Os três circos da nossa vida

Peter H. Peng

Saudades vem sempre junto com o antigamente. Alegria vinha quando o circo chegava na cidade. Antigamente era o circo de lona, o itinerante, acompanhado de ciganas que liam nossas mãos. Eu acompanhava a chegada dos caminhões, quatro, ao terreno cedido pela prefeitura de Porto Alegre para esse que era o grande evento da minha infância. Eu chegava lá todas as tardes, depois da escola, de bicicleta, costeando a Rua do Riacho, ou Arroio Dilúvio, e ia ver o pessoal cravar a ferragem inclinada no chão, esticar a tenda, e erguê-la, tendo as cordas grossas fazendo a protensão, e o tronco de eucalipto no centro, levantando tudo. Até o dono do circo metia a mão na massa, dirigindo e verificando a qualidade e a segurança. Eu seria seguramente um futuro cliente. O que é que esse guri chinês veio fazer aqui de bicicleta? Depois montavam as arquibancadas e o círculo de proteção. Eu conversava, conversa de piá. “Prá que serve isso, seu moço? E moça. E o que é aquilo?” Eu ouvia seus nomes ou apelidos serem trocados entre si, e memorizava os mesmos. Era sempre mais fácil guardar os apelidos. Por que será? Óbvio. Depois eu os chamava pelos nomes próprios. Todos os trabalhadores e trabalhadoras me tratavam bem. E sabia que esses eram os próprios artistas.

Saudades e alegria, artificialismo e o último palhaço

Os caminhões ficavam estacionados num quadrado, protegendo o acampamento dos artistas, e as jaulas dos animais. Eu ia adivinhando quem seriam os palhaços, os domadores, o equilibrista, os malabaristas, as dançarinas, o baterista. O mestre-sala, claro, seria o dono do circo. Era pouca gente para todo o show. Evidentemente que os artistas seriam de multi-talentos. Apenas uma cozinheira não participava do circo, isto é, ela ficava no acampamento, cozinhando. Café da manhã, almoço e janta. E triturando os restos para os animais. O aroma da cozinha se espalhava por cem metros. Churrasco com farofa, arroz e legumes, num dia, feijão e arroz carreteiro, sopa de legumes no outro, Claro, tudo basedo no caldo de osso, a ser roído depois pelas feras.

Os circos completos vinham com roda gigante, carrossel de cavalos, e alguns com carrossel sobe-e-desce, e a loja de cachorro-quente, algodão azul, amendoim, refrigerante e pipoca, jaulas de macacos e leões; mas, para mim, o circo era só o circo.

No grande dia eu estava lá, levado pela empregada, pois meus pais, imigrantes da classe alta da China, não se misturavam com o povo. Eu ia lá, com o meu chapéu Nat King Cole, a empregada com o lanche dela e a sua coca-cola numa sacola. Mas eu levava uns cruzeirinhos para comprar o amendoim e o cachorro-quente. O amendoim, sempre o doce. E depois, de sobremesa, o algodão azul. Aí vinha a verdadeira delícia. Começava com as palhaçadas, dois palhaços fazendo cambalhotas, gozando com as platéias, soprando aquele apito que se esticava, e puxando o nariz de bola, para nosso deleite, um de cada lado, e o terceiro, da perna-de-pau, lá no alto, jogando balas por cima da rede de proteção. Eu tentava reconhecer quem era quem, por baixo da maquiagem. Para meu deleite particular, quando eu reconhecia um deles, gritava o apelido da platéia. Na batida do gongo, vinham os malabaristas, primeiro um, jogando garrafas no ar, aqueles pinos de bolão, depois outro, fazendo o mesmo. Depois do show das garrafas, vinha o que eu mais gostava de ver. Malabarismos com bolas. Primeiro duas bolas no ar, trocando de mão, depois duas bolas numa mão, jogando no ar e aparando numa só mão. Depois o mesmo na outra mão. Daí, três bolas no ar, quatro, cinco. Ai vinha o segundo e fazia a mesma coisa. Aí vinha o desafio. SEIS bolas no ar. O primeiro conseguia. O segundo conseguia. Depois era ver quem fazia isso por mais tempo, até um deles vencer. O gongo decretava o empate. O tira-teima seria com SETE bolas no ar. (Anos depois, vi um malabarista jogando OITO bolas no ar!!!) Apenas um deles conseguia, o outro reconhecia o vencedor e ambos saíam do palco pendendo-se nas várias direções, agradecendo as palmas e os urros da platéia, e os mais altos gritos, os meus, chamando o vencedor pelo apelido: Carioca! Foguinho!

