Entenda a China

Este Voo Pátrio é o resumo de um livro de 150 páginas. Dada a aproximação da China com o Brasil, há uma grande demanda por entendimento da China. Para entender a China é preciso conhecer sua História. “Quem não conhece a História está condenado a repetí-la”, diz o velho ditado. A História forja o pensamento de um povo. No caso da China, história multi-milenar. Entretanto, o Ocidente criou miragens chinesas que modelaram seu entendimento, e que continuam a guiar sua visão, errando contìnuamente. Eu chamei isso de eurocentrismo em artigos passados no B&B.

Como preâmbulo, darei uma medida do dinamismo da China. A revista americana Fortune publica todo ano um ranking das 500 maiores empresas globais. Esse pódio foi criado há uns 70 anos. Em 2019, dessas 500, 121 eram americanas (126 em 2018), 119 chinesas (a China conta 129, pois ela inclui 10 empresas de Taiwan, que a China considera chinesas), e 8 brasileiras. A primeira idéia da velocidade de crescimento da China pode ser dada observando que em 2001 dessas 500, apenas 10 eram chinesas, 6 brasileiras. A brasileiras de 2019 são as estatais ou para-estatais: Petrobras, CVRD, BB, Itaú-Unibanco, Bradesco;, JBS. A CEF (a Caixa) é novata no ranking mas ingressou no pódio já no meio das 500 e o BB caiu quase 200 posições. Não precisa ser gênio para sacar. O Brasil não criou nada, apenas repartiu a bonança estatal entre dois de seus bancos. É o canetaço que conhecemos. Das 25 novas entrantes, 13 são chinesas. Ficamos parados no tempo, e a China passou por cima. Como? Continue lendo.

A China tem 4000 anos de cultura escrita, e foi formada a partir de guerras entre dinastias, emergindo vitoriosa a dinastia Qin, há 22 séculos, resultando na consolidação progressiva de territórios que formaram a China atual. Cerca de 55 minorias étnicas em 36 províncias, regiões autônomas e municipalidades compõem o mosaico da China. Com quase um bilhão e meio de habitantes, ocupam uma área comparável à dos Estados Unidos e à do Brasil. Não deve ser fácil governar essa gigantesca massa de gente e de território. Mas o governo da China não deixa dúvidas de que governa. Sim, às vezes até demais e eles sabem disso.

A História antiga da China mostra uma civilização avançada, com conhecimentos de navegação,  astronomia, medicina, cerâmica, tecelagem, escrita, agricultura muito superiores às da Europa de então. Documentos da época, como mapas geográficos globais, mapas celestes, mapas do corpo humano, técnicas de construção, invenções como o papel, os tecidos de seda, e trocas comerciais como a presença de milho na China (nativo do Peru e não auto-propagável; precisa ser plantado) e arroz na América do Sul, e muitas outras plantas agrícolas, ao longo dos séculos, evidenciam a troca comercial da China com a América centenas de anos antes de Colombo. Modernamente, testes de DNA, tanto mitocondrial (linha materna) como masculina, de povos indígenas certificadamente não-miscigenados com estrangeiros demonstraram clara ascendência chinesa, com genes que não são encontrados em nenhum outra parte do mundo. A opulência dos palácios imperiais e das obras gigantescas –A Grande Muralha da China é a sétima maravilha do mundo– serviam como demonstração do poder central e do gigantismo de uma nação única; então a maior nação do mundo por extensão; por milênios o centro de gravidade cultural e populacional.

Uma tempestade elétrica, em 1421, destruiu grande parte da nova capital, Peking, e o recém construído palácio imperial. Monges budistas interpretaram isso como um aviso dos céus. O imperador  estava sendo demasiado ousado e ambicioso. Fizeram a cabeça do imperador. Aí parou a inovação tecnológica da China, e começou o declínio do império e da nação, que levou aos séculos de exploração e humilhação pelos imperialismos terminando finalmente com a revolução republicana e a comunista.

Um artigo escrito por mim, entitulado “Quem descobriu o Brasil?” e publicado no Jornal Brasileiras & Brasileiros, trata desse assunto com maior profundidade. Eu lanço mão dessa referência de história não-eurocêntrica para documentar que durante as centenas de anos em que a China dominou os mares, e esteve por todo o mundo, nunca colonizou ou explorou os povos menos evoluídos que encontrou; sempre praticou um comércio bi-lateral: a filosofia de respeito da vida oriental.

