O Oriente Médio (novamente) em chamas

Peter Ho Peng

Parte III – A guinada mundial

O que há então de novo? O mundo repudiou Israel nesse conflito. A Europa quase inteira (menos a Hungria, não me perguntem por quê) irá reconstruir a Palestina. Não classificaram publicamente as ações de Israel de Terrorismo Estatal, mas para o bom entendedor meia palavra basta. Mesmo dentro de Israel os oponentes do primeiro-ministro Netanhyahu se unem para fazer um governo de coalizão, que substitua o atual. Essa coalizão vai de A a Z, compreende todo o espectro político do país. A maldade das “margaridas” israelenses foi tão óbvia que os judeus mundiais não querem se identificar com essas flores. A Anti Defamation League, organização judia anti-zionista, tradicionalmente liberal e associada à esquerda americana, está quieta.

Quem fez Israel foram os americanos, após a Segunda Guerra, e, com a simpatia mundial, após o holocausto, foram com tudo em cima dos palestinos, apropriando-se de suas terras paulatinamente. Houve retaguarda militar de outros países, mas não se enganem: foram os americanos que fizeram Israel. O século XX foi o século da pax americana; tudo que se fazia no mundo era feito com um só corretor: os EEUU. 

O dinheiro da ajuda humanitária mundial vai reconstruir a Palestina, mas deveria ser totalmente dinheiro americano; quem fez a cacáca foram eles, mas o resto do mundo vai ter que limpar. Porém os americanos estão dando uma guinada na sua política. Tradicionalmente o Partido Democrata sempre foi o maior apoiador de Israel. Agora a política atual de Israel não encontra eco no Partido Democrata. A condenação a Israel veio principalmente dos congressistas democratas. Enquanto Trump e Netanyahu, o chefe de Israel, eram gêmeos univitelinos, agora mesmo o Partido Republicano está em silêncio. Leitores do B&B, vós notastes esse silêncio? 

Biden prometeu ajudar na reconstrução de Gaza. Com um pequeno caveat, mais para inglês ver: diz que vai canalizar a ajuda americana não para Hamas, que os EEUU chamam de organização terrorista, mas vai canalizar dinheiro para a Autoridade Palestina, um governo que não funciona, corrupto e disfuncional. E sempre afirmando seu apoio incondicional a Israel. Biden tem que ajudar na reconstrução de Gaza. Claro, foram eles que fizeram o estrago. Como posso fazer essa afirmação? 

Aqui tem um dito popular: Follow the money = Siga o rastro do dinheiro. Como o seu dinheiro, ou o nosso dinheiro, os impostos que pagamos, como isso contribui para a guerra no Oriente Médio? Simples. Grande parte dos fundos americanos que vão para Israel, são arrecadados via um canal que o IRS (Internal Revenue Service) chama de 501(c)(3). São ONGs, filantropias que vivem de doações, os doadores recebem abatimento do imposto de renda. Judeus americanos, ricos ou não, e americanos simpatizantes com as vítimas do holocausto, contribuem para Israel. Existem mais de 20 tipos de ONGs 501(c). Mas essa filantropia é solicitada para pesquisa e desenvolvimento, educação, defesa, coisas desse tipo; não poderia ser destinada para ataque, destruição e ocupação. É evidente que os helicópteros Apache e suas bombas são usados singularmente para ataque e destruição. Nenhum contribuinte para Israel quer se identificar com o que Israel fez agora. Israel sempre fez isso, mas agora passou da linha. Aqui o IRS não dá moleza. Vejam o próprio Trump enroscado com o IRS. Essa torneirinha pode e deve ser fechada. Mas será fácil mudar de roupa.

Um probleminha: Como exército ocupacionista, Israel controla tudo que entra e que sai da Palestina. Essa ajuda humanitária, para reconstruir hospitais, escolas, usinas de tratamento de água e esgoto, moradias, vai ter que pagar imposto de entrada, os custos do exército ocupacionista para abrir,  vistoriar, inventariar, conferir, reconferir, fechar e lacrar cada contêiner. Fazer todo esse trabalhão deve custar os olhos da cara; digamos, 30% do valor dos conteúdos de cada contêiner. A nossa famosa rachadinha, vestindo outras roupas, ternos e chapéus pretos. 

Mostrei nos artigos anteriores como os EEUU, esse mesmo país, ele próprio, foi construído da mesma maneira que Israel vai sendo, destruindo a Palestina, no caso atual; e os americanos destruindo os nativos, no caso anterior. Os americanos dão aulas de moral ao resto do mundo, mas para quem conhece História, os EEUU não possuem autoridade moral para dar lições de moral ao mundo. O pobre Biden, com todos os seus pepinos que tem por aqui, ainda tem que descascar abacaxi no Oriente Médio (abacaxi plantado e cultivado por eles mesmos). O Biden fala ainda no “two-state solution”, a criação de um estado palestino, que possa conviver pacificamente com um estado vizinho. Eu não creio na sinceridade disso; afinal, fala-se nisso desde que Israel existe. Enquanto isso, o seu plano de tentar usar investimento estatal feito com dívida orçamentária para infraestrutura vai sendo diluído pelos republicanos. Mas o investimento estatal em tecnologia para combater a China vai em frente.

Já que falei na China, notaram que eles ficam quietos nesse questão do Oriente Médio? É da cultura chinesa não botar azeitona no pastel dos vizinhos. E os americanos, vivem fazendo isso, botando azeitona no pastel dos outros, enquanto os seus pastéis estão furando e afundando no óleo, já preto de tanto uso. 

Minhas previsões: 

– Os quadros do Hamas vão engrossar exponencialmente.

– Netanhyahu vai ser despojado do poder e vai enfrentar a justiça israelense por corrupção. Israel vai ter nova liderança mas não vai mudar.

– Se houver alguma solução, não será liderada pelos EEUU. Ninguém mais acredita em  pax americana. É simples: os EEUU tem um montão de problemas neste momento. China. Covid. China. Orçamento. Fraude eleitoral. China. Racismo. Xi. Aquecimento global. Mais racismo. As iniciativas republicanas para supressão eleitoral. 5G. Captação de recursos para financiar seu plano de investimentos estatais para competir com a China. Inflação. Eleições de 2022. Tratado nuclear com o Irã. China. Os 30% da população que não quer ser vacinada. Furacões. De novo  China. Ai ai ai. Sim, o Biden bem que gostaria de dizer: danem-se vocês aí no Oriente Médio. Mas ele tem que estar no meio da confusão. E falando sempre pelos dois lados da boca, pois não pode perder votos em 2022. E em 2024 tem a volta do Trump. Fraude eleitoral vai sair da primeira página. Voltará a China à primeira página.

Balanço final. Quem venceu essa guerra? Não foi Israel. Não foram os EEUU. Não foram os civis palestinos. Não foi Hamas. Não foi o povo de Israel. Não foram os judeus externos que sustentam Israel com doações.  Não foi Netanyahu. É isso.

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