Racismo na América, aqui e aí

Peter Ho Peng

Uma Ferida Aberta há Quatro Séculos, agora Exposta, ainda Crua

Todos vimos na TV os protestos Black Lives Matter durante o mês de Junho inteiro. Iniciando-se com protestos pelo linchamento de George Floyid numa rua de Minneapolis, os protestos se espalharam como fogo por centenas de cidades americanas.  E por quase todos os países da Europa, da América Latina, e até pelo Brasil. É evidente que, para se manifestar da maneira como estourou, arrebentando, essa rebelião contra a brutalidade policial e da justiça americana contra os pretos e as minorias raciais e pela injustiça social era um sentimento fortemente reprimido por muito tempo. Para ser mais preciso, quatro séculos. Vimos brancos e pretos juntos no protesto. A grande maioria jovens. (Asiáticos visìvelmente ausentes, mas este é outro assunto, ao qual tenho autoridade para explicar). Dentro do meu reduzido círculo de amigos brasileiros, não encontro conhecimento dessa história. Assim, neste espaço compacto, espero dar uma idéia aos leitores do JB&B da dimensão desse sentimento de angústia, revolta e sede de justiça. No Justice, no Peace.

A origem de tudo foi a prática da escravidão. Paralelismo em quase todos os aspectos. Com amplas terras em suas colônias, na América e no Brasil, Inglaterra e Portugal, gente fina, exportavam escravos da África para essas sua colônias, para trabalhar na construção dessas colônias, principalmente em agricultura e em mineração. Na enxada, na pá e na picareta. Desde 1432, quando Vasco da Gama chegou na África, Portugal imaginou o tráfico de escravos. O primeiro navio negreiro, também chamado de tumbeiro, pois era a tumba prescrita, chegou em Pernambuco entre 1532. Na América, o primeiro navio negreiro inglês chegou em 1619. Esses europeus, na sua cultura cristã, sabiam o que era um bom negócio. Mão de obra barata era com eles mesmos. Não importa se os pretos eram sequestrados, famílias eram destruídas, nada. Iam para o navio tumbeiro de qualquer maneira, porque grana é grana. Depois, com o chicote, os ferrolhos e o enforcamento dos desobedientes, foram produzindo a cultura negra nas suas colônias. Parte dessa cultura inculcada era o ensinamento religioso, cristão, de que preto não tinha alma. Claro, nenhuma educação era dada às crianças negras, que nasciam escravos. Ainda no meu tempo, cansei de ouvir, pela tia de minha própria esposa: “Fulaninha é só preta por fora. Por dentro é branca, branquinha.” Assim as nações escravistas foram construídas por séculos.

Menos conhecido foi o paralelismo no nascimento das duas nações, após as independências das matrizes – ambas celebraram a igualdade e a irmandade dos filhos das pátrias amadas. Senão vejamos:

“Dos filhos desta pátria és mãe gentil, pátria amada, Brasil!”  (“Uvirudu”, Osório Duque Estrada, 1822). Só que quem nascia no Brasil, preto, não era filho da pátria.

“All men are created equal, with Freedom and Justice for all” (Todos os homens são criados iguais, com Liberdade e Justiça para todos) – Thomas Jefferson, Declaração da Independência, 1776

No caso americano, quem escreveu isso se esquecera que George Washington, comandante das forças americanas na guerra da independência contra os colonizadores britânicos, era senhor de centenas de escravos, e Jefferson, igualmente, centenas, tendo inclusive uma preferida, Sarah, com quem teve, dizem, sete ou nove filhos, criados mas não reconhecidos ou adotados. E a Escravidão foi mantida até 1863, quando Abraham Lincoln aboliu a escravatura nos EEUU, após vitória na guerra civil, Norte contra o Sul; o Sul que queria separar-se para manter seus privilégios escravistas.  Os estados nos quais predominavam as plantations, estados sulistas, os derrotados na guerra civil, como as Carolinas, Georgia, Alabama, Louisianna e Mississipi, foram legados aos antigos escravos, mesmo porque muitos escravos lutaram ao lado de Lincoln. (Que, como Kennedy, terminou assassinado. Não é só no Brasil que tem assassinato político.) Aqui deram a cada preto dois alqueires e uma mula. Te vira aí. Endividados, vendiam as terras e passavam a servos endividados pelo resto da vida.  O nosso paralelo a abolição assinada pela princesa Isabel, em 1888, a alforria, e, sem ter como sobreviver, a formação das favelas. Mais dignos foram os quilombos. Que ainda, heròicamente, resitem.  Nos EUA a escravidão foi substituida por um apartheid legal, leis separatistas, servitude e anos de roubo de terras. 