Bem diferente da maneira como os imperialismos europeus (principalmente Inglaterra, Austria-Hungria, Alemanha, França), americanos e japonêses trataram a China. A partir de 1800, com ampla superioridade militar, principalmente com as armadas navais, os imperialistas invadiram e tomaram os portos principais de entrada e saída de mercadorias, tornando esses territórios colônias, humilhando os governos chineses monárquicos. Simultaneamente ao domínio dos portos, inundaram a China com ópio. O contrabando era livre. Na volta, os navios iam carregados de seda, chá e preciosidades dos palácios imperiais. O ópio vicia o usuário sem saída, e acaba com ele, com suas famílias, suas posses.

Figura 1. Cartoon francês mostrando os imperialistas fazendo a partilha da China, sob o olhar de um mandarim (os manda-chuvas chineses, que deixavam as unhas longas como símbolo de riqueza: não faziam trabalhos manuais)

A humilhação das monarquias vigentes era completa: o controle dos portos era total, inclusive com toda a renda do tráfego portuário indo para os imperialistas, e todos, britânicos, americanos, alemães, franceses, japoneses, austríacos-húngaros, italianos e russos tinham o seu quinhão de território  e portos. Mas quem mais lucrou com o comércio de ópio foram os britânicos.

Para completar, o imperialismo caminhou sempre pari passu (lado a lado) com os missionários cristãos. Os imperialistas forçaram o governo monárquico chinês a conceder livre-conduto aos missionários, que podiam adquirir terrenos para construção de igrejas, e chegaram a converter igrejas budistas em igrejas evangélicas. O mesmo processo de catequese empregado na América, para salvar os indígenas nativos. Lembram, esses selvagens amarelos não tinham alma, e precisavam ser salvos; foram dizimados culturalmente e fìsicamente. Isso foi novamente empregado na China. Leis forçadas estabeleceram cortes judiciais estrangeiras dentro da China, que concordara que os cidadãos estrangeiros que cometessem crimes não estariam sujeitos às leis chinesas, e seriam, ao invés, julgados pelas cortes judiciais estrangeiras estabelecidas na China.

Um dos resultados desse colonialismo, foi a cessão de Hong Kong para os britânicos, em 1897, em um contrato de comodato por 100 anos. Desde 1842 Hong Kong já era colônia britânica. O acordo de 1897 foi para garantir que a China não iria, por um século, tentar reaver a colônia. Aproximando-se a data da devolução, em 1997, os britânicos tentaram de todos os modos prolongar o comodato, pelo menos por mais 50 anos. Mas a China já estava firme. Daí nasceu o conceito de “um país, dois sistemas” para organizar a relação entre China e Hong Kong. Porém criminosos de 20 países se refugiam em Hong Kong como um paraíso penal. Por exemplo, um adolescente em Taiwan matou a namorada grávida, depois jogou seu corpo numa mala, e fugiu para Hong Kong. Como o crime não foi cometido em Hong Kong, e não existe acordo de extradição entre Taiwan e Hong Kong, esse criminoso não pode ser julgado como assassino. Foi condenado a apenas 29 meses de cadeia por crime de lavagem de dinheiro. A China tentou uma lei de extradição. A governadora de Hong Kong concordou. Esse foi o estopim dos protestos. A governadora posteriormente revogou sua aceitação do mandato de extradição, e pediu desculpas, mas a população de Hong Kong não aceitou, e estradulou nos protestos, clamando por eleições diretas, democracia e independência. Eu retorno a esse tema mais tarde, depois de alimentar a discussão com mais História da China.

