Coronavirus confirma minha leitura das situações da China e Hong Kong (e a CIA também!!!)

Duas edições atrás, publiquei no JB&B o artigo “Entenda a China” no qual expressei minhas respostas a dois assuntos que preocuparam meus amigos incessantemente durante todo 2019. “Peng, que negócio é esse de barreiras tarifárias, de guerra Trump versus China?” e “Peng, o que está acontecendo em Hong Kong?”

Revendo; naquele artigo, escrito em 2019, eu defendi duas teses:

a) Sobre Hong Kong, disse que nada de maior iria acontecer. Os protestos, distúrbios, em Hong Kong, não seriam aquela fagulha que poria fogo em toda a pradaria. Sim, até o final do contrato assinado com Margaret Thatcher, 2047, no qual o conceito de “one country, two systems” emergiu, a China não irá intervir. Mas a evolução do conceito terá que evoluir. Principalmente no aspecto de liberdade de expressão. A ênfase do meu argumento foi colocada na dependência de Hong Kong à China, e na “free ride” ou carona que Hong Kong pegou de 1971 a 2001 com o desenvolvimento da China. Essas duas datas marcam, a primeira, a visita de Nixon e Kissinger à China, o começo do final do boicote à China; e a segunda, a entrada da China na OMC, Organização Mundial do Comércio, ou WTO, World Trade Organization. Revendo meu argumento, durante esse período de organização da China para o seu longo período de crescimento continuado, Hong Kong foi o porto de entrada de capital e investimento estrangeiro na China, beneficiando-se de sua posição geográfica. Sem criar nada, simplesmente recebeu, por herança. Após o ingresso na WTO, a importância de Hong Kong como porta de entrada de investimento estrangeiro diminuiu progressivamente. A bolsa de Hong Kong ainda é usada para a abertura de capital (IPO – Initial Public Offering) de algumas empresas chinesas. Hong Kong continua com turismo e com a base financeira, mas sua importância estratégica para a China é minúscula.

b) Sobre a guerra tarifária Trump versus China, eu manifestei a opinião que a China emergiria mais forte dos boicotes e banimentos impostos pelo governo Trump. Fui lá atrás, pulei dez mil anos de história, para chegar na história da China nos últimos 1500 anos, e descrevi os principais eventos que forjaram o pensamento do povo chinês e como culminaram com a China atual. Revisei a humiliação que os imperialismos ocidentais e japonês submeteram a China durante os 1800s e 1900s, e a resiliência que a China demonstrou para superar esse domínio imperialista. A China passou por boicotes e guerras militares e comerciais muito piores do que a que os EEUU fazem agora. Análises de economistas americanos, dentro do próprio governo, vinham medindo o efeito das barreiras tarifárias e concluindo após dois anos, que o maior prejudicado foi o povo americano. A China, no novo tratado assinado com Trump, pouco cedeu.Tratei também da questão da acusação de roubo de propriedade intelectual e do argumento de segurança nacional para justificar o banimento da Huawei. Mostrei que a liderança em tecnologia, nessas duas frentes, Inteligência Artificial e velocidade wifi (5G) reside na China.  Agora, em Janeiro de 2020, o Pentágono, a CIA, Central Intelligence Agency, veio à tona desafiando o argumento de Trump, que a segurança nacional estaria ameaçada, justificando o banimento da Huawei. A CIA disse que é justamente o contrário. O banimento da Huawei prejudica tanto as cadeias de suprimento das pequenas e médias empresas americanas de tecnologia afastando-as da China, que, esse atraso, essa defasagem, isso sim, ameaça a segurança nacional dos EEUU.

Mais recentemente, o surgimento do Covid-19 ou coronavirus e as ações dos vários países em resposta à essa pandemia, confirmam as minhas previsões e argumentos em ambos temas. Vejam: Hong Kong primeiro; os protestos pararam e a dependência de Hong Kong à China ficou super-evidente. Hong Kong não tem vida própria. Como pode querer independência?

