NETFLIX: UMA NOVA ERA PARA FILMES?

Priscila Santa Rosa

Netflix amplia sua coleção de filmes originais

Após investir muito e com sucesso em séries originais, a Netflix está novamente expandindo. Dessa vez, a empresa de streaming está apostando em longa metragens. Com o objetivo de tornar 50% de seu conteúdo completamente original, a Netflix investiu por volta de 8 bilhões de dólares em 2018 e agora estamos vendo o resultado de tanto investimento.

Apesar de já ter lançado filmes na sua plataforma em anos anteriores, tais como comédias e filmes de ação com Adam Sandler e Will Smith (“The Ridiculous 6” e “Bright” respectivamente), a resistência tanto do público como dos críticos colocou em dúvida se a gigante do streaming era capaz de desafiar o cinema tradicional.

Porém, parece que as coisas estão mudando. A popularidade dos filmes para jovens adultos e adolescentes produzidos pela Netflix é inegável. Entre os filmes mais vistos de 2018 estão “To All The Boys I’ve Loved” e “The Kissing Both”, ambos dominaram as redes sociais após seus lançamentos. A autora do livro que serviu de base para “To All The Boys I’ve Loved” alcançou quase 6 milhões de seguidores no Instagram e não demorou muito para que a sequência do filme fosse anunciada. No entanto, o sucesso com esse público, já propenso a consumir mídia digital, não era indicativo que a Netflix estava finalmente se aproximando da popularidade do cinema tradicional.

Tudo isso mudou com o lançamento de “Bird Box” (2018) em dezembro. Nele, Sandra Bullock faz o papel de Malorie, uma mulher grávida tentando sobreviver num mundo dominado por criaturas que enlouquecem qualquer um que as veem. Lembrando os apocaliptios “A Quiet Place” (2017) e “The Happening” (2008), “Bird Box” não é exatamente uma revelação do cinema. Porém a presença da sempre magnética Bullock, com uma certa ajuda do ator consagrado John Malkovich, tornam uma premissa fraca em um thriller que prende atenções até seu final.

Esses elementos unidos ao fácil acesso ao filme sem dúvida contribuíram para uma explosão em popularidade. Segundo a Netflix, em sua primeira semana “Bird Box” foi assistido por 45 milhões de pessoas. Caso tivesse sido lançado em cinemas tradicionais, esse número representaria a mesma bilheteria de “Black Panther” (2018) durante sua primeira semana (aproximadamente 415 milhões de dólares).

Se “Bird Box” é um sinal que filmes da Netflix estão quebrando barreiras de popularidade, “Roma” (2018) do diretor Alfonso Cuarón (Gravity e Children of Men) reflete um avanço contra outro obstáculo que a empresa enfrenta: o reconhecimento da indústria cinematográfica.

Se passando na década de 70 na Cidade do México, o filme conta a história semiautobiográfica de uma empregada doméstica trabalhando para uma família de classe média. “Roma” estrelou primeiro no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde recebeu o Leão de Ouro. Depois, foi colocado em cartaz em um número limitado de cinemas por um breve período – muitas redes tradicionais se recusaram à exibir o filme devido aos termos de distribuição da Netflix, considerado competição direta das salas de cinema. Nada disso afetou o brilho do filme, que acumulou vários prêmios, incluindo o mais recente Globo de Ouro para melhor filme internacional e melhor diretor. Apesar da resistência à marca Netflix, “Roma” foi aceito pela crítica mundial.

Diferentemente de outros grandes lançamentos, “Bird Box” e “Roma” podem ser assistidos a qualquer momento e em qualquer tela. Sem necessidade de pagar ingresso, pipoca, enfrentar salas cheias, trânsito, ou programar boa parte do seu final de semana ao redor do horário da sessão. Não é preciso esperar um ano para ter acesso ao DVD ou à versão digital. Ao contrário de filmes de outras produtoras, estes filmes estarão para sempre na coleção da Netflix.

Porém, é difícil dizer se streaming eventualmente irá substituir a ida ao cinema. É uma discussão que divide muita gente e há méritos para ambos lados. Assistir um filme numa tela gigantesca, numa sala escura e cercado por outras pessoas é uma experiência única.

Resta ver se a Netflix conseguirá manter esse sucesso e associar de uma vez por todas sua marca com produções cinematográficas de qualidade.

Alguns filmes já disponíveis no serviço:

“The Ballad of Buster Scruggs” – Dos renomados irmãos Coen (no “Country for Old Men”), esse filme contém seis contos do Velho Oeste americano. Modernizando e aperfeiçoando elementos clássicos da era de ouro dos “faroestes,” essa coleção tem de tudo um pouco: ação, tragédia, romance, e humor.

“Polar” – Baseado em uma série de quadrinhos, “Polar” é um thriller estrelando Mads Mikkelsen (da série Hannibal e do filme “Doctor Strange”) no papel de um assassino que, ao se aposentar, vira alvo da organização para qual trabalhava.

“IO” – Estrelando Margaret Qualley (“Once Upon a Time in Hollywood”) e Anthony Mackie (“8 Mile” e “Captain America: The Winter Soldier”), “IO” é mais um filme para os fãs de ficção cientifica. Após um evento que praticamente destruiu a Terra, dois sobreviventes lutam para chegar até a última nave espacial, numa tentativa desesperada de fugir do planeta.