O Legado do Trumpismo

– O Castelo de Cartas populista que se desmorona aqui

Trump elegeu-se em 2016 com cinco argumentos centrais: 

1) É o candidato anti-establishment; o que vai terminar com o modo habitual de governar, vai revolucionar o governo, “drain the swamp” – acabar com a lama; 

2) É um empresário, excepcionalmente inteligente, afinal, escrevera um livro The Art of the Deal, ou seja, sabe negociar, e irá renegociar todos os tratados que “entregaram” os EEUU aos sangue-sugas internacionais, e, assim, fazer os EEUU novamente a ponta do mundo; e 

3) Irá construir um muro, que o México irá pagar, para acabar com os imigrantes ilegais, esses “criminosos, contrabandistas de drogas, que ameaçam a América; e 

4) sempre com a massa evangélica seguindo ao aceno do fim da legalização do aborto; e, finalmente, 

5) abolir o Affordable Care Act, ou Obamacare,  por ser “inconstitucional”. Isso tudo somado faria o Make America Great Again, ou MAGA, o chavão que Trump usou para se eleger, reunindo e sintetizando esses pontos principais.

Passados quatro anos, qual é o balanço dessa plataforma eleitoral e desse governo? Começando pelo item final, a pandemia mostrou a fragilidade do sistema de saúde americano. Tem muitas melhorias a fazer, aprendendo, por exemplo com o SUS de Cingapura, mas fica óbvio que o Obamacare não pode ser simplesmente abolido como querem os republicanos. A lei do aborto: não é preciso ser gênio para ver a demagogia dessa bandeira. 

A lei do aborto não vai sair da constituição, o que necessitaria uma nova emenda constitucional, que desemende a primeira; e nenhum candidato que usa essa bandeira iria executar isso, senão, qual seria sua nova plataforma? 

Aí, o Muro. Não construiu nem um décimo, o México não pagou nada, e o que construiu o fez com orçamentos alocados pelo Congresso para outros fins, ou seja, fez uso ilegal dessas verbas. Agora mesmo, seu estrategista principal, Steve Bannon, foi preso por ter montado um esquema para levantar fundos de doações particulares através de uma ONG que ele montou para esse fim, para construir o muro; centenas de milhares de doadores republicanos foram fraudados, com o Bannon e seus cúmplices acusados de retirar milhões desse fundo para usufruto próprio. Trump tenta se distanciar de Bannon, mas é claro, não tem como. E deixou o legado de milhares de crianças separadas dos pais na fronteira, muitas com menos de 5 anos de idade, alguns bebês de um ano, e das quais mais de 600 não se sabe mais onde andam os pais depois da separação. 

No item 2, Trump brigou com todo o mundo; saindo unilateralmente do acordo nuclear com o Irã, um acordo do qual participavam todos os países da União Européia; negacionista-mór, saiu do Acordo de Paris, no qual os países ricos do mundo se comprometeram a proteger o meio ambiente, perseguindo metas de redução de poluição principalmente de emissão dos gases que contribuem a mudanças climáticas na Terra, desfez todo o trabalho anterior de reduzir emissões; saiu unilateralmente da NAFTA, depois refez o acordo, mas no meio-tempo danificou sem mais reparos a indústria siderúrgica e metalúrgica (Pittsburgh e Detroit) do país; brigou com o G-7, querendo que a Rússia re-ingressasse ao G-8, depois de sua expulsão pela anexação da Criméia; comprou uma briga com a China, iniciando com barreiras tarifárias cujos efeitos todos os especialistas americanos disseram foram prejuízos aos consumidores e fazendeiros americanos; saiu da Organização Mundial da Saúde (WHO), justamente no meio da pandemia, acusando-a de haver falhado no controle do Covid-19, o que, naturalmente, não é função da WHO. No item 1, seu governo teve números recordes, literalmente dúzias, de pedidos de demissão no primeiro e segundo escalões, e julgamentos com condenação e prisão de sete pessoas do primeiro escalão por uma multitude de atos ilegais. Nunca houve uma administração tão fraturada, incompetente e corrupta. No meio de todas as reviravoltas de pessoal, dizia “I only hire the best.” 

