Homenagem ao mestre dos filmes de terror: Mojica, o Zé do Caixão!

Texto: Alexandre Agabiti Fernandez
Mojica posa diante da Torre Eiffel, por acasião de sua visita a Paris, circa 1990.

 

Vi o Mojica pela primeira vez muito provavelmente em 1971. Era uma ensolarada manhã de sábado e eu estava no Dodge Dart do meu tio Eraldo com meu primo Luiz Carlos. O tio estacionou em uma rua do Brás e disse que iria entregar algo na oficina de um amigo, coisa de 5 minutos. Ficamos os dois no carro. Eu tinha uns 7 ou 8 anos; meu primo, 8 ou 9.

Não demorou muito aparece andando na calçada uma figura estranha, usando roupas pretas. O Luiz arregalou os olhos e berrou: “É o Zé do Caixão!!” Não sabia de quem se tratava. O esquisitão parou bem ao lado do carro e tocou a campainha de uma casa. Tinha unhas enormes e notei que apertou o botão com extremo cuidado para não machucar as garras… O tio Eraldo voltou, contamos tudo e ele nos disse que o Zé do Caixão fazia filmes de terror e tinha (ou tivera) um programa na TV. Ao ouvir a expressão “filmes de terror” fiquei ainda mais apavorado. Eu era retraído, tinha medo de escuro…

Inventou truques que já existiam, mas ele não sabia…

Anos depois, quando estava na faculdade, finalmente pude assistir a alguns filmes dele. Fiquei fascinado com a inventividade, com a liberdade de tom, com a mistura de referências, com a coragem. Atrevido como um franco-atirador. O único cineasta brasileiro autóctone, como alguém disse. Fazia cinema com uma brutal sinceridade. Nunca vi tanta espontaneidade. Inventou truques que já existiam, mas ele não sabia. Inventou um personagem carismático e fascinante, que dialoga com a cultura popular, com personagens seminais do gênero, com a chamada alta cultura. Tudo sem a menor cerimônia ou hierarquia. Coisa para poucos.

Muitos anos mais tarde, no começo da década de 90, estava morando em Paris e decidi fazer um doutorado sobre o cinema do Mojica. Ele tinha sido boicotado por boa parte da crítica e dos cineastas. A academia, é claro, o ignorava. Queria fazer um doutorado sobre um cineasta desprezado pela academia e não seria sobre o Cacá Diegues (creio que na época não havia nenhuma tese sobre ele). Tinha de ser alguém de que eu gostasse muito: só poderia ser sobre o Mojica.

Fiz um projeto de pesquisa, apresentei para um dos maiores especialistas franceses desse gênero, que eles chamam de “cinema fantástico”, o saudoso Jean-Louis Leutrat –erudito e desprovido de afetações intelectuais, coisa raríssima–, que estava com um livro sobre o gênero no prelo.

O Leutrat me disse que não conhecia o Mojica, mas topou ver dois filmes que emprestei a ele –umas cópias horrorosas em VHS legendadas em inglês que consegui com outro “mojicófilo”, o André Barcinski– e ler as 15 páginas do meu projeto de pesquisa.

Uma semana depois revi o Leutrat, que me recebeu com um sorriso sibilino e foi logo dizendo que topava me orientar. Quase caí para trás! Quando saiu o livro (“Vie des fantômes”), constatei que o Leutrat tinha citado o Mojica no prefácio. Não dava tempo de mais nada, o livro estava indo pra gráfica quando ele soube da existência do Mojica…

Consegui apoio do Cnpq (em 1994 ainda existiam bolsas de doutorado no exterior…) e comecei a pesquisa. Barcisnki me mandou mais fitas de VHS e mergulhei nas obras “de terror” do Mestre.

Vim ao Brasil e fui à casa do Mojica consultar seus famosos (e empoeirados) arquivos. Era a segunda vez que o via e fiz questão de falar daquela distante manhã de sábado. Ele me disse que na época tinha um estúdio em uma sinagoga abandonada no Brás e que naquele dia estaria certamente pelas redondezas.

Saí da casa dele com o nariz escorrendo e com quilos de fotocópias de matérias de jornal e outros documentos. Nos vimos muitas outras vezes. Ele sempre muito simpático e falante.

Quando a tese estava na reta final, ou quase, o Mojica aparece em Paris como convidado do Étrange Festival, cujo nome já diz tudo. Fui recebê-lo no aeroporto e o Mestre foi logo cobrando: “Alex, quando fica pronta essa tese?”.

Foi homenageado pelo festival e eu –que já tinha legendado em francês todos os filmes mojicais que seriam projetados– acabei subindo ao palco com ele para fazer tradução consecutiva das pragas que rogou e das perguntas feitas pela plateia (não sei o que era mais delirante, as pragas ou as perguntas daqueles malucos). A foto abaixo me esganando foi feita naquela noite, antes da performance no palco.

Mojjica brinca com o autor

De madrugada, depois do jantar em um restaurante perto do hotel, ele me pediu para solicitar ao garçom que colocasse em uma prosaica “quentinha” as batatas fritas que sobraram do steak tartare que devorou. Tentei explicar que não existiam “quentinhas” na França, mas ele insistiu e saiu carregando as batatas fritas já muxibentas embrulhadas em papel toalha.

Quando voltei ao Brasil, fui à casa dele entregar, emocionado, um exemplar da tese. Não pude deixar de escrever esta dedicatória, que não brilha pela originalidade, mas reflete o que sentia e sinto por ele: “Ao Mestre, com carinho”.

Acabo de saber que o Mestre se foi. Perdemos um grande criador. E eu perdi um amigo que me acompanhou –com seus filmes irreverentes– em uma parte do inesquecível período que vivi em Paris. Ao Mestre, todo o meu carinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

Alexandre Agabiti Fernandez é jornalista cultural desde 1988, passou pelas redações da Folha de S.Paulo, do Valor Econômico e da revista Cult, entre outras publicações. É graduado em Economia pela FEA-USP (1984), mestre em Cinema pela ECA-USP (1991) e doutor em Cinema pela Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle (2000). imprensaalexandre@gmail.com