Mardi Gras é universal, samba é carnaval!

Nós, brasileiros que moramos no exterior, sempre que possível, buscamos referências de nossa Pátria. Mesmo distante ela está nas memórias, nas emoções e lembranças. Para a maioria, a arte e a cultura são formas de resgatar essas heranças e raízes. Sons, imagens, movimentos contextualizam nossas tradições.

Nossa Arte e cultura são a nossa Pátria. Ela está conosco no Hino Nacional tocado num estádio de futebol, ou no desfile de uma escola de samba. Aliás o samba é um dos links que usamos para relembrar nosso país. O ritmo do samba significa Brasil! E samba significa carnaval!

A palavra samba teve origem de semba, que significa umbigada, um movimento usado no batuque e em várias danças de origem africana. Ao praticar a umbigada em reuniões, os africanos tinham oportunidade de se comunicar e fortalecer suas raízes. O semba deu origem ao samba, e outras variações de cantos e danças como o samba de roda proclamado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

O leitor pode se perguntar por que o ritmo do samba é tão envolvente? A explicação está na construção do ritmo. Nós percebemos com facilidade o ritmo de uma música pela combinação das batidas mais fortes chamadas acentos e das mais fracas chamadas pulsos. Os músicos geralmente marcam o acento no início da melodia seguido pelos pulsos. No samba é diferente: o ritmo é sincopado, isto é, primeiro vem o pulso depois o acento. Isso causa um efeito sonoro de tensão e excitação e é por isso que, ao ouvirmos o samba, queremos sair dançando. Os ritmos sincopados africanos se espalharam pelo mundo, entre outras influências, se tornaram a origem do jazz e do samba. Nos Estados Unidos, essa matriz rítmica africana, chamada swing, deu origem ao blues e ao jazz, do qual derivou o rock e a música pop contemporânea. No Brasil, a sincope como base rítmica está no choro, no lundu, no batuque e é claro, no samba. E é no Carnaval que o samba se destaca. Apesar de ser uma referência cultural para os brasileiros, o carnaval não é uma festa brasileira. Aqui nos Estados Unidos, a tradição carnavalesca surgiu em Nova Orleans, com o Mardi Gras, palavras francesas que significam terça-feira gorda. O carnaval já existia na Antiguidade com animadíssimas festas para comemorar o fim do inverno e início e o renascer da primavera. Entre outras coisas, a diversão era inverter os papeis sociais: poderosos representavam os menos favorecidos, os palhaços se tornavam reis, homens se vestiam de mulheres, e assim por diante. Daí o uso de máscaras e adereços para compor os personagens. Assim o Carnaval cresceu e se expandiu e os símbolos antigos são usados até hoje, inspirando músicos e artistas. No desfile Mardi Gras deste ano da Universal Studios em Orlando, sob o tema Party Animals, há 12 carros alegóricos onde poderemos ver fantasias e máscaras que já eram usadas pela Commedia Dell’Arte renascentista, como os chapéus de três pontas com guizos nas pontas e as belas máscaras ainda comuns ao carnaval de Veneza.

Máscara veneziana, Veneza, 2014, imagem arquivo pessoal da autora.

No Brasil, a história do carnaval iniciou-se no período colonial com o entrudo, que era uma brincadeira de jogar água entre as pessoas nas ruas. Mas, a antiga tradição dos cortejos africanos, os Congos, aliada à música tocada nos saraus do Rio de Janeiro no início do século 20, fez nascer ranchos, ou grupos de músicos, que saíam pelas ruas tocando sambas e choros no bairro Estácio de Sá no Rio de Janeiro. Como havia uma escola de magistério naquele bairro, dizia-se “O Estácio fornece professores do samba!” e assim nasceu a escola de samba Deixa Falar, que desfilou pela primeira vez em 1928. O resto da história todos conhecem. O tempo passou e a tradição permanece, pois onde há brasileiros, há muito samba.

Aqui na Flórida, um grupo de brasileiros e de norte-americanos com samba no pé, criou a Escola de Samba Sambalá que além de desfilar pelas ruas de Boca Raton, fornece aulas de bateria e de dança. Muito ritmo e muito samba no sul da Flórida. No início de março, o Brasil será todo alegria, seja nos bailes dos clubes, seja nas ruas com os desfiles das escolas e os cortejos com trens elétricos, os frevos, maracatus, afoxés, e muito mais. É tempo de festa. É tempo de samba! É tempo de saudades!

Escola de Samba Sambalá, 2019, imagem cedida por David de Hilster, crédito de Ingrid Imroth. Visite o site: http://www.sambala.org/home/

About Nereide Santa Rosa

Nereide é pedagoga, arte-educadora e escritora especializada em Arte, História e Cultura. Escreve sobre arte-educação, biografias de artistas e exposições de artes. Atua como palestrante em instituições educacionais, organizações não-governamentais nos Estados Unidos e Brasil. Publicou cerca de oitenta livros, vencedora do Prêmio Jabuti em 2004 pela coleção “A Arte de Olhar”, e outros prêmios conferidos pela Fundação Nacional do Livro Infanto juvenil, no Brasil. Esta coluna é um espaço dedicado a comentar arte e divulgar artistas brasileiros(as) que trazem aos Estados Unidos sua contribuição para o cenário artístico mundial.