Retratos da Vida, a arte de Naza McFarren

Entre tantos artistas visuais brasileiros que fazem sucesso nos Estados Unidos, vale destacar Naza McFarren, radicada aqui por mais de 30 anos. Sua obra é reconhecida tanto pela técnica como pelos temas. Atualmente utiliza suportes digitais avançados tecnologicamente e os temas se referem a personalidades e assuntos contemporâneos de destaque. O resultado pode ser visto em imagens que despertam no espectador encantamento e curiosidade, tanto pela composição arrojada como pela sua leitura de mundo feita por um olhar único e expressivo.

Obra: Poor World, de Naza McFarren 

Sua entrevista esclarece um pouco sobre sua vida e seu processo de descoberta e construção visual que se tornou sua marca registrada.

Nereide: Conte um pouco de sua história de vida até ser uma artista visual brasileira de sucesso nos Estados Unidos. 

Naza: Nasci em Santa Cruz do Piauí quando ainda não era cidade. Era um vilarejo pertencente a Oeiras, PI. A medida em que ia precisando de graus mais altos de estudo, fui para cidades maiores para estudar. A maior foi Fortaleza. Em 1996, decidi me mudar para Brasília e lá comprei materiais de pintura e comecei a pintar. Assim, sem mais nem menos. Daí até a vinda para os Estados Unidos foi uma odisseia. Morei em Mato Grosso do Sul, Fortaleza, Recife e voltei para o Piauí. Ali, conheci o oficial do exército americano que se tornaria meu marido e esse foi o motivo de minha vinda para os Estados Unidos.

Nereide:  Até que ponto suas experiências pessoais influenciaram em sua obra artística?

Nasa: Minha arte é extremamente influenciada por minha vida. Meus interesses e preocupações, minha opinião, meus sentimentos mais profundos, como as mágoas e as alegrias. Mas houve uma fase em que praticamente todos os meus trabalhos mostravam o que estava se passando comigo e ao meu redor. Foi quando o casamento desandou e logo depois da separação, os trabalhos eram super abstratos, mas representavam a história claramente. 

Nereide: Como você escolhe o tema de seus quadros? 

Nasa: Os temas vêm naturalmente, quase sempre algo que representa uma preocupação com o que está acontecendo à minha volta, tanto no micro universo quanto no macro. Às vezes eu “farejo” uma coisa que está para acontecer, como quando pintei uma abelha. Fazia um tempo que uma amiga havia sugerido abelha como um de meus temas, mas a emoção não me empurrou por um tempo. Então, um dia visitando a família em Picos, PI, fiquei muito desconfiada porque não havia os mosquitos imensos de lá e não via abelhas. Picos é a capital brasileira do mel de abelha. Então, alguém me falou que as abelhas estavam evitando “trabalhar na área da cidade por causa das árvores NIM, trazidas da Índia há mais de uma década. Pesquisei e descobri que o pólen das flores de Nim tornavam a segunda geração de abelhas infértil. Fiquei pasma. Foi então que fiz o quadro da abelha. Na mesma semana apareceu a notícia no mundo todo anunciando as abelhas como ameaçadas de extinção. Às vezes faço quadros por encomenda. O cliente normalmente já tem um tema e o tamanho, mas me deixam livre para criar. Quando o tema é o retrato de alguém, aí fico menos livre, pois tenho que agradar o cliente. Por isso mesmo, não considero os retratos como uma forma pura de arte. Eu até que crio no fundo e as vezes por cima da pessoa, mas não posso mudar as feições, pois é um RETRATO. 

Nereide: Voce é especialista em retratos? Diga alguns nomes que você destacaria que você retratou. 

Nasa: Não me considero especialista em retratos. Eu sempre fiz retratos porque é meu ganha pão. Pintei Barack Obama, Ayrton Senna, Viviane Senna, Mick Jagger, John Glenn, Chico Bento, Ivana Trump, Senador Heraclito Fortes, a família do General Noriega, entre outros. Alguns me fizeram assinar non disclosure releases (acordo de confidencialidade). Graças a esses retratos, pude sempre ser livre na minha criação dos outros quadros, não aceitava comprometer meus princípios, mas isso não me fazia passar fome, pois já ganhava a maior parte do sustento com os retratos. As pessoas na América Latina gostam de ser eternizadas em uma obra de arte. Eu antes pensava que era por vaidade. Agora penso que o motivo principal pode ser um desejo muito profundo e inconsciente, para garantir a continuação da raça humana. Com o tempo, tenho visto muitas situações em que os descendentes de meus retratados dão graças pelo fato de tê-los consigo, de uma forma que só o artista pode possibilitar. Um dia eu estava em São Luís, MA e senti uma atração por uma revista que estava em cima de uma mesa de centro. Comecei a folhear e vi um retrato que eu pintei há mais de 20 anos em uma reportagem sobre a filha de minha cliente, já falecida. Pediram para a entrevistada escolher os bens mais preciosos que ela tinha em casa e um deles era o retrato da mãe. Fiquei emocionada. Quando alguém pede para pintar o retrato, conscientemente ou não, quer estar sempre presente na vida dos seus descendentes. 

