O mural de Burle Marx na Flórida

O ato de cultivar flores e organizá-las em espaços determinados, de acordo com suas formas e cores, sempre foi sinônimo de beleza e encantamento. Por muito tempo, na Europa, os jardins cercaram castelos, como forma de demonstrar o poder de seus proprietários. Os jardins clássicos de Versailles, por exemplo, impactam o visitante pelo tamanho, mas não tanto pela diversidade de plantas, invariavelmente separadas por setores.

Uma composição paisagística é Arte por ser uma representação associada à cultura local e a vegetação que ali predomina. Um jardim oriental, por exemplo, é construído para incentivar a meditação e espiritualidade, inspirado em lendas, costumes e crenças que permeiam suas alamedas. Ali cada elemento tem significado. A água de um lago representa o ciclo da vida e as carpas, sempre presentes, complementam com a boa sorte, prosperidade e persistência. A ponte arqueada é a união do mortal ao sagrado e, tal como todos os elementos de um jardim oriental, deve refletir na água, formando uma imagem de superfície circular representada no Taiko, o tambor japonês. Pedras, lanternas, pinheiros e cerejeiras, cada elemento tem seu significado. Quem visita o Japão no Epcot, pode apreciar esses elementos.

No final do século 19, na Europa, surgiu o movimento artístico Impressionista tendo a arte japonesa como inspiração, entre outras influências. Até hoje podemos visitar os jardins da casa de Claude Monet, em Giverny, na França que está preservado tal como ele construiu e morou, até sua morte em 1926. Nota-se a influência oriental, com destaque para a famosa Ponte Japonesa, e suas ninfeias, paisagem que inspirou diversas de suas pinturas, hoje admiradas por apreciadores do mundo todo em museus e galerias.

Casa de Claude Monet, Lago das ninfeias, Giverny, França. Imagem da autora.

As lendas também estão presentes nos jardins inspirados nas florestas celtas, onde dizem existir os gnomos, personagens que incentivam o respeito ao ambiente, inspiram curiosidade e nos aproximam da Natureza. Ao visitar o jardim botânico Leu Gardens de 50 acres, localizado em downtown Orlando, caminhe entre jardins com roseiras, observe as palmeiras, plantas típicas dos pântanos floridianos, e procure nos troncos dos imensos carvalhos, pequenos cenários construídos para as crianças imaginarem os gnomos que lá vivem. Vale a diversão.

Cenário no Jardim Botânico Harry P. Leu Gardens, Orlando. Imagem da autora.

Não muito distante de Orlando, na cidade de Naples, um jardim botânico abriga uma ótima surpresa para nós, brasileiros: um mural de Burle Marx!

Ele é considerado um dos arquitetos paisagistas mais influentes do século XX, premiado pela American Institute of Architects (AIA), em 1965. Ao se inspirar em mais de 50 espécies de plantas nativas encontradas nas paisagens exuberantes do Brasil, ele revolucionou o design de jardins fazendo composições abstracionistas, além de ser o responsável das famosas curvas sinusosas das calçadas de Copacabana.

Por tudo isso, e muito mais, seu aluno, Raymond Jungles, um arquiteto paisagista norte-americano, instalou um mural de Burle Marx no Jardim Botânico de Naples, cidade localizada na West Coast da Flórida. O parque tem uma área de 170 acres, fundado em 1993, e desde então, incorporou jardins com temas de diferentes partes do mundo.

Mural Jardim Brasileiro Kapnick, Naples Botanic Garden. Imagem de divulgaçao.

O mural de Burle Marx foi instalado em novembro de 2009 no ponto alto de uma praça no espaço Jardim Brasileiro Kapnick, numa espécie de palco, acima de uma cascata, podendo ser visto de vários pontos do parque. O mural é composto de um mosaico de 1325 m2 de cerâmicas vitrificadas coloridas com o tamanho total de 8×17 fts, sendo o único do artista nos Estados Unidos. O mural ficou guardado por quinze anos até Jungles se decidir pelo Naples Botanic Garden. Foi montado em três dias de trabalho, e o resultado é maravilhoso. O mosaico colorido com diferentes espessuras brilha sob a luz do sol, refletindo luzes e cores na cascata e no lago, que abriga as nenúfares gigantes da Amazônia, ou para nós, brasileiros, nossa Vitória-Regia, flor de eterna inspiração para as lendas indígenas no Brasil.

Burle Marx trouxe as cores e o encantamento das florestas de nosso país para ocupar este significativo pedaço de terra da América do Norte, bem perto dos brasileiros que vivem na Flórida. Vale a pena conferir.

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