Da Caipora ao Halloween! Travessuras ou gostosuras?

Esta é a caipora, entidade fantástica da mitologia tupi, muito difundida na crença popular do Brasil, uma variante da lenda do curupira. É associada às matas e aos animais de caça, e se diz que vaga pela floresta aterrorizando as pessoas. Nessa obra do pintor brasileiro Lula Cardoso Ayres, o caipora é assustador.

CAIPORA. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra5827/caipora>. Acesso em: 17 de set. 2019. Verbete da Enciclopédia. Lula Cardoso Ayres, 1945, museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para quem vive na América, a cultura do susto e das brincadeiras de aterrorizar tem data e horário. O Halloween é uma festa de origem celta e chegou por aqui com os irlandeses no século XIX e tem relação com o fim do verão. Acontece na véspera do Dia de Todos os Santos, dia 31 de outubro que passou a ser conhecido como Dia das Bruxas.

No México é nessa mesma data que as festas começam para comemorar o Dia de los Muertos. A arte popular mexicana manteve o culto e as homenagens aos mortos presentes na cultura pré-colombiana. A festa dos mortos, em homenagem aos antepassados, é comemorada anualmente de 31 de outubro a 2 de novembro. Trata-se de uma grande festa popular realizada com alegria, música, comidas e bebidas, fogos de artifício, fantasias e adereços com imagens de caveira e até mesmo desfiles de carros alegóricos.

As máscaras de caveira são usadas nas ruas e servem de tema para bonecos, doces e alimentos típicos.

 

BONECOS DE CAVEIRA, tradicionais na festa dos mortos.

 

 

Mas foi nos Estados Unidos que surgiu a tradição moderna de “doces ou travessuras”. Há indícios disso em brincadeiras medievais que usavam repolhos, mas pregar peças tornou-se um hábito nesta época do ano entre os americanos a partir dos anos 1920. Hoje, o Halloween é o maior feriado não cristão dos Estados Unidos. Em 2010, superou tanto o Dia dos Namorados e a Páscoa como a data em que mais se vende chocolates.

Para quem viajar a Las Vegas, o Halloween estará presente até fevereiro do próximo ano na grande exposição sobre as obras de arte inéditas de Tim Burton no Neon Museum. O cineasta também é artista visual plástico e suas obras em estilo gótico estão na exposição O mundo de Tim Burton.

 

Cartaz divulgação O mundo de Tim Burton – Neon Museum Las Vegas

Ao longo dos anos, o Halloween foi “exportado” para outros países, entre eles o Brasil. Ao mesmo tempo, vem ganhando novas formas e dado a oportunidade para que adultos brinquem com seus medos e fantasias de uma forma socialmente aceitável. As lendas, os mitos que envolvem essas tradições remontam a séculos e é muito divertido poder comemorar ou participar de festas tão antigas que ainda fazem sucesso.

E por que esse sucesso? O místico é fascinante e atrai a curiosidade das pessoas. A dança, a arte das máscaras e fantasias, os sons são manifestações que evocam sentimentos de proteção e fazem com que lidemos com mais tranquilidade a imprevisibilidade da vida.

Nesta obra o artista brasileiro representou um dos personagens do Bumba meu Boi chamado Jaraguá, considerado um ser que representa o mundo sobrenatural.

JARAGUÁ, Lula Cardo Ayres, 1941, do Bumba-meu-boi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra12233/jaragua-do-bumba-meu-boi>. Acesso em: 17 de set. 2019. Verbete da Enciclopédia.

O Bumba-meu-Boi é uma festa com simbolismos culturais importantes: o Boi como figura fundamental para a produção pecuária e da agricultura da época colonial, a resistência dos africanos, a presença do xamanismo indígena e a presença portuguesa na referência cristã sobre a superação das dificuldades através da ressurreição do Boi. A festa surgiu nas áreas pecuárias do Brasil no século XVIII, na região do estado do Piauí, como crítica aos problemas sociais da época: contando e representando a história do Boi que ressuscita. Com o passar do tempo, a representação foi adquirindo influências portuguesas e indígenas nas músicas, nos ritmos, e assimilando novos personagens.

 

 

 

 

 

 

Tarsila do Amaral também se inspirou no mundo das lendas ao representar a Cuca, que é um mito inspirado nas bruxas europeias, as mesmas que inspiraram a festa do Halloween. Tarsila pintou o quadro “A Cuca” no começo de 1924 e o descreveu como “um bicho esquisito, no meio do mato, com um sapo, um tatu, e outro bicho inventado”.

 

A Cuca, Tarsila do Amaral, 1924

Da Caipora ao Halloween, da Cuca ao Dia de los Muertos mexicano, as comunidades comemoram o desconhecido, o real e o imaginário, com travessuras ou gostosuras. Todas são maneiras de lidarmos com o sobrenatural como válvula de escape de uma realidade que pode ser até mais assustadora. Happy Halloween for all!

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