Convivendo perigosamente com a inflação

Ilton Caldeira

O ano de 2021 tem se mostrado um período atípico e desafiador em muitos aspectos. Mas olhando do ponto de vista estritamente econômico, um velho conhecido também resolveu dar as caras, e apimentar ainda mais o cenário tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil: o dragão inflacionário.

Os motivos para esse ressurgimento diferem um pouco entre os dois países. A inflação ao consumidor nos Estados Unidos, acumulada em 12 meses até agosto, está em 5,3%, segundo dados divulgados em 14 de setembro pelo U.S. Bureau of Labor Statistics.

Parte dessa elevação se deve a alguns ajustes, devido ao represamento da demanda dos consumidores por produtos e serviços durante a pandemia. Mas boa parte da pressão na cadeia de produção pode ser um problema de duração mais longa do que se pensa, por conta da dificuldade nas redes de suprimentos e de transporte marítimo, e eventualmente podem criar problemas para os preços que podem perdurar para além de 2021.

Os rumos no mercado de trabalho, onde a falta de trabalhadores em diversos setores e a demanda por melhores salários, indicam que a pressão inflacionária pode ser mais persistente e mais alta do que o observado em um passado recente nos EUA.

Já no Brasil um misto de desconfiança com os rumos do país, temperado pelo embate institucional, somado com incertezas sobre o câmbio, escalada dos preços do petróleo e derivados,  têm fortes impactos na cadeia de produção, distribuição e consumo de produtos e serviços. Esses aspectos vêm castigando de forma severa todos os elos da corrente. 

Aliado a isso, o país vive um forte período de estiagem, cujo seu derivado, a crise hídrica, tem levado o preço da energia para as alturas.

No curto e médio prazos, as armas à disposição do Banco Central têm sido a elevação dos juros e as tentativas diárias via leilões cambiais para amortecer um pouco as oscilações do dólar, evitando um impacto maior sobre os preços locais. 

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, foi de 0,87% em agosto, o maior para o período em 21 anos.

Com isso, o indicador acumula alta de 9,68% nos últimos 12 meses, se aproximando de romper a barreira psicológica dos dois dígitos. Ou seja, o dragão voltando a aterrorizar com força.

Muitos brasileiros imigrantes na América possuem negócios ou parte da renda atrelada aos dois países. Nesses casos, será necessário ainda mais atenção e planejamento com a questão da inflação e do câmbio. Amenizar esse impacto virou questão urgente.

Para quem vive de repasses de recursos do Brasil para os EUA, esses efeitos potencializam ainda mais o impacto sobre as receitas, corroendo de forma implacável o poder de compra. Uma dolarização maior das receitas pode ajudar a amenizar parte desse impacto. 

Mas manter por um horizonte longo de tempo essa estratégia de transferência de receitas em reais do Brasil para uma vida baseada em dólar nos EUA é forma arriscada de flertar com o jogo voraz da economia, dobrando as apostas pelo risco.

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