A inflação no Brasil e o Plano Real – Nossas Bodas de Prata

Neste artigo eu estou tentando tratar do tema Inflação, com duas perspectivas: a primeira, como isso ocorre, o dano e a dor que causa; e, a segunda, como o Plano Real (1994 – presente) controlou a inflação.

Todos nós devemos celebrar as bodas de prata com esse plano, agora 25 anos de casamento feliz. Repito, TODOS. Eu sou leigo em economia, celebro como cidadão. Não escrevo como técnico, escrevo como um cidadão que ama sua Pátria, tentando entender o tombo que levou, o tamanho do tombo (o Antes), e como se levantou (o Depois).

Estou fora do Brasil desde 1972. Mas passei muito tempo no Brasil; fiz umas 40 visitas “nesse entrementes.” Num primeiro período, como executivo de multinacional de grande porte, eu cobria o Brasil como parte do território pelo qual eu era responsável. Essa geografia incluía Uruguai e Argentina (e todo o resto da América Latina; mais o Canadá inteiro). Isso me deu muito pretexto para passar por Porto Alegre, indo e voltando àqueles países, para reencontrar família e amigos. Ah, saudades….

Nesse período, 1986-1990, tive convívio com a hiperinflação, mas fora do ápice. Como executivo  e não como empresário, eu tinha fundos em dólares para despesas. Como tinha gastos de viagens, hospedagem, alimentação, e o et cetera, o duro era fazer o relatório de despesas para receber o re-embolso. Já pensou em passar 30 dias trabalhando fora e fazendo um relatório, convertendo Reais para Dólares com uma taxa de câmbio diferente para cada dia? Chegou uma hora na qual o diretor financeiro da firma pediu penico. Implorou-me para que calculasse uma média e submeter um relatório com essa média; ele pagaria sem contestação.

Mais tarde, num segundo período, entre  2000-2014, como proprietário de empresa de tecnologia nos EEUU, abri filial no Brasil, a qual eu dirigia baseado em São Carlos, SP. Mantive residência nos EEUU.

Durante esses períodos eu testemunhei o funcionamento do Plano Real. O Antes e o Depois. Por isso eu posso celebrar com conhecimento, senti na carne, tive experiência própria..

É tanto número que, para o leigo, parece uma tentativa de confundir o vivente. Vejam os dados  históricos, medidos, documentados, no período 1960-1990. Sente-se, aperte os cintos, tome uma água gelada. Vamos voar.

Inflação no Brasil antes do Plano Real

Tabela I. Inflação Anual Brasileira, %, 1960-1994

    Ano            %                   Ano            %                   Ano            %__

   1960          30,5               1972          15,7               1984          215,26

   1961          47,8               1973          15,6               1985          242,23           

   1962          51,6               1974          26,9               1986            79,66   

   1963          79,9               1975          29,3               1987           363,41

   1964          92,1               1976          46,3               1988         1.037,1            

   1965          34,3               1977          38,8               1989         1.782,5

   1966          39,1               1978           40,7               1990       1,621,97

   1967          25,0               1979           77,3               1991         472,70

   1968          25,4               1980         110,4               1992       1.119,1

   1969          19,3               1981          95,62              1993       2.477,45

   1970          19,3               1982        104,79              1994         916,46

   1971          19,5               1983         211,0


A Tabela I acima combina fontes diversas, portanto com certeza irá diferir de referências que o nosso leitor teria, mas no geral, caracteriza bem o quadro histórico antes do Plano Real. Em 1993, logo antes do Plano Real, chegou ao ápice de 2.477,45% . São dados históricos, estatísticos, aumentos de preços verificados. O cálculo desse índice se faz com pesquisas de preços de itens de um balaio de mercadorias, necessidades de uma população. Não irei numerar os componentes dessa cesta de bens, mas entram itens de comida, transporte, roupas, saúde, educação. Os itens de consumo variam para cada faixa de renda, portanto existem pesquisas para pelo menos quatro faixas de renda. A baixa, a média-baixa, a média e os mais abastados.  Como o Brasil tem tanta disparidade de renda, somos campeões mundiais na desigualdade, todas essas pesquisas  precisam ser feitas. Existem também variações de preços para artigos no atacado e no varejo. São pelo menos 10 índices diferentes.

Dá para imaginar inflação de 3 dígitos? E então, de 4 dígitos? Impossível de imaginar: 1.782% ao ano, 2.477,15% ao ano; Sim, girando em torno de dois mil percentuais ao ano. Preços aumentando 25% a cada meia semana, dobrando em pouco mais de semana e meia. Era a hiperinflação.

Assalariados recebendo em espécie e indo diretamente a algum mercado, comprar alimentos, ao preço do dia, e, porque não dizer, é doloroso lembrar, ao preço da hora, para garantir algo que comer à família.

