Saudades do futebol irradiado

Querido leitor: essa vai ser para matar as ditas cujas, ou então fará o reverso, irá aumentar a tua saudade. Nós, amantes do futebol, e alguns de nós tivemos a sorte de escutar muitas partidas irradiadas, temos lembranças imemoriais. Mas aqui, onde todos os esportes são televisionados, se pratica a narração “play-by-play,” sem a emoção do narrador. Existe no rádio o “coloured transmission” ou seja, o narrador que dá cores ao jogo. É uma espécie de narrativa com emoção, mas, sem ter ouvido partidas narradas por rádio, duvido que se equipare ao nosso futebol irradiado. O único esporte que conheço se transmite com emoção equiparável ao nosso futebol é o turfe. Quem não lembra a emoção do narrador, acompanhando o Secretariat, segurado pelo jóquei, guardando energia, até a curva final, quando o jóquei soltou as rédeas, e o Secretariat foi passando cavalo a cavalo, vindo da décima posição, até fazer a última ultrapassagem, e ganhar uma das corridas que fazem parte da copa do mundo do turfe, a Tríplice Coroa. Mas dá para explicar porque o narrador das corridas tem a emoção na descrição da corrida. Os estádios não comportam 20% dos presentes nas grandes corridas. Um dos recordes de assistência foi cerca de 130,000 presentes, todos apostadores, fãs de cavalos, jóqueis, enfim, turfistas, e a maioria absoluta não consegue ver a corrida, por estar de pé no mesmo nível da pista. Então ou ouve pelo autofalante ou pelo rádio. E a emoção do radialista é presente. Ele vibra. Usando a tradução da língua inglesa, ele colore a corrida.

Mas no Brasil entre nós poucos tinham televisão, e poucos menos ainda podiam ir aos estádios. Mas todos assistiam as grandes partidas pelos rádios. Ou pelos rádios de pilha ou pelos auto-falantes nas praças estratégicas das cidades. No meu tempo, o Gre-Nal era grande partida. Ou quando o Brasil jogava uma partida pela Copa do Mundo. Imagino que o Fla-Flu ou o Coríntians-Palmeiras ou Coríntians-São Paulo fossem maiores, visto que Porto Alegre era uma pequena cidade do interior em relação ao eixo Rio-São Paulo. Então tivemos a sorte de herdar o futebol dos ingleses, via Argentina, e daí desenvolver uma gíria futebolística sem igual. Eu falo apenas a gíria do sul. Imagino que o Nordeste tenha desenvolvido mais outras gírias.

Quem não lembra do narrador dizendo, já com emoção, que “o juiz confere o relógio e dá o apito inicial,” e então “rola a pelota.” E quando o Uruguai fez o gol no terceiro chute da partida, pegando nosso goleiro adiantado, desprevenido. A voz triste do narrador, falando “gol,” seguido de um silêncio mortal, e depois “goooollll,” numa voz chôcha, triste. Quem não lembra da emoção do narrador, nos descrevendo os “dribles sem bola” do Garrincha, indo e vindo, zanzando, o zagueiro inglês atrás dele, e a bola parada, intocada. O Garrincha fazendo o zagueiro de “João,” que era como o narradores apelidavam os zagueiros adversários enganados pelo Garrincha. Enxergávamos tudo como se estivémos no campo, em Estocolmo, em Santiago ou na cidade do México. Nossa Jules Rimet.

Mas não veremos mais a “folha-sêca” do Didi, depois que as bolas foram padronizadas, não é mais possível dar esse tipo de chute. Mas que herdamos o jogo dos ingleses, não há dúvidas, e os tiros de “córner,” o “drible,”, e o “charles” a são testemunhas disso. Mas se sobrou alguma dúvida do que escrevi, que o futebol veio da Inglaterra? Então pensem um pouco mais… Pensem na etimologia destas outras palavras: gol, goleiro, placár, falta, pênalti, bola, e até mesmo futebol, e poderia continuar na herança das palavras que nasceram imitando o som, mas tem outras tantas cuja etimologia vem da tradução literal, como: meio-de-campo, ou meio-campista, tiro-de-meta, guarda-meta, e por aí vai.   Mas o “drible da vaca, a costura, a janelinha, a caneta, o balãozinho ou chapéu, o pano, o paninho, o elástico, o chute de 3 dedos,” são gírias exclusivamente nossas. Adicionem aí a “bicicleta, a meia-bicicleta, a tabelinha, o cochilo, a gilete.” Imaginem como um narrador estrangeiro traduziria essa imensidão de jogadas, palavras que o narrador usa para descrever com uma única palavra, a jogada com a precisão exata.

