O que faz um poeta?

Peter Ho Peng

Lembranças do meu amigo Mario   

Mas como, Pedro, o nome do teu amigo não é proparoxítona? Não leva o acento agudo no á? Sim, é proparoxítona, mas ele é o Quintana! O Mario não leva acento! Quintaneiro, Mario escrevia quintanares (conforme Cecília Meireles) para nós, fazia quintanices conosco. Ah, meus amigos brasileiros, não sabeis o que perdestes!

(Frases soltas)

…até onde irá a procissão dos postes, unidos, pelos fios, à mesma solidão?

Senhor! Que buscas Tu pescar com a rede das estrelas?

De que me serve o molho de chaves, se joguei todas as minhas no mar?

Nasci em Shangri-La… Pois quem foi que não nasceu em Shangri-La?

As folhas enchem de fffs as vogais do vento…

Vidas e poemas têm a certeza do anacoluto…

(Sobre Camões): Seu nome retorcido como um buzio

(Poemas)

Um poema é como um gole d’água

bebido no escuro

Como um pobre animal

palpitando feri-i-i-do

Como uma pequenina-moeda-de-prata

perdi-i-i-da para sempre

na floresta escura…

____________________

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Primavera cruza o rio

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu.

Ficou girando, girando.

Em torno do catavento

Dancemos todos em bando.

____________________________________________________________________________

O mundo é fragil / Cheio de fremitos / como um aquário

O que faz um poeta? Escrever poesia? Eu acho que não é bem isso. O poeta é um amigo que faz todo dia ser um bom dia para lembrarmos dele. Como um parente, duas ou três gerações à parte, não importa. E como um parente, pode ser lembrado ou sorridente e bem tratado, ou ferido, com dor. Lembranças podem trazer alegrias ou tristezas. E suscitar perguntas. Algumas difíceis de responder. 

Como pode um escritor com um acervo tão extenso, tendo, ao longo mais de meio século, escrito doze livros e publicado várias antologias, e tendo traduzido Proust, Conrad, Voltaire, Virginia Woolf, Maupassant, Balzac, Graham Greene, Merimée, e outros, e ter sido admirado por Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, como pode esse ser, patrimônio da humanidade de um país, ter sido despejado do hotel onde morava, e onde morou por longos anos, foi deixado apenas com uma mala na calçada, sem um tostão, aos 70 anos de idade. Não apareceu ninguém naquele povoado para pagar a conta!!! 

Aí apareceu o craque Falcão, nosso imortal camisa 5 (e olha que sou tricolor doente); e, sem alarde, o hospedou em seu hotel pelo resto de sua vida, por mais 18 anos. E tudo que escrevia, o fazia à mão, sobre papel. Como pode esse acervo ter sido ignorado por mais de doze anos por aquela gente, até que um instituto do centro do país o hospedou e hoje o preserva como riqueza inequalável? Como pode esse patrimônio cultural nacional ter sofrido esse risco de ter sido danificado e perdido? Como pode o Mario ter sido rejeitado por duas vezes para a casa de Machado de Assis, até que ele rejeitou uma terceira candidatura? Bem, agora aquele primeiro hotel que para mim ficou malfadado, depois foi tombado e virou a Casa de Cultura Mario Quintana, mas, como dizemos aqui, too little, too late. 

Tudo isso vale a pena rever, é o nosso auto-retrato, como sociedade, como povo. É um exercício de auto-conhecimento. Será que adianta? Não acredito, mas tento. Ah, antes que me esqueça, tem post-scriptum. Fiz uma sacanagenzinha. Inseri duas penguices no meio das quintaneiras… Foi o jeito de eu estar ao lado do meu amigo. 

MARCO Maciel, Edmar Bacha, Fernando Henrique Cardoso, Jose Sarney, Arno Wehling, Evanildo Cavalcanti Bechara, Domicio Proenca Filho, Rosiska Darcy de Oliveira, Paulo Coelho.

About Jornal Brasileiras & Brasileiros