O Tráfico Humano. Qual a parte que lhe toca?

Anna Alvez Lazaro

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”   Martin Luther King.

Ao longo de quase um ano, venho dedicando a minha vida a estudos e pesquisas sobre o crime que mais tem destruído a dignidade humana, roubando vidas, sonhos, inocência e liberdade. O crime hediondo que em poucos anos se tornou a segunda atividade ilegal mais lucrativa do Planeta Terra, o cruel Tráfico Humano. Ao me debruçar sobre tais estudos e pesquisas, conhecendo mais profundamente sobre essa nefasta realidade, sobre como funcionam suas engrenagens e estratégias, sobre como os agentes criminosos operam nessa indústria e sobre quem são esses agentes, conhecidos como traficantes, cafetões, facilitadores, pedófilos, e os “consumidores” deste mercado criminoso e como eles atuam. Entendi o quanto e até que nível de maldade podem chegar estas pessoas. Posso garantir aos leitores que é difícil encontrar palavras para adjetivar esse tipo de gente. Definitivamente são indivíduos  totalmente desprovidos de qualquer senso de humanidade, desprezam a vida alheia, são incapazes de nutrir qualquer sentimento positivo, sentem indiferença pelos outros e o nível de empatia é zero. Estes criminosos objetivam somente o seu próprio prazer e trocam as vidas roubadas por dinheiro e poder. Muitos psicopatas, ou sociopatas, como também, são conhecidos e outros, mal caráter apenas, que acreditam que “os fins justificam os meios” , estão infiltrados em todas as camadas sociais, nas mais diversas esferas de poder, transitam desapercebidos nas praças, parques , supermercados, igrejas, lojas, escolas, universidades e muitas vezes até dentro das nossas próprias casas. Esses seres, nós já sabemos que definitivamente são malignos.

Já é de conhecimento de grande parte da população a gravidade que é o Tráfico Humano.Nesses últimos meses, tenho realizado conferências, encontros, palestras, treinamentos, estudos em grupo e entrevistas com muitas pessoas da comunidade brasileira, na Flórida e até em outros Estados e Países. Todo esse esforço é para promover a Conscientização e Prevenção na Comunidade brasileira, uma vez que de acordo com o National Human Trafficking Hotline,  Orlando é a terceira cidade que mais há denúncias de Tráfico Humano e a Flórida é o terceiro Estado mais afetado.

O tráfico de seres humanos continua a ser um problema crescente na Flórida, conhecida como um lugar para o tráfico de pessoas por causa da economia do Estado.  Com a prosperidade nas indústrias de agricultura e do turismo da Flórida – dois mercados em que o tráfico costuma crescer. Especialmente em  locais de tráfico sexual como hotéis, motéis, casas de massagens, ruas e demais espaços públicos de entretenimento.

Locais onde comumente são identificadas a mão de obra escrava: trabalho doméstico, fazendas, vendedores free lances, restaurantes, bares e lanchonetes.

Existem na Flórida mais de 5.000 agências de viagens registradas, de acordo com o Departamento de Agricultura da Flórida. Muitas agências de viagens atuam como facilitadores regulares das ações dos  traficantes.

A situação é realmente muito séria e precisa de uma atenção especial.

Tenho recebido o apoio da grande maioria da nossa comunidade que tem reconhecido a importância desse enfrentamento. O Estado através do seus poderes constituídos tem feito a parte dele, no entanto, os números mostram que, ainda assim, não tem sido suficiente. O que falta? Está faltando os mais de 300 mil brasileiros na Flórida se unirem e se engajarem nessa luta. É nossa responsabilidade defendermos nossa família, nossos filhos, nossa comunidade das malditas garras desses monstro traficantes. Somente uma grande mobilização da comunidade pode reduzir drasticamente os números dessa violência cometida contra a dignidade humana. A Educação, a orientação e o treinamento de como combater esse crime cruel são ferramentas que certamente irão salvar vidas.

“Nenhum homem é uma ilha” (Thomas Morus), as questões do Tráfico Humano afetam a todos nós indiscriminadamente, não há um só cidadão que não possa sofrer direta ou indiretamente com os efeitos nefastos do Tráfico Humano em algum momento. 

Não devemos deixar crescer entre nós a cultura da indiferença, sob pena de todos pagarem um preço mais alto do que já estamos pagando com essa desagregação e insegurança social. Infelizmente, a indiferença tem se instalado no meio das pessoas que fingem que não veem o que se passa a sua volta, quando andam pelas ruas numa imaginária segurança. Questões sérias como essa, infelizmente, não tem movido algumas pessoas de seus “lugares seguros” conhecido como “zonas de conforto” e   que tão  somente olham em volta do próprio umbigo. Esse artigo se presta a dar um alerta para a nossa comunidade, não pretendendo emitir qualquer julgamento sobre pessoas. Mas como cidadã, pesquisadora e estudiosa dessa problemática tenho a responsabilidade de alertar as pessoas para os rumos que o problema está tomando em nosso meio. Parafraseando Edmundo Burk, “Para o triunfo do mal, só é preciso que os bons homens não façam nada”, precisamos que os bons Homens da nossa comunidade tomem ações promovendo conscientização, alerta e prevenção do Tráfico Humano. É com essa expectativa de fomentar ações  estratégicas de enfrentamento desse crime e que firmemente movida pela fé, determinação, esperança e um grande senso de justiça que não me deixa calar, escrevo este artigo dirigido especialmente a comunidade brasileira deste grande País. Que possamos fazer a diferença na vida de tantas vítimas e não permitir que outras pessoa sejam vitimadas. Essa é a parte que nos toca!

Se você ou alguém que você conhece foi ou está sendo vítima do tráfico humano, ou você suspeita de alguma atividade de traficantes, ligue para o National Human Trafficking Hotline pelo telefone 1-888-373-7888 e denuncie.

Anna Alves-Lazaro é Advogada, Comunicadora Social e Relações Públicas no Brasil e reside nos Estados Unidos há 7 anos. Especialista em Direito dos Veteranos de II Guerra Mundial, Ex-Combatentes, Militar, Criminal, Cível, Família, Trabalhista e Previdenciário. Em Recife, participou de casos no Tribunal do Júri na Violência contra a Mulher e fundou o Conselho de Apoio ao Desenvolvimento Social e Inventivo a Cidadania, organização focada em atividades de Apoio ao Desenvolvimento Social. Nos EUA, ela se prepara para ingressar no Law School e realiza trabalhos voluntários em Organizações non-profit como First Pregnancy Center (Orlando First Baptist Center), Operation Underground Railroad, Veterans For Child Rescue e Florida Abolitionist. Criou o grupo Hope & Justice no Combate ao Tráfico Humano e Abuso e Exploração Sexual Infantil. anna.alveslazaro@gmail.com