Entendendo um outro mundo

Peter Ho Peng

Tao, visão do mundo através de um prisma oriental 

Os leitores do B&B estão cansados de saber que escrevo sobre a China. Este artigo joga uma nova luz no mapa, e prometo, não é repeteco. A demanda por informações sobre a China decorre das surpresas que a China apresenta a cada curva da estrada. As inovações  tecnológicas são tantas; porém novas tecnologias são fáceis de explicar e entender. São ciências lineares, basta conectar as linhas. O difícil de entender são as mudanças disruptivas num mercado, numa sociedade, ou para usar o termo da moda, mutações do ecosistema. É difícil entender evoluções que requerem mudanças mais ou menos radicais no modo de pensar, pois cultura é entranhada em cada um de nós. Como um cara mais ou menos bi-cultural, eu posso entender melhor os dois lados. O entendimento da China e das empresas chinesas pode ser melhor esclarecido se passarmos pelo tao, um prisma que filtra a luz que a China vê.

​Uma boa analogia encontrei no Página/12, um jornal argentino; intelectual como a nossa Piauí. Esse jornal argentino discorre sobre a filosofia taoísta, do yin e yang, o claro-escuro, luz-sombra, positivo-negativo, quente-frio, a unidade dos opostos, o equilíbrio, e usa o tao para explicar as surpresas com as quais os chineses nos presenteia. Página/12 inicia descrevendo o platonismo e o tao mostrando aí as diferenças entre duas visões do mundo: a grega (origem do pensamento Ocidental) e a chinesa (Oriental). Para Platão (~400 BC), o filósofo-pai de todos Ocidentais, antes de iniciar uma ação, é necessário traçar um plano. Hoje os herdeiros do platonismo fazem um plano de operações e rolam planilhas, muito Excel nas nossas vidas. Os generais ocidentais tecem um plano ou modelagem no qual calculam um número de mortos e feridos, nas tropas aliadas e nas inimigas, chegando a um ponto de inflexão a partir do qual o inimigo se rende incondicionalmente. Os homens-de-negócio tecem um plano ou modelagem que culmina numa curva de crescimento e num cálculo de taxa de retorno. Não é à toa que os generais ocidentais que sobem ao topo são os especialistas em logística.

​Já o clássico chinês “A Arte da Guerra”, por SunZi, também escrito Sun Tzu, ~500 BC, ignora essas questões: seu eixo é o “potencial da situação”. Este estrategista oriental não parte de uma modelagem, ou planejamento, mas do estudo de cada contexto: como a água, deve-se encontrar o declive natural. O bom general oriental faz a avaliação constante dos fatores favoráveis e desfavoráveis para ambos os lados: qualidade e quantidade das tropas, seu moral, competência dos generais, relação do rei com seu povo. Pesando os fatores, eles criam um quadro de guerra sem se prender a um plano que expirará rapidamente, no calor do combate. Ainda usando a metáfora da água, ela conforma-se ao objeto que coabita o seu espaço, assim como as artes marciais usam a força do adversário para derrubá-lo. “As tropas vitoriosas são aquelas que venceram antes de entrar no combate; os perdedores são aqueles que só buscam a vitória no momento do combate ”. Tudo acontece antes, na fase da paciência. O heroísmo não existe. Essa “falta de mérito” é o grande mérito.

​O exemplo de guerra de mais recente memória foi a Guerra do Vietnam. O Ocidente nunca entendeu como os americanos perderam a guerra do Vietnam, dada sua tremenda superioridade militar e o seu uso sem restrição moral de bombas de napalm, o desfoliante que destruía as florestas vietnamitas eliminando assim os supostos esconderijos dos vietcongs. Os EEUU se prepararam para a grande batalha, quando o inimigo jogaria a toalha, mas os vietcongs frustraram o confronto: eles gradualmente desmoralizaram os americanos com a guerra de guerrilhas, até que os americanos deram no pé. Fugiram, literalmente. Aqui se diz: a guerra do Vietnam foi ganha no asfalto da Quinta Avenida (5th Ave. – rua central de Nova Iorque ). Lembram da Jane Fonda? E vejam como está hoje o Vietnam, apenas 50 anos depois. De um país atrasado, e arrasado tanto pela guerra com os americanos como por séculos de colonização francesa (bárbaros, que deixaram terra arrasada por onde passaram, por exemplo, por toda a África), hoje, com 40% da população do Brasil, tem uma economia pujante, que passa voando em ritmo por cima da nossa, já equiparada em PIB per capita mas com muito melhor distribuição de renda e custo de vida muito menor, ou seja, o poder aquisitivo é superior. É o país que mais cresceu em 2020, enfrentando o Covid-19, mais do que a China, que foi a única economia entre os desenvolvidos que cresceu em 2020 (2,8% no Vietnam contra 2,3% da China).​

