Que mundo é êsse?

Peter Ho Peng

Pelos anos 1300 o aventureiro genovês Marco Polo observou assustado os chineses fazendo moeda de papel. Escreveu ao seu superior na Itália (ele reportava ao papa), descrevendo a coisa mais estranha que já havia visto naquela terra. Os chineses pegam casca de árvore e fazem uma pasta, que depois secam e fazem moeda dessa pasta, e usam essa moeda em todo o reino, de ponta a ponta. O papa e o rei italiano (em qualquer país, a igreja e o poder sempre foram muito chegados…) e toda suas respectivas cortes morreram de rir. Pensaram: esses chineses estão dando alguma coisa para o Marco beber, e fazê-lo delirar. Imagina, fazer moeda de casca de árvore!!! Vejam, haviam inventado o papel do algodão, mas agora, fazer dinheiro de casca de árvore? Ora bolas, moedas são cunhadas, são de ouro ou prata! São metais preciosos! O resto do mundo levou mais seis séculos para o entender e adotar o papel-moeda. Para entender que o lastro que lubrifica as trocas comerciais não é o metal precioso. Imaginem, 600 anos de vantagem na velocidade do comércio. 

Por que diabos estou levantando esse assunto? Porque novamente os visitantes ocidentais estão totalmente perdidos na China. O dinheiro desapareceu. A nova moeda é digital, QR. Quem está por trás disso é o tal de fintech, abreviação de Financial Technology. Esse segemento tem vários players, Tencent, Ant, etc. O grupo Ant está preparando um IPO – initial public offering ou  abertura de capital – nas bolsas de valores de Hong Kong e Shanghai, que, segundo os especialistas, avaliará seus ativos em igualdade com o JPMorgan, o maior banco privado do mundo. O JPMorgan ocupa a cadeira 48 no pódio das Global 500 da Fortune, o pódio que este escriva cultiva como parâmetro comparativo. Esse banco, fundado em 1799, emprega mais de 250 mil funcionários e tem US$2,5 trilhões em ativos!!! 

Só para comparações conosco, nosso querido BB tem a cadeira 288 (por enquanto) e tem 100 mil funcionários (ordem de grandeza) e ativos de US$361 bilhões. Ou seja, 40% dos funcionários do banco americano para gerir 15% dos ativos. Bem, entendemos, um dos bês é de Brasil! Agora entra em campo uma nova geração daqueles malucos que inventaram a moeda de papel há mil anos. A Ant, empresa-descendente daqueles malucos de 1200 tem o mesmo valor do JPMorgan, só que foi fundada há apenas 16 anos (2004). Moeda virtual?!! Sim, mais uma de chinês…Ai ai ai dragões me mordam… Essas plataformas chinesas de comércio virtual colocam o vendedor e o comprador frente a frente, sem passar por um banco meeiro. No caso do Ant, ele financia ambos os lados. Os seus algoritmos (inteligência artificial) analisam os cenários, conhecem os desonestos (reconhecimento facial) e precificam os riscos de modo que as taxas de financiamento são as menores possíveis. E por isso o lastro requerido para essas operações é muito baixo. Chegaram a operar com apenas 2% de lastro, contra uns 30% usados pelos bancos chineses estatais que financiam as grandes obras dos governos africanos, por exemplo. O governo chinês deu um safanão no Ma, exigindo mais lastro (~20%), pois no final das contas quem segura o rojão é o banco central da China, e eles não entendem como o Ant funciona. Isso detonou, por ora, o IPO que mencionei.  

Preparem-se para uma maior velocidade nas mudanças sociais,

políticas e econômicas

Num outro campo, as vacinas contra o Covid-19 estão empregando uma tecnologia chamada de messenger-RNA. Normalmente as vacinas são produzidas a partir de um virus ativo e assim cultivam um anti-virus que combate o virus maléfico, ou seja, é um processo biológico. A nova tecnologia modifica o RNA (ribonucleic acid, ou ácido ribonuclêico) que é presumidamente a proteína que deu início à vida no Universo, com um tal de messenger (mensageiro) que detecta os viruses maléficos e manda um sinal para outras proteínas no organismo a bloquear a ação danosa do virus maléfico. Ou seja, é um processo de tecnologia de informação aplicada ao nível celular. 

Nesse mesmo campo, o Prêmio Nobel de Medicina neste ano outorgado a duas pesquisadoras que independentemente descobriram como modificar um gene, cortando pedaços daquele hélice dupla que carrega o código genético e substituindo o pedaço defeituoso por um normal. O potencial disso seria curar todas as doenças que tenham origem genética, consertando isso na fonte. (Novamente passamos em branco por esse tal de Prêmio Nobel, mantendo nossa conta de zero).

Onde quero chegar: o mundo se transforma a largos passos, e o que move tudo é Knowledge and Science como a humanidade nunca havia visto. A vitória da Ciência e do Conhecimento é inevitável. Mas Sabedoria entra na parada. Wisdom para saber o que é certo e o que é errado. E como isso se reflete por aqui? Vimos 70 milhões de americanos que votaram contra a Ciência, acreditam ainda que as eleições foram roubadas, negam o aquecimento global, negam que exista uma pandemia, apesar de 300 mil mortos e 16 milhões de infectados, e continuam enchendo os bolsos do Trump, um fundo para desmascarar as eleições fraudulentas (perto de 300 milhões de dólares até agora). Mas Giordano Bruno foi queimado na fogueira pela Igreja, por sua ciência herética. O mesmo fez a Rainha Maria, matando mais de 200 hereges dessa maneira. Criou um drinque, Bloody Mary.

E no nosso país, seguimos com um STF administrando o país, e ouvimos a diatribe contra a China, pelo filho zero um, ao lado do terraplanista, e seus seguidores de mídia social. A China que paga nossas contas, comprando 35% do que produzimos em agricultura e minérios. Qual a consequência natural disso? A China estará cultivando soja na África, reduzindo sua dependência dos EEUU e do Brasil. Afinal, quem  não é bem-vindo, procura outros pagos. E em alguns países a ignorância está vencendo.

Por falar em África, notem outra tendência altamente visível: os times europeus de ponta (Premier League, UEFA), que eram recheados de brasileiros, estão agora recheados de africanos. E suas camisetas estão já se enchendo com caractéres chineses. Estamos saindo do mapa aos poucos. Como perdemos essa hegemonia? Tem que ser velho como eu para lembrar. A decadência sempre começa pelo topo. E foi com o João Havelange, que essa decadência começou. Com o assassinato virtual do João Saldanha, o maior gênio do futebol mundial, ordenado pelo ditador Médici e executado pelo Havelange. Mas essa é outra estória. Como relaciono tudo isso? Quem não conhece a estória do Marco Polo, da moeda de casca de árvore, até o QR, não vai entender a velocidade do mundo atual. Quem não conhece a estória do João Saldanha não vai entender como os jogadores africanos estão deslocando os nossos dos gramados europeus. Essa queda não é apenas um buraco na estrada, e nos iludimos se pansarmos que vamos nos re-erguer ao topo já já. 

Quem não conhece a História está condenado a repetí-la, como já dizia o velho Burke. Mas além de burros, somos surdos e desinformados.

About Jornal Brasileiras & Brasileiros