Depois, o equilibrista, que fazia também papel duplo de palhaço perna-de-pau, dava aquele show na corda bamba, com os premeditados cai-não-cai, o silêncio da bateria e o AHHH da platéia. Naquele tempo eu acho que a vara era de bambú, antes dos tempos do grafite. E sempre com a bateria aumentando o suspense nos momentos críticos. No meio disso o leão, os tigres, e o domador, no chicote, comandando os animais de estimação. E o mágico, fazendo as cartas desaparecer e subir para dentro da cartola sem ninguém perceber. Ou de repente os números do baralho se transformarem num único número, e num único naipe, em geral o 8 (oito) de ouros, bem distinguível de longe. Tudo isso desapareceu.

O circo ficou moderno, profissional, tipo Disney. Artificial. Não mais ciganas lendo as mãos. Não mais acampamentos. Não existe mais terrenos baldios perto do centro das cidades para receber um circo itinerante. Eu moro perto da Disney. Que merda sem alma. Que pobreza. Pobres meninos ricos. Pobres meninas ricas. As crianças de hoje perderam tudo. Por falar nisso, isso também vai morrer em breve. O coronavirus vai matar esse tipo de aglomeração para sempre.

O circo moderno morreu, mas o pós-moderno existe. Basta ligar a televisão para ver esse circo. São circos one-man-show, com milhares, ou milhões, de coadjuvantes que não fazem nada, em cargos comissionados, falsários igualmente, só assistem. Nosso one-man-show, Trump. Ele faz mágica com os numeros, altera as enquetes, mente quanto aos casos de Covid-19, quanto aos testes disponíveis, PPE, ventiladores, mortes, tudo. E faz o “blame game.” A culpa é da China. Num passe de mágica, ele faz os números da economia também mudarem. Ele faz tudo, um palhaço que pinta a cara de laranja, usando lâmpada UV, faz malabarismos misturando tudo ao mesmo tempo no mesmo ar: Lysol, cloroquina, luz UV, vacinas, rendesevir, equipamentos PPE, China, Biden, curvas ascendentes de coronavirus, pretos, latinos, velhos, enfim, no final deixa tudo cair e se espatifar no chão. “Deixa morrer, eu quero mesmo é me reeleger.“ Dá samba! Na nossa macaquice congênita, o nosso médico charlatão, sem CRM, assina as mesmas bulas, faz as mesmas palhaçadas, as mágicas com os números, e canta o samba igualzinho. E nossos coadjuvantes são charlatões ignorantes, quer fardados, falsos empresários, ou economistas que não pensam, intelectuais falsos, sim, todos esses coadjuvantes com número-de-série. E, sim, comissionados, e, como um deles, o único que veste máscara, não para proteger do corona, mas para não se identificar na gangue, como esse mesmo disse, todos parasitas (1) do Estado. Ninguém mais os leva a sério. O mundo veio abaixo. Caiu o circo. Mas podemos re-erguer a lona velha, encardida, e reconstruir nossa felicidade. Depende de nós. VOTE!!!

(1) Para quem não adivinhou ou não acompanhou a história do parasita, ou não identificou o ministro mascarado, foi o Guedes que chamou os funcionários públicos de parasitas, isto é, chamou-se a si mesmo de parasita.