Laine Furtado

Os desafios de morar nos Estados Unidos

Somos imigrantes brasileiros, queremos conquistar o nosso sonho americano e temos uma história marcada pela perseverança e capacidade de se reinventar

Morar nos Estados Unidos é uma decisão que reflete em mudança de paradgimas. Quando você escolhe viver num país que não é o seu, com certeza, você está tomando uma decisão que vai mudar a sua vida, e de sua família, radicalmente. Você jamais será a mesma pessoa porque a nossa vida é um somatório de experiências. Podemos ver isso quando retornamos ao nosso país, para férias ou quando regressamos depois de um período de tempo, e tudo mudou. Na verdade, nós mudamos. Você já passou por esta experiência?

Acredito que o maior desafio que o brasileiro enfrenta quando escolhe trocar o Brasil para viver nos Estados Unidos é conseguir mudar sua mente. O brasileiro pensa diferente do americano na forma de fazer negócios, por exemplo. Aqui não tem o famoso “jeitinho brasileiro” e para quem pensa em abrir um negócio nos EUA, o retorno é muito mais lento. Precisamos realmente de uma pesquisa de mercado, de cash flow e de fazer negócios no padrão americano de preço, qualidade do produto (ou serviço) e atendimento ao cliente.

No caso do imigrante que vem em busca de uma oportunidade de trabalho, a qualificação é fundamental. Precisamos ser melhores do que os americanos e quando somos bons de verdade, as oportunidades surgem e temos sucesso. A fluência da língua e o entendimento do “American way of life”  fundamentais para que possamos ter o “modus vivendi” americano. Um conselho que dou a todo imigrante que chega aos EUA hoje é que não perca a oportunidade de continuar crescendo no seu “field” de trabalho. Não podemos parar no tempo, especialmente num país como os Estados Unidos, onde temos todas as ferramenttas para sermos melhores.

Sobre a adaptação familiar, acredito que os brasileiros aprendem a conviver com a vida longe da família com o tempo. Os primeiros seis meses são os mais difíceis porque precisamos de tempo para nos adaptarmos a uma nova vida. Nas primeiras semanas tem o momento “euforia” onde tudo é novo, mas quando não podemos participar dos momentos especiais em família, sentimos que realmente tudo mudou.

Não dá para fazer uma visita na casa da mãe, comer o bolo de aniversário com o irmão, ir ao velório de um parente ou amigo. E precisamos ter estrutura psicologica para viver esta nova realidade. No entanto, hoje, com as redes socais, estamos mais próximos de nossos familiares e amigos e parece que a distância encurtou um pouco, não é verdade?

Gostaria de ressaltar que existe uma diferença muito grande na imigração que vemos hoje em relação há 20, 30 anos. Naquela época, os primeiros imigrantes brasileiros, desbravadores com certeza, tiveram uma experiência muito mais difícil do que os brasileiros que chegam hoje aos Estados Unidos. Nossa comunidade nos EUA era muito menor, na verdade não tinhamos uma comunidade, mas poucos brasileiros espalhados pelos Estados Unidos. E tudo era mais complicado.

Sou parte desta leva de brasileiros que chegaram nos anos 90 com garra para desbravar a terra realmente “desconhecida”. Meu objetivo num primeiro momento foi de ficar nos EUA por um ano e retornar ao Brasil. Diferente da maioria dos brasileiros que chegaram naqueles tempos, vim para a Flórida porque meu esposo, na época namorado, morava aqui e tinha duas opções: vir para os EUA ou para São Paulo. Acho que fiz a melhor escolha.(rsrsrs). Depois de morar um ano no Brasil, retornamos aos Estados Unidos para ficar. E realmente fincamos nossas estacas e vivemos o “American Way of Life”.

No entanto, muitos brasileiros, inclusive meu esposo nos seus primeiros 2 anos de América, vieram para explorar a terra, ganhar dinheiro e voltar ao Brasil. Quantas pessoas que chegaram no final dos anos 80 com o propósito de ficar aqui por um tempo e retornar ao Brasil estão aqui até hoje? Milhares. Mudaram suas prioridades e resolveram ficar, fazer dessa terra nossa nova pátria. E hoje temos dois amores: Brasil e Estados Unidos. Já não estamos aqui mais para explorar a terra, mas passamos a sermos como os pilgrims que chegaram nos EUA para fazer desse país sua nova casa.

Hoje, os brasileiros chegam para morar. E querem se inserir no contexto americano. São profissionais liberais e empresários, trabalhadores e estudantes, vindos de todos os cantos do Brasil, prontos para adotar os EUA como país. Chegam preparados para fincar estacas, investir e criar raízes. E isso é muito legal. No entanto, esses novos brasileiros muitas vezes querem implantar nos EUA seu “modus vivendi” brasileiro. E isso não dá certo porque quando estamos aqui precisamos viver de acordo com as regras do jogo americano. E isso é mais certo, não é verdade?

Diante desta análise, de quem já vive nesse país desde 1991, acho que os desafios existem para ser vencidos. Se chegamos há quase 30 anos (como é o meu caso) ou este ano, somos brasileiros vivendo na terra do Tio Sam. Somos desbravadores, prontos para conquistar o nosso sonho americano. E que possamos sonhar alto, porque nos Estados Unidos, a terra das oportunidades, o céu é o limite.

Laine Furtado é jornalista, formada pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora-MG, e editora da revista Linha Aberta, que este ano celebra 25 anos de circulação na Flórida. Laie Furtado foi presidente da ABI Inter (Associação Brasileira de Imprensa Internacional) por dois mandatos consecutivos. Apaixonada por moda e viagem, recentemente ela abriu um novo instagram @fashionandtravelreporter para compartilhar suas experiências de fashion and travel. laine@linhaaberta.com

About Jornal Brasileiras & Brasileiros