Para culminar, veio a pandemia, que todos os países avançados europeus e asiáticos contiveram e levaram seus países a aberturas controladas e positivas. A resposta do Trump à pandemia foi a prova-dosnove de sua incompetência; primeiro, negando o perigo – “é uma gripezinha apenas, isso vai sumir, de repente”; depois, promovendo tratamentos não comprovados, como a Cloroquina, a injeção de desinfetante (Lysol, Clorox), enfiar luz ultra-violeta por alguma abertura do corpo, e sempre desobedecendo os especialistas de seu próprio governo, quanto ao uso obrigatório de máscaras, sempre praticando medicina sem M.D., e quando tudo desabou, com quase 250 mil mortos por Covid no momento (Novembro 2020), projetado para meio-milhão de mortos até o meio de 2021; com 4% da população mundial, o país mais rico do mundo conta por 25% das mortes por Covid. Restou colocar a China como bode expiatório (o Kung Flu). 

Não é apenas culpa do Trump. São muito fatores: os EEUU são uma federação de estados, que agiram de modo desconjuntado, é um país de dimensões continentais, com muitos viajantes internos e externos, e uma ideologia da liberdade individual, ninguém gosta de receber ordem do que fazer. 

Falência moral

Três pessoas de dentro da família, sua irmã (Maryanne), sua sobrinha (Mary) e seu ex-advogado particular (Michael Cohen) nos contam a falência moral desse sujeito, todas as suas falcatruas, e extremos, inclusive pagando prostitutas para urinar na cama onde Barack Obama havia dormido, durante uma visita à Rússia, e, em Las Vegas contratava mulheres para tomar um chuveiro dourado. 

Trump por quatro anos resistiu entregar suas declarações de imposto de renda, primeiro alegando que estavam sendo auditadas, mas esse argumento caiu, porque nunca há uma auditoria tão longa, e, agora, em Setembro, a Corte Suprema declarou que Trump não está acima da lei e precisa entregar suas contas a um tribunal de Nova Iorque. Aí foi revelado que Trump pagou $750 de imposto de renda nos últimos anos. E que está com $400 milhões de dívidas. E que é especialista em falências fraudulentas, tendo executado seis ou sete, deixando literalmente pintores pendurados no pincel, e que vai responder por mais de 4 mil processos assim que deixar de ser presidente, e por 40 acusações de abuso sexual incluindo estupro. Como presidente, esses casos não poderiam ir adiante, mas agora, não há como segurar.

Em cima da pandemia, o linchamento de George Floyd em plena rua de Minneapolis, com os protestos em mais de duzentas cidades americanas e muitas cidades mundiais, contra o racismo americano, escancarou mais ainda essa ferida aberta, o vício de origem que iniciou-se em 1619, com a chegada do primeiro navio-negreiro à América do Norte (o primeiro navio-negreiro chegou ao Brasil em 1532), e que nunca foi totalmente confrontado. A desigualdade social, a concentração de riqueza, o desemprego, a pandemia, tudo que expõe a disparidade racial, tudo aumentou com a pandemia, e estabilizou a recessão. A retomada da economia será muito mais lenta do que nos países com menor disparidade social e racial, com mais estrutura, menos laissez-faire. 23 milhões de desempregados, e centenas de pequenas empresas fechadas sem perspectiva de reabertura. Muito mais sofrimento do lado dos pretos e dos já pobres. 

Com tudo isso, e ainda com as mesmas bandeiras, o Trump ainda obteve 70 milhões de votos. Perdeu para 76 milhões do Biden, e uma lavagem no colégio eleitoral: 306 vs. 232.  Segundo Trump, perdeu porque foi fraudado nas urnas. Então o legado de Trump é claro: uma sociedade dividida, ficou óbvio o racismo, o elitismo, o egoísmo e a ignorância de parte dessa sociedade; o isolamento dos EEUU no mundo; o cultivo da anti-ciência, o cultivo da mentira. O custo disso tudo está sendo estimado em perto de 70% de PIB anual, o que será amortizado em uma geração. Uma baita hipoteca. Mas nós, americanos, venceremos, porque felizmente somos ainda muitos e somos competentes, temos um sistema educacional de ponta e uma juventude pronta para a briga. Vocês viram os jovens dançando nas ruas de todas as grandes cidades do país, comemorando a vitória de Biden? Milhões de jovens. Essa é a força do país.

O populismo mostrou o seu vazio; era um castelo de cartas, e o castelo de cartas desmoronou. Mas 70 milhões de americanos não viram, e mostraram sua face racista. A credibilidade dos EEUU foi pro brejo. Quem quer fazer negócios com americanos agora?

E o que podemos aprender, brasileiros, com isso? Aprenda quem quiser. As lições estão à vista. Como os americanos, muitos não enxergam o fracasso do populismo. Ignore this at your own risk.That’s it.

About Jornal Brasileiras & Brasileiros