Como isso se repete em negócios e em mutações sociais? 

Permitam-me dar um exemplo que conhecemos de perto. O Uber iniciou e dominou por muito tempo os aplicativos de automóveis de aluguel. A China abriu as portas ao Uber, que tinha o plano de monopolizar esse mercado na China, como já havia feito em outros países. A leitura deles era que o Didi, o Uber chinês, que tipicamente usa frotas com padrão mais baixo, não iria resistir a um modelo superior. De repente o Didi deu um nó no Uber, o absorbeu e o Uber abandonou seus ativos na China. O Didi no Brasil é a 99, que já opera em mais de 300 cidades brasileiras. Com 31 milhões de motorista, o Didi vai passando o Uber, e um dos diferenciais foi modo de tratar os taxistas convencionais como parte do seu ecosistema, os cooptando, ao invés de confrontá-los, como o Uber fez. A precificação do Uber aos motoristas é brutal, 25% mais taxas. O Didi tem taxa variável, de 6 a 20%, com incentivos por produção, e não tem outros encargos. O Didi trabalha, sim, com frotas mais baratas, mas os usuários estão bem com isso, se o preço for melhor. 

A mais nova modificação de seu entorno no Brasil foi a parceria com o WhatsApp, que é usado por 120 milhões de brasileiros, e permite a conexão com o aplicativo diretamente pelo WhatsApp sem passar pelo aplicativo Didi. Abre caminho também para aqueles que não recebem telefonia móvel ou localizados onde o sinal é fraco, e usuários que possuem telefones mais simples e limitados. O Didi vai modificando o ecosistema em seu entorno.

​Aliás o Uber também faz, integrando-se aos restaurantes, aproveitando a pandemia, mas faz isso de modo a se comportar como o dono de milhares de restaurantes. Os restaurantes trabalham para o Uber, que cobra até 35% de comissão. A Uber é dona de uma frota de milhões de automóveis e de uma rede de milhões de restaurantes. Os motoristas do Uber e os cozinheiros desses restaurantes são reféns, e trabalham para o Uber. O Didi tem milhões de parceiros.

​Escrevendo sobre a China, na tentativa de ajudar o Brasil a deixar de ser o país do futuro, deitado eternamente em berço esplêndido, tive percalços pelo caminho. Um leitor me acusou publicamente, escrevendo para o B&B, de eu ser ponta-de-lança de Pequim. Eu respondi educadamente convidando-o a me visitar como amigo, e tomar um café que torro artesanalmente a partir de grãos crus. Enviei um CV e a biografia familiar, salientando o histórico de nobreza e educação superior, de empreendedorismo por 50 anos, sempre na iniciativa própria, desenvolvendo minhas próprias inovações tecnológicas ou vivendo apenas do meu conhecimento técnico-científico.

​Aí em seguida contestei o título que esse leitor me outorgara. Argumentei que depois que o João Saldanha reinventou o futebol, não existe mais ponta-de-lança. Disse: os últimos foram o Pelé e o Zico. Fora do Brasil, o DiStefano, Platini, Cruyff; e claro, El Pibe, o maior craque de todos os tempos, um que nunca será superado, pois contava com La Mano de Dios.

​Entenderam o tao? Um boxeador tentou me dar um soco frontal. Num golpe de tai-kai, desviei o golpe e em seguida o derrubei no chão e o imobilizei com uma chave de pescoço. Entenderam agora o que o Didi fez com o Uber? E o que o Ho Chi Minh fez com o Westmoreland? É isso.

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