Esses séculos de imperialismo e subserviência das monarquias levou o Ocidente a desenvolver uma miragem chinesa: a de um povo inferior, fraco, ignorante e servil. Com tanta humilhação era natural que o povo se rebelasse, primeiro, contra os estrangeiros, principalmente os missionários, e rebeliões consecutivas levaram inevitàvelmente ao fim da monarquia, com a república declarada em 1911, e a formação de um Partido Nacionalista. Mas o novo regime não conseguiu administrar a desigualdade brutal do país, e um Partido Comunista (Mao Zedong) foi formado (1922). Junto com o Partido Nacionalista (Chiang Kaichek), foram aliados para tentar governar o país. Mas os Estados Unidos, junto com seus missionários, construíram uma imagem de Chiang como um cristão convertido: Chiang era apresentado na mídia ocidental sempre segurando a bíblia numa foto mostrando uma cruz na parede ao fundo; o Ocidente pensou: esse é o nosso cara. Construiram mais uma miragem e acreditaram nela. E os EEUU armaram Chiang para que ele expulsasse os quadros do PCC do governo de coalizão (1929) e fizesse da China uma democracia cristã. Mas o Japão invadira a China e conquistava cada vez territórios maiores, a partir da Coréia, que teve como colônia japonesa de 1910 a 1945. Um fato histórico pouco conhecido foi que os japoneses escravizaram 30 mil jovens coreanas e as levaram ao Japão como escravas sexuais, povoando assim os seus bordéis. O imperador Hiroito, acreditavam os japoneses, era descendente direto de Deus, e portanto invencível. Muitas guerras contra o Japão se seguiram, com Chiang tentando eliminar os comunistas e expulsar os japoneses ao mesmo tempo. Nesse meio tempo, Hitler e Mussolini levavam seus adeptos à loucura, com o sonho de dominar o mundo e purificar suas raças. E eclodiu a segunda guerra mundial (1939-1945). Os Aliados: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China se uniram para derrotar os países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão. O resultado da guerra todos sabem, mas talvez não saibam que o Chiang era um oportunista que ficou com um pé em cima do muro vendo os comunistas e os japoneses lutarem, para ficar com os espólios da refrega. Mas os comunistas foram os que lutaram, venceram e expulsaram o Japão. O povo chinês viu que Mao era o líder, e que Chiang era um fantoche dos americanos. Em pouco tempo a Revolução Comunista venceu Chiang também e o empurrou fàcilmente para Formosa (Taiwan). Esse foi um dos erros do ocidente, que insistiu no erro; de 1945 a 1971 a China foi representada na ONU por Taiwan. Felizmente depois tivemos a diplomacia do ping-pong que levou passo a passo à abertura formal. Leiam “Um chinês e nós”, artigo publicado no JBB em 2012, e que previu tudo o que acontece hoje na China.

 

A China nunca teve cartões de crédito, ela deu um pulo por cima.

Assim como o cartão de crédito alavancou o comércio, inicialmente, agora passa a trancar.

 