E os comerciantes, como vender sem exagerar na proteção, mas também para saber que poderão repor as mercadorias nas prateleiras? Eles tinham que ter a “maquininha”, uma calculadora portátil especializada no cálculo da inflação do dia. Haviam os índices de preços diários, para cada tipo de preços e salários, e tudo se movia seguindo esses índices. Os super-mercados tinham gente continuamente atualizando os preços, verdadeiros times, remarcando, e faziam isso colando uma etiqueta por cima da outra. Não tinham tempo de retirar a antiga, velha não de semana, ou de dias, mas velha de dia, ou mesmo, de horas.

Era a economia indexada

Com inflação, sobem os preços e no mesmo movimento baixa o poder de compra do cidadão. A vida do cidadão tem que continuar, portanto seu empregador, o que contrata seus serviços, precisa adquirir esse aumento também. Gera-se um processo que se realimenta, se auto-alimenta ad continuum. Tudo fora de controle. Tentativas seguidas de um governo atrás de outro, cada uma falhando depois da outra. Muitas trocas de moeda, aproveitando a anterior quando era possível recarimbar, ou, se não, imprimir novas.

Cada troca de moeda correspondia a uma nova tentativa de controlar a inflação. Um novo plano. A cada troca de moeda, se retiravam 3 zeros da anterior, para fazer a nova. Por exemplo, cada Cruzado Novo, ou NCz$1.00, valia 1.000 Cruzados, ou Cz$1.000,00. E assim foi feito sete vezes entre 1967 e 1994.

As moedas que conhecemos nesse período foram: Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro1, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro2, Cruzeiro Real que ficou sendo o Real, como o mesmo valor do Cruzeiro Real. Mais abaixo elaboro adicionalmente sobre isso.

Como a denominação Cruzeiro foi utilizada três vezes nesse período de tempo, usei os números 1 e 2” – não se usou exponencialmente – não precisou para distinguir o segundo e o terceiro uso do original. E note que para cada período foram retirados três zeros da moeda anterior, portanto no total foram doze zeros retirados nesse período. Imaginem quanta desvalorização, quanta perda de poder aquisitivo em tão pouco tempo. Ufa, dá para imaginar? Eu não consigo.

É duro relembrar, mas, para celebrar corretamente, eu preciso dar essa rebuscada.

Plano Real

O Plano Real foi a enésima tentativa do Brasil de controlar a economia, e, como podem ver acima, todas as anteriores falharam. O Presidente da República, Sr. Itamar Franco, convocou um Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, o FHC, para elaborar um meio de controle da hiperinflação de então. Fernando Henrique era professor da USP, Universidade de São Paulo, uma das melhores do Brasil, que não era economista, era um cientista social, que havia sido cassado da universidade pela ditarura militar, foi exilado, no Chile, em diversos países da Europa, nos Estados Unidos, e, durante esse período de exílio, lecionou na Sorbonne, Cambridge, Oxford, Yale, Princeton, enfim os melhores do mundo reconheciam a qualidade do seu trabalho e conhecimento.  Os militares o expulsaram. FHC reuniu um grupo de economistas, entre os quais se destacavam Pérsio Arida, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch. Clóvis Carvalho, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, coordenava os trabalhos, sem ser economista. Desculpem-me se deixei passar alguém. Mais tarde irei descrever as principais medidas do Plano Real. Inicialmente irei focar nos seus resultados, que podem ser estudados em comparação com os da inflação dos anos anteriores, descritos na Tabela I. Na Tabela II abaixo descrevo o histórico da inflação no Brasil após o Plano Real.


Tabela II. Inflação Anual Brasileira, %, 1995-2018

Ano            %                    Ano            %                    Ano           _ %__

1995         22,41             2003           9,30                 2011           6,50

1996         9,56                2004           7,60                 2012           5,84

1997         5,22                2005           5,67                 2013           5.91

1998         1,66                2006           3,14                 2014           6,41

 

1999         8,97                2007           4,46                 2015           10,37

2000         5,97                2008           5,90                 2016           9,39

2001         7,67                2009           4,31                 2017           2,95

2002         12,53              2010           5,91                 2018           6,50 (projeção)


Comparem as Tabelas I e II. Para ilustrar o valor histórico do Plano Real, descrevo na Tabela III abaixo as sete (7) trocas de moeda, com cada desvalorização, e uso em cada período de tempo.

Tabela III. Histórico das Moedas Brasileiras, 1942-1967; 1967-1994, e 1994-presente

DENOMINAÇÃO          SÍMBOLO          ANOS DE VIGÊNCIA          PARIDADE COM MOEDA ANTERIRO          PARIDADE COM CRUZEIRO ORIGINAL (1942-1967)

Cruzeiro                           Cr$                             1942-1967                            1.000 réis = 1Cr$                                                    1Cr$ = 1Cr$

Cruzeiro Novo               NCr$                          1967-1970                            1NCr$ = 1.000Cr$                                                  1NCr$ = 1.000Cr$

Cruzeiro1                        Cr$2                           1970-1986                             1Cr$1 = 1NCr$                                                       1Cr$1 = 1.000Cr$

Cruzado                           Cz$                            1986-1989                              1Cz$ = 1.000Cr$                                                   1Cz$ = 1.000.000Cr$

Cruzado Novo               NCz$                         1989-1990                              1NCz$ = 1.000Cz$                                                1NCz$ = 1.000.000.000Cr$

