Patrimonialismo, o Futuro do Capitalismo – Reprojetando o Futuro

Peter Ho Pend

O que a crise do coronavirus deixa à vista – lições de moral e de fracasso da sociedade

Recentemente, como parte do pacote multi-trilionário (em dólares) de estímulo da economia, e de resgate dos americanos (um pouco para as micro-empresas, para as pessoas que trabalham, e um muito para os milionários, das grandes empresas), uma sociedade inteira que parou pela pandemia do coronavirus, o Federal Reserve Board (ou Fed, o Banco Central daqui) baixou os juros básicos a zero por cento ao ano. Ou seja dinheiro para quem quiser, para mover a economia. Alguns aproveitaram a deixa. Esse estímulo tem a faceta de bailout. Como funciona isso? Quando Trump deu o presente aos bilionários no início de seu governo, reduzindo seus impostos, a grana foi para comprar ações de suas próprias empresas, não para investir, mas para inchar o preço de suas ações. Isso gerou a corrida para Wall Street, e essas grandes empresas distribuiram grandes dividendos, que foram, claro, para encher os bolsos dos acionistas. Mas como essa subida foi artificial, riqueza não foi criada, com a crise, essas empresas mostraram a verdadeira cara, cairam. Agora o pacote de resgate da economia ajuda, sim, um pouco os desempregados, e os de menor renda. Mas tem um enorme buraco para fazer o bailout, o bote salva-vidas para as grandes empresas. É o monetarismo em ação.

Justiça seja feita, alguns setores usam os empréstimos sem juros e repassam a seus consumidores. Várias empresas fabricantes de automóveis vendem carros sem juros em 84 parcelas. Sete anos, a expectativa de vida de um carro bem usado, digamos, 200 mil milhas no odômetro. Refinanciar hipotecas e automóveis, sim, mas pegar dinheiro para investir, não vi.

Parte do pacote seria uns US$2mil a 3mil para cada família, ouvi dizer. Para alavancar o consumo na retomada. Isso é bom. Mas por quê ninguém pega a grana semi-gratuita para investir? O que ocorre?

Uma hipótese tem a ver com a teoria de Thomas Piketty, economista francês de menos de 50 anos de idade, intelectual do mais alto coturno. Senão vejam seu currículo: MIT, London School of Economics, e Legião de Honra, a mais alta condecoração da França, que ele se recusou a receber. Autor do best-seller Capital in the Twenty-first Century, Piketty estudou os movimentos do capitalismo nos últimos 250 anos. A observação estrondosa dele é que existe um ponto de inflexão na concentração de renda, a partir do qual o capital deixa de ser gerador de inovação e de emprego, ou seja, perde seus poderes distributivos, e passa a ser patrimônio. Por quê isso ocorre? Simples: a redistribuição vem da criação, mas a criação pára, porque a remuneração de patrimônios -aplicações financeiras- supera a remuneração de capital de risco. Essa formação de patrimônios é consequência de um processo de concentração de renda, um processo que se retro-alimenta em moto perpétuo, à medida em que o capital perde seu atributo distributivo, que é a criação de novos negócios e empregos.

Empreendorismo não se aprende na escola. Aprende-se em casa. Eu aprendi com meu pai e minha mãe. E o que aprendemos em nossa casa de agora é o contrário: não empreender, se encostar, não crescer, não desbravar. Como diz um amigo, grande inventor, fazem parte da turma do NUNCA. NUNCA sair da casinha, se negam. Sim, mudar é difícil. O status quo tem uma massa inercial tremenda.

A minha idéia então é que ninguém pega o dinheiro do Fed porque não precisa de mais dinheiro; quem já tem, já tem, e, além disso, não sabe o que fazer com dinheiro como capital-investimento.

Favela Nazzali, que junto com Flamengo e Sucupira, reúnem 16 mil famílias na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, onde fome forçam moradores a ir às ruas (Folha de SP). Notem o esgoto a céu aberto.

O problema social dessa acumulação de renda, além da desigualdade social, é que a sociedade desaprende a investir, perde seu instinto de criação e renovação. O que a classe alta ensina pelo seu exemplo social para o resto da sociedade é isso: não tome riscos, não adianta, a desigualdade vai continuar, a renda vai continuar a se concentrar, faça como nós, trata tuas economias como patrimônio.

Peraí, escritor. Estás falando dos EEUU ou do Brasil? Dos dois, claro!  Então, se, numa sociedade, quem pode não cria, como é que ficamos? Resposta: ficamos condenados ao declínio paulatino. Nosso modelo é os EEUU, seguimos cada passo à risca, não temos direção própria. Na crise do coronavirus fazemos o papel do macaco. Copiamos tudo que os EEUU faz. Temos um capanga do Trump que também pratica medicina sem diploma. Promove ainda a hidroxicloroquina, mesmo ainda quando o Trump já parou de fazer esse receituário. Só sobrou o Nicolás Maduro para acompanhar o nosso Trump dos pobres nesse barco da hidroxicloroquina. Temos até um pacote monetarista. O nosso pacote de estímulo econômico prevê R$600 mensais para cada trabalhador. E os informais? O que virá depois? O que a sociedade ensina aos pobres? Vejam a ilustração que dou. Vejam o esgoto a céu aberto na frente da casa pobre. Vejam as crianças. Qual é a lição de moral que ensinamos aos outros?

Voltando ao patrimonialismo. Não precisamos ir muito longe. Olhem em volta de si mesmos. Quantos amigos vocês têm da classe média, que, sem serem milionários, se comportam como patrimonialistas? E quantos herdeiros milionários vocês conhecem que, além de gerir patrimônios herdados, herdaram também a capacidade criativa do patriarca ou matriarca da família? Será que a segurança financeira compensa o que um deixa de aprender, crescer na vida? Para não falar na alegria de descobrir a vida. Não é à toa que em espanhol “busca-vida” significa “aventureiro”.

Extendam isso para a sociedade como um todo. O mecanismo de concentração, aumentando as desigualdades, é mesmo força motriz de crescimento, como alguns pensam, ou seria fator de declínio?

Outro subproduto desse pacote de salvatagem das empresas americanas, é que os EEUU professam o capitalismo mas praticam o socialismo. Esse pacote é um bailout, o bote salva-vidas para empresas problemáticas no melhor estilo socialista. É o tal “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.” É um caso extremo, dirão alguns. Mas sociedades mais avançadas, como a Coréia do Sul, a Cingapura, enfrentaram e superaram o coronavirus sem esse bailout.

Isso tudo é o só meu palavrear. Não encontrarão essas bobagens em outro lugar. É isso.

Peter Ho Peng nasceu na China e cresceu em Porto Alegre. Formou-se na UFRGS em engenharia química e na Georgia Institute of Technology (MSc e PhD). É morador de Tierra Verde, Flórida.
peterhpeng@yahoo.com