Notícias Sub-reportadas em 2020 – Aqui e lá

Peter Ho Peng

Na tradição de rever o que foi notícia sub-reportada em 2020 pela grande mídia, do Brasil e dos EEUU;  escrevi isto. Num ano dominado por Covid-19; pelo linchamento público de George Floyd; e pela campanha eleitoral, com o perdedor alegando fraude; um negacionismo paralelo ao negacionismo do aquecimento global e da própria pandemia; o que não faltaram foram temas sub-reportados. 

Foi ampla a cobertura da passagem do deputado John Lewis, herói do movimento negro pelo direito de voto, da Marcha de Selma, Alabama, cruzando a ponte Edmund Pettus; Pettus, um Grand Dragon da Ku Klux Klan, os encapuçados que linchavam negros e incendiavam suas casas. E ampla a re-celebração do movimento pelo direito de voto dos negros (tão recente quanto 1965). 

Sim, 400 anos de escravidão, apartheid e servidão. Pena que a profundidade do racismo na sociedade não tenha sido bem descrita. Não se falou que, do início dos anos 60, até o seu assassinato, em 1968, Martin Luther King Jr. ainda era o mais odiado negro americano, por sua tática de não-violência, de tomar cassetada passivamente, não revidar, o que deixava os racistas loucos, doidos por um pretexto para matar. 

Não se falou suficientemente o quanto esse ódio racista continua vivo. Essa ponte ainda tem hoje o mesmo nome; os odientos membros da Klan semi-enterrados na lama da história americana, porém seus herdeiros vivos. Sim, ruas e avenidas com o nome MLK existem em todas as grandes cidades americanas, mas réplicas do rifle que foi usado para assassinar MLK ainda adornam os topos das lareiras americanas e são vendidas on-line. 

Outra mentira. O rifle que James Earl Ray supostamente usara para assassinar MLK em Memphis, Tennessee, levou 30 anos para ser examinado por simples testes de balística banais; e os resultados não batiam com os exames das balas recuperadas do corpo de MLK. Por isso os 70 milhões de votos do Trump surpreenderam o país; a mídia não conseguiu fazer soar quão racista é este país. 

O racismo nunca foi encarado, como, por exemplo, fez Nelson Mandela com sua Truth and Reconciliation Commission. Agora, levemente, começa a emergir pelas bordas a conversa de reparações, surge o conceito de Transitional Justice, que reconhece que reformas sociais desse tipo precisam ser amplas, não podem ser graduais, visto que reformas graduais vão sempre deixando gente prá trás, gerações perdidas para sempre.

Nem tudo que foi sub-reportado é coisa ruim. A Zero Hora, meu jornal brasileiro, havia fechado 2019 com uma bela reportagem sobre a adoção de uma adolescente de 17 anos, Jocasta, que foi abandonada pela mãe, aos 9 anos, junto com 4 irmãos menores, e nunca conheceu o pai. Antes de ser abandonada, criava os irmãos, fazendo de tudo dentro de casa. Depois, na casa-lar de Porto Alegre, seguiu criando os irmãos mais moços. Um por um, viu os irmãos sendo adotados. Quanto mais tempo passa, menor a chance dela mesmo ser adotada, visto que pais adotivos preferem recém nascidos ou crianças bem pequenas. Jocasta se atrasou na escola, mas chegou à nona série. Aí apareceram dois brasileiros, um casal do Rio de Janeiro, que residem e trabalham em Portugal, sem filhos, e com pouco mais de 40 anos de idade, que acharam a Jocasta e foi amor à primeira-vista. Jocasta estava por um fio de esperança de algum dia ter pais, e nem acreditou quando recebeu uma nova certidão de nascimento. Uma história de amor, que mereceria ser mais contada e recontada. Brasileiros do exterior, mas vale.