Figura 2. Shenzhen, o modelo de cidade do futuro

No início do período Mao, a China acertou em algumas coisas, mas errou em muitas. Mao fez uma reforma agrária, distribuindo terras a 300 milhões de camponeses miseráveis. Mao era intocável, a ideologia do Livrinho Vermelho se espalhou por toda a China. Dentro da reforma agrária de Mao, cada comuna tinha uma cota de produção, e o excesso seria contribuido ao erário público central. Isso funcionou inicialmente, mas depois levou o país a fomes brutais, forçando alguns camponeses a mendigarem. Mao era um gênio militar, mas um governador dogmático. Uma comuna de nome XiaoGang secretamente redistribuiu a terra sob sua guarda entre seus membros, num pacto de 79 palavras. A quota ao Estado seria dada ao Estado e o excesso seria para cada família vender secretamente. Um pacto secreto foi assinado com sangue, prometendo que, em caso de prisão ou execução de algum membro da comuna, os demais iriam cuidar dos filhos do aprisionado ou morto até a idade de 18 anos. Todos os membros assinaram. O experimento deu certo, com colheitas-recorde, batendo todos os 30 anos anteriores, e a renda familiar teve um aumento que superou a soma de todos os 20 anos anteriores. Um membro do partido que supervisionava a comuna ameaçou de punição severa ao camponês-líder do movimento, dizendo que eles haviam desenterrado as raízes do socialismo, mas um outro membro do partido acima dele observou os resultados e permitiu o experimento continuar, desde que não se espalhasse. Mas de boca-em-boca a idéia se espalhou, a informação sobre as colheitas-recorde chegou aos ouvidos de Deng HsiaoPing e, três anos após a morte de Mao, Deng iniciou uma nova reforma agrária, ao reverso da reforma de Mao: redistribuiu toda a terra do Estado e permitiu aos agricultores a venda dos excedentes, a preços livres, sem controles. Isso acabou com a fome na China e iniciou a revolução econômica. Isso aconteceu antes da abertura formal da economia. Mas o mais espetacular dessa estória é que hoje, a comuna de XiaoGang é um local histórico, e o pacto de 79 palavras tem um lugar de honra para os visitantes verem e lerem, e seus assinantes são considerados heróis da pátria.  O maior acerto de Deng: a instalação de um centro tecnológico em Shenzhen, no continente, ao lado de Hong Kong. Uma tentativa de criar um Vale do Silício chinês. Shenzhen tinha então uns dez mil habitantes. Hoje, Shenzhen tem uns 12 milhões de habitantes, e tem milhares de empresas inovadoras, é um modelo de cidade do futuro para o mundo inteiro. Esses pedaços da história da China são pouco conhecidos no Ocidente. Vou tentar sintetizar meu entendimento da psicologia do Ocidente, para justificar porque escondem tudo isso de nós. Os poderosos continuam com as miragens: um povo ignorante, inferior, submisso, dogmático, e aquela do Chiang segurando a Bíblia e a cruz na parede ao fundo, ou seja, o sonho de que a China pode ainda se tornar uma democracia cristã.  O ocidente não aprendeu que na China os erros e os acertos são reconhecidos e que a prática do dogmatismo vai passo a passo desaparecendo. Não se sobrevive 5000 anos de história escrita sem pragmatismo. Essa postura da liderança só se soma à confiança do povo no seu governo. Podemos discordar das ideologias, mas da governabilidade ninguém pode duvidar. Tentarei agora dar uma visão da China atual. A base da China atual é tecnologia inovadora. Darei apenas 3 exemplos. Na área de tecnologia de informação aplicadas ao comércio e serviços, a base dessa liderança é WeChat, o Whatsapp chinês com o código QR.

Simplificadamente, é um código multi-dimensional, que identifica unicamente cada portador. Todo chinês tem um código QR que ele carrega no seu celular. Através do código QR, ele pode fazer suas compras e vender, tudo automatizado. Por exemplo, ele consulta um cardápio à distância, faz o pedido e paga; em seguida é informado da hora em que o pedido estará na sua casa ou apartamento. Tudo em sequência de segundos. Ao mesmo tempo que recebe e aceita o pedido, o restaurante alardeia para uma rede de moto-boys que terá uma ordem de comida de tal tamanho e peso, no horário tal, e que precisará ser entregue no endereço tal, e que pagará x yuan (moeda chinesa) por tal serviço. O motoboy pelo seu celular sabe o custo de gasolina e tempo e distância até o restaurante e aceita a tarefa. Naturalmente tem que ser rápido no gatilho, pois tem uma concorrência livre no ar. O WeChat faz a comunicação, e um aplicativo de comunicação distribui as informações. Pensem na economia de tempo e gasolina que você teria, indo ao restaurante, pegar comida. Em questão de uns 30 minutos, o comprador recebe a sua comida, ainda quentinha, na sua porta. Todas as transações são feitas pelo código QR e pagas por uma caixa virtual, do tipo Paypal, na China chamada de AliPay. A diferença entre o Paypal e o Alipay é que o AliPay tem mais de 900 milhões de usuários, e o Paypal tem menos de 200 milhões. Por quê os Estados Unidos não conseguem essa velocidade? Porque o Paypal se baseia nos cartões de crédito. A China nunca teve cartões de crédito, ela deu um pulo por cima. Assim como o cartão de crédito alavancou o comércio, inicialmente, agora passa a trancar. O segundo exemplo é o WeDoctor. O WeDoctor começou como um aplicativo de agendamento de consultas. Agora integra 3.200 hospitais, 290 mil médicos e 150 milhões de pacientes. O hospital é virtual. O médico visita o paciente pelo aplicativo. Tem sempre médico de plantão. Claro, às vezes o paciente tem que esperar uma chamada de retorno. A família aciona um aparelho, e os exames de rotina, como pressão, temperatura, batimentos cardíacos, são feitos à distância. O paciente é examinado por video. Foi identificado que 80% das receitas médicas correspondem a um número reduzido de remédios, que podem ser fornecidos por uma máquina automática, colocada em locais estratègicamente distribuidos. A receita é enviada pelo celular e a máquina dispensa o medicamento, tudo pelo QR. O terceiro exemplo é o Ping An, uma empresa de seguros. Vou me restringir aos automóveis. O segurado aciona o seu seguro por um app no seu smartphone, responde algumas perguntas e envia fotos do seu veículo danificado. A Ping An analisa as fotos e responde em três minutos. Faz a oferta do acerto e se o segurado topar, os fundos são transferidos imediatamente para o usuário. O algoritmo da Ping An foi desenvolvido a partir de uma base de dados de 25 milhões de peças usadas em 60 mil marcas e modelos de carros vendidos na China, e custos de peças e mão de obra de 140 mil oficinas e chapearias. O algoritmo também informa se o dano pode ser consertado ou se a peça precisa ser reposta. Além disso, o sistema integra toda a informação com sistemas de reconhecimento de voz, face e imagens, numa matriz complexa de sistemas anti-fraude.  Em 2018, 62% das reivindicações foram acertadas dessa maneira. Percebam como os aplicativos são projetados para a conveniência e proteção dos clientes.