Cruzeiro2                        Cr$2                          1990-1993                               1Cr$2 = 1NCz$                                                      1Cr$2 =  1.000.000.000Cr$

Cruzeiro Real                CR$                            1993-1994                               1CR$ = 1.000Cr$                                                  1CR$ = 1.000.000.000.000Cr$

Real                                   R$                               1994-presente                      1R$ = 1CR$                                                             1R$ = 1.000.000.000.000Cr$


As pessoas não conseguiam acreditar, se beliscavam, para se certificar que não estavam sonhando. De inflação de 3 dígitos e até 4 dígitos, caímos para inflações de um único dígito. Nesse período de casamento, em 25 anos, tivemos 3 anos com inflação de dois dígitos, acima de 10% ao ano. E ainda assim, em dois deles minimamente acima de um dígito. Pensem quanta confusão. Mesmo hoje, fazendo a tabela acima, com os números que ocorreram há tanto tempo, fiquei com dor de cabeça.

Com o tempo, as pessoas começaram a crer, após tantos fracassos, e, com credibilidade, Fernando Henrique venceu as eleições seguintes, sucedendo a Itamar Franco, sendo 4 anos depois re-eleito para um segundo mandato. Infelizmente temos um limite de dois mandatos.

A inflação antes do Plano Real consumia o poder aquisitivo da população, a qual, assim que recebia, ou em espécie ou em conta bancária, ia direto ao supermercado ou ia ao banco retirar e em seguida ao supermercado, caso contrário talvez não conseguisse colocar comida na mesa para a família. Os comerciantes limpavam os caixas e iam diariamente aos bancos, antes destes fecharem, para aplicar o dinheiro no “overnight”, um aplicativo financeiro que permitia ao comerciante continuar a trabalhar. O instrumento financeiro rendia mais que o operacional. Era ferramenta de trabalho.

Um dos efeitos mais notáveis do Plano Real foi o desaparecimento da máquina-símbolo da inflação, a “remarcadora de preços do supermercado”, a maquininha, já mencionada acima. Foi a desindexação da economia.

O consumidor de baixa renda foi o principal beneficiado. Os brasileiros que tinham maior poder aquisitivo podiam se defender parcialmente da corrosão do valor da moeda, com aplicações bancárias de rendimento diário. A grande maioria da população, entretanto, não tinha acesso a esses mecanismos e sofria com a desvalorização diária dos recursos recebidos como salário, aposentadoria ou pensão, sendo os que mais sofriam com a alta inflação.

Não por acaso, após a implantação do Plano Real a compra de itens antes considerados “de elite” como o iogurte explodiu nas classes C e D dos brasileiros.

Segundo estudos da Fundação Getúlio Vargas – (FGV), houve entre 1993 e 1995 uma redução de 18,47% da população miserável do país, principal fruto do sucesso do plano. Um dos melhores índices da história do nosso país.

O Plano Real foi o décimo-terceiro plano econômico de estabilização da moeda brasileira desde o início da década de 1980. Como vimos acima, os planos anteriores falharam. O Plano Real acabou de fato com a hiperinflação e iniciou um novo ciclo de desenvolvimento econômico. Foi original, foi uma solução concebida, planejada, projetada e executada por Brasileiros, em exercício de independência, liberdade, auto-gestão, auto-confiança.

A manutenção de baixas taxas inflacionárias aumentou o poder aquisitivo das famílias brasileiras; o parque industrial brasileiro recebeu investimentos e foi modernizado; o crescimento econômico gerou milhões de novos empregos. Alguém disse: A estabilidade monetária é o fator condicionante. A prosperidade econômica é o fator condicionado.

Eu não assisti, mas meus amigos me recomendaram muito ver o filme Real – O plano por trás da história, do diretor Rodrigo Bittencourt. Vou ver se reúno alguns Brasileiros por estas bandas e adquirir esse filme, assistir numa festa de celebração das Bodas de Prata. Eu transmito essa recomendação de amigos nos quais confio e boto a mão no fogo.

Tem, contudo, um parágrafo escuro nessa história. Foi a oposição que alguns grupos fizeram a FHC, acusando todos seus programas de serem simplesmente medidas eleitoreiras, oportunistas. Esses grupos e
ram tanto de direita como de esquerda. Não conseguiam ver com objetividade como o povo, todos, foram beneficiados. Pensavam apenas em alimentar suas ideologias. Eu resolvi não tratar disso neste artigo, não perder tempo com negativismo e gente pequena.

Aos vinte e cinco anos, podemos olhar com perspectiva todo o valor do Plano Real, o que foi verdade, e o que foi mentira. Como nosso povo foi beneficiado. Todos. O que foi conhecimento, sabedoria, objetividade, e o que foi ignorância, maledicência, ideologia. Celebrar as Bodas de Prata.

Ainda estamos muito atrasados. Mas vamos celebrar, e, neste Voo Pátrio, levanto a minha taça. Tim-tim a todos. Obrigado por me acompanhar nesta alegria. Felizes Bodas de Prata a todos!

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