Meu amigo Josias, o mudinho

Meu amigo Josias era mudo. Não mudo de nascença; mas mudo profissional, ele descobriu que ficar quieto dava melhores resultados do que falar. Só respondia com acenos de cabeça, e escutava tudo muito bem escutado.

Aos poucos, o Josias adquiriu a reputação de mudinho. Era aluno brilhante, e os professores o poupavam de falar. Ele escrevia super-bem, e tirava nota dez em tudo. Era dispensado das aulas de canto, tocava qualquer instrumento, mas não usava a voz. Na educação física fazia tudo bem, especialmente nos esportes individuais, como natação e atletismo de pista. 

Pensam que os caras bons de lábia iam melhor com as gurias? As mocinhas não, eram frutas verdes, ainda longe da maturidade, mas as mais velhas, frutas maduras, prontas para a colheita, viam na discrição do Josias o fator determinante. Ele não falava, iria guardar silêncio com toda certeza. A mesa do Josias sempre tinha bilhetinhos, e convites para um encontro no cinema tal e tal, uma matinéezinha que não faz mal a ninguém. Bastava um código, sessão das 3, cine tal, letra da fila e número da cadeira, pronto, tava marcado o encontro. O que se passava no escurinho do fundo da sala de projeção ninguém ficava sabendo, garantia total.

E não eram apenas as frutinhas maduras. Tínhamos uma professora, de Biologia, a dona Lia, muito fogosa, e sempre tesuda, deixava toda a gurizada com vontade. Mas só quem não demonstrava era o Josias. De aluno nota dez, passou a rodar em Biologia. Preocupados, seus pais contrataram aulas particulares para o Josias com a Dona Lia, à tarde, dois dias por semana. Ninguém sabia disso, o Josias só desapareceu do clube certos dias por semana, ficou quieto todo o tempo. Os pais dele pagavam por duas aulas particulares semanais, mas o Josias continuava tirando nota baixa em Biologia, então a Dona Lia acertou com os pais dele dobrar as aulas pelo mesmo preço, até que suas notas subissem. 

É difícil entender como um aluno nota dez em tudo fracassava tanto numa única matéria. Eu era o melhor amigo do Josias, nos conhecíamos desde os quatro anos de idade, e jogávamos bola, íamos à praia, nadávamos na piscina, enfim, tínhamos muito em comum. Eu desconfiava, e o Josias sabia que eu sabia, e que não fazia bochicho. 

Os tempos passaram, e nos fomos cada um para nossos lados. Eu me casei, tive filhos, me divorciei, enfim, tudo normal. Arranjei uma namorada, crente. Eu me deixei levar, sei lá, ela me fez eu me converter, e eu não vi nada de mal nisso, afinal, ela ficou feliz em me salvar. Eu me tornei um crente, do tipo duvidoso, mas no papel me converti. Vivo tranquilo, normal. Pensava estar sonhando, quando um dia vi o Josias na igreja. Nos abraçamos, pois a amizade infantil é sempre a melhor. A gente se separa, andamos por caminhos diferentes, mas nunca julgamos um ao outro, temos com certeza diferenças de opinião, ideologia, mas nunca isso interfere em nossa amizade. Pois assim, de vez em quando, eu via o Josias na igreja. Solteiro, ele não casou. 

Mas tinha sempre alguma mulher madura, casada, viúva ou solteira, sentada perto dele. Eu ficava só observando. Será que o Josias manteve todo esse tempo a reputação de mudinho? As mulheres tem uma tática para chegar perto do Josias. Primeiro, sentam perto, numa fileira apertada, e ficam roçando as coxas. Depois tiram as bíblias das caixinhas, deixando só uma para os dois. Aí, elas obrigam o Josias a ler junto as passagens daquele dia. Aí ficam mais perto, e podem roçar mais partes, braços, etcetera. Sempre com a certeza que o Josias era mudo e um guarda-segredos de nascença.

Bem, elas acham que seduzem o Josias, pensam que são as feras, mas eu que conheço bem o cara, sei bem como ele atua. Aos poucos ele fez a fila na paróquia. Eu pisquei o olho para ele, eu sabia quem era a fera. Ah, meu velho amigo, o verdadeiro, o legítimo come-quieto. Que me deixava as rebarbas. Obrigado, Josias.

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