O Plano Biden

Peter H Peng

Peraí um pouquinho. Estou confuso. Os americanos passaram os últimos vinte anos atacando a China por interferências estatais na economia, com acusações variadas; dirigismo, manipulação da moeda, competição desleal, pelo estilo chinês de estimular a economia com instrumentos políticos, subsídios, ou seja, ferramentas estatais. Por isso a enxurrada de barreiras tarifárias que já existiam, mas foram multiplicadas por Trump, aumentando as tarifas de importação sobre um número de produtos, tipicamente por um fator de 250% a 400%  (digamos, de 5 a 20% ou de 10 a 28%) e inserindo mais uns 40 novos itens na lista de espera. Havia um cronograma para esses novos items entrarem no pau, com a intenção de chamar a China à mesa de negociações. A China veio e negociou várias pausas nas tarifas e retorno de outras aos níveis anteriores, com o compromisso de compra de produtos agropecuários, mas a negociação parou no meio do caminho, por acusações mútuas de não-cumprimento de cláusulas.

Agora o Biden apresenta um plano econômico cópia-carbono do que a China faz há anos, propondo uns US$2 tri em investimentos estatais. Cerca de 3 trilhões de dólares já foram alocados para vários programas de auxílio Covid, contando o primeiro programa do Trump.  Segundo boatos particulares, os democratas tem programas na manga-da-camisa para mais 8 bilhões de dólares de investimentos estatais, ou gastos, segundo os republicanos. Simplificando, nessa primeira etapa, esses 2 tri seriam gastos, ou investidos, segundo os democratas, em obras de infraestrutura, incluindo pontes, estradas, incluindo uma rede de 500 mil postos de abastecimento de veículos elétricos, banda larga, habitação e qualidade de vida, creches, escolas, casas para atendimento de pessoas de terceira idade, pesquisa e desenvolvimento. Um item que chamou minha atenção foi a substituição total de tubulações de chumbo, que existem há décadas ou quase um século, nas construções mais antigas. Ao chumbo se atribui um retardamento do desenvolvimento cerebral de crianças, limitando seu potencial intelectual e comprometendo sua saúde futura. Como o país mais rico do mundo não fez isso antes? Resposta: por que os habitantes do país mais expostos ao chumbo eram os pobres, pessoas de cor, moradores nessas áreas comprometidas.

Investimento estatal para aumentar a competividade americana tem um alvo único: a China. Os EEUU precisam de um empurrão estatal para competir melhor. Por si só, o mercado não se mostrou suficiente para a América produzir a custos competitivos, nem em hardware (materiais e equipamentos) nem software (tecnologia). A demanda americana não gerou a oferta; conforme a teoria das leis do mercado, a demanda cria a oferta, e as duas pontas vão se equilibrando.

Os republicanos se opõem ao Plano Biden, chamando isso de Cavalo-de-Tróia para o Green New Deal. Seria um comecinho de gastos governamentais, contendo futuros passos imparáveis: uma vez que uma obra se inicia, precisa ser terminada, ou abandonada a grande custos, ou seja, a prejuízos completos. O Green New Deal estaria disfarçadamente escondido dentro disso. Alexandria Ocasio-Cortez, mais conhecida como AOC, deputada federal por Nova Iorque, é uma figura odiada pelos republicanos, e seria a eminência parda por trás disso. Quem é AOC? Pessoa de cor, foi motivo de chacota dos republicanos por ter trabalhado como barista, ou garçonete de bar. Convenientemente, eles esquecem que AOC saiu de uma família imigrante pobre em Nova Iorque para atender a Boston University, uma das pontas intelectuais americanas (escola de uma das minhas filhas também). AOC capitaneia a New Left, ou Left-Wing, a ala esquerda do Partido Democrata, aliada a Bernie Sanders, senador independente do Estado de Vermont. A ala esquerda do partido democrata quer um novo New Deal, no estilo do New Deal que Franklin Delano Roosevelt implantou para tirar o país da Great Depression, só que agora é o Green New Deal, programa de criação de empregos e distribuição de renda centrada em energia verde, projetos de proteção ao meio-ambiente e reversão da mudança climática. Os republicanos não vão apoiar, clamando que infraestrutura são apenas as obras tradicionais: pontes, estradas, e coisas do tipo.

A herança do reaganismo e do thatcherismo, a idéia de um governo minimalista, está se mostrando. Os EEUU foram paulatinamente se dividindo, resultando em dois países, dentro do mesmo território. Acumulação de riqueza de um lado e empobrecimento do outro. Um país rico e outro pobre. A divisão social só aumenta, e a cisão é brutal. Não há quase nenhum ponto de contato entre essas duas metades americanas, que definitivamente tem um componente fortemente racial. 

O plano Biden claramente procura remediar a situação. Grande parte do programa desse plano é restituição, sem contudo ter esse nome. O que é restituição? É uma devolução do que o escravismo causou aos negros durante os 402 anos desde que os primeiros escravos foram trazidos da África. Impossível quantificar uma reparação aos descendentes dos escravos, dos linchamentos, raptos, estupros, todo tipo de abuso. Por isso, o uso do termo “reparação” não tem futuro aqui. O termo “restituição” pode ter melhor aceitação. Alguns componentes desse plano: mais moradia, transporte, creches, escolas, casas de passagem, hospitais onde existe maior déficit desses componentes sociais; as áreas de negros. 

O partido republicano não dará um único voto para esse plano. O interessante é que o plano Biden contempla reparar esses déficits que se encontram também em zonas rurais, predominantemente de brancos pobres, republicanos. A desigualdade social não é apenas entre brancos e pessoas de cor. É também entre os americanos urbanos e os rurais.

O plano Biden propõe uma escala mais progressiva nos impostos, aumentando o imposto de renda corporativo (IRPJ) de 21% para 28%. O termo progressivo (não tem nada a ver com o termo progresso, gente!) ainda não pode ser aplicado; poderíamos dizer; uma escala menos regressiva, e só, pois ainda é uma escala regressiva. Igualmente haverá uma nova escala de IR pessoa física para rendimentos maiores do que 400 mil dólares anuais. Esse plano tem amplo apoio popular (inclusive dentre os eleitores republicanos); todos consideram justo que quem ganha mais tem que contribuir mais. Considerem que apenas 5% da população tem renda acima de US$400 mil anuais. Considerem que cerca de 100 das 150 maiores empresas americanas não pagaram um único centavo de IR no ano passado.

A China não fala nada, apenas sorri. Afinal, os americanos estão aprendendo direitinho a lição. Observem como a mídia reage: não se fala mais em governo chinês dirigindo a economia, competição desleal, etc.

O mais curioso ainda é que a China está justamente completando esse ciclo de investimentos na cadeia de suprimento estimulando a oferta. Eles fizeram isso o suficiente, e estão com a oferta competitiva organizada. Agora estão preparados para fazer justamente o contraponto: estimular a demanda. Saibam o seguinte: assim como os republicanos se opõem a essa manobra de “imprimir dinheiro” julgando esse intrometimento do estado na economia um desperdício, uma hipoteca a ser paga pelas novas gerações, na China também houve uma oposição. Essa oposição usou o termo “jogar dinheiro pela janela,” para classificar a incompetência da burocracia estatal chinesa em investir. E esse grupo político está em peso atrás dessa mudança da política de estímulo da demanda. O estímulo da oferta que a China praticou criou disparidade social. A nova política que veremos na próxima década tem a intenção de reverter isso. 

Que bicho vai dar nesse jogo? Qual é o número do dragão? Quem vende bilhete por aí? É isso.

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