Criar um filho é um ato político

Luana Cunha

A produtora cultural Luana Cunha está grávida de dois meses do primeiro filho. “Uma gravidez muito consciente e desejada, embora não tão bem planejada”, diz ela.

Luana lembra que o fato de engravidar em plena pandemia revela isso. Convenhamos, é um motivo e tanto a mais de preocupação. Outra preocupação é com a questão financeira. No momento em que estava deslanchando a carreira em Lisboa, onde mora há 5 anos, o setor cultural foi um dos que mais sofreram abalo.

“Nesse contexto e, sabendo que depois de ter a criança, a gente reduz a carga de trabalho, o ideal é ter uma reserva. Um cuidado que não tivemos. Minha geração já passava por uma instabilidade profissional e financeira porque está havendo uma mudança drástica no modelo de trabalho. Muita gente trabalhando por conta própria, sem direitos trabalhistas. Se pensar muito fica difícil engravidar, a gente desiste”, afirma sorrindo.

O que ameniza um pouco, ela ressalta, é que conta com o apoio do Estado: “a escola pública é ótima e no setor público de saúde você sabe que será bem atendida e a criança também. Não estaria cogitando ter filho agora se estivesse morando no Brasil”.

Luana também agradece por estar longe do Brasil nessa pandemia, país onde os casos explodiram. Mas, as regras duras de combate ao vírus em Portugal despertam o receio de ter que encarar a sala de parto sozinha.

“Essa pandemia soma angústias para uma mãe de primeira viagem. No auge da crise ninguém era autorizado a acompanhar as mães na hora do parto”, ela lembra.

Instinto materno

Luana não acredita que as mulheres nascem com esse instinto, ela defende que a “maternidade é muito romantizada”, o que torna mais penoso para quem desafia o script imposto:

“Nem todo mundo tem vontade real de ter filho, acaba tendo porquê a pressão do relógio biológico é grande e também pesa o fato da mulher que decide não ter filho ainda ser vista como um ser estranho. É danoso a pessoa ter um filho só porque seria o caminho natural e, depois, ter que abrir mão de coisas que não estava disposta; essa relação não vai ser positiva”.

Ela aponta outros indícios dessa idealização da maternidade:

“Estou lidando mal com os sintomas do início da gravidez – azia, enjôo, cansaço e mal estar físico. Isso deveria ser mais discutido e não minimizado o lado difícil do processo….isso passa, são só 3 meses!!! Tá bom, pode passar, mas é difícil. As mulheres têm direito a essas informações até para fazer escolhas. Quem quiser um filho, sem passar por isso, pode adotar ou ter uma barriga de aluguel, permitido em alguns países”.

“Emocionalmente – acrescenta – essa romantização da gravidez também causa danos. Ok, tem mulheres que ficam felizes na gravidez, ou porque sonharam muito com isso, planejaram, sempre quiseram ser mãe. A ditadura é para as outras que não estão nesse pique. Eu, por exemplo, estou contente, mas quando passo muito mal me aborreço; e, ainda, me culpo por não estar radiante; é como se a gente tivesse essa obrigação. É uma carga de expectativa tão grande que a gente não corresponde, se angustia”.

Luana diz que, como tudo na vida, a maternidade tem lados positivos e negativos.

“Entre outras coisas, a maternidade impacta na vida profissional da mulher, muitas vezes adiando sonhos, diminuindo recursos ou impondo um acúmulo de funções e tarefas”.

Para ela, todos os prós e contras devem ser colocados na balança para que a decisão de ter um filho seja muito consciente.

“Criar um filho é um ato político, assim como não ter filho também pode ser. Educar impõe a responsabilidade de formar uma pessoa ética, emocionalmente equilibrada, responsável socialmente, empática com o próximo, pessoas mais sensíveis. Ser mãe não é só bonito, é um ato de responsabilidade no mundo em que vivemos hoje” – ela conclui.

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