mêses em atividade econômica, e gasto a metade em custos hospitalares. Assim, posso calcular que o custo em paralização marginal da economia e em custos hospitalares, é pelo menos de 50 a 100 vezes maior do que o lucro do Spring Break.

Esse é o preço que pagamos pela ignorância do nosso governador, que não teve cabeça própria para pensar e seguiu à risca os mandamentos do homem-laranja, que aliás, tem um devoto lá na terrinha. É isso.