Fabio Lobo – Introdução

Fabio Lobo

As dores e delícias dos brasileiros na América

A vida na América traz muitos desafios e conquistas. No começo, dependendo das circunstâncias individuais, aqueles superam estas, o que faz com que muitos fiquem pelo caminho e voltem rápido ao Brasil. Ou entendam e abracem os Estados Unidos de uma vez. Nenhuma via será pavimentada por facilidades. Geografia pode até adequar caráter, ensinar novas coisas. Mas não faz malandro virar santo da noite pro dia. Nem muito menos corrompe o espírito dos que trazem do Brasil uma bagagem sólida de humanidade, ética e respeito ao próximo. Nos adultos, os EUA potencializam o que se é. Cedo ou tarde.

Independente do tempo que se planeja ficar, é preciso se estabelecer na América. Tem o documento (este cada vez mais difícil de obter), a carreira, a língua, a saudade. Para os que vieram meio “no susto” mas, do fundo do coração, sabem que têm pra onde voltar –apesar do aprofundamento de algumas crises no Brasil–, a dúvida sobre se vale MESMO a pena insistir e investir tanto no sonho americano tende a ganhar contornos de desassossego. Afinal, o Brasil continua sendo um grande país, com possibilidades em todas as áreas. Para quem viveu insegurança, dificuldades, traumas e dramas pessoais –ou mesmo não é bem-vindo por lá, por um motivo ou outro–, fechar a porta de vez pode ser menos difícil.

Fato é que entre os discursos “Brasil nunca mais” e “não vejo a hora de voltar”, há um catatau de cenários e histórias, quase sempre individuais e intransferíveis. Mesmo a disponibilidade de capital e um projeto definido não garantem imunidade aos sobressaltos da vida por aqui. Com ou sem dinheiro, com medo, ódio ou amor ao Brasil, a verdade é que a iniciativa de deixá-lo nunca será fácil. E virar americano MESMO, penetrando na essência deste país sem tentar sufocar as virtudes da boa brasilidade é, a qualquer tempo, muito importante para não passar ridículo. Nem aqui nem lá. Ligar pra família falando “broken Portuguese” depois de dois anos nos EUA é risível. Mas isso é pauta pra outra oportunidade.

Este mês conversamos com alguns brasileiros conhecidos –e, de uma maneira ou de outra, relevantes para a comunidade brasileira– sobre suas respectivas experiências como imigrantes. Já estabelecidos há bastante tempo nos EUA, esses compatriotas empresários, comunicadores, jornalistas e ativistas sociais falam um pouco sobre suas vivências, os motivos de terem deixado o Brasil, as lutas, as dificuldades e as barreiras enfrentadas antes, durante e depois de adotarem os Estados Unidos da América como casa.

As mensagens, mesmo que diversas e estritamente pessoais, em algum momento são comuns a todos nós e, mais ainda, mostram que na América não existe “free lunch”! A ninguém será possível a realização do sonho americano por mera osmose. Tem que trabalhar pra caramba. O sofrimento e as dúvidas virão, com maior ou menor intensidade, em muitos momentos da caminhada. Adaptação e reinvenção terão de fazer parte da vida de uma forma intensa e verdadeira. Fechar-se em nichos pode ajudar no começo, mas custará muito caro lá na frente. E, numa terra cujo sucesso e liderança vêm inegavelmente de um tecido social diverso, sonegar a própria chance de se apresentar como estrangeiro é de ímpar pequenez. Com vocês, os que ficaram.