Vale a pena examinar as cidades do futuro. O transporte é a chave, e os trens-bala e os veículos elétricos formam as plataformas principais. Os trens-bala somam 5 mil e 600 veículos, numa malha de 30 mil quilômetros, crescendo 10% ao ano, e já conectam 33 das 36 províncias, e todas as grandes cidades. A velocidade máxima é de 350 km/h. O desenvolvimento que vem atrás dessa ligação pode ser exemplificado por uma viagem Pequim-Shanghai. Essa viagem por trem-bala leva menos do que 5 (cinco) horas, e custa R$120, ou, ao câmbio atual, cerca de 30 dólares por passageiro. Essa viagem por avião levaria 2 (duas) horas, mais o check-in e check-out, as esperas, e levaria ao todo umas 4 (quatro) horas para o passageiro, e custaria dez vezes mais. Cada avião transporta de 5 a 10% do número de passageiros de um trem-bala, precisa mais tripulação e consome o mesmo combustível. Os carros e ônibus elétricos metropolitanos crescem numèricamente e irão ultrapassar os convencionais. O segredo disso são as malhas de carregamento de baterias. Energias contínuas ou intermitentes, geradas por qualquer fonte, solar, energia eólica, termoelétrica, outras, alimentam o banco de baterias e os usuários carregam em qualquer posto. A China é líder mundial em equipamentos de geração de energia solar. Em 2018 construiu o equvalente a 3 Itaipús, e segue em ritmo acelerado. A China é líder mundial em baterias para armazenar energia de todo tipo. Isso ocorre por que a China tem as maiores reservas mundiais de lítio do planeta, e controlam muitas jazidas fora da China. O lítio é elemento essencial das baterias modernas. Os usuários podem também vender a carga excedente para a rede, energia que tiverem armazenado, para depois comprar nova carga mais barata fora do horário de pico. A frota atual é de cerca de 15 mil ônibus elétricos, cada um com autonomia de 300 quilômetros. Uma carga completa custa R$120 ou cerca de 30 dólares. Os automóveis tem autonomia de 400 quilômetros e pagam cerca de R$20 ou 5 dólares por carga. Isso dá 5 centavos de real por quilômetro rodado. Os veículos são totalmente silenciosos.

 

Eu não vejo ninguém no Brasil fazendo autocrítica. Os pais não ensinam isso aos filhos.

A China demonstrou como reconhece erros e acertos.

A base financeira é o capital aberto. A Bolsa de Shangai, a NASDAQ chinesa, com as ações do grupo apelidado STAR (Science and Technology Innovation Board), abriu na semana de 22 de Julho de 2019. No seu primeiro dia, esse grupo que abriu seu capital valorizou na média 44%. Uma empresa, Anji Microelectronics, chegou a 400% de valorização no dia da abertura de seu capital. Essa bolsa foi um projeto de estimação de Xi JinPing, chefe atual do governo chinês.

