Experiências marcantes nos Estados Unidos

Cada um de nós tem suas experiências marcantes. Umas muito boas, outras muito más. De minha parte, prefiro esquecer as más, e ficar com as boas, as ricas, as que dão forças para continuar.

Dentro dos Estados Unidos, como imigrante, me marcou a visita que fizemos, minha família e eu, ao Presidente James Earl Carter Jr., ou Jimmy Carter, nosso Presidente de 1977 a 1981. Fomos de carro, depois do Carter perder a re-eleição para o Ronald Reagan, para a cidade natal do Carter: Plains, Georgia. Nossas filhas eram pequenas crianças. Saímos num sábado, atravessamos a Flórida, passamos por centenas de quilômetros de plantações de amendoim, e nos hospedamos em algum hotel em Plains. No domingo fomos visitar o Carter. Explico mais abaixo como isso se deu.

Eu admirava o Carter, por ele ter saído de um meio extremamente rural, simples, ter se formado engenheiro numa universidade de ponta, a mesma universidade na qual fiz pós-graduação (Georgia Institute of Technology). Eu via no centro estudantil todos os dias a foto do Carter quanto ele era estudante. Depois, já profissional, vim a entender e a admirar ainda mais o Carter. Testemunhei suas iniciativas de desmantelar as ditaduras militares, incompetentes, fascistas, torturadores dos seus oposicionistas, na América do Sul, e a retirar passo a passo os EEUU que armaram essas jogadas militares e anti-democráticas, na minha acepção, páginas negras e vergonhosas na história dos EEUU e do mundo. Mas ele fez uma montanha de outras iniciativas que ajudaram o mundo a crescer.

Ele fez ainda mais após sair da presidência dos EEUU, chegando a ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 2002. Mas essa visita a Plains foi uma experiência de vida marcante, sem igual. Faz uns 35 anos. Estimaria a população de Plains em menos de 10 mil habitantes. No domingo seguinte, fomos à igreja na qual o Carter conduzia aos domingos um estudo bíblico, e, em seguida, recebia visitantes para fotos e apertos de mão. Assim estivemos, eu e minha família, lado a lado de um Presidente e de uma Primeira-Dama dos EEUU.

O que despertou essa lembrança foi uma visita que fizemos ontem, minha esposa e eu, ao Habitat for Humanity do Pinellas County, condado no qual moramos, na Flórida. O Jimmy Carter não fundou, mas ele deu um gás barbaro no crescimento de um projeto que foi chamado de Habitat for Humanity, HH, uma ONG NFP (organização não-governamental, not-for-profit, sem fins lucrativos), fundada em 1976 em Americus, Georgia. No HH voluntários sociais se reunem e angariam fundos e doações para adquirir terrenos, materiais de construção, para construir ou reformar moradias para vender em suas regiões. Eles vendem sem juros para os aquisidores, que demonstram essa necessidade, a longo prazo, e a construção é por voluntários, que doam seu trabalho e seu tempo, e seu conhecimento. Dos compradores é esperado uma contribuição com trabalho, um mínimo de cerca de 600 horas de trabalho, patrimônio-equivalente, construído com suor.

Esse projeto cresceu, em duas gerações ocupou os Estados Unidos inteiro e agora começou a se espalhar no mundo. Em alguns países onde existe alta inflação, o HH cobra uma taxa de juros para proteger o patrimônio da desvalorização pela inflação.

Entendo que existe aqui o crédito contra o imposto de renda, que otimiza a contribuição social, seja na doação de um terreno, moeda ou qualquer outra. O projeto otimiza esses fatores. Mas o mais importante, para nós, brasileiros, é observar o HH como exemplo de auto-governo, auto-ajuda, contribuição mútua ao bem-estar social comum, voluntarismo e ajuda ao próximo. Uma cidadania construindo uma nação.

Enquanto nós assistimos a uma dança contínua de corrupção, corruptos, corruptores, e aos mares de lama, lama aqui empregada no sentido metafórico e no sentido literal, que nos soterram a todos. Assistimos a olhos vistos, como se fosse uma partida num estádio de futebol, na qual não jogamos, ficamos na arquibancada. Isso não é conversinha de comunista, é conversa de um brasileiro que está aqui há mais tempo, e tenta identificar o que vale a pena aprender com nossos vizinhos do Norte. Reflitam. Obrigado por terem me acompanhado a essa visita a Plains, Georgia.

Nota do Editor:
Lama no sentido literal se refere à tragédia de Brumadinho, no qual uma represa de rejeitos de mineração desabou e a lama soterrou centenas de famílias. No sentido metafórico se usa a palavra lama para descrever propina, corrupção, tráfico de influência política ou administrativa.

About Jornal Brasileiras & Brasileiros