Vejamos 2020 na nossa terra, relembremos um pouco. Elegemos um presidente que prometeu desinchar o estado, combater a corrupção, abrir as caixas pretas do BNDES. Seus artífices seriam os ministros da Justiça e o da Economia; Moro e Guedes; os dois ministérios-chave. Do ponto de vista da base eleitoral, ele tinha os evangélicos, dando tudo para revogar as leis do aborto, e os militares. Algum paralelo com o Trump? (“I will drain the swamp”). 

Vejamos alguns pontos principais que aconteceram desde então. Antes volto atrás para explicar o que é caixa-preta: esse termo foi usado para denunciar operações dos governos anteriores. Seguindo as leis existentes de sigilo bancário, o presidente do BNDES, Joaquim Levy, negou abrir as contas. Demitido Levy, um novo presidente foi nomeado, e, super-empolgado, no estilo “I will drain the swamp” deu entrevistas sensacionalistas, e trabalhou um ano inteiro obsecado por abrir a tal de caixa-preta. Contratou do exterior uma super-auditoria, por 84 milhões, procurou, fuçou, procurou e no final nada encontrou. Eu jamais diria que o erário público nunca foi lesado. Mas ladrão brasileiro profissional não passa recibo, não deixa provas, é muito competente. Então o assunto saiu das manchetes e esse sujeito sumiu do mapa, seguindo, contudo,  mamando do BNDES, quietinho como um gato.

Com o Moro foi um pouco diferente. Baluarte do movimento anti-corrupção, depois de apenas um ano, pediu demissão, por não conseguir resistir a pressões para mudanças na Polícia Federal, que investigavam os esquemas dos filhos do presidente, principalmente as rachadinhas com funcionários-fantasmas nomeados e comissionados-laranja. E a cada dia apareciam mais sujeiras: um tal de Queiroz, policial desligado, mas ainda ligado aos milicianos suspeitos do assassinato de Marielle Franco, vereadora carioca que denunciava os crimes praticados pelos milicianos, foi também identificado como o portador dos fundos de rachadinhas, dinheiro em espécie, que iam às famílias do presidente, e desapareceu; depois foi preso num condomínio no interior de SP, propriedade de um dos advogados ligados à família do presidente, sendo que o tal ilustre doutor falou que nem sabia quem estava morando lá, e fica tudo por isso mesmo. Afinal, é Brasil.

E as reformas? Os pilares do programa do Guedes eram a Reforma da Previdência e a Reforma Administrativa. Digo primeiro que a Previdência, falida, tinha mesmo que buscar uma saída. Mas a solução aplicada foi triste. Já na reforma administrativa, dois secretários especiais, o Salim Mattar, da Privatização, e o Paulo Uebel, da Desburocratização, após 2 anos de se gabar, pediram demissão. Usando a linguagem do Guedes, debandaram. Tudo continua tão burocrático como sempre. Quanto à privatização, ou desestatização, cito apenas 2 casos ilustrativos. Após 2 anos de blá-blá-blá, o Salim levantou uns 100 bilhões de nossos pobres reais  de um patrimônio estatal de 1,5 trilhões, designados para venda à iniciativa privada (desinchar o Estado, conforme o Guedes). Sim dois anos para vender 6,5% dos ativos à venda. Duas privatizações /desestatizações emblemáticas:

1) O  Complexo Eólico dos Campos Neutrais (CECN), localizado no meu estado, o RS, nos municípios de Santa Vitória do Palmar e do Chuí, vendido pela Eletrobrás por 500 milhões (meio bi) à empresa Omega Energia, empresa sem nenhum pedigree em energia, feita apenas para arrematar as barganhas que o governo iria oferecer. O CECN foi construido com investimentos de 3,1 bi. Com uma capacidade instalada de 583 MW, o CECN gerou em 2017 um lucro líquido de 345 milhões. Para efeito de comparação essa potência é pouco menos do que 5% de Itaipú. Anda em curso uma ação contestando a ilegalidade e inconstitucionalidade do leilão. Tomara que alguém tenha vergonha na cara, mas eu duvido, truco, quero, invido, real-invido e vale-quatro.