Nereide: Como você se expressa durante o processo de retratar uma pessoa? Qual é a sua técnica? 

Nasa: A maior parte de meus retratos é a óleo sobre tela. Eu começo fazendo o rosto e depois vou para o cabelo. Essa parte é uma “fronteira” entre a preocupação com os detalhes e a expressão o mais parecida possível e o começo de minha liberdade de criação. No cabelo, já começo a “abstracionar” e a desobedecer ao padrão de “foto”. O resto do quadro é uma continuação abstrata da pessoa e do mundo dela, ou pelo menos é a minha visão. Tento escolher as cores obedecendo minhas emoções, mas sem perder as noções técnicas, tipo, cor para usar nas sombras o vermelho, o amarelo, evitar erros de composição etc. Desde o final do ano passado, estou também criando muitas obras digitalmente. Depois de mais de 15 anos treinando, agora consigo fazer alguns dos meus quadros usando o computador como ferramenta, sem apelar para filtros ou outros artifícios automáticos. Eu uso os pincéis e as cores como se estivesse pintando com um pincel de madeira e fibra com tinta em uma tela. Quando fica pronta, a imagem é transferida para uma tela de primeiríssima qualidade. O original e único. Somente uma tela e impressa (e vai com um certificado de autenticidade). As vezes o cliente manda fazer uma pequena série em outro tamanho e numerada, para usar no escritório ou dar de presente aos filhos ou aos pais. Os direitos autorais de qualquer uma de minhas obras de arte pertencem a mim e elas só podem ser reproduzidas com minha autorização. Quando uma pessoa compra uma obra de arte não está comprando os direitos autorais do artista, a não ser que façam um contrato e o preço de direitos autorais é diferente do preço da obra. Existem acordos para reprodução por um período para um projeto específico e há a compra integral dos direitos, o que é muito raro. Nem sempre a encomenda é um retrato. Já fiz abstratos e vários assuntos por encomenda. Os direitos autorais de obras que não são retratos são muito mais valiosos, pois não se pode prever se no futuro vai haver ou não muito interesse de usar essas imagens de diversas formas, até muito depois do artista morrer.

Nereide: Voce já fez seu autorretrato? Fale sobre esse tema.

Nasa: Sim. Umas 4 vezes e meia. Digo isso porque fiz um quadro bem livre, para o qual usei a mim mesma como modelo, olhando pelo espelho. Pertence a um colecionador de Recife. Um deles é muito dolorido. Eu o pintei olhando pelo espelho, quando tinha 25 anos. Estava em uma fase horrível. Cada vez que vejo esse quadro, eu noto mais símbolos nele. Tem um pássaro tentando atravessar minha cabeça, tentando levantar voo, mas a asa está ferida.. Os outros dois, eu pintei para ter um exemplo de retrato, pois as pessoas levavam os seus e eu ficava sem nada para mostrar. Depois de uns anos, o retrato ficava “defasado”, pois quem olhava para mim e para o retrato provavelmente pensava que eu havia me embelezado muito, pois no momento estava mais jovem. O quarto retrato, eu o fiz quando vivia em Arlington, Virginia, área de Washington DC. Na última mudança entre Arlington e a Florida, foi rasgado. Tom Di Salvo, um artista cujo trabalho eu admirava muito, um dia comprou esse retrato rasgado. Até chorei. Foi um dos maiores elogios que meu trabalho já recebeu. 

Nereide: Mande uma mensagem aos nossos leitores. 

Nasa: Aos leitores artistas, principalmente os jovens, eu aconselho que terminem um curso superior e tenha um emprego paralelo para garantir o pagamento das despesas de sobrevivência e, assim, ser sempre livre para criar uma arte pura, como vem de seu coração. Uma renda fixa, mesmo que pequena, serve para construir uma aposentadoria. Aos não artistas, agradeço de coração vocês terem lido até o final e se interessarem por minha arte e minha pessoa. Se puderem, repassem. Nos, artistas, precisamos de todos os empurrões que pudermos receber.

Mick Jagger

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