Agora, sim, o Covid-19 foi gerado na China. Quem são os culpados? Todas as responsabilidades passam pelo Partido Comunista da China. A burocracia estatal, criação do PCC,  deixou o virus prosperar, por ignorância. Os burocratas relativizaram o primeiro apito, impondo silêncio como se esse primeiro apito fosse ou um alarme falso ou, pior, uma tentativa de subversão. Os médicos de Wuhan que sopraram o apito alertando para um novo virus, foram silenciados e obrigados a assinarem declarações de que espalharam boatos. O primeiro deles Li Wenliang, 34 anos, foi contagiado e morreu. Li está sendo venerado como mártir agora. Ele teria detectado o paciente zero. O hábito da população dessa província, de comer animais exóticos, o que é proibido por lei, é crime, mas a lei não é exercida, o hábito é tolerado, com o risco conhecido. É bastante sabido que morcegos transmitem novos viruses para animais terrestres e um desses animais, que parece um tatu, é raro, e em risco de extinção, tem a caça proibidas, mas sua carne é produzida em criadouros e era livremente comercializada em Wuhan. Não sabemos ao certo, pois falta informação, mas parece que esse animal foi o hospedeiro do primeiro Covid-19. Novamente, perguntamos como o PCC fez vistas grossas para esse hábito proibido. Lamentável. Isso possibilitou à endemia se espalhar mais rapidamente.

Contudo, após esse erro ser reconhecido, a China demonstrou ao mundo como reagir à um problema sério de saúde local e mundial. A China isolou rápida e totalmente uma inteira província. Mais de 50 milhões de habitantes em quarentena e sendo testados. Leis duras para ninguém desobedecer. Por exemplo, quem esteve em contato com alguém teste-positivo, e mentir, comete crime capital, passível de pena de morte. Então a endemia está sendo contida. A resposta da China, não no primeiro momento da endemia, mas no segundo momento, serve de modelo para o resto do mundo. Fica evidente que a China enfrenta de frente seus desafios e que irá emergir mais forte de qualquer conflito.

O virus virou pandemia. O mundo parou, tratando de evitar a contaminação de suas populações. As economias mundiais pararam. No centro dessa parada, a China. As cadeias de suprimento mundiais são tão dependentes de insumos chineses que o coronavirus parou a economia mundial, e os mundo todo irá pagar um preço muito maior do que a China paga nessa parada. O Banco Central americano – Federal Reserve Board – tenta estimular a economia com política monetária extrema, baixando a taxa de juros para ZERO%! É o grito de desespero, é a última bala no cinturão. Dinheiro de graça para quem quer investir. Isso foi no domingo,  13 de Março de 2020. Na segunda-feira, o Dow Jones caiu 10% nos primeiros 10 minutos de atividade. Na quarta-feira o DJI caiu abaixo do índice antes do Trump assumir. Ou seja, mesmo com essa injeção de grana, a economia americana não alça vôo. Por ora, basta notar que seus mercados (principalmente Europa) e seus suprimentos (principalmente Asia) estão paralisados e a economia americana não decola sòzinha. A redução de atividade econômica na China teve efeitos-cascata pelo mundo todo, e mostra onde se encontra o epicentro da economia mundial. O Covid-19 confirmou a minha leitura que a guerra comercial Trump versus China é mais uma questão de soberba americana do que qualquer outra coisa.

Tudo acima é verificação. Agora vai mais uma previsão. Puramente especulativa. Passada a crise, a China vai mostrar que tem massa própria, um mercado interno gigante e diversificado o necessário e suficiente para fazer o re-start de sua economia voando solo. Como um quebra-cabeças, eles podem colocar em jogo uma peça de cada vez, movimentando a cadeia produtiva numa ordem planejada, até que a velocidade cruzeiro-alvo seja alcançada. Esse não é um quebra-cabeças para o mercado resolver dentro de um prazo finito. É minha especulação. É isso.