2) A TAG – Transportadora Associada de Gás, uma malha de gasodutos no Norte e Nordeste do Brasil, da Petrobrás, foi arrematada (90% das ações) por 33,5 bi, que recebeu de lambuja o perdão de uma dívida de 3,9bi com o BNDES. O lucro annual da TAG foi de 7 bi. Só a Petrobras paga 4,9 bi anualmente pelo aluguel dos ramais da TAG, dos quais 50% é lucro, que voltavam à Petrobras. Agora a Petrobras continua a pagar os 4,9 bi anuais de aluguel, mas apenas 10% do lucro voltariam a seus cofres. Aliás, enquanto eu escrevia, a Petrobras já vendeu os 10% remanescentes do seu partrimônio na TAG, a um preço que dará o retorno ao comprador em UM (01) ano. Isso mesmo. Negócio da China.

Há menos de um ano, Salim falou, numa palestra, todo empolgado, do seu orgulho em trabalhar para o minitrump. Confiram se quiserem.  HYPERLINK “https://youtu.be/hKl6x1zc2R4″https://youtu.be/hKl6x1zc2R4 ou busquem no google: “O país que recebemos” por Salim Mattar.

Essas foram apenas duas das jóias da coroa que o Mattar orgulhosamente “desestatizou” – desinchou o Estado, privatizou, a troco de banana, entregou o nosso patrimônio, sim, nosso. Por que esse esforço capitaneado pelo Guedes (o “Posto Ipiranga”) dá com os burros n’água? 

Pensem um pouco: há 25 anos, tivemos o pacote econômico mais feliz da nossa história como país. O Plano Real. De uma hiperinflação de 4 dígitos, baixamos a 1 dígito, que se manteve por mais de duas décadas. Quem fez isso? Foram o Presidente Itamar Franco, com o FHC, Ministro da Fazenda, e a equipe de economistas, Pérsio Arida, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Frisch; coordenados por Clóvis Carvalho, um advogado. Carvalho, FHC e Itamar, não eram economistas, mas ótimos políticos, costuradores. Tem algum destes economistas de competência mundial, na equipe do Guedes? NÃO!!! Por que não? Porque a ideologia do Bolsonaro e do Guedes e do Mattar é divisionista, incapaz de unir e montar uma equipe forte com base na diversidade. Para eles, é nós, de um lado e os outros, doutro. Tudo comunista, independentemente das diferenças entre eles. Sim, FHC e Lula são indiferenciáveis para o Mattar. Mentira minha? Então vejam o link fornecido e pensem no contexto, à luz da recente debandada.

Aí a pandemia escancarou a incompetência do trump-minhoca. O Brasl se transformou no epicentro do Covid-19, batendo recordes. Com o trump-minion boicotando a saúde da população, sabotando a vacina do Butantã, simplesmente por ser de origem chinesa, e com o filho zero-um emendando o chute contra a China do alto do Itamaraty. 

O resultado é sempre o dólar saltando alto e desregulando as cadeias produtivas, a cada vez que esses dois abrem a boca. Enquanto tudo isso acontece, silêncio do Guru Olavo. Por que ele não digita, como sempre ofende os outros, tuitando “homúnculo gayzista precheca chamuscada de fiofó libertino” para o Mattar? Simples: por que é tudo cria dele, o astrólogo terraplanista. 

Mas o filho zero dois, comparsa (e óbvio chefe) do Queiróz, nunca deixa passar em branco, tuitando sempre: “TEM QUE DENUNCIAR!!!” Triste que tenha que ser este jornalista amador que sequer mora no Brasil que precisa escrever isso.

Para completar, aí apareceu o tio que estuprou a sobrinha de dez anos de idade, no Espírito Santo (reparem o nome do estado), e a menina engravidou. No hospital que operaram a menina e retiraram o feto ainda não formado, os médicos foram fisicamente atacados por turbas de evangelistas, naturalmente, base eleitoral do trump-minhoca. A criança de dez anos foi assim estuprada duas vezes, uma vez pelo tio e de novo pelos evangelistas. Isso escreveu um jornalista brasileiro, e eu assino em baixo. É isso.

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