Esse Juneteenth (19 de Junho) que estamos comemorando agora, foi a data em 1867 na qual os escravos do Texas foram informados que estavam livres. A abolição de Lincoln levou dois anos e meio para chegar ao Texas. Deu para entender o que era esse domínio branco?

Os pretos eventualmente prosperaram. Essa data se transformou num Natal deles. Até que em Tulsa, Oklahoma, onde criaram um Black Wall Street, um distrito próspero, tiveram tudo destruido, incendiados, arrasados por exércitos milicianos do Ku Klux Klan, uma organização branca nazista. E essa data foi apagada, passaram a borracha nos livros de História. Nunca mais essa História foi ensinada nas escolas. Pensam que Máfia e os milicianos existem apenas na Itália e no Brasil?

E quanto aos direitos? Nada. Não eram cidadãos. Apenas depois de Martin Luther King Jr., os negros adquiriram o direito ao voto. E só os homens. Nesse periodo. Claro, MLK terminou assassinado, aos 43 anos de idade. Por um assassino de aluguel. Igual ao assassino de Kennedy, depois apagado por outro assassino de aluguel. Pensam que queima de arquivos foi inventada no Brasil?

O linchamento de negros por enforcamento era comum. Strange Fruit hanging from the poplar tree, blood on the leaves and blood at the roots, dizia a letra de Abel Meeropol, cantada pela maravilhosa voz de Billie Holiday, que teve a carreira boicotada e cortada por se recusar a retirar essa canção de seu repertório. Ainda em 2019, um adolescente negro foi assassinado por uma gangue de vizinhos brancos por estar namorando uma moça branca da comunidade. O racismo aqui é mais forte do que no Brasil. Mas não ficamos muito atrás. Na minha cidade, Porto Alegre, há cerca de um século um preto foi enforcado na frente da principal igreja católica de então: a Igreja da Nossa Senhora das Dores, na rua central da cidade. Isso mesmo.  Podem conferir.

Quem acompanha minhas estórias no JB&B talvez lembre que eu usei a expressão “ Pau que nasce torto … nunca mais acerta o vaso…”  Previ isso, defeitos de formação, vícios de origem, que nunca foram controntados, e ainda estão longe de serem resolvidos, e continuam a travar o desenvolvimento da sociedade. Após quatro séculos, esse racismo está embutido na cultura americana. Com todas as consequências de desigualdade perante a lei, desigualdade social, etc, etc. (E no Brasil?)

Com menos de um-oitavo da população americana, os pretos compõem quarenta porcento  da população carcerária. E das vítimas da pandemia. As mazelas de discriminação, direitos humanos, direitos civis, injustiça criminal, social, educational e econômica se manifestam agora também com o Covid-19, que expôs essas feridas, e o linchamento de George Floyid mostrou que as feridas permanecem abertas. E que todo o progresso social terá que passar por essa História.

Deu para entender o que se passa nesse movimento Black Lives Matter? James Baldwynn, autor negro americano, escreveu que “o confronto com uma cultura enraizada não garante sua mudança, mas o não-confronto garante sua permanência.” O status quo é um peso, que resiste ao movimento, a mudanças. Não mudar é garantir que a direção dessa sociedade será ladeira abaixo. A dívida de quatro séculos com os escravos e seus descendentes tem que ser encarada e o poder branco tem que pagar essa dívida, de algum modo. Ao invés disso, no Brasil colocam um preto na Fundação Palmares que prega que a escravidão foi boa para os pretos. E aqui, um ministro de estado preto (aqui se diz secretary of state) que diz que os pretos americanos são imigrantes. Por isso cresce aqui, entre os jovens, brancos, pretos e latinos, uma consciência de que nada vai mudar, exceto com uma revolução. Aí não sei. É isso.