Para completar, a troca de mercadorias tem base em um projeto em andamento, chamado de One Belt, One Road Initiative, que interliga os continentes Ásia, Europa e África como nunca antes. As rotas marítimas são integradas com as malhas ferroviárias, rodoviárias e pipelines (gasodutos ou oleodutos). A comunicação é a base do comércio bi-lateral, e a base da paz e da prosperidade. Com base na infraestrutura, e identificando as áreas nas quais desenvolve liderança mundial: energia solar, armazenamento de energia, microeletrônica, inteligência artificial, robótica, manufatura.

Volto às primeiras-páginas dos jornais: os distúrbios em Hong Kong e a guerra comercial entre Trump e a China. A seguir, meus prognósticos, com base no que eu mostrei acima.  Não vai acontecer nada em Hong Kong; se Hong Kong ficasse independente iria falir. Nenhum dos desenvolvimentos tecnológicos aconteceram em Hong Kong, e sua dependência da China só aumenta. O interessante é que por 155 anos Hong Kong foi dos britânicos, seu governador era nomeado por Londres e respondia a Londres, e durante todos aqueles anos, não protestou por democracia e independência. Quanto a Trump, a China tem massa para aguentar o bloqueio americano, e quem está sofrendo mais são os consumidores e os agricultores americanos. Essa é uma guerra ideológica, não comercial. A perspectiva do Trump é apenas de quatro anos: a sua reeleição. A perspectiva da China é milenar.

O que o Brasil pode aprender com a História da China? Todos sabemos que o Brasil tem riqueza mineral, potencial energético, agrícola, tudo para crescer. Mas permanece atolado no lamaçal político, educacional, administrativo, ideológico, social. Fica parado.

Não há nada que corroa tanto como a corrupção, e esta está dentro do poder. Temos uma cidade-capital onde os corruptores e os corruptos são vizinhos. A diferença é que os corruptos moram em apartamentos estatais e os corruptores em hotéis de luxo, vizinhos. Tratam dos assuntos de interesse mútuo – o toma-lá-dá-cá – nos restaurantes finos da região. Essa corrupção é independente de ideologia. Eu defendo a tese que isso tem a ver com o caráter dessa gente, vem de dentro da alma. Continuarão a cultivar suas bases eleitorais, sejam elas populistas de um lado ou de outro. E no processo, vão destruindo a sociedade. Sem desfazer esse poder, nada irá mudar. Os populistas apenas mudam de lado. O populismo é projeto de poder, não de nação. O populismo surge porque as sociedades não conseguem satisfazer as suas populações. A corrupção faz tudo apodrecer. A impunidade é de pleno acordo. A corrupção segura o país. E nos amarra com um nó górdio. Aquele que não pode ser desamarrado; quanto mais se tenta, mais apertado fica. Só cortando.

Vamos tentar entender como a China fez tanto progresso em apenas 40 anos. Em primeiro lugar, ficou pragmática, superou o dogmatismo de Mao, um gênio militar, mas em política governamental, um desastre. Para isso, é preciso fazer autocrítica. Eu não vejo ninguém no Brasil fazendo autocrítica. Os pais não ensinam isso aos filhos. A China demonstrou como reconhece erros e acertos. Em segundo lugar, ter uma visão de longo prazo, construtiva, como a paciência ensina. Isso se chama também de planejamento. Mas o potencial produtivo do povo deve ter o objetivo de erguer o coletivo do buraco. Em terceiro lugar, tentar criar, como a China fez, em áreas onde o Brasil pode ter vantagens comparativas. E entrar na Nova Rota da Seda, pois é na região da Ásia-Pacífico que se dará o crescimento. A Europa parou, e os Estados Unidos está se esgotando. Onde nos ligamos para crescermos?

Tudo isso acontece dentro de um contexto: a China vem construindo uma nação, com perspectiva multimilenar. Ela passou pelo ópio, pela humilhação dos imperialistas, pelas revoluções e guerras heróicas e em apenas 70 anos levantou 830 milhões da miséria absoluta, e tornou-se a maior fonte de capital do mundo. Aguardem o meu livro.

Figura 3. A Nova Rota da Seda: The Belt and Road Initiative (2008-4000)

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