Experiência Própria – Por Silvana Mandeli

Silvana Mandeli

Como tudo na vida, devemos nos preparar para a aposentadoria. O primeiro passo é não ter preconceito.

Tive um grande exemplo em casa, e isto me ajudou a incorporar a idéia de que aposentadoria chegaria para mim e seria merecida pelo tempo de trabalho. Jamais entendi que a aposentadoria seria um fim, e sim um recomeço de uma nova etapa na vida para aproveitar com intensidade.

Em vez de optar por uma aposentadoria compulsória (por tempo de serviço), escolhi me programar para ter estabilidade econômica. Sou privilegiada de ganhar dos meus pais uma previdência privada, que completa minha previdência nos Estados Unidos. A fórmula matemática estava programada para se cumprir aos 65 anos de idade; o que não aconteceu, causando-me o primeiro impacto.

Após me dedicar por 18 anos, quando fui demitida da empresa que trabalhei, tendo feito parte até do comitê de sugestões, o fator idade foi preponderante na demissão. Não houve, por parte do empregador, qualquer sensibilidade em respeitar os anos de tanta dedicação. No último dia de trabalho saí como, de um momento para o outro, tivesse me tornado uma inimiga da empresa. Infelizmente, tenho vários exemplos de que isto não só que aconteceu comigo. Minha irmã foi afastada do colégio que trabalhava às vésperas da aposentadoria e meu pai ficou na “geladeira” até chegar a aposentadoria.

Nesta fase da vida, jamais deveriamos ter sentimento de inutilidade. Parece que o mundo é planejado apenas para jovens  produtivos, sem pensar que a vida é feita de ciclos e todos devem ser respeitados. O aposentado deveria lembrar o quanto colaborou para a sociedade, e agora chegou a hora de descansar, dedicando-se ao que gosta de fazer, no seu tempo, sem obrigações. É exatamente o que eu faço.

Às vezes, a gente sente saudades da vida profissional. Ainda mais quando a minha era cheia de glamour, exercida com paixão, devido ao meu sobrenome ter sido uma referência na empresa. Mas, liberdade não tem preço. Atualemente, não tenho hora para dormir, bem como, não tenho hora para acordar.

Preparação

Demorei para aprender o sistema de aposentadoria nos EUA. O Medicare oferece 80% de cobertura, então, recomendo contratar uma empresa de seguro privadado para te ajudar nos outros 20%. Paz de espírito e não deixar ônus para os filhos é fundamental. Uma amiga teve um câncer e o tratamento ficou em torno de um milhão de dólares. Resolvi também deixar por escrito o que fazer com o meu corpo quando minha hora chegar. Não sou dramática, sou bastante pragmática. É a única verdade que temos. Não dá pra esconder, nem fazer de conta que nunca vai acontecer.

Há uns 30 anos, aprendi este pragmatismo com minha mãe. No último dia do ano, minha mãe me telefonou e disse:

“- Filha, tenho um presente pra ti. Comprei um terreno no cemitério”.  Parece piada de mau gosto, mas não é. Se você pensar bem, planeja a compra de casa própria, mas fica empurrando pra comprar o único lugar que é certo que você irá ocupar.

Preconceito

Percebi não ter mais “poder”, principalmente falando na vida profissional, quando perdi os patrocínios. Aí me senti, claramente, colocada na prateleira da inutilidade. Claro que existem algumas exceções das sementes plantadas ao longo da vida, que obviamente permanecerão vivas em qualquer situação. Quando eu era apresentada a alguém, as pessoas até gaguejavam, por eu pertencer a uma companhia importante para a sociedade. Agora, aposentada parece que não sirvo para mais nada. Na minha opinião, isto tem a ver com a religião, onde você só ganha os céus se padecer no paraíso.

Como exemplo, cito ler em contratos que a descrição do meu pai, após o seu nome, estado civil, consta a palavra “aposentado”. Porque se faz isto? Ele foi e sempre será, um engenheiro. O certo seria inscrever “engenheiro aposentado”, mas não somente  “aposentado”. Deu pra entender?

Hábitos

É verdade dizer que temos mais tempo durante a aposentadoria. A minha grande distração é dar continuidade à pesquisa de genealogia da minha família que comecei timidamente há cinquenta anos. Consegui mais de 200.000 nomes e me divirto descobrindo novas histórias. Também criei um blog para compartilhar experiências com outras pessoas, que no momento está  em stand by por conta do Coronavirus.

O que me faz feliz é poder apoiar filhos e netos. Como foram os meus pais, sempre sonhei em ser uma avó presente. Esta troca é muito positiva para todos, quando exercida com amor e respeito às individualidades. Também gosto de viajar sem medo de ser feliz, uma das minhas grandes paixões.

Reflexões

Quando você tem saúde, sem dúvida é um presente curtir a terceira idade. SAÚDE é meu mantra. Valorizo e sou grata.

É importante manter exames preventivos para ter paz de espírito. Não sou “fanática” por visitar o médico a todo momento. Não sofro de paranóias pela longevidade, como dietas mágicas a cirurgias plásticas. Minha filosofia é que a virtude está no meio e envelhecer é uma arte que possui sua beleza.

Sobre relacionamentos, “aposentei-me” nesta área. Com dois casamentos desfeitos acho que o ditado de que “antes Só do que mal acompanhado” é verdadeiro. Neste assunto, me furtarei de desfiar o meu pragmatismo, que poderá soar cruel.

Uma vez uma amiga disse que gostaria muito que eu fosse feliz, que tivesse alguém.

– Quem disse que não sou feliz?

Um dos maiores indicadores de felicidade é o autoconhecimento. O amor, tão necessário ao ser humano, não precisa, obrigatóriamente ser dedicado a um parceiro. Existem outras formas de amar que podem  preencher a nossa vida: filhos, netos e amigos.

Sinto que tenho muitas coisas ainda para aprender. É importante manter esta chama viva. Gosto de descobrir coisas novas e compartilhar conhecimento. Isto me faz muito feliz.

Procuro atividades que enlevem meu espírito, seja música, arte, relacionamento com amigos, um pouco de religião, mas tudo de uma forma “light”. É cansativo ter aquele desespero de “ter” que ir à igreja, de “ter” que ser um ser evoluido e pra isto ler todos os livros de auto-ajuda que existem.

Serenidade é a minha palavra da vez. Busque algo novo sem desespero. Não existe uma fórmula mágica. É muito importante dar significado à sua vida sempre, mormente, neste etapa.

SILVANA MANDELLI
Brasileira de nascimento, americana de coração, dois filhos, dois netos, um genro e uma nora.
Advogada por formação, marketeira de coração. No Brasil, trabalhei 20 anos nas empresas da família do pai dos meus filhos. Depois fundei minha própria agência de viagens. Nos Estados Unidos, trabalhei alguns meses em agência de viagem. Na TAM e, mais recentemente, LATAM foram 18 anos de atividade profissional. Tenho como hobbies a genealogia, viagens, fotografia e trabalhos manuais e adoro tecnologia e todos os gagets. Atualmente, moro em North Miami Beach na Flórida, mas mantenho laços com o Brasil.