Confesso que o racismo também existia na minha cidade. O Sport Club Internacional, um time popular, composto de negros, foi formado em contra-posição ao Grêmio Football Clube, ou o tricolor, e entrou nas competições chamado imediatamente de Colorado, que veio do colored, ou time de cor. Mais um exemplo de anglicismo. É claro que esse racismo foi sendo diluído com o passar do tempo, e à medida que a superioridade atlética dos negros foi se manifestando, mas que o racismo existiu, existiu. E fora dos esportes ainda prepondera na nossa sociedade.

E como co-adjuvante do narrador, vinha o comentarista, para dar um tempo para o narrador tomar uma água, e descansar um minuto, não, meio-minuto, ou quinze segundos, antes de retomar a narrativa. Mas o comentarista adicionava à narração, agregando precisão. Por exemplo, quando tinha um jogador flagrado em impedimento, “na banheira” ou “pescando,” o comentarista falava se esse impedimento era tão flagrante que o jogador tinha ido “pescar de caniço, anzol e carretilha,” ou seja, sem pressa, tendo ficado “na banheira” muito tempo. Ou descrevia a “catimba, a onda, la ola,” valorizando, matando tempo, “fazendo cêra.” E notava se o juiz iria descontar o tempo.

Antes do jogo começar, era o comentarista que notava que estava tudo pronto dentro das quatro linhas, eram 11 contra 11, titulares, reservas, quem era o juiz, os 2 bandeirinhas. Se os 8 gandulas estavam bem posicionados, enfim, tudo pronto para o show começar.

Se o juiz expulsava algum jogador, era o comentarista que explicava porque o sujeito tinha sido “mandado para o chuveiro,” e o narrador complementava com o “diga boa tarde (ou boa noite) ao senhor Lorenzetti*.”

A partida entre amigos também tinha suas gírias. Era a “pelada,” onde ocorria com frequência o “frango,” o gol que o goleiro toma por falta de habilidade, mas que qualquer outro impediria, e que os amigos narravam entre si fazendo o “cócoricó” para gozar o goleiro adversário, descrevendo o “galináceo, o frango-carijó,” entrando no gol adversário. E entre nós havia mais a “bola estourada,” já que entre os profissionais existe o cuidado mútuo para não se machucarem sem necessidade.

E entre as torcidas tinha também uma gíria própria. Se o juiz apitava algo aparentemente injusto contra o seu time, era automàticamente taxado de “ladrão, gatuno, puto, veado, filho-da-puta.”

E a gíria futebolística foi exportada para outras atividades. Por exemplo, numa partida de xadrês, num jogo de cartas, num debate entre dois, ou entre qualquer competição, onde um lado bate o outro com grande vantagem, dizemos que o vencedor “deu um banho-de-bola” no vencido naqueles embates.

Vou ficando por aqui. Espero que tenha ajudado vocês, queridos leitores, a matar um pouco de saudades, trazido boas lembranças, e que eu tenha “matado essa bola no peito, baixado ao terreno e chutado firme e balançado as redes” e não tenha chutado “por cima,” na trave, ou “balançado as redes pelo lado de fora.”

Um forte abraço e continuem torcendo pelos seus times, pois essa relação é de um valor inestimável, que levaremos até o fim. Em tempo: sim, confesso, eu sou tricolor doente.

(*) Naquele tempo os chuveiros elétricos eram quase todos da marca Lorenzetti. O drible charles é um dos mais bonitos e mais difíceis de fazer. Foi uma marca registrada de Charles Miller, o anglo-brasileiro ao qual é dada a honra de trazer o futebol ao Brasil. Em artigo concomitante a este, explico completamente a origem do futebol no Brasil. O drible charles depois reapelidado de chaleira, consiste em passar da bola na corrida, prender a bola com os dois pés, levantar a bola com o calcanhar de um dos pés, de modo que a bola passa por cima das costas e da cabeça do atacante, e por cima do defensor, que vai correndo em sentido oposto, pois pensa que o atacante deixou a bola para trás. O atacante mata no peito, controla e segue em frente com a bola controlada, já uns 5 metros na frente do defensor.

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